Quem Nós Somos?
1 Eadlyn há três anos atrás
Notas iniciais
Eu entrei no meu quarto e fechei a porta com um baque alto. Eu estava convicta, nunca mais seria humilhada por ninguém na minha vida. Peguei a tesoura velha que guardava na última gaveta da cômoda, e em seguida arrastei a cadeira da escrivaninha até ficar de frente para o grande espelho do guarda roupa. Me sentei ali e fitei o meu rosto atentamente, coisa que desde que comecei a entrar na adolescência costumava evitar. Prestei atenção em cada detalhe que eu simplesmente odiava, como a boca fina demais, os cabelos longos demais, cacheados demais, o corpo que antes era gordo, mas que agora já começava a ficar no meu peso dos sonhos. Isso sem falar na pele, judiada por conta de uma acne que tive quando tinha uns 15 anos. Retirei os óculos com o farmato redondo, no pior estilo Harry Potter e pude ver os meus olhos de verdade. Azuis, com cílios longos e grandes, mas o que adiantava eles serem bonitos se eu sempre os mantinha cabisbaixos?
Respirei profundamente e então ergui minimamente a tesoura. A partir de hoje eu não seria mais a garota esquisita, a que era zoada na escola e nas manchetes maldosas falando sobre 'a filha do governador estava com uma aparência horrível na festa do parlamento nesta noite'. A partir de hoje eu seria quem eu quisesse ser. Seria bonita, gostosa, popular. Eu estava tendo a oportunidade que sempre pedia pra Deus quando algo de humilhante acontecia comigo e eu ia dormir aos prantos. Já chega.
Vi meus lábios tremendo levemente atráves do espelho. Essa era a hora certa, fui aprovada para uma federal de renome perto do litoral — e o melhor, na Espanha, longe dos olhos da imprensa Londrina e dos meus pais -, teria que conseguir um apartamento por lá e ninguém saberia como eu era antes. É uma vida nova, teria amigos novos, tudo novo. Inclusive o visual e a forma como me portava, já não seria mais a garota de 19 anos que andava de cabeça baixa por vergonha de ser quem era. Isso acaba hoje. Agora.
Aos poucos começo a cortar os fios de cabelos, e a sensação era assustadora e reconfortante na mesma medida. Alguns minutos mais tarde, eles pendiam na altura dos ombros e aquilo já havia me deixado com uma cara diferente. Em seguida peguei todo o material de maquiagem que sempre ganhei, mas que nunca usei de fato. Escondi cada manchinha, cada imperfeição e o resultado ficou muito bom e, então, destaquei o meu olhar com lápis bem escuro e bastante rímel, para afastar aquele olhar de mosca morta que eu carreguei durante tanto tempo.
No fim, eu já parecia mais confiante. Talvez seja porque pela a primera vez na minha vida eu estava confiando em mim mesma, na minha capacidade de transformação. Olho para aquele batom vermelho vivo que comprei por impulso mas nunca tivera coragem de usar antes, e o deslizei lentamente em meus lábios, e de imediato eles pareciam estar mais cheios, mais atraentes.
— Sou Eadlyn, a garota que sempre quis ser, e que agora eu era. — Murmurei para mim mesma, encarando o meu reflexo e sentindo que a mudança era para valer. — Incrível, maravilhosa e confiante. Eu quero, eu posso e eu consigo.
Solto um suspiro antes de erguer meus lábios em um sorriso um tanto provocativo... não estava ruim, mas se eu quisesse realmente conquistar as pessoas, teria que melhorar. Olhando para mim agora, para o meu rosto que até que era bonito, me dei conta de que eu nunca fui feia, foram os intrometidos, jornalistas, programas de TV que fizeram de minha mãe e meu pai, America Schreave e Maxon Schreave, quase como celebridades, fazendo da minha vida uma piada transmitida em rede nacional. Londres inteira me viu passar pela a fase da adolescência, e não foi agradável, não quando os comentários que faziam sempre eram para me deixar para baixo. "Que cabelo é esse?" "Os olhos dela são sempre assim ou Eadlyn Schreave está usando drogas?" "Ela já tem 19 anos, será que irá ficar para titia?"
Respiro fundo, essas coisas eu lia seguido, mas já não me cabia mais acreditar nelas. Eu era quem eu queria ser, isso seria o suficiente para fazer de mim mesma uma pessoa admirável... pois eu sou e ninguém dirá o contrário.
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