Quem é ela?

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Fiquei muito tempo sem postar (literalmente anos) e agora estou de volta não com fanfics, mas com histórias originais.

QUEM É ELA?

Adentrou a sala de conferências como quem caminha para a forca. Um pé na frente do outro se obrigou a avançar em direção àquelas pessoas que, para outros, pareciam encará-la com ansiedade e talvez até mesmo desejo por ouvir suas palavras, mas para ela não passava de um monte de lobos à espera com suas presas enormes.

O fato é que dezenas – ou uma centena completa – de rostos jovens esperavam por ela; alguns indiferentes, outros desafiadores como se esperassem apenas uma brecha para fazê-la escorregar e, apenas uns poucos, pareciam realmente interessados.

O salão, embora não fosse realmente grande, comportava três grandes grupos de assentos, entrecortados por fileiras para dar passagem para os palestrantes e, mesmo com o ar-condicionado ligado no máximo, estava quente como o inferno ali. Não havia uma única cadeira vazia, o que era bastante incomum, e aquilo deixou Antônia – Toni, para o avô e os poucos amigos que tinha — ainda mais nervosa, então acabou apenas parada em um canto, não sabia se desejava que o tempo corresse mais rápido para que se visse livre de uma vez, ou se preferia ter mais tempo para se preparar.

Para começar, não sabia bem porque aceitou o convite para palestrar. Vivia feliz como uma traça atrás das páginas amareladas dos livros por um bom motivo, não era lá dada a convenções sociais. Toni era uma alma velha em um corpo jovem.

A maioria era jovem, ainda mais do que ela, e isso não havia como negar, estudantes universitários loucos para deixarem aquele salão sem graça e irem à alguma festa da vez; alguns caras e garotas bonitos o suficiente para intimidar, a turma popular da faculdade, aqueles que gostavam de misturar bebida e aventura. Que Deus os tenha quando a situação apertar. Mas o que chamou sua atenção foi a primeira fileira de cadeiras estar cheia de pessoas mais velhas e até alguns jovens com roupas antiquadas, Toni teve certeza que alguns tinham idade o suficiente para serem avós.

Provavelmente professores, membros da diretoria e seus filhos tão desajustados quanto eu, pensou consigo mesma.

Um senhor de sorriso simpático, que pareceu perceber seu interesse, acenou para ela e Toni retribuiu, sorrindo de volta quando o mesmo se levantou e andou até ela com a mesma destreza que qualquer um daqueles jovens faria.

— Nervosa? — perguntou bondosamente.

— Um pouco – admitiu.

— Não há motivos para isso, apenas vá lá e mostre para esses garotos o que veio fazer aqui – ele riu baixinho como um velho travesso – Vai dar tudo certo.

— Espero que sim.

— Oh, vai sim, confie nesse velho que já viu de tudo nessa vida – fez uma pausa enquanto olhava para os estudantes – Você nasceu aqui?

— Não…

— Ora, me desculpe à intromissão. Mania de gente de cidade pequena, sempre querendo saber se conheceu um avô ou parente próximo.

— Venho de longe – respondeu simplesmente – Só tenho um avô, nenhuma outra família.

— Hum… E posso perguntar qual o tema da sua palestra?

— Fotografias Post Mortem, a cultura envolvida na prática que foi idealizada no século XVII – mostrou a pasta que trazia consigo – Me considero apenas uma entusiasta na área, mas o coordenador achou que seria bom transmitir algum conteúdo para os alunos.

— Sempre vale a pena tentar enfiar alguma coisa nessas cabeças ocas. Vai ser supimpa, como diria meu neto.

Toni refreou a vontade de rir. O neto daquele senhor usava a expressão “supimpa”? Difícil acreditar. Ele por outro lado, com o terno antiquadamente cortado à moda antiga... Provavelmente o pobre senhor estava se projetando no neto, sem muita noção do que dizia.

— É um dos caminhos menos gloriosos para um historiador – admitiu — mas eu gosto muito.

O senhor sorriu novamente, era daqueles que parecia viver de bem com a vida e que aceitava a velhice como ela tinha que ser, era bondoso e um tanto quanto diferente das pessoas ranzinzas que ela encontrava todos os dias. Para Toni, a foto daquele senhor merecia estar ao lado da palavra “avô” no dicionário, mais até do que o dela.

— Um tanto mórbido, tenho que admitir – ponderou ele – Para uma moça como você…

— Não sou assim tão jovem, pelo menos não mais do que eles.

— Uns cabeças ocas – resmungou sem perder o tom brincalhão – Mas ainda assim, o futuro de nossa nação.

— Espero passar algum conhecimento pra eles – ela já se sentia estranhamente à vontade – Mesmo que seja mórbido.

O velho sorriu, pela primeira vez, e além da bondade seus olhos traziam algo mais, assim como uma criança que faz uma travessura escondida dos pais e regozija-se internamente por não ter sido pega.

— Você não é como as outras moças, não mesmo. Por isso vou te dizer uma coisa – ele se aproximou um pouco mais e cochichou – Sabia que em algumas culturas a primeira fileira de qualquer evento é reservada para os mortos? Ninguém se senta lá – e apontou para as cadeiras ocupadas – E é uma tradição levada muito à sério em alguns lugares.

— Eu não tinha ideia – ajeitou os óculos sobre o nariz, um costume antigo – Não sabia disso.

— Agora sabe. É considerada uma falta de respeito enorme sentar-se na primeira fileira, pois é reservada para aqueles que já partiram e vem matar as saudades dos vivos.

— Então por que...

Um leve toque no ombro a assustou como o inferno e, dando as costas para o senhor que lhe falava com tanta simpatia, deu de cara com um os alunos responsáveis por ajudar os palestrantes quando preciso. O rapaz apenas murmurou que era sua vez e lhe entregou o microfone antes de sair quase correndo.

— Me desculpe, preciso ir... – ela gesticulou em direção ao púlpito, onde o palestrante se despedia – Meu nome é Toni e o seu é?

— Muito prazer Toni – o senhor lhe deu dois tapinhas nas costas – Vai se sair bem.

Saiu sem dizer qualquer outra palavra e sentou-se em seu lugar ao lado dos demais na primeira fileira. Toni apenas balançou a cabeça, realmente era um velhinho tão gentil e agradável quanto era maluco, mas não teve tempo de pensar no assunto, logo seu nome foi chamado e ela se aproximou do pequeno espaço que lhe era reservado e agradeceu quando o jovem do microfone voltou com o controle para o projetor.

— Boa noite, meu nome é Antônia Nogueira Silva e estou aqui para falar sobre a cultura das fotografias Post Mortem – respirou fundo tentando acalmar as batidas de seu coração, na plateia pode ver o senhorzinho lhe acenando – Sou recém-formada e escolhi esse tema para um trabalho de pesquisa e, apesar de pouco ortodoxo nos dias de hoje, o costume de fotografar os mortos já foi amplamente difundido na Europa no século XIX. Alguns historiadores afirmam que a Rainha Vitória, da Inglaterra, foi a primeira a encomendar uma foto de um ente querido após sua morte com o objeto de atuar o sofrimento do luto, e assim as famílias mais abastadas seguiram o exemplo.

Ela ligou o projetor e mostrou a primeira foto:

— Aqui, podemos ver uma mãe segurando sua filhoarecém-falecido. Lembrem-se bem que fotografar alguém não era algo banal como nos dias de hoje, e como custava caro a maioria das fotos era tirada após a morte num gesto de amor para recordar o ente querido. Outro fator importante a ser levado m conta era o índice de mortalidade infantil: na Era Vitoriana, 57 em cada 100 crianças não atingiam a idade de cinco anos. Esse tipo de foto, como se o falecido dormisse tranquilamente, recebeu o nome de “O último sono”.

Passou para a foto seguinte.

— Nesse tipo de técnica, os olhos eram pintados sobre as pálpebras para dar a impressão de vida. Maquiagem e retoques após a revelação da fotografia também ajudam no processo, assim tinha-se a impressão de que a fotografia havia sido feito ainda durante a vida.

— Na primeira foto a garotinha tem o braço do irmão morto sobre seu ombro, pode-se notar a rigidez e seus músculos e o olhar apreensivo em seu rosto, claramente aterrorizada com a experiência – em toda a sala não se dizia um pio, todos encaravam as fotografias como algo assustador, macabro até – Na segunda imagem é moça em pé que está morta. Conseguem ver as mãos inchadas e mais escuras? Isso é o rigor mortis, o sangue se acumula nos membros por falta de batimentos cardíacos e os músculos ficam rígidos.

— Pai e mãe tiram foto ao lado de filha recém-falecida. Para fazer o corpo ter aparência vívida, além da pintura de pálpebras, também se utilizava forte maquiagem. Percebam que a falecida aparenta estar com a face corada – explicou – Esse estilo era conhecido como “morto, porém vivo”. O índice de mortalidade era alto mesmo entre adultos, a expectativa de vida era baixa e bastava que uma doença como a tuberculose se espalhasse para ceifar a vida de centenas de pessoas.

Decidindo que havia mostrado o bastante e que era hora de falar um pouco mais, aprofundou-se na explicação psicológica e histórica do marco na Era Vitoriana, em como o costume espalhou-se para outros países e até mesmo o Brasil. Ao final recebeu palmas tímidas e sombrias, assim como o tema de suas pesquisas.

Deu lugar ao próximo palestrante que ainda se preparava. Os jovens estudantes não voltaram a conversar como haviam feito antes, decerto ainda chocados pela exposição.

O senhorzinho levantou-se de seu lugar e foi até ela com um sorriso no rosto.

— Eu disse que você ia se sair bem – ele lhe deu um tapinha no ombro – Não precisava ficar nervosa.

— Acho que não – ela riu baixinho – Mas realmente preciso ir, estou exausta e preciso descansar antes de pegar a estrada amanhã.

— Claro que sim, então isso é um adeus – fez uma pequena mesura como se estendesse seu chapéu imaginário e deu meia volta, mas se virou depois de alguns passos: — Foi um prazer, Toni.

— Igualmente, senhor...

— Adeus.

O homem lhe virou as costas e saiu, mais uma vez, sem proferir seu nome. Toni eu de ombros, sabendo muito bem como eram alguns idosos mesmo que simpático como aquele. Saiu do salão mais leve do que havia entrado, com um sorriso nos lábios e o coração tranquilo. Sequer se deu conta dos comentários às suas costas.

Lá dentro, todas as cadeiras ocupadas, exceto as da primeira fileira que eram especialmente reservadas, os alunos cochichavam sobre quem era aquela maluca que conversava sozinha.

Notas finais
Me deixe saber o que acharam!

XOXO

Arwen
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!