O aroma de café e tabaco inundava a casa de saudades e lhe causava uma nostalgia inevitável. Lembrou-se dos seus dias de glória, quando se enchia de personagens importantes da época e recepcionava bailes longos e inesquecíveis.

Todos os dias acordava lentamente a vislumbrar a aurora pela ala leste, aos poucos abria seus olhos de cetim e seus quatro corações despertavam, clamando por mais alguns minutos na cama. Os órgãos anexos estavam em pé *, preparando o banquete da manhã para saciar os rumores provenientes das entranhas da casa, começando a expelir o *gás carbônico* pelas portas e arejando os cômodos com as janelas abertas. Acordará por completo. Cada um de seus *órgãos* dispunha de uma rotina própria depois disso, matava a sede com um mergulho matinal na grande piscina do vasto quintal, fumava o charuto enquanto lia as notícias do dia enterior, se vestia de lírios, tulipas e rosas do jardim pela manhã e brincava com o cachorro enquanto aguardava o motorista para ir às aulas.

Ah, sim, saudades de sua infância querida, aurora de sua vida! E crescia rapidamente, os jornais da manhã se tornaram reuniões numa sala ampla, recém formada, as flores foram incrementadas por parreiras de uva ao redor do pescoço e costuras de cetim para o novo negócio, a piscina por grandes passeios na biblioteca em busca de incrementar o conhecimento e as brincadeiras com o cachorro por longas corridas pela vizinhança ao lado de seu antigo parceiro. Sua juventude foi celebrada com um grande baile de apresentação à sociedade, primeiro de vários daquele período.

Quando adulta, uma parte de suas entranhas fora doada para a construção de um recém nascido, e mais um charuto acrescentado na longa mesa de carvalho da sala de reuniões. Logo, na madrugada, seu organismo por vezes acordava-lhe implorando por alimento e limpeza. O cansaço fazia com que aqueles cinco minutos da manhã se tornassem uma hora e os jornais e jardins não tinham mais espaço naquela nova correria da rotina. Aqueles foram seus anos dourados, seu auge, trabalhava a todo vapor fazendo uma jornada de mais de dezesseis horas por dia.

Porém um dia, não havia acordado por completo. Um de seus corações havia partido sorrateiramente pela noite. Pela próxima semana seu interior se escureceu e nem os raios mais fortes do sol daquela época foram suficientes para arrancar-lhe um sorriso do rosto. Quando o frio atrasava a aurora, outra parte de si a abandonou.

Depois de duas temporadas de *, as reuniões tornaram-se escassas e o cetim, assim como o café, abandonavam as estruturas daquela casa. Os negócios estavam falindo e o mais recente membro do seu organismo adoeceu. E ao balar dos sinos da meia noite, a queda de sua imponência finalmente chegou.

Solitária e silenciosa, sendo visitada apenas pelo vento e pela poeira, suas vestes secaram e seu interior hibernou por vários anos. Até aquele momento.

O cheiro de tabaco e café lhe aquecia as entranhas, abriu-lhe os olhos e pode respiram as memórias escondidas no sótão. "É um belo lugar", diziam. "Com grande potencial de atração comercial, a galeria será cheia" "Precisamos apenas arrumar o jardim". E foi naquele dia que a morte bateu em sua porta, era chegado o seu momento de ceder espaço para uma nova vida. Imaginava aquele feto crescido, em seus momento de glória, sendo anfitrião de vários noivados, términos, nascimento e funerais. Estava pronta. E, sorrindo para o futuro, recebeu a pancada fatal da bola de demolição que ceifava lentamente suas memórias daquela terra.