Quem de nós dois...

6 Depois da tempestade


Do lado de fora da cafeteria, ouço a chuva cair, insistente, nos deixando aprisionados, nossos olhos se encontram sobre as xícaras, o líquido quente e viscoso preenche a minha boca. O que você está pensando? Talvez, no dia que nos reencontramos, no seu retorno, depois dos dias de separação. De como eu corri na sua direção e você largou as malas no chão e me abraçou e me beijou, com a força da saudade, uma típica cena de cinema, despertando a inveja dos que circulavam a nossa volta, que queriam sentir algo assim, que incendiasse as suas almas entorpecidas, mudasse as suas vidas monótonas. A mesma alma entorpecida que tenho agora, sentindo inveja daquela garota apaixonada do aeroporto, que foi receber o seu homem. Depois de você, nada foi igual. Ninguém foi igual.

Não consigo me lembrar, exatamente, quando começou o fim, talvez, tenha me esquecido dos detalhes tão dolorosos, para não sofrer, para sobreviver. Mas, nossas camas não eram mais de alvenaria, nossos quartos não era mais branco, nossos céus não tinham aquele azul ostensivo, não mergulhávamos no ancestral mar turquesa, não tínhamos todo o tempo do mundo. Nós nos tornamos meros mortais, as portas do paraíso se fecharam e o severo anjo da realidade, com sua espada flamejante, nos impedia de voltar.

Aos poucos, você se transformou em um homem sério, ocupado, preocupado, sem tempo para nada, sem tempo para mim.

“ Eu sou assim, essa é minha vida real. Por isso, que eu fujo para lá, para fugir de mim mesmo, para me libertar de quem eu sou.” Você me avisou, depois de mais uma briga.

Brigas e brigas que vão sublimando os bons momentos, a cama de alvenaria, os beijos loucos, os becos escuros, tudo vai ficando no passado, lembranças que esvanecem, enquanto nós nos apagamos, nos desgastamos. Até chegar o inevitável adeus. Inevitável? Hoje, diante de você, eu me pergunto se agimos certo, se não nos precipitamos.

Não quero me lembrar da dor da separação, das noites em claro, chorando, da sua ausência na minha vida e do tempo de eu levei para me acostumar. Me acostumar... Ninguém morre de saudade, foi o que você me disse.

“ Como vai a vida? ” Você me pergunta, sem saber o que falar, me trazendo de volta para o presente.

“ Normal. ” Normal até hoje, agora, depois que eu sair daqui, depois de ver você, eu não sei.

“Ainda no mesmo emprego? ”

“ Sim. E a sua, como vai? ”

“ Igual, muito trabalho, você sabe. ”

Sim, eu sei. Quero perguntar se você tem alguém, se voltou à Grécia depois de nós, se outra mulher ocupou a sua cama, a nossa cama lá.

O que falar agora? Desejo que a chuva não passe, como no dilúvio bíblico, que chova 40 dias e 40 noites para que possamos estar aqui, como em uma arca, nos embebedando de cappuccino e eu me embebedando de você.

“ É estranho, não sei o que falar. ” Cheia de coragem, confesso.

“ Fale qualquer coisa. Faça uma, duas perguntas, mas a resposta será não. “

“ Como pode me responder, se não conhece as perguntas? “

“ Quem disse que não conheço as perguntas? ” Você tem um sorriso na voz, eu o olho, intrigada. “ Não, eu não tenho ninguém. Não, eu nunca mais voltei para aquele lugar. ”

Não posso evitar o sorriso que se abriu no meu rosto. Minha xícara está vazia.

“ Quer mais um? “

“ Sim, obrigada. ”

Você faz um sinal para a atendente, pede mais um para mim. Como eu, você não tem pressa, o mundo gira a nossa volta e nós dois estamos ali parados, alheios a tudo. Não estamos mais em uma cafeteria do centro em um dia de chuva, mas sim, em uma cidade ensolarada da Grécia, com o mar azul a poucos passos. O nosso Paraiso perdido.

Outra xícara é depositada na minha frente pela atendente atarefada, tomo um gole sem vontade.

“ Por que você não voltou mais para lá? Você gostava tanto. ” Pergunto, demonstrando uma falsa casualidade.

“ Não dá mais. Nunca será igual. Aquele lugar está impregnado de você. ” Responde, olhando nos meus olhos, seguro a respiração, sem palavras.

Eu sei bem o que ele está falando. A minha vida ainda é impregnada por você. Por tantas vezes, eu me pego pensando em você. Em nós dois.

“ A chuva diminui. Daqui a pouco passa. ” É a minha resposta, mas, não, nunca vai passar.

Lá fora, a chuva parou, só restando o triste mundo sujo, molhado e úmido, é hora de ir. Você insiste em pagar a conta, eu aceito, não quero embates agora.

Saímos, juntos, paramos na porta, olhando em volta. É o momento do adeus.

“ Foi bom ver você. ” Minto, porque não foi. Foi como tirar a casca de uma ferida, ainda não cicatrizada, expondo a carne rosada esponjosa, que ainda doe.

“ Foi bom ver você, também. ”

Trocamos beijos no rosto, por alguns segundos, nossas peles se roçam, sua boca toca a minha face, sua mão na minha cintura. Mínimas lembranças do que foi.

“ Você está de carro? “ De súbito, você pergunta.

“ Não, vou pegar um táxi. ”

“ Eu estou de carro, posso lhe dar uma carona. ”

Hesito, pensando no risco, você espera por uma resposta, sorriu e sacudo a cabeça afirmativamente.

Alguns intrépidos raios de sol vencem o teto de nuvens escuras, já deixando entrever tímidas nesgas de céu azul. O ciclo se completa. Estamos de volta ao começo.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!