Quem Nós Somos?
31 E - Nós transbordamos.
"Dias em que nós brigávamos, nos brigávamos até que eu cedesse
Yeah, desastres perfeitos
Estávamos buscando, buscando alcançar o telhado
E na maioria dos dias nós procurávamos formas de nos levantar e irmos embora da cidade em que crescemos, yeah
Porque estávamos fartos
Eu lembro
Dormíamos em carros, procurávamos por OZ
Queimávamos cigarros com pontas de plástico até vermos o sol nascer
E dizíamos coisas loucas"
Kids — Onerepublic
Por Eadlyn Schreave
Kile e eu não nos falávamos já a algum tempo. O que foi bom, porque eu não precisei olhar pra aquela cara de pau dele, e me irritar com a ousadia dele em ser irônico comigo. Menino irritante. Chato. Marrento. Lindo. Charmoso. Sexy. Bom de cama. Chato. Chato. Lindo. Inteligente. Bocó. Nerd. Lindo. Chato.
Estou com saudade.
Estou com muita saudade dele.
Me jogo no pequeno sofá do apartamento de Micaela. Ele é rosa e tem umas flores desenhadas à tinta — por ela mesma — no tecido que o revestia. As paredes são de um salmão claro, e dependendo da luminosidade, a cor meio que pendia para o rosa bebê. Havia quadros pintados por todo o canto, e alguns tinha sido a própria que pintara. O meu preferido — e que por sinal é o que eu estou olhando fixamente agora — é o de duas meninas caminhando por alguma trilha cercada por árvores, e ambas traziam consigo um vestido simples e uma guirlanda de flores coloridas na cabeça. Solto um suspiro e, simultaneamente, o meu celular apita.
Sim, coloquei o celular para despertar e, assim, não correr o risco de me atrasar pro vestibular do segundo semestre da minha nova — se Deus quiser — universidade. E eu estaria muito mais empolgada caso Kile estivesse aqui... ele com certeza faria alguma piadinha sem graça e eu ficaria zangada, mas depois iria passar; sempre passa. O que não passa, na verdade, é esse sentimento que eu tenho por dele.
Aquele imbecil.
Coloco minha caneta dentro de um bolsa pequena, junto com minha carteira de identidade, meu celular e dinheiro. É tudo o que precisaria hoje, além de sorte, é claro. Passo a alça pela a cabeça, pego as chaves que estão em cima da mesinha de vidro no centro na sala média de Micaela e dou uma olhada rápida no meu visual antes de sair. Uma bata branca e rendada, calça jeans de cos alto, no melhor estilo anos 90 e os cabelos soltos, sem nada de chapinha e completamente ondulados. A maquiagem não passava de um batom claro e discreto e uma passada generosa de rímel. Nada de pó, base, corretivo, sombra, delineador.... e, ai meu Deus! Preciso me maquiar direito, não posso sair assim!
Dou um passo para trás e paro.
Respiro fundo e balanço a cabeça de um lado para o outro.
Ok, qual é o problema em sair sem maquiagem, Eadlyn?, pergunto à mim mesma. Qual o problema? Tenho só 21 anos — 22 dentro de um mês — e posso muito bem ficar sem me rebocar enquanto ainda tenho a juventude ao meu favor.
E eu sou linda de qualquer forma; não preciso me esconder.
Não preciso me esconder.
Respiro o ar profundamente e então saio pela a porta e a tranco assim que estou do lado de fora. Pego o elevador do prédio, que faz um barulho meio esquisito enquanto se movimenta, e assim que passo pela a portaria encontro o táxi que havia chamado alguns minutos antes do meu celular apitar. A cidade, como sempre, está agitada, parece que nunca dorme e que as pessoas estão sempre às pressas. Enquanto o motorista me levava ao campus da universidade onde Micaela estuda, aproveito para tentar me concentrar nas matérias que havia estudado nesse meio tempo, mas a todo momento, o rosto de Kile aparecia na minha mente, fazendo com que eu me perdesse completamente no objetivo principal.
De repente, lembrar do único cara que me fez sentir alguma coisa real era mais importante. E eu deixei ele sair de perto de mim porque, por mais que eu diga que o idiota é ele, eu devo ser mais. Qual o meu problema? Sério. Qual é? Teve uma época em que era legal ser orgulhosa, me dava a impressão de superioridade, mas agora está apenas me fazendo sentir mal. Decerto, agora que eu não estou mais lá, Manoela finalmente tenha coragem de dar em cima dele. Um dia antes de eu viajar pra Nova Iorque, a garota me dissera que eles estudaram juntos no colégio e que ela o conhecia já há muito tempo. Que eu não fazia o tipo dele e era natural que o namoro não tivesse durado muito. Na hora, eu não soube muito bem o que dizer, mas no fundo, acredito que seja a realidade; ela deveria se enquadrar melhor no que ele procurava e, naquele mesmo dia, a convidei para ir ao salão de beleza comigo. Relaxamos e definimos os cachos do cabelo dela, e o corte agora era moderno... deixei algumas roupas minhas com ela e compramos outras novas... Manoela sempre foi tímida, mas não posso ser hipócrita e dizer que foi esse o motivo de nós duas não termos feito algum tipo de amizade neste período em que convivemos quase que diariamente. Não, não mesmo. Não fiz porque não queria, não fazia questão; e, pra ser bem sincera, não sei o que me deu quando decidi ajudá-la a dar uma repaginada no visual. Estava entregando ela de bandeja pro Kile, e a garota parecia agradecida por isso... ; durante todas as horas em que passamos juntas, a conversa se baseou basicamente em estudos. E tipo, tudo bem que ela fosse CDF, tudo bem... mas eu ainda não fazia questão de ter uma amizade com ela, já que não tínhamos assunto em comum.
Não sou burra, todo mundo sabe que sou foda, mas mesmo assim, acho outros assuntos mais interessantes, tipo alguns lançamentos de moda que tia May lançaria em Milão dentro de alguns dias. Tentei puxar assunto com ela sobre isso, mas não rolou. Me olhou com uma expressão de paisagem, até que minha voz foi sumindo, e a minha animação foi substituída por um tédio maroto.
Quando finalmente terminamos, e Manoela estava com um sorriso do tamanho do campus todo, com seu vestido negro e marcado na cintura, uma sapatilha delicada — ela não sabia andar de salto -, com um cabelo divoso, e uma maquiagem pesada, a garota me perguntou:
—Acha que Kile irá gostar do meu novo estilo? — E então deslizou suas mãos finas e curtas pelo o tecido aveludado que vestia.
—Você está linda, se não gostar, é porque é cego — murmurei, meio pensativa, me dando conta de algo importante: por mais bonita que Manoela fosse, ela nunca seria eu. Abro um sorriso de lado, pego meus óculos Ray Ban e os coloco no rosto, já me dirigindo á porta. — Até mais Manoela, e... — paro e lhe olho por sobre o ombro — Vamos ver quem ele irá preferir — e saí.
Sou mais eu do que ela.
Foi divertido. Mas, no fundo, não tinha tanta certeza assim se ele iria realmente preferir à mim. Na verdade, não sabia nem mesmo se ele não acharia outra piranha pelo o campus, que não tivesse nada a ver comigo e nem com Manoela.
Volto minha atenção ao presente somente quando preciso pagar o taxista. O campus de Nova Iorque é, aparentemente, tão grande quanto ao da Espanha, porém há menos árvores pelo o que pude perceber e a secretária ficava logo após os portões. Há vários papéis colados nas paredes com nomes em ordem alfabética, e demoro alguns segundos antes de encontrar o meu. Uma menina com uma camisa com seu nome — Alana — me aborda, entregando um folheto com um mapa bastante simples do lugar. Após identificar a minha sala — 255, segundo andar do prédio 1A — dou uma olhada com mais afinco nas informações. Se não me engano, é só seguir reto e dobrar à direita; e assim eu fiz.
O prédio é simples, cinza, e em sua entrada há um '1A' enorme e pintado com um dourado reluzente. O campus está apinhado de gente, e então preciso subir as escadas lentamente, já que as pessoas que estão na minha frente parecem umas tartarugas a beira da morte de tão lentas, o que me faz acabar bufando baixinho enquanto sigo o fluxo devagar demais para o meu gosto. A sala é mais ou menos do tamanho das que eu já estava acostumada na Espanha, com as cadeiras de couro escuro e as mesas de algum material claro e resistente. Talvez a maior diferença, é que lá as janelas eram muito altas e mal dava para enxergar o pátio estando sentada, e aqui elas são mais baixas e acessíveis.
Me sento na última carteira, e quando todos pareciam estar acomodados, uma senhora com cabelos tingidos de vermelho e um coque no alto da cabeça, começou a ir de mesa em mesa com uma folha — acredito que seja uma chamada — e pedindo para deixarmos as nossas carteiras de identidade em cima do tampo.
E seja o que Deus quiser.
Micaela chegou uma hora depois de mim em casa. Ela me olha esparramada no sofá e, depois de largar suas coisas no chão, ela vem praticamente saltitante até mim.
—E aí? Você foi incrivelmente bem? — Pergunta ao se jogar ao meu lado, uma de suas pernas no meu colo.
—Não sei, mas espero que sim — digo, hesitante.
—Você vai conseguir. Quando sai o resultado?
—No final do mês, mais ou menos.
Micaela segura minha cabeça com as duas mãos de uma forma um tanto dramática, e então me dá um beijo em cada bochecha.
—Sua linda, vou sair hoje com o Josafah... espero que não se importe de jantar sozinha — e aí pisca seus olhos enormes pra mim, me lembrando o gato de O Gato de Botas.
Dou de ombros.
—Não me importo, só porque você tem um namorado que ama e eu não, não quer dizer que vou ficar empacando a sua vida — resmungo enquanto tento disfarçar minha frustração (que não é porque ela vai sair, e sim, porque... não sei, mas a tinha a ver com o Kile... ultimamente, sempre tem) ao olhar a tela do meu celular.
—Vocês eram tããããããão fofinhos, porque não liga pra ele? — Questiona, provavelmente se referindo ao Kile.
—Porque... ele merece alguém melhor que eu. E ele não gosta de mim, e só de pensar que estou apaixonada por um cara que não gosta de mim o suficiente, me dá vontade de morrer. Eu? Eadlyn Schreave? Não sendo correspondida? Isso é o fim dos tempos.
Micaela fica me olhando com uma expressão engraçada no rosto, até que seus olhos se arregalam e seu sorriso se transforma no sorriso do Coringa.
—AI. MEU.DEUS. Você disse a palavrinha mágica! OWN, MEU DEUS! — Exaltou-se ela ao se levantar e colar as duas mãos uma na outra e então dar um giro em torno do próprio eixo.
Olho pra ela com cara de paisagem.
—Hã?
—Você disse a palavra "apaixonada".
—Ah — foi o que meu cérebro mandou eu dizer. Até porque, eu não tinha nada melhor que isso pra falar.
Iria negar? Não, porque é verdade.
Foda-se. Tô apaixonada mesmo, que que tem?
Viu, Kile. Eu tenho um coração, sim.
—Isso é tããããããão lindo — ela murmura e então suspira encantada.
Franzo o cenho.
—Um sentimento que não é recíproco? — Cruzo os braços. — Realmente, lindo demais. Lindo pra caralho, né?
Micaela sacode seus cabelos ainda mais roxos do que antes.
—Liga pra ele... por favor! Liga, liga, liga!
—Não — falo.
Ela faz beicinho.
—Tá, então liga só pra dizer que abriu as inscrições de um concurso de música aqui em Nova Iorque e que ele deveria se inscrever.
Descruzo os braços e me inclino pra frente, agora interessada.
—Sério? E como que faz?
—Não sei muito bem, foi o Josafah que me contou... mas parece que precisa enviar os dados dele pelo o site e mandar um vídeo dele cantando e tal. Se não me engano, é pelo o site HitMusics.
—Interessante — comento, pensativa.
—Por favor, liga pra ele — Micaela pede, caminhando de costas até o seu quarto e com as mãos em forma de prece, me olhando pidona. — Por favor, pensa com carinho.
Abro um sorriso vago.
—Tudo bem.
Ela bateu palmas e ergueu o dedo polegar pra mim, contente, antes de sumir para dentro do quarto. Meia hora mais tarde, eu já me encontrava sozinha no apartamento médio que minha amiga— eu decidi que posso chamá-la assim — estava tão solicitamente dividindo comigo. Meu notebook está ligado ao meu colo, com a página inicial da Google me encarando. O celular está na minha mão, e o dedo de digitar o número de Kile está coçando, mas... no fundo, eu sabia que não iria adiantar. O Woodwork deixaria a oportunidade passar e teimaria em continuar Arquitetura, mesmo que estivesse claro pra mim que seu coração batia mesmo era para a música. Saio da agenda, e vou direto para a galeria, achando rapidamente o que estou procurando. Um vídeo dele cantando enquanto estávamos na França que gravei para guardar de recordação da nossa viagem. Mais para baixo, há uma foto dele no avião.
Seu cabelo está completamente bagunçado e os lábios estão entreabertos, os óculos tortos no rosto. Fotografei quando estávamos indo apresentá-lo para os meus pais pela a primeira vez.
Sorrio.
De repente decidida, largo meu notebook em cima do sofá e vou até minhas coisas procurar a cópia do contrato que Marcus havia me dado no início disso tudo, onde consta nosso CPF e RG e demais informações importantes, e meu cabo USB em baixo da cama. Ao voltar pra sala, passo o vídeo para o note e, em seguida, abro a página do site e começo a inscrevê-lo.
Não custa nada tentar.
Mais ou menos um mês depois, estou em frente á tela do computador, meu coração está saindo pela a boca. A resposta se eu havia sido aprovada ou não, está a apenas um clique de distância. Engulo em seco. Estou meio que infartando quando o meu celular começa a tocar — a música Snuff da Slipknot -, me tirando do meu estresse pré-resultado. É número confidencial e não pude evitar do meu coração acelerar dentro do peito... sendo assaltada pela a possibilidade — mesmo que remota — de que pudesse ser o Woodwork.
—Alô? — Atendo, minha voz soando um pouco engasgada.
O meu sorriso é grande.
—Alô? — A outra voz diz. — É você belezura?
E, conforme a ficha ia caindo, me dou conta de quem realmente é do lado oposto da linha.
—Ah... oi, Marcus. Como você está?
—Estou bem, e você? — Indaga enquanto mastiga algo, talvez um chiclete.
—Bem — me limito a dizer.
—Hum... então, você já deve imaginar o motivo da minha ligação, né, belezura?
Desvio o olhar para a janela do carro.
—É, talvez.
Marcus solta uma risada, e eu reviro os olhos.
—Fiquei sabendo que Kile te liberou do contrato, meus pesâmes — murmura, e eu faço uma careta.
—Meus pesâmes por quê??- Quero saber, minha voz meio irritada.
Há alguns segundos de silêncio.
—Não sei... não tinha nada melhor pra dizer — responde.
Bufo.
—Tá, e o que que você quer mesmo?
—Dizer que estou te enviando um contrato pra você assinar, dizendo que está ciente do seu liberamento e tal. Deve chegar aí entre hoje e amanhã. Você deve me enviar ele de volta em seguida, tudo bem?
Ah, sim... outro dos documentos mal feitos de Marcus.
—Ok.
Silêncio.
—Ok... — digo novamente. — Tchau.
—Até mais, lindeza — e desliga.
E eu ainda estou irritada. Não por causa de Marcus, mas porque não era Kile. Me levanto, decidindo protelar mais um pouco antes de ver o resultado. Pretendia adiar no máximo uns 5 minutos, mas de repente decidi cozinhar — o que não deu certo, então tive que pedir uma pizza. O cara demorou uns 20 minutos pra chegar... comi vagarosamente, e ainda lavei a louça depois. Varri o chão, tirei o pó, arrumei minha cama — milagre — e então fui tomar um banho.
Quando eu não tinha mais o que fazer e seria obrigada a me conformar com o meu fracasso — caso tenha sido reprovada no vestibular -, ou com a minha alegria — caso tenha sido aprovada -, me obrigo a sentar mais uma vez á escrivaninha; clico no link que dizia 'lista de aprovados' e assim que a imagem carregou diante dos meus olhos, meu celular tocou novamente. Olho para a tela, e é o número de Kile. Me falta o ar por alguns segundos e então atendo, meio afobada:
—Kile? — Eu chamo, surpresa; há um silêncio, e então minha animação morre um pouco. — Kile? Alô?
—Ah... oi, Eadlyn... como você está? — Indaga, parecendo sem jeito.
—Estou... — mal. — Estou bem e você?
—Estou indo. Fiquei sabendo que você fez o vestibular pra Moda... e aí, conseguiu?
—Na verdade, estou em frente ao resultado mas não consegui ver ainda... na realidade, estou com medo de não ter conseguido — confesso.
—Você é inteligente, e mesmo que não tenha conseguido agora, na próxima irá conseguir. Fato.
—Eu sei que sou inteligente — retruco.
Kile riu.
—Sim, claro que sabe... e então, o que está esperando pra ver o resultado?
—Não sei... só... queria conversar com você um pouco.
—Eu faço falta na sua vida, não é? — Pergunta em um tom debochado.
—Engraçadinho — e bufo.
—Então... só queria saber sobre isso mesmo... vou... ahn... desligar aqui, sabe... as aulas logo vão começar, estou no intervalo.
Não, Kile! Fica mais, por favor, fica mais!
—Tudo bem... a gente se fala, então — eu digo, incapaz de esconder que fiquei chateada.
—Tchau — murmura, hestitante; mas mesmo assim desligou.
Se eu pudesse voltar atrás, teria tentado conquistar o Kile ao invés de tentar fazê-lo me odiar.
Decido ir comer alguma coisinha antes de ver o resultado. Vou até a cozinha e preparo um café pra mim, e assim que termino de tomar todo ele lentamente — todo o processo levou uns 15 minutos -, volto para o quarto e nem me sento na cadeira. Ponho minhas mãos na mesinha e me inclino para a frente, corro os meus olhos para baixo e, quando enxergo um nome ali sou incapaz de controlar as lágrimas que começaram a correr pelo o meu rosto como uma cachoeira.
Eadlyn Singer Calix Schreave.
Me sento no chão, tapando o rosto com as mãos, eu não sabia que iria ser tão emocionante. Eu estou me sentindo tão... alíviada, não sei explicar, mas essa vontade de chorar não passa!
O celular toca novamente e dessa vez, esqueço de olhar no identificador de chamadas.
—Eadlyn? — É voz de Kile.
—Oi, Kile — eu digo, minha voz não passava de um sussurro. — Kile, eu passei — digo, antes de voltar a chorar novamente.
Aquilo significava muito pra mim, era a comprovação final de que eu já não era mais como antes, de que agora iria seguir minha vida de acordo com o que eu acreditava que era capaz de fazer. Era o capítulo final de um livro longo demais, importante sim, mas que poderia ficar na prateleira a partir de agora.
Ele fica em silêncio por um momento, e quando voltou a falar, sua voz também parecia um pouco embargada.
—Estou feliz por você, muito mesmo — ele diz. — Eadlyn, você é incrível.
Solto uma risada misturada com choro.
—Eu sei — fungo ao deslizar minha mão livre pelo o rosto, tentanto secar as lágrimas. — Esqueceu de me dizer algo? — Pergunto quando o silêncio ficou longo demais.
—Oi?
—Você me ligou de novo — eu o lembro.
—Ah.. não, só quero confirmar uma coisa.
—O quê? — Quero saber, minha voz ainda soando baixa e chorosa.
Kile tinha o dom de me pegar em flagrante na hora do choro, impressionante.
—Um homem me ligou agora pouco, um tal de Richard. Ele disse que minha inscrição foi aceita e que tenho uma audição pra ir amanhã. Você sabe algo a respeito disso? — Pergunta, mas seu tom de voz sugeria que ele já sabia da resposta.
Dou de ombros.
—Talvez.
—Talvez com certeza?
—Com certeza — respondo, agora abrindo um sorriso. — Sabia que você iria conseguir.
—Não devia ter feito isso pelas as minhas costas, cherie— ele repreende.
—Se eu não tivesse feito assim, você não iria se inscrever — afirmo.
Silêncio.
Uma risada baixa vinda dele.
—Tem razão.
—E então, você vai ir, né?
—Não sei...
—Por favor, por mim, Kile — peço, rezando por dentro pra ele dizer que iria.
Mais uma pausa.
—Tá... tudo bem, eu vou.
—Acho bom.
—Que adorável você é — rebate, sorrindo.
Ouço um burburinho no outro lado da linha, e então ele diz:
—Tenho que desligar, a senhora Macfield já chegou. Nos falamos depois, Eadlyn.
—Até mais, Kile, e estou sentindo a sua falta, mas não estou apai... — paro de falar abruptamente. — Kile, eu estou apaixonada por você.
É isso, precisava dizer. Ele é o cara certo pra mim. Eu sou completa em mim mesma, ele é completo em si mesmo. Não precisamos nos completar juntos, porque não há necessidade.
Não é carência, falta de um pedaço de nós mesmos; nós transbordamos um no outro, e não tem sensação melhor do que essa.
Não tem cara melhor do que esse tal de Kile Woodwork.
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