Notas iniciais
Conto curto, livre interpretação.

O cheiro de flores e putridão invadia — lhe os pulmões, o crepitar do fogo misturava-se ao bombardeamento de odores que o atordoava. A adrenalina percorria o sangue, o impedindo de aquietar-se em seu esconderijo. Galhos se quebravam no chão, denunciando a aproximação da criatura, acelerando seus batimentos. Uma gota escorria pela face, fazendo-o sentir o gosto da sujeira acumulada em seu rosto e do suor. Um calafrio percorreu sua espinha, a cortina de cipós a sua frente se abriu.

Fechou os olhos bruscamente, não sabia onde estava e como chegou ali, correu e escondeu-se ao ver que estavam lhe perseguindo. A curiosidade venceu a tensão e abriu os olhos, a visão da criatura inundou-lhe repentinamente de emoções. Surpresa, medo, admiração e raiva. O corpo a sua frente assemelhava-se às folhas secas da palmeira, curvado e esquelético, com os órgãos à janela das costelas implorando por liberdade. Coberto por plantas rasteiras e flores de todos os tipos, não sabia definir se homem ou mulher. O que o foi a face. A cabeça do humanoide era um entrelaçado de cipós finos, mas não tinha rosto, apenas flores e folhas sem forma alguma.

Se locomovia com o movimento das plantas que o formavam, vagarosamente se aproximou e estendeu o braço, criando um formato de mão a sua frente. Saiu do choque inicial e entrou em pânico, seu corpo e mente gritavam para se mexer, queria fugir, mas não havia como. Fechou os olhos novamente e entregou-se ao medo, sabendo que aquela seria a última vez que o fazia, para o bem ou para o mal. Deixou-se ser aderido à vegetação à sua volta e criou raízes, as quais impediam-o de movimentar. Sentiu o toque rígido da madeira em seu rosto, as farpas penetrando-lhe a pele, transformando-a. Não havia mais o que ser feito, criara suas próprias corrente que, ainda que soltas, o prendiam pelo pavor do desconhecido.