Quem Nós Somos?
3 E - Não tinha como ser pior.
"Então você diz que eu sou complicada
Que eu devo estar fora de mim
Mas você me subestimou
(...) o que há de errado em ser confiante?"
Confident — Demi Lovato
Por Eadlyn Schreave
— Acredito que dessa vez eu tenha. — Murmura Kile, olhando-me com um semi sorriso no rosto, as lentes de seus óculos refletindo a luminosidade que entra através das grandes janelas do corredor. Eu franzo o cenho, me sentindo impaciente, não queria ser vista com ele. Eu tinha uma reputação, e não queria que ela fosse maculada. Quando demoro demais para me mover e ver o que ele então me mostrava, Kile sacudiu o aparelho telefônico diante do meu rosto, seu sorriso esmaeceu um pouco. — Você não quer ver? Tenho certeza que é de seu interesse.
Faço uma careta. Estendo a mão para pegar o celular, mas ele faz uma negativa com a cabeça, dando a entender que eu não poderia pegá-lo. Ele apertou play, e nos primeiros segundos confesso que não compreendi exatamente o que estava acontecendo no vídeo. A resolução estava meio ruim, mas pouco a pouco as coisas começaram a se encaixar, e a lembrança de ontem a tarde tomou os meus olhos.
Arfei, e um segundo depois, com um movimento rápido e preciso, Kile guardou o celular dentro do bolso da sua velha mochila. Velha não, estava caindo ao pedaços.
Abri a boca para falar algo, para xingá-lo, mandá-lo ir para o quinto dos infernos. Mas minha voz não saía. Não saía de jeito algum. Kile Woodwork cruzou seus braços sob o peito, um sorriso malicioso brincava nas extremidades de seus lábios, como se estivesse por cima. É então que me dou conta de como devia estar a minha expressão, e trato de me endireitar. Ajeitei os ombros e vesti minha cara de indiferente que, de tanto que treinei, às vezes chegava a usá-la sem querer.
Desvio o olhar para o lado quando escuto vozes vindo em nossa direção, o som dos passos logo se transformaram em silhuetas conhecidas. Eram Julieta e Louise, as minhas amigas mais próximas, de certa forma. Engulo em seco, Kile vira-se para trás para ver o que havia me chamado a atenção, e seu sorriso apenas se alargou.
Respiro fundo, aquele moleque não sabe com quem está lidando, se pensa que poderá me provocar dessa forma e ficar impune, está muito, muito enganado. As meninas logo focam os olhos em nós dois, seus rostos em um misto de estranheza e divertimento. Graças a Deus estávamos a uma distância não comprometedora um do outro, e elas engoliriam qualquer desculpa que eu desse. Elas sempre acreditavam... ou então fingiam que acreditavam, não importa.
— Eadlyn, pensei que estivesse indo ver Erik. — Observa Julieta, com o seu sotaque americano soando forte, mesmo estando há quase três anos no campus. Com um movimento de mão rápido, coloco minha longa franja para o lado e abro o sorriso mais falsamente glorioso que conseguia.
— Sim, mas Kile me pediu um favor, e eu sou uma boa samaritana, resolvi parar e ouvir.
Louise trocou olhares com Julieta, e então falou:
— Kile? — Sua voz soou um tanto enjoada.
— Algum problema? — Intrometeu-se Kile enquanto ejeitava seus óculos no rosto, que já começava a escorregar pelo o seu nariz.
— Meninas, me encontrem no quarto, logo eu conto pra vocês. Certo? — Me manifestei, sentindo que aquele início de discussão entre eles poderia levar a consequências desagradaveis. Para mim, no caso.
Julieta abriu um sorriso amarelo, estava curiosa, mas ela não era do tipo que me forçaria a contar detalhes da conversa. O problema estava com a Louise, que por sinal me fitava com uma ansiedade que começou a me deixar nervosa.
— Tá bom. — Murmuraram em unissono. Era sempre estranho quando elas respondiam em unissono, porém não era incomum. As meninas partiram em retirada, e eu esperei até que elas estivessem longe o suficiente para finalmente confrontar Kile e saber o que ele estava querendo de mim, afinal de contas.
Cruzo os braços também, largando o peso de uma perna para a outra. Arqueio uma sobrancelha.
— Como você aguenta suas amiguinhas? — Questionou Kile, que logo revirou seus olhos. Fez um sinal com as mãos, dando a entender que não se importava realmente.
— O que você quer? — Perguntei.
— 500 mil dólares. — Respondeu na lata, seu rosto pela a primeira vez sério.
— O quê? — Pisco várias vezes, minhas sobrancelhas franzindo-se. — Você só pode estar brincando. Eu não tenho esse dinheiro todo.
— Mas seu pai não é o governador da Inglaterra? — Retrucou, o sorriso voltando ao seu rosto de pateta.
— Você não está falando sério... Não tenho como bancar isso. Você está brincando, não é? — Indaguei, incapaz de esconder a notinha levemente desesperada que saiu junto com a frase. Me odiei por dentro por estar demonstrando fraqueza para alguém, ainda mais pro Kile. O idiota dos idiotas.
O garoto começa a rir, um riso baixo, contido, mas dava para ver que ele se divertia. Se divertia à minha custa, o maldito.
— Eadlyn, você é menos inteligente do que eu esperava. — Provoca.
Ergui minha mão para lhe presentear com um belo tapa naquela cara debochada, mas ele foi mais rápido do que eu, interceptando-me na metade do caminho, segurando firmemente meu pulso.
— O que foi isso? — Ele quer saber, parecendo surpreso pela a minha reação.
— Como você ousa menosprezar a minha inteligência?
Seu sorriso cretino ressurgiu.
— Você namora com Erik, inteligente você não é.
Bufo alto, tentanto me desvencilhar de seu aperto, mas ele não me libera. Naquela situação, com nós dois próximos demais, qualquer pessoa que passasse pelo o corredor poderia chegar à conclusões que de jeito nenhum seriam benéficas para mim.
— O que você quer? — Pergunto de novo, minha voz fria como gelo.
— Que você namore comigo, durante 6 meses. — Ele ponderou por um tempo, enquanto meu queixo caía, e concluiu: — Caso eu consiga te suportar por tanto tempo, talvez uns 4 meses seja o suficiente.
Fico sem palavras por alguns segundos, Kile finalmente me solta.
— Isso é outra piada? — Eu quis saber, apavorada.
— Não mesmo, cherie.
— Não namoro você nem morta.
— Então espero que você esteja preparada pra ser expulsa da Universidade, e deixar para trás o seu mundinho encantado.
— Você é louco. — Falo, meus olhos com certeza estavam muito abertos.
— E você é uma mimada insuportável, que tem vinte e poucos anos e ainda não sabe o que é a vida real. Acredite, será um desafio pra mim também.
Franzo a testa, colando minhas mãos nas laterais do meu rosto.
— Isso é um sonho, um pesadelo, não está acontecendo.
Kile revirou os olhos.
— Qual é, não sou tão ruim.
— Você não é ruim, você é mais que isso, você é péssimo.
— É isso então? Prefere ser expulsa do que fingir que está namorando comigo?
— Eu jamais — me aproximei mais dele, encarando seus olhos fixamente, — namoraria alguém como você. — Digo, me afastando um pouco para fitá-lo de alto a baixo, fazendo questão de demonstrar desaprovação.
Kile finalmente parecia ter perdido a paciência, o sorriso que via antes, sumiu, parecia que nunca havia estado ali. Seu olhar é tão frio quanto o meu, e eu me senti estranha. Não estava acostumada a alguém me olhando daquele jeito, com desprezo.
— Você é rídicula. Você é a garota mais rídicula que eu já conheci.
— Retire o que disse AGORA.
— Não.
E, como eu estava fora de mim, — não que isso fosse jusiticativa — cuspi no meio da sua testa. E não esperei para ver qual seria a sua reação, apenas virei as costas e parti pisando forte no chão, rumo ao meu quarto, me trancar por lá e nunca mais sair.
Que se dane. Que se dane todo mundo. Que se dane Kile, Erik, o campus, meus estudos e meus pais.
Foda-se.
Durante todo o trajeto até o meu quarto consegui manter a compostura, durante toda a conversa que tive com Julieta e Louise, eu consegui manter a compostura. Cara de paisagem, sorriso bonito, palavras confiantes. Disse à elas que Kile apenas queria dar um recado dos seus tios para mim. Julieta pareceu não se importar realmente com a minha explicação, mas Louise não parava de fazer perguntas idiotas. Ela é idiota, na verdade. E eu também.
No entanto, quando finalmente fiquei sozinha, me dei conta de tudo o que estaria perdendo. E foi ali que a compostura caiu por água abaixo, como a minha pesada maquiagem quando finalmente me colocava embaixo da ducha fria ao final da tarde. Eu sabia que algo poderia dar errado se eu ficasse com o professor, minha intuição dizia, ela gritava, mas eu fui lá e fiz mesmo assim.
Fui lá e quase engoli o professor pra dentro da minha boca. Uma vadia mesmo. Mas eu tinha escolha?
Bom, prefiro acreditar que não.
Suspiro.
Prefiro acreditar que não...
Mas e se...
Não, não. Balanço a cabeça ferozmente e me encaminho em direção ao espelho, onde refletia o meu rosto exatamente como era. Essa sou eu, não é?
E eu estou feliz. Eu sou feliz. Por que o que eu quero, eu posso e eu consigo. Se Kile queria fazer este acordo, tudo bem. Eu consigo.
Na tarde seguinte, avistei Kile sentado junto com um dos amigos dele. Na verdade, acho que aquele era o único amigo dele. Ajeitei o meu vestido, joguei meus cabelos para trás e desfilei pelo o campus em direção à árvore da qual eles desfrutavam da sombra. Vesti minha melhor cara de pau, o meu melhor sorriso sexy. Aquilo deveria servir para ele mudar de ideia.
Espalmo as mãos sobre a mesa de madeira, e levemente úmida, e só Deus pra saber o motivo daquela umidade.
Kile quando me viu não transpareceu nenhuma reação. Apenas cruzou seus braços, e me encarou. O amigo dele, no entanto, não parava de olhar do meu decote para o meu rosto, parecendo extremamente intrigado e confuso.
— Oi, colega... — digo, me dirigindo ao amigo de Kile, minha voz sedosa, meu sorriso encantador. — Poderia, por gentileza, nos deixar a sós por um momento?
O garoto pareceu engasgar com a própria saliva, e eu estaria sendo hipócrita se não dissesse que amava quando conseguia aquele efeito nos rapazes.
— Ele não é o seu colega. — Retruca Kile, o rosto duro, a voz entediada. Faço um certo esforço para não mandá-lo pra longe, e manter o tom e o rosto agradável. Um certo esforço não, MUITO esforço.
— Você pode me chamar do que quiser, belezura. — Flertou o cara, ignorando as palavras de Kile.
— Belezura, Marcus? — O Woodwork revirou os olhos e franziu o cenho. — Pelo o amor de Deus, saía daqui antes que eu te amordace pra não sair mais nenhuma merda da sua boca. Eadlyn deve ter algo muito interessante pra me dizer. — Agora seu olhar voltou-se pra mim, e um sorrisinho começava a brincar em seus lábios.
Marcus pareceu mais confuso do que antes, mas então levantou-se e me lançou uma piscadinha. Me contive para não fazer uma careta, e apenas sorri. Depois lançou um sorriso malicioso para Kile, e eu senti vontade de vomitar.
Assim que ele se afastou o suficiente, me sento no seu lugar e finalmente me sinto à vontade para trazer a tona minha cara de nojo, aquela que eu dedicava a quando eu olhava para algo desagradável, ou quando tinha alguma situação desagradável para enfrentar. Bem, naquela momento, poderia dizer que era uma cara de nojo ao dobro.
— O que quer? — Questiona Kile rispidamente.
— Eu aceito. — Digo simplesmente.
— Aceita o quê?
— Você sabe. — Estreito os olhos.
— Diz, quero ouvir da sua boca. — Provoca, uma de suas sobrancelhas se arqueou.
Trinco a mandíbula.
— Aceito namorar com você de MENTIRINHA.
A expressão de Kile era de superioridade. Argh, era eu que devia estar a olhar para ele desta forma, e não o contrário.
— E o que mais?
— O que mais o quê? — Retruco, entediada. Kile coça a lateral de seu rosto, causando um barulho alto por conta da barba que começava a crescer.
— Peça desculpa.
— Pelo... ?
— Não acredito que a sua memória seja tão ruim assim, cherie.
Respiro profundamente e desvio o olhar.
— Me desculpe. — Respondo sem vontade.
O sorriso de Kile alargou-se pelo o seu rosto inteiro.
— Pelo o quê? — Cutucou.
— É sério isso? — Retruco, começando a ficar indignada. Talvez tivesse sido melhor eu ter a minha reputação manchada do que estar passando por isso.
— Sim, muito sério.
Suspiro.
— Por ter cuspido na sua testa. — Um pequeno sorriso surgiu no meu rosto, enquanto eu o erguia minimamente. Kile estreitou os olhos por um segundo, mas ele parecia satisfeito demais para levar em conta a provocação.
— Temos um acordo, então? — Pergunta.
— Temos um acordo, woodwork. — Ele está prestes a murmurar algo, mas eu o corto. — Mas... , tenho uma condição.
— Acredito que você não esteja com vantagem o suficiente para me trazer condições, Eadlyn. — Observa, agora arqueando as duas sobrancelhas.
— Não é nada demais, só quero dar um trato no seu visual, não te custa nada. Não posso andar por aí com um namorado que se veste assim. — Falo ao gesticular para a sua pessoa.
— Não vejo problema nenhum com o meu visual. — Responde, meio ofendido.
Olho minhas unhas vermelhas antes de fitá-lo novamente.
— Precisamos aumentar o grau de suas lentes, então.
— HAHAHAHA, como você é engraçada.
— É sério, não custa nada.
— Então você liga agora para o Erik, e termina com ele.
Franzo o cenho, eu estava desconfiada que aquilo era uma vingança não contra mim, mas contra Erik. Agora tinha certeza.
— Isso não tem a ver comigo, mas sim com Erik, não é? — Confirmo em voz alta, inclinando a cabeça levemente para o lado.
Kile dá de ombros.
— Não vou com a sua cara, mas não tenho nada contra você. — Kile desliza as mãos pelo o seu cabelo, desviando o olhar para algum lugar distante, em um ponto além de minhas costas. — Mas odeio o Erik, e posso estar sendo um baita canalha agora, usando você para atingi-lo, é verdade. Só que eu seria um idiota se não usasse a oportunidade que o destino me deu de me vingar daquele cretino.
— Meio infantil, mas como você bem observou, eu não estou em condições de dar palpite. Se eu ligar agora, você aceita que eu te dê uma repaginada? — Indago, a esperança da possibilidade de não ter a imagem decaída batento à minha porta.
Kile pensa por um momento, seu sorriso era levemente malicioso.
— Tudo bem. Ligue agora e deixei no viva-voz. — Seu sorriso alargou-se.
Tiro o celular imediatamente da bolsa. Eu gostava de Erik, gostava mesmo, mas... no caso, eu gostava mais é de mim mesma. E sabia que com ele era a mesma coisa, seu ego seria ferido agora, e Kile não tem noção em como ele acertou em cheio na forma de se vingar. Fora ousado, e corajoso, não podia negar.
Mas eu não podia deixar com que ele me manipulasse, teria que manipulá-lo primeiro.
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