Notas iniciais
História escrita para o Halloween, mas não consegui postar, então vou aproveitar a sexta-feira 13! hahaha
Minha segunda tentativa de escrever terror, peguem leve (?)
Boa leitura!

Todas as luzes estavam apagadas, a porta da frente trancada. A única luz vinha da televisão em estática, a tela pontilhada em preto e branco executando um baixo chiado que preenchia o silêncio da casa. Os pais haviam saído para uma festa de Halloween, então Connoly estava sozinho.

Pela luz fraca vinda da TV de seu quarto, no qual estava escondido debaixo da mesa, podia ver no relógio as horas. Eram 3:30 da madrugada, aquela brincadeira já durava meia hora. O processo havia sido feito de modo cuidadoso: escolhera um bichinho de pelúcia, um coelho encardido de quando era mais novo e estava jogado no fundo do armário, que chamou carinhosamente de Abbey. Com certeza ele tinha um nome quando Connoly era criança, mas não queria dizer que ele se lembrava disso, não é? Com a faca mais afiada que encontrou na cozinha, o abriu e retirou todo o enchimento, substituindo-o por arroz junto a algumas gotas de sangue que deixara escorrer após perfurar de leve o dedo, apenas para derramá-las no interior do coelho antes de fechá-lo, costurando com uma linha vermelha e a enrolando no bicho.

Podia ouvir de onde estava a torneira do banheiro pingando na pia cheia, em um barulho monótono. Enlouquecedor. Seus olhos estavam bem abertos, todos os sentidos atentos ao menor ruído. Com uma das mãos, cobria a boca e o nariz, evitando assim fazer qualquer barulho, mas sendo inevitável o coração acelerar, parecendo prestes a sair pela boca. A outra apertava o moletom da calça, justamente na qual estava o band-aid de super-heróis da Marvel que usara para proteger o ferimento de faca.

“Vamos brincar de esconde-esconde. Abbey, vou ser o primeiro a procurar!”, foi o que repetiu três vezes às três da manhã, atirando o coelho na água e se retirando do cômodo. Só retornou após contar até dez. “Te encontrei, Abbey”, foi o que disse ao retornar, pegando o coelho e perfurando seu estômago diversas vezes, esfaqueando-o severamente, “agora é sua vez”.

Nisso, ele se escondeu. Era só uma brincadeira idiota, tinha certeza disso quando começara a jogar.

Só não contava que começaria a ouvir passos pela casa, a madeira rangendo. Crec, crec, crec.

“Connoly~”, a voz lhe chamava cantarolando, “vamos brincar!”

E então via um vulto humanoide na TV, que por pouco não o fez gritar.

“Onde está, Connoly? Saia daí!”

Os passos lentamente aproximaram-se da porta.

O seu coração batia tão forte que teve medo de que fosse audível. O suor frio escorria pelo pescoço, mas não se atrevia a tentar secá-lo. O único movimento que se atreveu a fazer foi preparar-se para pegar o copo de água com sal que havia preparado previamente. Estava até um pouco arrependido de não ter pego alguma garrafa de whisky do pai – queria saquê, mas não tinham em casa e era menor de idade para comprar, mas qualquer bebida alcoólica deveria ter o mesmo efeito – afinal, quanto mais, melhor.

Mas os passos passaram direto. Seguiram até o final do corredor e voltaram, repetindo o processo duas vezes antes de decidir descer as escadas. Connoly aguardou, os ouvidos atentos para conseguir decifrar em que cômodo se encontrava seja lá o que estivesse em sua casa. Como instruía o tutorial na internet, encheu a boca com o conteúdo do copo, ao menos com o que conseguiu. Levou o restante consigo quando abandonou o esconderijo, indo pé ante pé ao banheiro em que fizera a brincadeira. E nunca poderia imaginar que conhecer tão bem as partes do chão que rangiam o ajudaria em algo que não fosse pregar peças nas suas primas, jogando cobras de plástico em cima delas silenciosamente da escada.

Chegou são e salvo no banheiro. E quase engasgou quando percebeu que o coelho de pelúcia não estava lá. Arregalou os olhos e olhou em cada canto do cômodo, o desespero crescente em si. As instruções foram claras: o jogo não acabava até que encontrasse a pelúcia, cuspisse o conteúdo do copo na cara dela e declarasse que venceu e o jogo acabou.

Ou até que fosse encontrado.

Mas não queria imaginar essa opção: não só o coelho, mas também a faca sumira.

A voz continuava a chamá-lo no andar debaixo.

E começou a procurar igual louco. Após revirar o banheiro, correu ao quarto dos pais – o mais rápido e silencioso que conseguiu – e também não achou nada lá, nem no banheiro da suíte deixando um rastro de bagunça para trás. Em seu quarto era certeza de que não estaria, afinal ficou escondido lá o tempo todo, então naquele andar só restava uma porta: a do quarto da irmã menor. Parecia improvável, já que havia o trancado por segurança, mas pegou a chave e abriu a porta. E lá estava: bem no meio de vários outros bichos de pelúcia, estava seu coelho velho e encardido.

Ele correu para alcançar o coelho, cuspindo o conteúdo que tinha na boca na cara dele. Abriu a boca, pronto para dar o jogo por encerrado quando um cheiro distinto alcançou seus ouvidos e ele percebeu um gotejar bastante próximo, tornando impossível vir da pia do banheiro. Quando virou o rosto, não conseguiu sufocar um grito.

O sangue de sua irmã pingava, criando uma poça do lado da cama que crescia, manchando os bichos de pelúcia novos e bem cuidados dela. Sua garganta estava cortada e os olhos revirados nas órbitas.

Os passos agora estavam próximos de si.

Os olhos de Connoly encheram-se de lágrimas. Não havia percebido a aproximação. Tentou correr, mas seu tornozelo foi agarrado. Se debateu, tentando se agarrar a qualquer coisa que o impedisse de ser arrastado, derrubando o copo e espalhando seu conteúdo no processo.

“O jogo acabou, Abbey! O jogo acabou!”, gritou aos prantos, em uma última tentativa de se salvar.

“Não, Connoly. Você está errado. O jogo apenas começou.”

Notas finais
Eu não tentaria brincar disso em casa. Nem recomendo, aliás.
Mas... Reviews? :3
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!