Quem Nós Somos?

27 K - Você não vai se arrepender?


"(...) Você é tão insuportável, insuportavelmente imprevisível
Incrivelmente incrível
Improvável, impossível, inevitavelmente indefinível
Incontrolavelmente irresistível"

Projota feat Anitta — Faz parte sentir saudade

Por Kile Woodwork

O lugar não era ruim...

Não, a quem eu estou tentanto enganar? O lugar era péssimo. Desde que entramos no pequeno quarto, com uma pequena janela e um pequeno banheiro — e quando digo pequeno estou dizendo que é quase minúsculo — Eadlyn parecia emburrada. Eu estaria muito bem acomodado, se não fosse o fato do ambiente ser um pouco sujo e eu ter visto pó até no chão.

—Será que estes lençois estão limpos? — Eadlyn me pergunta, enquanto estava parada com as mãos na cintura, fitando uma das duas camas de solteiro que estavam ali.

Seu cenho está franzido.

—Eu estou preocupado com isso também, mas vou fingir que estou em um castelo e dormir, porque senão irei desmaiar de sono no chão em poucos minutos. Se é pra escolher entre os ácaros do colchão ou do piso, prefiro o da cama.

A menina choramingou enquanto colocava a língua pra fora e estendia um cobertor por cima do lençol e deitava-se cautelosamente em cima.

—Se tiver baratas vou te fazer engolir uma por uma.

Me jogo na minha cama, inclinando minha cabeça em direção a ela, incapaz de esconder um sorriso que apareceu no meu rosto.

—Adorável, como sempre, cherie.

Eadlyn bufa e cruza os braços sobre o peito enquanto fita o telhado meio escuro por algum motivo desconhecido por mim.

—Não dava pra ser em um lugarzinho melhor? — Ela reclama ao projetar um biquinho para a frente.

Eu ri.

—Podemos ver isso depois de acordarmos? Sério, estou morrendo de sono.

Ealdyn suspira.

—Tudo bem...

—Boa noite.

Eu acordei primeiro que a Schreave, e quando ela finalmente despertou, eu já estava de banho tomado e vestido para uma exploração divertida da cidade francesa. Eadlyn ainda parecia pouco motivada; levantou-se quase se arrastando, os cabelos desgrenhados, e quando voltou do banheiro seu rosto estava sem nenhuma maquiagem, e eu pude ver que ela tinha várias pintinhas no rosto, na ponte de seu nariz que se espalhavam até certa parte das bochechas. Arrumou seu cabelo em um coque super alto e está com uma camiseta vermelha, justa, mas sem decote, calça jeans e uma sapatilha.

—Encantadora — eu digo, quando ela pegou sua mochila e a colocou em um dos ombros.

—Você também está adequado... mas seus cabelos... precisam de um corte — fala, sua testa franzindo-se em seguida.

—E por que você não me ajuda a arrumar? — Pergunto ao abrir um sorrisinho maroto.

Ela não diz nada enquanto se aproxima de mim e forçava meus cabelos para trás, usando os dedos como pentes. Seus olhos de repente pararam nos meus, e ficamos um tempo nos olhando, nenhuma palavra precisava ser dita, mas eu sentia que algo estava diferente entre nós dois. E então ela suspira, abrindo um sorriso vago e desviando o olhar para baixo antes de se afastar.

—Vai conquistar muitas francesas agora — fala ao virar de costas e pegar sua mala com rodinhas.

—Não vai ficar com ciúmes? — Pergunto para provocá-la, enquanto descíamos as escadas precárias da pousada;

—Muito ciúmes — responde com uma nada discreta revirada de olhos.

Eadlyn parecia com certa dificuldade em levar a mala, então me ofereço para pegá-la, mas a garota nega, diz que não há necessidade, mesmo assim tiro suas mãos da alça e começo a carregar eu mesmo.

Quando fiz isso, ela mostrou o dedo do meio pra mim e eu faço cara de tédio e vou acertar nossa conta com o cara do balcão. Ele era gordo, com uma barba rala e careca, seus olhos são esverdeados e assim que me viu, abriu um sorriso pra mim. Abro a carteira para sacar o dinheiro enquanto o homem dizia algo a Eadlyn, parecendo entusiasmado com seja lá o quê que estivesse querendo dizer. Largo as notas em cima do balcão, e olho para Eadlyn com a expressão curiosa. Ela parecia concentrada no que o cara falava, e volta e meia balançava a cabeça em concordância.

Eu não sei o que ele disse, mas ao fim da frase, ficou claro que era uma pergunta.

Eadlyn e eu trocamos olhares, e então ela responde com um sorriso bonito:

—Oh, ui, ui— e aí acena para ele de forma entusiasmada enquanto pega minha mão e me puxa para fora da pousada. Quando saímos para fora, percebo que estamos no início da tarde recém, dado pelo o sol quente que despontava no alto.

Assim que pusemos os pés para a rua, a garota me soltou e eu abri um sorriso de lado, antes de pegar sua mão de volta. Olhei para o seu rosto, esperando alguma reação, mas ela fingiu que nada estava acontecendo — mesmo que não tenha me largado -, e achei até que diveritida essa sua atitude.

—Mas então, você entendeu o que o tio da pousada estava te perguntando? — Quero saber, enquanto sentávamos em uma mesa ao lado de fora de um barzinho bastante charmoso.

Eadlyn deu de ombros.

—Nenhuma palavra sequer — responde, e aí ela soltou uma risada.

—Mas você respondeu — abro aspas no ar — "oh, sim, sim" — pontuo, a observando enquanto dava uma mordida em um sanduíche de atum.

—Pra não deixar ele no vácuo — responde com uma expressão travessa no rosto. — Mas não deve ter sido nada demais.

Agora foi a minha vez de dar risada.

—Será? O homem tinha uma cara de pedófilo — digo.

Eadlyn encolhe um dos ombros.

—Não vamos mais voltar mesmo.

—E se ele seguir a gente?

Agora ela me fita extremamente séria, enquanto que eu não conseguia parar de sorrir.

—Para com isso, Woodwork.

—Não precisa ficar com medo, vou proteger você — respondo antes de colocar minha xícara com café na boca e dar um gole.

A garota bufou alto.

—Mais fácil eu te proteger do que o contrário — me zoa, com a voz divertida.

—Estamos protegidos um com o outro, então — falo, com uma piscadela.

Ela ergue uma sobrancelha.

—Se você diz.

Minutos depois, quando o sol começou a ficar quente demais em cima de nossas cabeças, pedimos a conta e partimos para o oeste da França. Não sabíamos exatamente para onde estavámos indo, e enquanto aguardavámos por um trem na estação, Eadlyn parecia já um pouco cansada.

—Você está bem? — Eu pergunto.

—Estou só um pouco cansada.

—Uma moça de 21 anos sedentária, que horror! — Falo em tom exagerado, fingindo estar chocado.

—Vou cuspir em você — ameaçou, puxando algo do fundo da garganta.

—Mal criada — repreendo.

—Cala a boca — ela olha para a direita e sua expressão se suavizou um pouco. — O trem está vindo — diz, já se aproximando da plataforma e eu a seguia, me sentindo estranhamente contente. Não imaginava que sair da minha rotina poderia ser divertido.

Entramos no vagão e nos sentamos um de frente para o outro. Observo enquanto Eadlyn escora sua cabeça no vidro da janela e fecha os olhos, e eu sabia que se eu olhasse para o lado, poderia ver uma paisagem incrível, mas mesmo assim preferi olhar a garota tirar um cochilo antes da nossa última parada.

Umas duas horas mais tarde, eu estava olhando atentamente para o meu GPS, mas meu sinal era péssimo naquele lugar, porém isso não foi a pior parte. A pior parte foi quando saimos do vagão e subimos as escadas para sair pra rua e eu me dei conta de que o meu celular havia descarregado.

—Trouxe o seu telefone? — Pergunto com o cenho franzido.

Eadlyn me olha desconfiada.

—Trouxe... mas está sem sinal — responde ao estreitar os olhos. — O que houve?

—O meu acabou a bateria.

—Mas você se lembra para onde devemos ir? — Pergunta, sua expressão era de duvida.

Olho para a frente, minhas mãos cruzadas atrás da nuca.

—Claro — digo eu, mesmo que não fosse necessariamente verdade.

—Se a gente se perder, eu vou te matar afogado naquele lago ali — diz, ao apontar para uma placa onde dizia "proibido" em frânces a poucos metros.

Arquio as sobrancelhas.

—Vai é?

—Vou — resmunga.

E aí, eu me abaixo um pouco para colocar um dos meus braços abaixo de suas pernas, dobrando seus joelhos e colocando a outra em suas costas, sustetando sua coluna no meu colo.

—Me solta, Kile — diz com cara de tédio.

Começo a caminhar com ela até a beirada do lago.

—Não, vou jogar você aqui agora antes que você faça isso comigo — murmuro, enquanto tentava reprimir um sorriso.

Eadlyn revirou os olhos.

—Me solta — diz de novo, a voz autoritária.

—Só porque você é um amorzinho disfarçada de bicho papão — falo eu, agora abrindo de vez um sorriso sacana, enquanto que Eadlyn faz cara de nojo pra mim.

Mas, de repente, ela olha para o lado, e um canto de seus lábios se ergue em um sorriso bem humorado. Observo enquanto ela ergue sua camiseta para cima, mostrando pra mim o seu sutiã preto e simples, tirava sua calça jeans e, também, as sapatilhas.

Olho ao meu redor, verificando se mais alguém via aquilo além de mim. Mas, apesar de estarmos claramente em algum tipo de bairro, o lugar parecia meio pacato.

—O que pensa que está fazendo? — Pergunto ao cruzar os braços. — Você enlouqueceu de vez?

Eadlyn dá de ombros enquanto virava de costas pra mim e colocava os pés dentro da água.

—Vem, Kile! Não seja medroso! — Grita pra mim, agora me olhando e caminhando de costas, enquanto a água do lago começava a atingir a sua cintura.

Eu não sabia o que fazer, mas de repente eu estava tirando a minha jaqueta jeans e minha camisa branca, tirando meus tênis e minha calça também jeans, antes de sair correndo e dar um pulo dentro da água. Eadlyn pareceu ficar surpresa, e quando cheguei perto dela, a garota falou:

—Pensei que não iria vir — e seus olhos estão cravados nos meus.

—Pensei que você não iria fazer isso, mas depois eu pensei melhor e percebi que quebrar algumas regras deve fazer bem parte do seu feitio — murmuro com uma sobrancelha erguida.

Eadlyn mostra a língua pra mim.

—Vou é detestável — murmura com um sorriso.

Me inclino para baixo.

—Você é mais ainda — rebato.

Ela envolve meu pescoço com os seus braços, e eu a puxo pela a cintura para mais perto.

—Não, é você, idiota — retruca.

—Mal criada — repito, antes de encostar nossos lábios em um beijo que foi calmo, mas quando desci minhas mãos um pouco mais para baixo, Eadlyn me bloqueou ao segurá-la na sua cintura.

Neste momento, eu sorri durante o beijo e ela mordeu o meu lábio antes de terminar com um selinho.

—Acho que estou me viciando — eu falo, sério.

—Em quê? — Pergunta, meio risonha.

—Em beijar você — respondo, antes de beijá-a novamente.

Nós ficamos um bom tempo ali, até que um senhor vestido com uma camisa branca e um boné verde musgo começou a berrar algo e a apontar insistentemente para a placa da qual Eadlyn e eu havíamos ignorado momentos antes. Nós dois trocamos olhares, e ela estava rindo. Saímos da água de cabeça baixa, e o homem parecia que estava nos repreendendo, mas eu não podia ter certeza, já que não entendia praticamente nenhuma das palavras que ele dizia. Mas dado o seu rosto franzido, acho que estava dizendo algo não muito legal. Eadlyn murmurou um "desculpa" em frânces e eu também, antes acenarmos para ele e irmos em direção às nossas malas.

Estávamos prestes a seguir a diante, quando o homem grita novamente, segurando no alto peças de roupas, o cenho avermelhado.

Olho para baixo, minha cueca box escura completamente encharcada e depois para as roupas intímas de Eadlyn, meus olhos demorando-se por vontade própria mais do que o necessário em suas curvas.

—Esquecemos de nos vestir — ela diz, dando risada.

—Fique aí que eu vou ir lá pegar — falei, já voltando a passos largos até onde o homem de uns 40 anos se encontrava; assim que cheguei perto o suficiente, ele me entregou as nossas vestimentas, e murmurou alguma coisa; apesar de não o ter entendido novamente, lhe agradeci com o meu frânces capenga e o sujeito apenas balançou a cabeça de um lado para o outro, jogando os braços para cima, depois fez um sinal que compreendi como sendo algo "vai embora logo antes que eu ligue pra polícia".

Eu sorri e falei novamente:

Je vous remercie, monsieur! — Enquanto vestia minhas calças, meias e tênis.

Eadlyn estava escorada em uma árvore com os braços cruzados e um sorrisinho divertido no rosto, parecendo não se importar por estar apenas de calcinha e sutiã em um lugar público e em outro país. Quando fiz menção em lhe entregar suas roupas, ela me olhou com as sobrancelhas erguidas e disse:

—Decidi que quero andar assim pela a rua, lançar tendência, afinal, vou ser estilista reconhecida internacionalmente em logo, logo- diz, com um ar pensativo.

Agora eu fiz uma careta.

—Você está brincando, não é? — Questiono, em duvida.

Vindo dela, bem que poderia ser verdade.

Eadlyn revira seus olhos azuis pra mim e abre um breve e rápido sorriso.

—Óbvio — e aí estende uma mão pra mim, pedindo com um ar topetudo, para que eu lhe entregue suas roupas.

Mas eu escondo as peças atrás das minhas costas, e olho para ela dos pés à cabeça.

—O que está olhando? — Me pergunta, sua expressão entendiada.

—Você; estou olhando você — falo com um sorrisinho torto. — Não me importaria se você andasse assim por aí, seria uma alegria para os meus olhos — digo, antes de alargar o meu sorriso e dar risada quando ela corou um pouco as bochechas. — Mas acho que agora não é o momento, tome — falo, assim que jogo suas roupas pra ela pegar.

—Pra onde vamos ir — me pergunta, enquanto terminava de vestir sua blusa e ajeitar seus cabelos com a ajuda do reflexo de um carro que estava parado ali perto.

Penso sobre aquilo. Onde era mesmo a rua onde ficava a pousada?

Esquerda ou direita?

Faço uni-duni-tê.

—É pra lá — respondo ao apontar para a direita. A rua parecia larga de onde estávamos, e havia mais chances de ter uma Avenida ali... e então poderíamos fazer mímica para encontrar algum lugar para dormir.

Eadlyn me olhou com a sua testa franzida.

—Você tem certeza? — Me pergunta.

Começo a caminhar tranquilamente, deixando-a para trás.

—Kile?! — Diz, e eu escuto seus passos vindo atrás de mim em uma rápida corrida.

—Sim — falo pra deixá-la mais calma.

—Tá bom — resmunga.

Aquele bairro era muito bonito, e eu podia sentir um cheiro forte de maresia, dando a indicação de que estávamos em algum lugar a beira mar. As casas dali eram todas iguais, com o telhado em forma de V de cabeça para baixo, de cores claras e, algumas mais ousadas, em tons fortes, como vermelho. Na maioria podíamos ver um canteiro de flores penduradas nas janelas da frente.

—Kile, você já brincou de apertar a campainha dos outros e sair correndo? — Indaga Eadlyn alguns vários minutos mais tarde.

Olho de relance pro seu rosto; algumas gotas de suor escorriam pela a lateral do seu rosto, colando alguns fios de cabelo em sua pele corada por causa do calor e da nossa constante caminhada.

Meu Deus, como ela fica linda assim!

—Não, isso é infantil demais até pra uma criança — provoco.

Ela revira os olhos.

—Você já nasceu com alma de velho — me acusa, parecendo ter ficado de mal humor.

Dou de ombros.

—Sou responsável, apenas.

—Diz o cara que há pouco tempo atrás pulou em um lago proibido.

—Foi um momento de fraqueza, sabe como é, tenho andado tempo demais com certas más influências — murmuro ao lhe lançar uma olhadela sugestiva.

Eadlyn bufa e instantaneamente eu acabo abrindo um sorriso; estou observando o seu rosto, quando percebo mais uma mudança de humor em sua expressão. Cara, como ela consegue mudar de humor tão rápido?

Sua instabilidade é assustadora... quando não está me divertindo, de uma forma ou de outra.

Fito a garota enquanto ela saí apressada na minha frente, colocando agora as duas alças da mochila nos ombros, e então para diante à uma casinha bonita, me olha e abre um sorriso travesso, antes de erguer uma de suas mãos e apertar a compainha e sair correndo.

—Vem, Kile! — Berra ela, aos risos, e eu fico irritado por ela me fazer correndo, já que quem está carregando a sua mala pesada de rodinhas, sou eu. — Ou vão achar que foi você! — E aí dá mais risada; eu não podia ver o seu rosto, mas tinha certeza que seu olhar estava zombando de mim naquele exato momento.

Com dificuldade, pois já estava um pouco cansado já algum tempo, obrigo minhas pernas a correr atrás da garota, que com o movimento da corrida acabou desprendendo os cabelos de seu coque, e eu observo enquanto eles caem como uma cortina acetinada e escura até o meio de suas costas, mais ondulados do que nunca e ainda um pouco umidos. Ela dobra para uma rua à direta e quando dobro também, logo atrás dela, encontro a garota escorada em um muro alto, suas respiração parecia irregular e suas mãos seguravam seus joelhos, enquanto que seu tronco se inclinava para baixo.

—Não foi divertido? — Me pergunta com a voz entrecortada.

Meus pulmões estão sobrecarregados enquanto me sento na calçada, e tento recuperar o ar perdido.

—Não, eu quase morri.

—E quem é a sendetária agora? — Quer saber.

Olho por sobre o ombro para a sua pessoa, e encontro uma Eadlyn com um sorriso maroto nos lábios e as mãos na cintura.

Agora é a minha vez de bufar.

—Claro, não é você que estava carregando uma mala com mil quilos — digo antes de me deitar no chão cinza e frio da rua.

—Ninguém mandou você pegar a mala, eu não pedi — retruca ao sentar-se ao meu lado.

—Fui um cavalheiro, deveria me agradecer.

—Não vou agradecer — diz em um tom que dizia "o quê?! Você bebeu?!".

Ficamos em silêncio por uns 5 ou 7 minutos, nos recompondo da corrida, quando escuto a voz dela soar em meus ouvidos:

—Temos que ir, já está ficando tarde — avisa.

—Não sei se vamos encontrar alguma pousada agora.

—Sabia que estávamos perdidos — diz.

—Ué, quem te disse isso?

—Você.

—Quando?

—Agora mesmo. Você disse "não sei se vamos encontrar", ou seja, minhas suspeitas se confirmaram agora.

Penso sobre aquilo, não adiantaria mais negar.

—Ok, você tem razão; mas temos que encontar algum lugar pra dormir — falo, de repente ficando alerta e me levantando do chão.

Estendo minha mão para Eadlyn, que a segura e pega impulso para se erguer.

—Acho que tem uma praia aqui perto... vai ter que servir por enquanto — digo eu, ao olhar pro céu que já começava a tomar uma coloração meio laranja.

—Por quê não pegamos o trem e voltamos para aquela pousada? — Pergunta, agora parecendo preocupada.

—Você quer voltar pra lá? — Questiono com o cenho franzido.

Eadlyn pondera por um momento e então faz uma careta engraçada.

—Não, deixa. A gente pode se virar... e além do mais, não temos tanto dinheiro pra ficar gastando assim, ou então iremos ter que voltar pra casa mais cedo — murmura, parecendo se enjoar com só a ideia de ir embora pra Espanha ou Londres.

No começo eu não entendia o motivo dela querer tanto viajar, mas agora eu tenho uma teoria a respeito. Talvez ela simplesmente quisesse se sentir livre de todas as formas e, agora que conseguiu se livrar das amarras que a prendiam com a sua família e está conseguindo superar seu passado, quer começar algo novo.

Acredito que iremos ficar pela a França até que ela se sinta segura o suficiente pra voltar e escancarar de vez a porta que ela mesmo destrancara no momento em que fez o seu discurso. Será uma nova fase em sua vida, e ela deve saber disso... de algum jeito, ela deve saber, ou sentir. E deve dar medo.

Me pergunto quanto tempo isso duraria...

Não que eu me importe, já que não posso negar que ela está me divetindo muito, e que... de certa forma, eu já não sou mais como antes, embora não saiba dizer exatamente em que que eu mudei.

Ficamos muito tempo caminhando até que finalmente encontramos a praia. Tinha uma faixa larga e longa com uma areia fina e amarelo claro. O mar estava calmo, e nós procurávamos algum lugar razoavelmente seguro — dada as circunstâncias — para dormir. Encontramos um lugar com bastante ávores e onde não ficariamos muito à vista de quem por ventura quisesse dar uma volta por ali à noite. Nos acomodamos enquanto deitávamos na areia e, pouco tempo depois, pego um pacote de bicoitos de dentro da minha mochila.

Repartimos em silêncio, e quando o céu começou a ficar escuro demais, peguei um isqueiro e pus fogo em algumas madeiras que encontramos pelo o caminho.

—Kile, por quê você também não larga a faculdade e tenta ser cantor profissional? — Me indagou Eadlyn, enquanto estávamos sentados um ao lado do outro, fitando sem ver realmente a labaredas do fogo da nossa fogueira improvisada.

Suspiro.

—Já conversamos sobre isso, cherie.

—O que aconteceu com os seus pais, não precisa acontecer com você — diz, me pegando de surpresa com a sua declaração.

Não me lembrava de ter mencionado á ela, que sim, um dos motivos para eu desconsiderar uma carreira artística, era o fato dos meus pais terem a iniciado e terem partido de forma tão drástica. Não que eu sentisse alguma dor quando lembrava disso, mas mesmo assim... era desconfortável, como se eu evitando minha vontade em seguir essa vida, evitaria também de reviver meu trauma de criança, quando recebi a notícia de que eles haviam falecido.

—Eu sei — me limito a dizer, enquanto a fitava insistentemente; de repente, sendo tomado por uma vontade de decorar seus traços pra carregar comigo quando o contrato acabasse.

—Está me achando bonita? — Pergunta, ao me me encarar também. — Está vidrado em mim.

—Sempre te achei bonita — digo ao revirar meus olhos e fazer cara de tédio.

—Você também não é de se jogar fora — fala, lançando uma piscadela pra mim.

—Não?

—Não.

—Então por que você está a mais ou menos 25 centímetros e meio distante de mim, se eu não sou de se jogar fora? — Eu flerto, abrindo um sorriso sacana e divertido.

Eadlyn inclina sua cabeça pra trás e tenta reprimir um sorriso, antes de se aproximar de mim e repousar uma de suas mãos, hoje com suas unhas com o esmalte descascado, nos meus ombros. Ela senta-se na minha frente, e me olha com atenção, seus olhos correndo pelo o meu rosto, me analisando, antes de colocar suas pernas ao redor da minha cintura, colando nossos corpos e nos deixando em uma posição bem sugestiva, e enconstar seus pés um no outro atrás de mim.

Com as mãos, encosto em sua pele morna abaixo de sua blusa, erguendo-a enquanto a Schreave fechava seus olhos momentaneamente. Meus lábios percorreram seu colo, e ela entrelaçou seus dedos nos cabelos na minha nuca.

Paro com uma mão em seu sutiã, olhando pra ela um pouco hesitante.

—Tem certeza de que não vai se arrepender? — Quero saber, torcendo mentalmente que ela desse uma negativa.

—Você não vai? — Rebate com uma sobrancelha erguida.

—Depende...

Eadlyn então bufa alto e me dá um tapa no braço.

—Idiota- resmunga, já se movimentando pra afastar-se de mim, mas eu a seguro, prendendo o seu corpo no meu, enquanto encostava meus lábios na sua orelha.

—Não vou me arrepender, mas quero saber de você.

E ela não disse nem que sim e nem que não, apenas abriu um sorriso bonito pra mim e me beijou.

—Eu não estou apaixonado por você — murmurei vagamente.

—Eu não estou apaixonada por você — rebateu em um sussurro.

A partir daí, não nos desgrudamos mais naquela noite.

Ao acordarmos, no início da manhã, pensei que ela iria me ignorar, mas não o fez. No entanto, a gente não conversou muito, talvez porque estivessemos cansados e com fome. Quando peguei sua mão para irmos procurar algum lugar pra comprar algo para comermos, ela não teimou, mas, como da outra vez, fingiu que nada estava acontecendo, mesmo que não tivesse feito qualquer movimento para se afastar de mim. Encontramos um barzinho bem simples não muito longe dali, e depois de muito tempo fazendo mímicas e arranhando algumas palavras em frânces — e sorte que a senhora que trabalhava ali também arranhava um pouco de inglês — conseguimos nos comunicar o suficiente para que ela nos deixasse usar o banheiro para lavarmos pelo o menos o rosto e escovarmos os dentes.

Agora estamos parados em frente ao balcão, decidindo qual salgado nós comprariamos ali. Não que eles estivessem com uma aparência diliciosa, mas eram baratos e queriamos retribuir a gentileza da mulher que nos deixou usar seu banheiro sem impor nenhuma condição pra isso.

Eadlyn procura o dinheiro dentro da mala, e eu observo enquanto seu cenho se franzia inteiro e seu olhar fica preocupado. Ela pega agora a sua mochila, engolindo em seco, e começa a remexer em seu interior quase que desesperada. Assim que ela volta seus olhos pra mim, ela me avisa com a voz um pouco exaltada:

—Kile, acho que nos roubaram.

Notas finais
Não ficou lá essas coisas, mas não ficou TÃO ruim, vai U.U Próximo capítulo... mds, tô ansiosa pra escrever :v MUAHAHAHAHAHAHAHAHAHA