Quem Tem Medo do Bicho Papão?
6 Blecaute
CASA DE EUNICE: COZINHA
Eunice abre o armário da cozinha, e pega um pacote de arroz. Logo após ela fechar a porta do armário, todas as luzes da casa se apagam, o que é seguido por um estrondoso trovão.
QUARTO DE SARAH
A luz do abajur de Sarah se apaga pouco antes do som do trovão encher seu quarto.
SARAH
- Um blecaute. Tudo o que eu precisava pra me sentir melhor (diz com voz triste).
Ela se vira na cama. Atrás dela, a porta do armário se abre silenciosamente. Um relâmpago ilumina o quarto, revelando uma figura encapuzada dentro do armário.
COZINHA
Angela entra na cozinha andando devagar, com os braços esticados a frente.
ANGELA
- Mãe, cadê você? (Diz com medo na voz)
Eunice vê o vulto da filha pequena, e vai até ela, pegando a sua mão.
EUNICE
- Estou aqui querida. Tá tudo bem.
Um relâmpago ilumina a cozinha.
ANGELA
- Eu tô com medo, mãe.
EUNICE
- Tá tudo bem, filha. Só faltou luz.
ANGELA
- Não tá não! (Diz a menina assustada)
QUARTO DE SARAH
A adolescente esta deitada com os olhos fechados. Um trovão é ouvido ao longe. É então que ela escuta uma voz sussurrar seu nome.
VOZ
- Sarah.
Sarah abre os olhos assustada, e se vira para o armário. Um novo relâmpago ilumina o quarto. O armário está vazio. A jovem pode jurar que ouviu uma voz chamar seu nome. E era a voz de Mike.
SALA DE ESTAR
Eunice entra na sala trazendo Angela pela mão. Na outra mão, a mulher carrega uma vela acessa. Neste momento, a porta da frente se escancara, deixando uma lufada de vento entrar e apagar a chama da vela. Eunice consegue reconhecer a irmã, que esta ofegante e ensopada.
EUNICE
- Rita! Onde você estava? Por que...
RITA
- Eunice, nós temos que sair daqui. Cadê a Sarah?
QUARTO DE SARAH
Sarah volta a ouvir seu nome sendo sussurrado na escuridão do armário. A jovem, trêmula, levanta-se da cama, olhando apreensiva para o armário.
VOZ
- Sarah. Venha comigo.
Com certeza era a voz de Mike. Com os pés descalços, a jovem dá um passo em direção ao armário.
SALA DE ESTAR
Eunice e Angela olham assustadas para Rita.
EUNICE
- Rita, se acalma. Me diz o que aconteceu.
RITA
- Não há tempo pra isso. Cadê a Sarah? (repete ela)
EUNICE
- No quarto dela, mas...
RITA
- Eu vou buscá-la. Vocês duas vão pro carro! (grita ela correndo em direção à escada).
QUARTO DE SARAH
Sarah esta parada diante do armário, fitando-o com olhos espantados. A voz insiste.
VOZ
- Por favor, Sarah. Me ajude.
A jovem recua, levando as mãos a cabeça, enquanto seus olhos se enchem de lagrimas. Atrás dela, a coberta da cama se ergue sozinha, assumindo a forma de um manto com capuz.
SARAH
- Me deixe em paz (diz em voz baixa e suplicante, ainda olhando para o armário).
Nesse momento, Rita chama pela sobrinha. Sarah se vira, e ao ver a estranha forma que sua coberta tomou, grita de pavor. A coberta se joga sobre Sarah, envolvendo seu corpo. Rita chega à porta do quarto, e vê o exato momento em que a coberta viva se lança sobre a adolescente. Rita se joga para dentro do quarto, pouco antes da porta bater sozinha.
CORREDOR
No corredor, Eunice vê quando a irmã se joga dentro do quarto, e a porta fecha. Ela corre até o quarto, levando Angela pela mão. Tenta abrir a porta, mas ela parece trancada
QUARTO
Sarah cambaleava de um lado para o outro, tentando se livrar da coberta viva, mas aquilo se enrolou no seu corpo como se fosse uma teia. Rita corre em direção à sobrinha, e tenta ajudá-la. Sarah sente a coberta envolver seu corpo com ainda mais força.
SARAH
- Me ajuda, tia! (grita em desespero)
RITA
- Fica calma! Eu vou tirar você daí.
Rita tenta alcançar a sobrinha, e puxá-la para fora, mas a coberta não lhe dá abertura. Subitamente, Sarah sente a coberta apertar seu corpo com uma força inacreditável, forçando uma espécie de casulo, que a deixa totalmente imobilizada. A adolescente cai no chão, derrubando Rita junto com ela. As duas caem sobre a mesa do computador, derrubando a maquina no chão.
CORREDOR
Eunice ouve os gritos vindos de dentro do quarto. Angela, muito assustada, recua contra a parede. Eunice bate com força na porta, gritando.
EUNICE
- O que esta acontecendo ai dentro?! Sarah! Rita! Abram a porta!
QUARTO
Sarah tenta se soltar da coberta, mas ela a aperta com tanta força que ela não consegue mover um músculo. O casulo em que a coberta se transformou, começa a arrastar Sarah em direção ao armário. A jovem grita em desespero, mas no momento em que iria passar pelo portal, Rita empurra a mesa do computador contra a porta do armário, fechando-o e bloqueando-o
RITA
- Fica calma, querida. Eu vou tirar a gente dessa.
Uma força começa a bater contra a porta do armário, tentando empurrá-la. Rita empurra a mesa contra a porta, firmando os pés no chão, Ela ouve a voz da irmã do lado de fora.
EUNICE
- Rita, o que esta acontecendo ai dentro?!
Rita quer gritar de volta para a irmã, mas sabe que seria inútil. Neste momento, parte da coberta sobe para a cabeça de Sarah, a envolvendo. A jovem sente o tecido tapar suas vias respiratórias, sufocando-a. Rita vê Sarah começar a se debater. Uma nova batida sacode a porta do armário, embora a mesa não se mexa, devido ao esforço de Rita. A tia de Sarah olha desesperadamente em volta, a procura de algo que possa usar para libertar a sobrinha.
Em cima da cômoda da jovem, ela vê uma tesoura. Rita sabe que se parar de pressionar a mesa contra a porta do armário, o Bicho Papão não vai levar muito tempo para entrar no quarto. Mas ela tambem sabe que não tem escolha.
Rita para de empurrar a mesa, e corre até a cômoda, onde pega a tesoura. Ela vai até o rolo em que a sobrinha se transformou, e a agarra.
RITA
- Tenta não se mexer, Sarah! Por Favor!
Rita começa a rasgar o tecido da concha com a tesoura, ao mesmo tempo em que ouve uma nova batida no armário. Sarah esta em pânico. Rita tenta não ferir a sobrinha, o que e muito difícil, pois alem de ela não parar de se debater, o tecido da coberta tenta aderir à pele da garota.
Rita consegue abrir um rasgo considerável na coberta. Ela enfia a mão nesta abertura, e rasga o tecido, deixando livre o rosto de Sarah, que respira fundo em busca de ar. Há um corte na testa da garota, resultante de um raspão da tesoura. A coberta parece não reagir mais, embora ainda se mantenha rígida. Rita termina de rasgar a coberta, libertando a sobrinha.
Ainda no chão, Sarah abraça a tia, com lagrimas escorrendo pelo rosto. Mas então vê algo que a faz gritar
SARAH
- Tia!
Rita olha para trás, e vê as garras da criatura saindo pela porta entreaberta do armário. Ela imediatamente se levanta, e volta a empurrar a mesa do computador contra a porta do armário. A porta empurra a mesa de volta, enquanto parte dos braços do monstro passam pela porta entreaberta. Rita empurra com o maximo de força que consegue, mas não parece o bastante. Neste momento, Sarah se junta à tia, e começa a empurrar a mesa. A porta se fecha sobre os braços do Bicho Papão, apertando seus membros.
RITA
- Continue empurrando!
As duas continuam empurrando com toda a força que podem. Os braços da criatura então se transformam em fumaça, e a porta se fecha com um baque. A tia e a sobrinha sentam-se exaustas no chão, ainda escoradas na mesa. De repente, ouve-se um grande barulho. Eunice entra no quarto, esfregando o braço após arrombar a porta. Angela espia apreensiva da entrada do quarto.
EUNICE
- Eu exijo saber o que esta acontecendo aqui!
Rita se levanta, e em seguida ajuda a sobrinha a se levantar.
SARAH
- Mãe, a minha coberta... Ela... Ela tentou me matar. E tinha um monstro dentro do armário que...
EUNICE
- Espere ai, coberta, monstro no armário? Do que você tá falando?
RITA
- Eu explico no caminho. Agora temos que sair daqui.
Rita puxa Sarah pelo braço, e passa pela irmã. Eunice pega Ângela pela mão, indo atrás de Rita no corredor.
EUNICE
- Rita, já disse que exijo uma explicação!
RITA
- Eunice, por favor, confie em mim.
Eunice para no corredor, ainda trazendo Angela pela mão.
EUNICE
- Não vou a lugar nenhum até me dizer o que esta havendo!
Rita se vira para a irmã
RITA
- Você e as garotas estão...
Antes que possa completar a frase, Rita sente um medo avassalador tomar conta de seu ser, e vê algo que a horroriza. De dentro do seu quarto, atrás de Eunice, surge o Bicho Papão. Antes que Rita possa alertar a irmã, Sarah dá um grito.
SARAH
- Atrás de você, mãe!
Eunice se vira, e vê com espanto um ser encapuzado avançar em sua direção. O instinto materno fala mais alto, e ela empurra Angela na direção de Rita, ficando entre o monstro e sua família. Ângela dá um grito agudo quando o Bicho Papão agarra sua mãe pelos ombros, e a bate com força contra a parede. Sentindo nojo de si mesma, Rita pega as sobrinhas em choque pelas mãos, e as puxa para longe da criatura, deixando a irmã para trás.
RITA
- Vamos garotas, temos que ir!
A única coisa que Angela consegue sentir é medo. Sarah quer correr e ajudar a mãe, mas o medo quase sobrenatural que esta sentindo a força a descer as escadas junto com a tia e a irmã. O corredor é iluminado por um novo relâmpago seguido de trovão, e Eunice um pouco grogue, devido à pancada, consegue ver o rosto pustulento e pulsante de seu atacante.
EUNICE
- Você não pode ser real (diz com a voz fraca).
A criatura aproxima o rosto de Eunice, e sussurra em seu ouvido.
BICHO PAPÃO
- Vamos ver se vai pensar assim depois de eu eviscerar suas garotinhas.
Uma expressão de horror se forma no rosto de Eunice. O Bicho Papão sorri, e a atira no fundo do corredor, fazendo-a atingir um espelho em cheio. A mulher cai no chão, desacordada.
No andar de baixo, Rita corre com as sobrinhas em direção a porta da frente. Mas quando esta prestes a abrir a porta, vê o vulto encapuzado da criatura através do vitral. Rita e a sobrinha correm para longe da porta momentos antes de ela ser escancarada, deixando a chuva e o Bicho Papão adentrar na casa. A tia conduz as sobrinhas até a cozinha, e vai até a porta, mas ao tentar abri-la, descobre que ela esta de alguma forma trancada.
RITA
- Droga! Mas Que droga! (Diz dando uma batida na porta).
Rita tenta abrir a janela, mas esta tambem se encontra trancada. Ela pega um vaso de plantas que se encontra embaixo da janela, e o atira com toda força contra o vidro. O vaso se espatifa totalmente, mas nem uma rachadura é feita no vidro.
RITA
- Mas O que?(Diz confusa)
Nesse instante, Rita sente-se atingida por uma nova onda de medo sobrenatural. Ela vira-se, e vê o Bicho Papão parado na entrada da cozinha.
BICHO PAPÃO
- Vocês não vão à parte alguma.
Sarah puxa a irmã para trás de si. Rita começa a ouvir um ensurdecedor choro de bebê, não de um, mas de três. Ela leva as mãos aos ouvidos, caindo de joelho. Sarah olha assustada para a tia.
SARAH
- O que você fez com ela, seu monstro? (Pergunta Sarah sentindo o abraço da irmã se intensificar)
BICHO PAPÃO
- Não se preocupe com ela, mocinha. Se preocupe com você.
O Bicho Papão começa a andar em direção as garotas. O choro dos bebês enche a cabeça de Rita. Mas então, ao olhar para a sobrinha, ela percebe que é a única a estar ouvindo o choro. A criatura empurra a mesa para o lado para liberar o caminho até as meninas encurraladas. Rita se levanta, e puxando uma das facas do faqueiro, se põe entre o Bicho Papão e as filhas de Eunice, apontando a faca para o monstro.
BICHO PAPÃO
- O que acha que esta fazendo, Rita?(pergunta tranquilamente)
RITA
- Eu entendi (Diz Ofegante). Eu finalmente entendi. Eu sei por que ainda não me matou. Sei por que escuto este maldito choro! (Diz batendo na cabeça).
BICHO PAPÃO
- Do que esta falando?
RITA
- Acho que você sabe (diz se aproximando). O choro dos bebês me dá medo, me faz lembrar o que eu perdi. (ela abaixa a faca) Então lembrei que todo este pesadelo começou quando fiquei sabendo que Lester sumiu, quando comecei a considerar a hipótese de você existir.
BICHO PAPÃO
- Como você pode ver, eu existo.
RITA
- Não. Você é medo. Você só existe por que acreditei que você existia. Mas você é só um parasita que se alimenta do medo alheio. Você não é nada.
BICHO PAPÃO
- Eu não sou nada?(Diz com raiva) Vamos ver se não sou nada!
O Bicho Papão faz um movimento com sua garra, e uma força invisível arranca Angela dos braços de Sarah. Rita tenta interceptar a menina, mas ela vai parar nas mãos do monstro, que segura à criança pelos ombros, e a vira para Rita. Sarah avança, mas Rita a detêm com o braço
ANGELA
- Tia! (Suplica a menina)
BICHO PAPÃO
- Vamos ver se ainda vai achar que eu não existo, depois que o sangue dela estiver em suas mãos!
Rita olha do monstro para a sobrinha, e então declara
RITA
- Não vai machucá-la (diz tentando manter a voz firme).
BICHO PAPÃO
- Veremos
SARAH
- Não tenha medo, mana! Lembra da oração.
Rita pisca para Angela, que fecha os olhos. O monstro leva suas garras ao pescoço de Angela.
BICHO PAPÃO
- Veja o quão real é o sangue dela, mulher!
O monstro faz o movimento para cortar a garganta da menina, mas sua garra simplesmente atravessa o pescoço da menina sem causar dano algum, tal como um fantasma. A criatura olha para a menina, com raiva no olhar, e percebe que ela esta de olhos fechados, orando baixinho.
BICHO PAPÃO
- Ora, sua fedelha maldita!
A criatura ergue sua garra para tentar um novo golpe contra a pequena Angela. Aproveitando a distração do monstro, Rita se joga sobre ele, e o agarrando pelo manto, começa a esfaquear seu peito.
RITA
- Tira ela daqui! (Grita para Sarah)
Sarah corre para a irmã, e a agarrando no colo, corre para fora da cozinha. Rita continua a esfaquear o Bicho Papão. O monstro agarra o pulso dela, impedindo uma nova facada. Dos armários da cozinha, pratos e panelas começam a cair para fora, enquanto as portas dos armários ficam batendo.
RITA
- Deixei que você causasse sofrimento demais, mas acabou!
BICHO PAPÃO
- Não Rita, eu ainda não acabei com você!
Rita percebe que a mesma gosma que encontrou embaixo da cama de Angela começa a escorrer do rosto da criatura. Atrás de Rita, a porta da dispensa se abre, como a boca negra de um monstro. O bicho Papão dá um grito de raiva, e começa a flutuar, ainda segurando Rita pelos pulsos. Ele voa a toda velocidade para dentro da dispensa, carregando a mulher. A porta da dispensa bate logo atrás deles, se abrindo logo em seguida. Repentinamente, a luz volta, iluminando a cozinha . Mas não se vê ninguém na dispensa.
Notas finais
Em breve, o capitulo final.
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