Quem Nós Somos?
24 E - Eu não estou mais à sombra de ninguém.
Notas iniciais
"(...) Escovando o meu cabelo, estou perfeita? Esqueci o que fazer para encaixar no molde
Quanto mais eu tento, menos está funcionando, porque tudo dentro de mim grita: não, não, não, não!
Não perca quem você é, no borrão das estrelas ver é enganar, sonhar é acreditar
Está tudo bem se você não está bem
Às vezes é difícil seguir o seu coração
Mas lágrimas não dizem que você está perdendo
Todos estão machucados
Só seja verdadeiro com quem você é"
Who you are — Jessie J
Por Eadlyn Schreave
O lançamento da candidatura do meu pai foi extremamente longa, mas não aconteceu nada demais, nem sequer haviam nos entrevistado. Definitivamente, as únicas pessoas que interessavam aos jornalistas naquela noite eram meu pai e meu avô. Meu avô porque estava tão empolgado, que não saiu do lado de papai um segundo sequer. Estava transbordando alegria e orgulho. Kile pareceu tranquilo na maior parte do tempo, mas depois de quase 3 horas e meia naquele lugar cheio de pessoas, ele começou a bocejar discretamente, apesar de sua postura estar ereta e a expressão não indicar sono. Abro um sorrisinho de lado.
Devia estar entediado.
Duas horas mais tarde, estávamos voltando para casa, e eu estou de certa forma, bem satisfeita. Ao que parece, os jornalistas decidiram deixar de fuxicar a vida da família Schreave, para dar enfase ao que realmente importa, que é a política de meu pai. Quando Kile eu fomos para o quarto, o garoto já começou a desabotoar a camisa na minha frente mesmo, e eu enruguei a testa e ergui uma sobrancelha, enquanto cruzava os braços e o observava. De repente, ele para e me olha, o sorriso que surgiu no seu rosto era um pouco de embaraço, misturado com uma pitadinha de divertimento. Bufo.
—Me desculpe — pede ele, enquanto pegava seu pijama, que está perfeitamente dobrado no braço do sofá, deixando as peças no seu antebraço. — Estou tão cansado, que nem me liguei. Imagine se eu ficasse nu na sua frente? — Kile finge uma careta engraçada. — Seria terrível — fala ao arregalar os olhos, e logo depois me dar uma piscadinha.
—Terrível seria pouco — rebato, minha cara de paisagem.
Kile caminha até o banheiro, mas antes de entrar ele murmura:
—Não que você nunca tivesse tido curiosidade de saber como é — e quando ele viu que eu estava com a mão agarrada na fronha do travesseiro, e pronta para arremessá-lo em sua cara, o Woodwork riu e fechou a porta com um baque suave. Bufando novamente, me sento na minha cama, ainda com os braços cruzados firmemente sob o peito. Claro que o Kile não está errado, seria bem legal vê-lo nu, mas não que eu fosse dizer isso em voz alta, e não que eu fosse uma santa pra negar isso. Não muito tempo depois, o garoto saiu do banheiro, o rosto tranquilo e risonho, a típica expressão das crianças que aprontam e saem impunes. Com uma careta, pego minhas coisas e passo por ele com passadas largas e pesadas.
Kile e eu não conversamos naquela noite, nem mesmo um "durma bem, idiota". Poucos segundos depois do cara ter se deitado, eu já podia ouvir ele ressonando baixinho, seu rosto está virado para mim, seus lábios levemente abertos, enquanto algumas ondulações de seus cabelos praticamente faziam uma cortina em seus olhos fechados. E foi assim que eu peguei no sono; olhando o Woodwork dormir.
Na manhã seguinte acordei de madrugada — 9:15 da manhã é madrugada, não é? — para arrumar minha mala, que na verdade mal estava bagunçada. Estou com um ânimo especial hoje, pois iria ir embora. Meus pais pediram pra eu participar, e foi isso que eu fiz, então meio que já estava livre para voltar pra Espanha sem causar nenhum tipo de mal estar na família, acredito. Cutuco Kile com minha unha pintada de azul roial, ele se revira, jogando um dos braços para fora da cama, o cenho franzido.
—Espero que você não esteja meio morto deitado na minha cama, Kile — afirmo, a voz séria. E então, ele abre os olhos, sua expressão meio grogue enquanto se espreguiçava todo.
—Se estou morto, devo estar no inferno, ou então não estaria vendo logo a sua cara, cherie - retruca, agora abrindo um leve sorriso zombeteiro pra mim. Faço cara de tédio.
—Nem no céu e nem no inferno, estaria no Olímpo, só assim pra ter a honra de ver uma deusa como eu ao acordar — rebato antes de lhe lançar uma piscadinha e pegar minha mala leve demais e deixá-la em cima do sofá. Olho vagamente ao redor, tentanto me lembrar se já havia pego tudo.
—Essa foi boa — diz, dando risada. — Mas por que me acordou? — Pergunta, e aí eu o encaro por sobre o ombro.
—Vamos embora hoje — conto, incapaz de esconder o meu sorriso alíviado. Kile finalmente senta-se na cama, coçando um dos olhos com a mão. — Arrume suas coisas, quero ir no início da tarde.
Ele concorda com a cabeça, pensativo.
—Tuuudo bem, então — fala, ao colocar as pernas longas pra forma da cama, e alongar seus músculos enquanto projetava a coluna e erguia os braços.
Estou prestes a guardar os meus desenhos — todos, desde os que fiz quando era criança, até os últimos, de uns 3 anos atrás -, decidi que queria levá-los comigo pra Espanha, quando escuto uma batida suave na porta. Sem muita vontade, destranquei-a e girei a maçaneta, dando de cara com mulher com seus 30 anos, talvez. Seus cabelos estão repuxados fortemente em um coque atrás da cabeça, e nos seu rosto o único resquício de maquiagem era um gloss rosado nos lábios grossos. Ela parecia sem jeito em estar ali;
—Senhorita Eadlyn, bom dia — cumprimenta, um sorriso envergonhado erguendo um pouco as extremidades de seus lábios.
—Bom dia — respondo. — Você é novata, não? — Pergunto, tentando repassar pela a minha cabeça se o seu rosto era conhecido ou não.
Ela concorda com a cabeça.
—Sim, me chamo Julieta — diz, toda sem jeito.
—Seu nome é horrível, mas você é bonita — Digo, abrindo um sorriso. — Meus pais pediram pra você vir? — Confirmo, devia ser isso.
—Exatamente, estão tomando café na cozinha e requerem a sua presença e do senhor Woodwork.
De repente, Kile aparece ao meu lado na porta, e olha para Julieta com uma expressão agradável.
—Sou muito jovem pra ser chamado de 'senhor' — fala, um sorriso bonito surgindo no seu rosto. Fico olhando pra ele sem expressão por alguns segundos.
—Oh... me perdoe, senh... — Julieta balança a cabeça de um lado para o outro, corando as bochechas. — Me perdoe... ? Como gostaria de ser chamado?
Kile franze a testa, parecia surpreso com algo.
—Se não se importa, pode me chamar de Kile mesmo — responde.
—Compreendo... Kile — ela sorri enquanto olha para o seu avental superbranco e bordado. — E a senhorita? Gostaria de se chamada por algum nome especial?
—Senhorita Eadlyn está de bom tamanho — respondo. — Diga aos meus pais que estamos indo, ok?
— Sim, senhorita.
—Obrigada — digo, ao abrir um sorriso vago. Observo por alguns instantes enquanto a mulher seguia pelo o corredor. Em seguida, fecho a porta, e dou de cara com Kile, bem próximo a mim. Ele põe os braços um de cada lado do meu corpo, apoidando suas mãos na madeira da porta larga. Pisco algumas vezes.
—Senhorita Eadlyn? — Questiona com um ar pensativo. Kile me olha, agora sorrindo divertido. — Não sabia que gostava de ser tratada com tanta formalidade.
—Ela trabalha pros meus pais, é natural que se dirija à mim desta forma — respondo, ao revirar os olhos. — Existe uma hierarquia aqui.
Ele também revira seus olhos com cílios grossos.
—Vou te chamar de senhorita, o que acha?
—Acho péssimo. — Kile quase riu. — Mas porque dar tanta intimidade pra ela? Parecia até que estava flertando com a mulher — solto eu, ficando irritada de repente.
Kile pareceu surpreso com a minha observação.
—Flertando? — deu uma risada. — Não, não... ela parecia sem jeito, então quis desenvolver um ambiente mais agradável pra ela se sentir mais à vontade. Você falava com secura, pensei que ela sairia correndo de você a qualquer segundo — ironiza, deixando mais uma vez seus dentes à mostra.
—Como você é engraçado, nossa.
Kile se aproxima, encostando seus lábios superficialmente pela a minha bochecha, enquanto eu prendia o ar.
—Eu sou, né? — Retruca, seu hálito arrepiando minha pele.
—O que pensa que está fazendo? — Sussuro, enquanto o garoto percorria a linha da minha clavícula com a boca, mas sem encostar realmente, deixando um traçado formigante por onde passava. Meus pensamentos se turvaram por um momento.
E então ele para, me olha e sorri ao inclinar a cabeça um pouco para o lado. Se afasta, as mãos cruzadas atrás da nuca, a expressão tão tranquila que chegava a ser irritante.
—Te provocando, e antes que pergunte o motivo, vou te dizer: porque é extremamente divertido, melhor do que jogar vídeo game ou ler ou qualquer outra coisa que seja legal.
Conforme ele ia falando, meus olhos estreitavam-se gradativamente. Meu rosto tornou-se vermelho de indiginação, e eu não sabia o que falar, a não ser os adjetivos que Kile já sabe bem quais são, mas mesmo assim, digo:
—Imbecil — e estou prestes a lhe dar um tapa em qualquer parte de seu corpo, mas ele se afasta na hora, agorando dando risada. Irritada, viro as costas e saio pra fora do quarto, querendo ficar o mais longe do querido quanto era possível. Sigo pelo o corredor e desço as escadas com graciosidade, e quando chego no primeiro andar, dobro à direita, indo em direção à cozinha nem tão grande e nem tão pequena de meus pais. Sério, eu não entendia essa fixação deles em fazer as refeições na cozinha, junto com os empregados... mas de qualquer forma, eu já havia me acostumado, e pra ser sincera, era mais divertido. A Sala de Estar era tão austera, tão fria e sem vida, que definitivamente comer na cozinha era mais legalzinho. Quando cheguei lá, cumprimentei a cozinheira, e recebi um abraço afável de volta. Digo à Christinne que senti falta de sua comida, e ela abre um sorriso do tamanho do mundo. Ela aponta para a esquerda, onde ficava uma mesa enorme de madeira, com duas grandes janelas abertas, deixando com que a brisa e a luz amarela do sol invadisse o lugar que, analisando bem, era pequeno. Na casa dos meus avós, tinha algo parecido com isso, então toda vez que ia para lá e queria me sentir mais segura, fugia para a cozinha que era semelhante. Meu pai e mamãe estão sentados um ao lado do outro, virados para a entrada, e então viram de imediato quando cheguei. Minha mãe sorriu pra mim e murmurou um 'bom dia' animado, seguido de papai. Respondo tão animada quanto, afinal, iria ir embora hoje. Puxo a cadeira para me sentar, dando uma olhada na bandeja cheia de sanduíches, e o bolo que, pelo o cheiro, devia ser de milho. Amo bolo de milho. Tinha chá e café ali também.
—E Kile? — Meu pai pergunta, parecendo estranhamente satisfeito.
Estendo um guardanapo sobre o colo, e franzo o nariz um pouquinho. Quando estou prestes a responder, a voz do garoto soa logo atrás de mim:
—Estou aqui, Maxon, bom dia. Bom dia, America. Como vocês estão? — E aí ele puxa a cadeira ao meu lado e senta-se em seguida.
—Bom dia, querido — mamãe fala, sorrindo muito, enquanto nos fitava com um ar orgulhoso. Reviro os olhos mentalmente.
—Bom dia, rapaz — papai diz. — Dormiram bem?
Me limito a apenas concordar com a cabeça.
—Sim — murmura Kile.
Trocamos mais alguns comentários insignificantes, mas quando meu pai falou algo como "temos uma entrevista hoje à noite" eu quase queimei a língua com o café quente. Faço uma careta.
—Como assim? — Quero saber. Kile me olha confuso, mas não parecia incomodado.
Meu pai e minha mãe trocaram olhares, também confusos.
—Você veio para me apoiar nas eleições, não é, querida? — Meu pai fala, seus ombros sempre bem retos e a voz suave e autoritária ao mesmo tempo. — As eleições irã durar algum tempo.
—Quanto tempo? — Pergunto, inpacaz de esconder a leve notinha de desespero que tingiu minha voz.
—Acredito que até o fim das férias de vocês — responde, enquanto larga sua xícara sobre a madeira da mesa, e me fita com atenção.
—Pensei que iríamos embora hoje — confesso, olhando para a fatia de bolo já mordida por mim em cima de um pratinho bege de porcelana.
—Preciso da minha família unida neste momento, é de extrema importância pra mim, filha. É um momento decisivo pra minha carreira, e a sua presença é essencial, não somente para a mídia, mas pra mim, quero que você participe comigo e me apoie.
Será que não dava pra apoiá-lo de longe? Fico em silêncio por alguns segundos, enquanto ponderava minhas escassa alternaticas: A) eu o magoava agora e diria que iria embora de qualquer forma, ou B) o magoria depois, quando dissesse que não queria entrar pra esse ramo da 'politicagem' — palavra inventada por mamãe há não sei quantos anos atrás.
Com um suspiro, respondo:
—Tudo bem.
Vamos protelar, não é mesmo? Posso me esforçar por ele.
—E gostaríamos muito da sua presença também, Kile, já o consideramos da família. Não apenas por ser sobrinho de Carter e Marlee, mas por ser o namorado de nossa filha. Você se importaria de passar o restante de suas férias aqui em Londres? — Meu pai questiona sério, fitando o Woodwork com esperança.
Kile abriu um sorriso tranquilo. Parecia não se incomodar.
—Sem problemas, Maxon.
Mamãe sorriu, toda contente.
—Perfeito — murmurou ela, enquanto inclinava-se para o meu pai e lhe dava um selinho carinhoso nos lábios.
Algumas várias horas mais tarde, estávamos eu e minha mãe sentadas à uma mesa redonda, enfeitada com as cores da bandeira da Inglaterra e com um jarro delicado com flores também delicadas em seu centro. Papai quis apresentar Kile para alguns políticos que estavam ali, e eu os observava de longe. O Woodowork parecia um pouco tenso, mas ao que parece, se saia bem. Meu pai está, claramente, empolgado com o novo genro e eu me senti feliz com isso.
Sou tirada de meus pensamentos, quando uma mulher com um crachá que dizia "Margartett — Jornalista", se aproxima com um sorriso amigável. Seus cabelos são tão escuros, que parecia graxa, escorridos até a altura dos ombros. Sua pele é bronzeada, e usa óculos com uma armação grande e moderna. Devia ter entre 37 e 40 anos.
—Boa noite, queridas. Posso entrevistá-las pra o E-Gonline?
Mamãe e eu trocamos olhares receosos. Não conhecia nenhum jornal — tanto virtual, quanto físico — com esse nome. E é por este mesmo motivo, que minha mãe deve ter murmurado um "claro" simpático para a mulher, afinal, dar uma boa impressão era sempre imprescindível. Ela sentou-se de frente para nós duas, retirando de sua enorme bolsa de incrível mal gosto um aparelhinho que julguei ser um gravador de voz.
—Como vocês estão? — Pergunta Margarett vagamente, enquanto ajustava seja lá o quê no seu gravador.
—Estou ótima — minha mãe responde, com voz e rosto agrádaveis.
Estaria melhor se você não estivesse nos importunando, mas...
—Estou bem, obrigada por perguntar — digo, tentando parecer simpática.
—Claro, de nada — agora ela ergue seus olhos castanhos pra nós, sorrindo. — Vamos?
—Pode começar — mamãe dá um ok.
—Então, America, como você está se sentindo agora que seu marido decidiu expandir a carreira e tentar a chance como presidente da república? — Pergunta, enquanto inclinava o seu corpo um pouco mais para a frente e deixava o gravador mais próximo de minha mãe.
—Estou muito contente. Todos sabem que Maxon tem uma longa carreira e sabe o que está fazendo, vimos tudo o que ele fez por Londres. Ele está preparado tanto em questão de maturidade e expêriencia no ramo, quanto em questões emocionais. A Inglaterra sairá ganhando, sem duvidas — e então mamãe sorriu, deixando à mostra seus pés de galinha.
Margarett balança a cabeça de cima para baixo.
—Entendo. E por que você acha que ele decidiu largar Londres? Em várias entrevistas ele dissera que amava o Estado e que nunca o abondonaria. Foi apenas jogo de marketing? — Questiona, com a expressão séria.
Sinto um aperto do estômago. Aquele tipo de pergunta eu já conhecia bem, era típica dos jornalecos sensionalistas, que sempre tentavam manchar a imagem de qualquer um que fosse. Olho para minha mãe, e eu já a conhecia muito bem para saber que ela percebeu a mesma coisa que eu, mas se manteve elegante, sorrindo superficialmente e com uma expressão educadamente de paisagem.
—Maxon nunca precisou fazer jogadas de Marketing para vencer e expor suas ideias. Tudo o que ele diz é verdadeiro, e se você quiser averiguar, pode buscar em qualquer lugar informações sobre a carreira dele e o quanto ele transformou suas ideias e convições em realidade, apesar das adversidades. Sobre ele deixar Londres, acredito você esteja equivocada, ele jamais a deixaria. O fato dele querer expandir suas ideias para o país inteiro, visando o bem-estar dos ingleses em um todo, não significa que ele abandonou o estado, e sim que ele acredita que está na hora de englobar todos os estados nas mudanças que pretende fazer para a nação.
Abro um sorrisinho de lado agora. Muito bem, mãe, muito bem, penso eu.
—Compreendo, irei averiguar, sim. Poderia me dizer que tipo de mudanças ele pretende fazer para a nação? — Pergunta, com uma expressão desafiadora. Aquilo me irritou, quem ela pensa que é? Queria poder lhe mostrar o dedo do meio, mas infelizmente ali... eu não podia. Tinha muitas testemunhas.
—Querida, acredito que tenha que perguntar ao próprio Maxon, creio que ele não se importaria de lhe conceder uma breve entrevista — mamãe diz e dá um sorriso diplomático. Esse sorriso eu já conhecia, o sorriso de "não quero sorrir pra você, mas vou sorrir porque senão pode pegar mal pra mim."
—Uhum... — agora a mulher se vira pra mim. — E você? Vi que está namorando, qual o nome do felizardo que irá herdar toda essa fortuna da família Schreave? — Questiona, com um ar bem malvado.
—Kile Woodwork — me limito a responder, mas mantenho um sorriso amarelo no rosto.
—Se conhecem há muito tempo?
Sério? Por que aquilo interessava a ela?
—Sim — digo.
Ela abre um sorriso malicioso.
—Você está igual como sempre, sabia? Tirando os cabelos que você ajeitou e os óculos que tirou do look. Suas roupas... é da sua vó, não é? Digo, todos sabemos que você nunca foi muito ligada em moda, e maquiagens, pensávamos até que você fazia parte do grupo LGBT — e aí ela dá uma risadinha e eu estreito os olhos um pouco. Senti um rubor subir pelo o meu corpo inteiro. — Mas que bom que achou um namorado... não ficou para titia. Como se conheceram?
—Na faculdade — respondo, me remexendo na cadeira, me controlando para não pegar um prato e jogar na cabeça dela. Ao invés disso, abri ainda mais o meu sorriso.
—Que curso está fazendo?
—Relações Internacionais.
—Hm... Como se sente com a candidatura de seu pai?
—Estou feliz por ele, com certeza.
—Sabemos que está em uma universidade fora do país. Pode me dizer qual é?
—Não — respondo, de imediato. A mulher pareceu surpresa, e então seu rosto tornou-se perigosamente curioso.
—Por quê? Tem medo de que jornalistas enxeridos vão lá para fuxicar sua vida?
Exatamente.
—Não, querida... — murmuro, me controlando muito para manter meu tom de voz tranquilo e estável, mas eu sentia que estava prestes a explodir.
—Então é... ?
—Essa entrevista não é sobre a candidatura do meu pai? Não entendo porque quer saber sobre a minha vida privada — retruco, a voz baixa e contida.
Seu sorriso se alargou. Sinto minha mãe olhando pro meu rosto, mas eu a ignoro.
—Mas todos queremos saber sobre a sua vida. Está há 3 anos longe dos nossos olhos, não acha natural que tenhamos curiosidade em saber o que aconteceu com a nossa jovem Schreave?
—Pra ser sincera, não — falo, e minha mãe me cutuca por baixo da mesa. Finjo que não senti nada.
A mulher riu, parecia que começava a se divertir. À minha custa.
—Mas já que não quer conversar sobre isso, me conte como foi ser a sombra da beleza da sua mãe? Não me entenda mal, mas vocês já foram muito comparadas no passado.
—Nunca fiquei à sombra de ninguém, Margarett — digo rispidamente, o que só fez o sorriso da mulher se alargar.
—Acredito que esteja na hora da entrevista chegar ao fim — minha mãe se manifesta, olhando para a morena com os olhos altivos e o queixo levemente pronunciado. Mas a mulher não parecia se incomodar, queria continuar e perguntou á mamãe:
—Como se sente tendo uma única filha mulher e ela não ter herdado muita coisa ao seu respeito, America? — Indaga com os olhos brilhando.
—Já chega — resmungo, jogando meu guardanapo na mesa, e empurrando a cadeira com força atrás de mim; levanto abrupdamente. Sigo para fora daquele lugar sem olhar para trás, minhas mãos tremiam e meu coração parecia a batida das asas de um beijaflor. Eduardo me vê pelo o retrovisor, e prontamente sai para fora do carro, abrindo a porta pra mim.
—Obrigada — eu digo, meus olhos formigando, mas eu não queria chorar. Não queria e não ia chorar. De raiva.
Estou prestes a entrar, quando escuto a voz da minha mãe. Ignoro e entro no carro, em seguida ela abre a porta e entra também, sentando ao meu lado.
—Pode nos deixar a sós por um momento, Eduardo? — Ela pede.
—Claro, Ames, com licença — e então sai, nos deixando sozinhas. Cruzo os meus braços, e viro o meu rosto para a janela.
—Posso saber o que foi aquilo? — Ela quer saber.
—Você não acabou de ver? — Retruco de volta, fungando.
—Eadlyn, você sabe tanto quanto eu que aquele tipo de jornalista não vale nada, ela estava provocando você de propósito e você caiu na armadilha dela. A sua reação, o seu comportamento, provavelmente estará na primeira página em vários lugares! Isso pode prejudicar o seu pai.
Com raiva, viro o meu rosto pro dela.
—Claro, mamãe! Desculpa por não ser tão perfeita quanto você, mas eu não tenho mais sangue de barata pra aguentar essas humilhações sem fazer nada! Vocês tem sorte, poderia ter feito coisa muito pior do que ter me levantado e ido embora.
Minha mãe trinca da mandíbula, controlando-se.
—Ninguém aqui é perfeito, Eadlyn, não diga besteira.
—O que você acha que estou sentindo, mãe? — Retruco, finalmente as lágrimas que tentei reprimir transbordaram. — Acha que foi fácil crescer em frente à um país inteiro, com as pessoas apontando pra você, fazendo chacotas com você, te destruindo por dentro? Ela disse que eu ficava à sua sombra, e é verdade. Mas eu não quero mais saber disso, não gosto desse vestido horrível que você e Christopher escolheram pra mim. Eu nunca pude ser quem eu realmente era. Nunca. Porque eu não podia, não podia manchar a imagem da família perfeita. E quando comecei a entender tudo isso, quando cresci o suficiente e já não era mais criança, as pessoas queriam saber da minha vida, mas eu não tinha nada a ver com o pedestal que colocaram você e papai. Só queria ter a minha vida normal. Normal. Quando foram fazendo comentários maldosos comigo, nas revistas ou em programas de Televisão, quando acabaram com a minha autoestima, como você acha que eu me senti? Aquilo doía, mãe. Doía ver as pessoas mentindo sobre mim, sobre você ou sobre papai, magoava ler que te achavam linda, e eu era a patinho feio da família. Sempre fui uma personagem secundária, e isso também machuca.
Minha mãe de repente me olhava com remorso, incomodada, chorosa. Arrependida, quase desesperada. Ficamos nos encarando por um momento antes dela dizer:
—Ead, eu não sabia... não sabia que você se sentia assim. Por que não contou pra mim o quanto estava sendo pesado pra você? Por que não contou pro seu pai? Teríamos feito algo a respeito, querida, nós amamos você mais que tudo.
—Você nunca parou pra me enxergar de verdade, mãe. Nem você, e nem o pai. Fui limitada a ser uma figurante na vida de vocês — e então eu fungo antes de esfregar as mãos no meu rosto, tentando limpar as malditas lágrimas que não paravam nunca de escorrer. Não me importei de estar borrando a maquiagem, eu só queria ir embora pra Espanha.
—Não seja injusta, Eadlyn, você sempre foi a parte mais importante da nossa vida — e então ela franze a testa, seus lábios estão curvados para baixo enquanto mamãe também chorava, só que menos encadalosamente que eu. — Você sabe que os comentários maldosos também vinham pra mim e pro seu pai, mas você sempre pareceu tão madura quanto à isso, sempre pareceu não se importar... nunca que eu iria imaginar que... — ela tentou me abraçar, mas eu me esquivei.
—Vou pra casa, volte lá com papai, quero ficar sozinha — falo, a voz embargada.
—Filha, eu...
—Por favor, mãe — peço com um suspiro pesado. Ela fica me olhando por alguns segundos, em silêncio, hesitante, mas por fim abre a porta do carro e sai. Eduardo chegou em seguida, e eu pedi para ele me levar pra casa. A viagem não durou muito, infelizmente. Assim que chego, vou direto pro meu quarto, tiro as roupas com raiva, deixando elas no meio do caminho enquanto entrava no banheiro e ligava o chuveiro. Fico ali, embaixo da água, limpando o meu rosto da maquiagem, meu cabelo daquele penteado rídiculo, mas não consegui me livrar da minha dor na alma. Estava arrasada por ter brigado com minha mãe e por ter a feito se sentir mal, mas aquilo estava me engasgando, quando dei por mim já tinha dito. Aquela reportér me fez reviver nitidamente o passado, e foi desesperador.
Uns 40 minutos depois, quando estou deitada no carpete do chão, usando um moletom surrado e um short curto e olhando pro teto, tentanto me afogar nas próprias lágrimas, o som da porta sendo aberta me tira do meu transe. Sem muita vontade, viro a cabeça para o lado, dando de cara com um Kile com o rosto preocupado. Mas ele não diz nada, fica quieto, tira os sapatos e deita-se ao meu lado, e eu fiquei grata por isso.
Meia hora mais tarde, eu pergunto, minha voz menos que um sussurro:
—Você chegou cedo — comento, como se nada tivesse acontecido.
—Sua mãe parecia mal, perguntei o que aconteceu e ela disse que você precisava de mim, e então vim direto pra cá.
Bufo.
—Não estou precisando de ninguém — respondo, mas quando dei por mim, comecei a chorar novamente. Me viro para o outro lado, passando os braços pelo os meus joelhos, deitada em posição fetal.
Mas Kile não me deixou ficar daquele jeito, o garoto se levantou e me puxou para cima, e eu estou tão cansada, que não resisti. Ele me guiou até o sofá, e me pegou no colo, para depois sentar-se, enquanto eu deitava nele, como um bêbe. Repouso a cabeça em seu ombro, encharcando a sua camisa com as minhas lágrimas que não paravam de sair.
—Quer conversar sobre isso? — Me pergunta muito tempo depois.
—Você sabia que eu era feia antes? — Eu pergunto pra ele, a minha voz soando exausta.
—Eu não acho.
—Você nem me conhecia.
—Pois eu duvido muito... mesmo que você tivesse um dente só e fosse careta, ainda assim, acredito eu, que te acharia a garota mais bonita do campus inteiro — falou, a voz séria.
—Ninguém me achava bonita antes, e nem eu mesma. Pode procurar em sites antigos, você vai ver. Eu repetia pra mim mesma, todos os dias, que tinha superado isso, mas era mentira. Estava me enganando. Ainda me sinto frustrada, magoada, com medo de ser mais uma vez ridicularizada. Pra quem nunca sofreu algum tipo de agressão continuamente à própria imagem, ainda mais em uma fase da vida onde você está começando a firmar a sua imagem, pode achar que estou fazendo drama, mas isso machuca a alma. E eu quis tanto me ver longe da pessoa que eu era, que me diziam pra ser, que acabei inventando outro personagem, e agora já nem sem mais quem sou. Quem eu sou, Kile? Porque não consigo me encontrar? Eu não quero mais fingir, ser de extremos. Ou fria e indiferente demais, ou sentimental e frágil demais. Os dois doem a largo prazo, Kile... e já faz um longo tempo isso. Estou exausta. Exausta.
O Woodowork não falou nada por vários minutos, o único som do quarto meio escuro, era o do meu choro, que eu não consiguia controlar de jeito algum.
—Eu estou com você agora, cherie. Sempre que precisar — ele falou, enquanto me abraçava mais forte, empurrando o meu corpo contra o seu. Sinto o seu queixo repousar no alto da minha cabeça. — Você é linda.
A partir daí, não falamos mais nada... até que, enfim, acabei pegando no sono.
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