Quem a esqueceu
1 A Passagem
Notas iniciais
O mundo estava escuro.
Allison não sabia nada além disso. Tudo vinha em flashes em sua mente, imagens desconexas. Seus olhos não se abriam apesar de todo o esforço que concentrava em suas pálpebras. Seus lábios pareciam secos demais para se mover. E uma dor dilacerante tomava conta de seu peito, de todo seu tórax, como se ela estivesse queimando de dentro para fora.
Não tinha certeza deonde estava. Por alguma motivo, tinha a sensação de que estava caindo, caindo, caindo... Devagar e serena, como se afundasse em uma piscina. Mas não havia água. Na verdade, não sabiase havia ar, também. Talvez não houvesse nada. Só ela a horrível sensação que lhe queimava o peito. E ela realmente pensou que essa era a verdade até ouvir a voz.
Veiocomo um baque, uma voz no fundo de tudo, soando vagarosa e preguiçosa. Não queria ouvir, no início. Estava tão longe, mais grave que o normal, e o próprio silêncio em volta de Allison a escondia. Mas era ao mesmo tempo tão familiar, e os instintos da garota a mandavam ouvir. "Fique atenta", ela disse a si mesma "escute".
— Allison!
Era o seu nome. O seu nome estava sendo chamado. Por quem? Suas memórias se desenrolaram, preguiçosamente, e ela esforçou-se para lembrar. Sentiu sono. E dor. Doía tanto... Talvez pudesse só ignorar a voz, talvez pudesse continuar lá, só mais cinco minutinhos...
Mas afinal, aonde era lá?
— Allison!
"Por que ela está insistindo tanto?" Sua cabeça começava a doer, e ela tentou entender o que acontecia mais uma vez, sentindo-se desistir aos poucos, sentindo seu cérebro preguiçosamente negar-lhe as respostas. "Só mais cinco minutinhos, mãe..."
"...Mãe?"
— Allison, por favor!
Ela estava falando alguma outra coisa. Palavras indescritíveis que vinham após o nome da filha. A morena queria escutar, agora, e se forçava a abrir os olhos. A mexer os lábios. A mexer um músculo que fosse. Mas cada parte de seu corpo parecia imóvel e dura como cimento, e era como se os ossos de seu corpo rangessem cada vez que tentava erguer o braço.
Tentou ao menos apurar a audição. Ouvir o que a mulher falava, ignorar o silêncio e a estranha barreira que parecia deixar a voz mais lenta e mais baixa, quase um sussurro preguiçoso. Mas a urgência ainda era ouvida, e ela sabia que precisava escutar, precisava entender.
— Allison, abra os olhos! Mova um dedo! Qualquer coisa!
Qualquer coisa. Deveria ser tão fácil. Tinha que conseguir. Só precisava se mover, piscar, mexer um dedo... Por que não conseguia? Tentou acelerar seu pensamento, punindo-se por estar sendo tão lamentavelmente inútil naquele momento. Qualquer movimento. Poderia ao menos mexer o peito, respirar.
E só naquele momento percebeu que não respirava. A sensação atingiu-lhe como a dor em seu peito, deixando-a mais aflita do que achou que podia ficar. Tentava compreender o que acontecia a sua volta, e por que não estava respirando? Seu cérebro não acompanhava suas emoções, e ela imaginou se estaria com o coração disparado. Mas não estava. Porque ele não batia.
— Eu sinto muito, Victoria...
Outra voz. De quem era? A reconhecia, mas de quem era? Allison sentiu cada parte de seu corpo tensionar-se, a dor de cabeça chegando ao ponto de fazê-la querer gritar. Mas não conseguia. Não conseguia, porque nada em seu corpo se movia, e só o que conseguia entender é que tudo doía tanto, e seu peito parecia ter sido partido ao meio...
— Ela precisa acordar... Por favor, Allison...
"Estou tentando, mãe." Sua garganta doeu somente ao tentar fazer um som.
— Victoria. Deixe-a. Não devemos incomodar os mortos, você sabe disso.
Mortos? Não, não não... A garota queria discutir. Queria gritar que não estava morta. Queria bater na mulher que tirava as esperanças de sua mãe, porque ela estava viva! Ela tinha que estar. Se as estava ouvindo, tinha que estar.
— Ah, Allison...
— Sinto muito, Victoria.
— Eu também.
"Não! Eu estou viva! Mãe!" Sua garganta doeu outra vez. Queria gritar, mexer um dedo, respirar somente um pouco fazer seu coração bater... A vontade queimou em seu peito com uma intensidade que desconhecia, a dor dilacerando-a de dentro para fora, a cabeça sendo pressionada como se alguém tivesse lhe dado um tiro.
— Allison?! Taylor, você viu isso?
— Victoria, não aconteceu nada...
Tudo doía, cada parte de seu corpo dizendo que seria melhor desistir. Seria melhor deixar para lá. Seria melhor relaxar os músculos, parar de tentar abrir os olhos, e então a enxaqueca iria embora. E então seus ossos não iam mais dar a sensação de que quebrariam. Mas não podia.
Não podia porque tinha ouvido a voz de sua mãe, e se ela estivesse certa, se tivesse conseguido se mover, mesmo que só um pouco... Significava que não estava morta. Significava que poderia respirar novamente, e sentir o coração bater, e ao menos se lembrar do que acontecera para deixar-lhe daquele jeito. E para isso, precisaria viver. E a vida não viria sem esforço, Allison percebera.
— Olhe! Ali está! Seu dedo.
Sentiu seu dedo formigar, e de repente, ele estava frio, quase congelando, se opondo ao calor em seu tórax. Tão frio. Queria aquecê-lo de novo, mas se o estava movendo, entãoalguma coisa estava dando certo. Concentrou cada pedaço de suas forças, sentindo o nada agarrando-a, impedindo-a de se mexer, asfixiando-a e empurrando-a para longe, cada vez mais longe...
— Ah... — sua própria voz soou fraca, rouca pelo desuso.
Sua garganta congelou, assim como seu dedo, invadida por um frio, trazendo junto consigo uma lufada de ar que parecia prestes a sufocá-la. Precisava levá-lo ao pulmão, mas como o fazia? De repente, era como se tivesse se esquecido de como respirar. Expulsou o ar, deixando que ele saísse sem ter nunca realmente entrado em seu corpo.
Seus órgãos internos ainda queimavam, o peito precisando de ar. Queria o frio, o frio que invadira sua garganta, queria-o dentro de si. Precisava dele...
— Taylor! Ela está viva! Chame Nadia. Rápido.
Então realmente estava viva. Realmente estava conseguindo fazer algo. Mas não conseguira acabar com a dor dilacerante, e não conseguira sair daquele lugar longe de tudo, daquele estado no qual se encontrava, onde cada pedaço de si queimava e seu coração não parecia bater.
— Mã... — tentou começar, mas sua garganta doeu e seu pulmão não pode suprir o ar precisopara continuar a frase. Sentiu uma necessidade massacrante de inspirar.
— Allison, Allison, meu amor, acalme-se. Não fale. Mas não se deixe levar, fique aqui, fique comigo, por favor.
Vou ficar, ela quis dizer, mas sabia que tinha que fazer o que a mãe dissera. Aprendera a cumprir as regras. E era tão difícil manter-se lá e não ser levada para longe, pelo nada sufocante, aquele pequeno esforço já pegava tanto de si que resolveu que seria melhor não tentar nada mais.
— Nadia! Nadia ela está acordada, mas o coração...
— É normal — uma outra voz surgiu, alta e aguda, alcançando a mente de Allison de um jeito que as outras não alcançavam, fazendo seu cérebro queimar como se fosse derreter, soando de todos os lados, mais alta que qualquer coisa. — Com licença, Victoria.
Sentiu uma mão em seu braço, e um choque percorrer-lhe toda a região. Seu corpo tremeu, um espasmo que fez com que a dor no peito se agravasse e o formigamento alcançasse seu ombro, o frio invadindo boa parte do lado direito do corpo.
— Ela vai viver. Victoria — a enxaqueca tornou-se cada vez mais aguda conforme a mulher (Nadia?) falava. A voz retumbava nas orelhas da menina, ensurdecedora, clara como água. — preciso que saía daqui, agora, e deixe que eu faça meu trabalho. Taylor, fique.
Allison sabia que a mãe faria aquilo, por mais que quisesse pedir que não fizesse. Estava morrendo — ou o contrário daquilo? — e não tinha forças para aguentar-se daquele jeito por muito tempo. Tudo em seu corpo, em seu raciocínio lento, dizia que ela sucumbiriaem poucos minutos. Era só aquilo que ela poderia concluir da situação.
— Allison. Allison, fique comigo — a voz aguda ecoou outra vez. Allison quis gritar. — Por sua mãe, fique comigo, e eu vou te trazer de volta.
Podia aguentar por mais alguns minutos, cinco, talvez. "Vou aguentar por mais dez", disse a si mesma, quase que para o seu corpo, tentando convencê-lo, "vou aguentar por mais dez e vou ver minha mãe de novo".
Nunca tinha ouvido a mãe soar tão desesperada, tão triste, daquele jeito. A vira brava tantas vezes, mas a melancolia acertara em cheio o coração da filha, que agarrava-se às memórias que tinha da mulher, as únicas que conseguia organizar em sua cabeça, enquanto as outras não queriam se mostrar.
— Taylor, segure-a.
Sentiu duas mãos, uma em cada lado de seu corpo. Diferente do toque anterior, o toque de Nadia, as mãos de Taylor pareciam segurar-lhe sobre uma película que a separava do mundo, a mesma que a deixava longe de todo o resto, das vozes, das memórias, do ar. Mesmo assim, uma aflição percorreu-lhe a espinha. Aquela estranha estava lá, impedindo que ela se mexesse... A pergunta ecoou em sua cabeça, a confusão deixando-a cada vez mais aflita."Por que?"
— Não vai ser muito bonito. Se quiser olhar para o lado...
— Não sou mais uma garotinha, Nadia.
As falas deixaram Allison alarmada. Não vai ser bonito? Era o tipo de coisa que se dizia antes de matar alguém, não antes de... Qual era a palavra? Buscou seu cérebro, tentando se lembrar do que acontecia com ela. Não conseguia pensar em nada que descrevesse. Mas havia algo. Ressus... Ressusci...
— É sim.
E então, sentiu algo em seu pescoço, uma dor aguda, um frio congelante, e o escuro foi substituído por cores. Todas as cores. O azul do mar, e o verde da grama, e o amarelo do sol, e o rosa das flores, e o laranja do amanhecer, e o vermelho... Vermelho de sangue, espirrado por todos os lados.
E todas as cores foram sobrepostas pelo vermelho, pelo sangue jorrando, gotas chovendo do nada e cegando Allison, cegando-a por completo. O cheiro veio depois. Um cheiro depois do outro, o de um corpo morto, invadindo seu nariz, e então um perfume caro cobrindo o primeiro. E por último, o cheiro de sangue.
E era só o que via, só o que sentia. Até mesmo sua audição, focada no som do sangue correndo em suas veias, correndo nasveias dos outros, só o que ouvia era o sangue correndo como um rio, de novo e de novo. Mas faltava algo, e sua garganta queimou. O quinto sentido, que não sentia ainda, o paladar. E estava lá, ardendo em sua garganta e gritando em seu peito, impossível de se ignorar, a sede de sangue.
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