Quem é ela?
1 Capítulo Único
Notas iniciais

≈
Poema, sonhos, versos, contos de amor
Cantigas e cirandas são pra ela
Até o sol aqui se demorou
Porque também se apaixonou por ela
Quem é ela?
Não sei ao certo quando começou.
Talvez no momento em que o vento mudou de sentido, trazendo o aroma da primavera ao meu nariz e me fazendo suspirar perante aquele cheiro adocicado. Ou ainda quando meus olhos curiosos se desviaram sem minha permissão até sua silhueta ao longe, que andava a passos ligeiros e delicados, um sorriso pungente iluminando seu rosto e os cabelos fluindo ao seu redor como uma cascata negra. Eu tinha certeza de que todos naquele salão se viraram para admirá-la, pois era inevitável. Cada qual estampava uma estranha expressão no rosto, provavelmente fazendo a mesma pergunta que rondava minha mente naquele momento:
Quem é ela?
Eu conhecia todas as pessoas daquela cidade pequena, assim como todos me conheciam. A população não passava de 4.000 habitantes; por isso, os cochichos foram instantâneos, cada qual tentando descobrir a origem daquela linda mulher. Eu podia ouvir alguns dos comentários, principalmente os da ala masculina, especulando sobre quesitos que eu prefiro não comentar já que prezo pelo esquecimento, uma vez que nada naquele rosto exótico e deslumbrante demonstrava o mínimo da malícia necessária para torná-lo alvo das fantasias mais variadas na mente dos homens dali.
Ela passava despreocupada por todos, cumprimentando algumas pessoas que se interpunham em seu caminho, mas não dando abertura suficiente para que se aproximassem. Notei que os olhos de alguém em particular se encheram de alegria e reconhecimento quando se fixaram em sua pele morena, e não pude acreditar quando soube de quem se tratava, afinal.
Abe Mazur, o fazendeiro mais rico da região – e também o meu patrão – abriu caminho por entre a multidão e a passos rápidos a tomou em seus braços, abraçando a moça como se não a visse há muito tempo. De fato, foi um choque perceber tão de repente o que os anos impiedosos são capazes de fazer com as pessoas. Parecia que ontem mesmo eu estava ajudando meu pai com os cavalos enquanto observava a garotinha de cabelos esvoaçantes brincando com seus amigos no jardim, meu corpo coçando de vontade de me juntar a eles – e não por falta de pedidos de sua parte. Porém, meu pai era rígido e restrito no quesito “relação entre patrões e empregados”, e eu me via obrigado a baixar a cabeça para voltar ao trabalho.
Por isso, eu os observava de longe, espreitando seus movimentos como uma sombra apenas para admirá-la; mais tarde, quando ela já não nutria mais um amor platônico por suas bonecas e surgia no jardim apenas para averiguar nosso trabalho, como quem não quer nada. Meus hormônios estavam a mil naquela época, e apenas por observar seu corpo lentamente se modelando, na óbvia e inevitável transição de menina para mulher, já me sentia enlouquecer. Lembrava-me de perder noites e noites de sono, apenas a imaginando em meus braços, totalmente entregue. As coisas apenas pioraram quando eu a peguei, sem querer, tomando banho no lago da fazenda. Seu corpo nu brilhava sob o luar da noite quente de verão, meus olhos não conseguindo deixar o contorno de seus quadris e seios em movimento na água.
Eu teimava em dizer a mim mesmo para esquecê-la. Ela era a filha do meu patrão e eu, seu empregado, alguém que ela jamais olharia. Porém, minha mente teimava, afirmando que imaginar uma situação não era o mesmo que vivenciá-la e, embora isso corroesse meu coração, eu me deixava iludir pelo pensamento. Pouco a pouco, nós crescemos, até que estivéssemos no pico do amadurecimento. Eu era um pouco mais velho que ela, mas jamais consegui me preocupar o suficiente com isso, pois a recordação de que ela um dia também atingiria o nível de minha maturidade era como o consolo restante que minha agonia precisava.
Entretanto, isso não bastou.
Claro, eu sabia que ela atraía atenção de todos os pretendentes da cidade. Com apenas dezesseis anos, os olhares cobiçosos de muitos rapazes não a perdoavam, como se ela tivesse culpa de ser tão insuportavelmente atraente. Adrian Ivashkov, o sobrinho-neto adotivo de Tatiana, uma grande parceira de negócios de Abe, que o adotara quando seus pais morreram em um acidente, fora o único capaz de se infiltrar lentamente pelas barreiras severas de seu pai e conseguir sua preciosa mão. Eles namoraram durante um ano. Todos pareciam certos de que aquele romance renderia frutos – principalmente financeiros, já que havia duas partes extremamente interessadas naquele matrimônio – e os dois se casariam quando atingissem a idade ideal. Confesso que eu mesmo tinha minhas próprias apostas sobre o relacionamento, mas as brigas que eu presenciava perto do celeiro ou mesmo atrás da mansão me diziam o contrário.
Adrian sempre gostara de bebidas e muitas mulheres. Sua fama não era nada boa na cidade, mas ele parecia sossegado depois de ter conseguido o que muitos queriam. Ele andava de um lado a outro, mostrando a namorada como se ela fosse uma espécie de troféu, principalmente na minha frente. Era realmente estranho como ele parecia saber exatamente quais eram os meus verdadeiros sentimentos em relação a ela, demonstrando sorrisos arrogantes ou olhares superiores sempre que me via, como se quisesse esfregar na minha cara que eu jamais seria capaz de encostar um dedo sequer em sua pele delicada.
Aquilo mudou depois de um tempo, no entanto.
Uma briga particularmente tenebrosa se desenrolou entre os dois, o que envolveu uma série de insultos e uma quase agressão física. Os dois encerraram seu relacionamento de supetão. Ninguém na cidade pareceu acreditar, mas ela foi livrada dos comentários maldosos, uma vez que os boatos chegaram aos ouvidos do povo fofoqueiro somente depois que o trem da estação a levou para longe rumo à capital. Seu pai insistiu que ela espairecesse e esfriasse a cabeça antes de fazer qualquer besteira, e isso, somado ao fato de que ela estudaria veterinária na Universidade do Texas, garantiram um período de cinco anos longe de tudo.
Fora difícil no começo. Eu estava acostumado demais a acordar pela manhã antes do horário e observar sua ida até a janela de seu quarto, a camisola leve sobre seu corpo cobrindo apenas o essencial, enquanto ela observava o nascer do sol. As suas cavalgadas pela fazenda a qualquer período do dia que fosse livre. Ou os passeios que dava com seu pai ou sua mãe, que observavam a propriedade com orgulho evidente no olhar. Ou mesmo quando ela se arrumava para alguma festa com sua melhor amiga, Lissa. Porém, o que mais sentia falta em todo aquele período foi o costume de me pegar observando seu olhar sonhador e nostálgico, que se encontrava com o meu em diversas ocasiões, presenteando-me com o seu sorriso tímido e acanhado, como se sentisse vergonha por eu conseguir pegá-la em flagrante. Meu dia era ganho quando ela invadia o celeiro e me observava cuidar dos cavalos, muitas dessas vezes iniciando conversas suaves e amistosas, mesmo que proibidas por ambos os nossos pais.
É claro que eu tentei superar tudo depois de um tempo. Eu me sentia ridículo estando apaixonado por alguém que jamais seria minha, mas não pude fazer muito a esse respeito. Tentei me relacionar com outras pessoas, afastei-me um pouco daquela fazenda quando consegui juntar o meu próprio dinheiro para comprar algo que fosse apenas meu, descobri que eu seria capaz de viver novamente e sem a sombra de seu sorriso para me atormentar. Anos não são como semanas ou meses. A paixão não é capaz de resistir durante tanto tempo, ainda mais quando ela não é recíproca. A chama que se instala em seu interior começa a se apagar, tranquilizando o coração sofredor e aliviando a dor. Foi exatamente isso que aconteceu comigo, ou melhor, o que eu pensei ter acontecido.
Foi preciso apenas que meus olhos batessem em seu semblante, que, agora, era muito diferente daquele que eu me lembrava, para aquilo que eu tanto lutei contra voltasse como um furacão devastador. Era possível reconhecer alguns traços de menina em seu rosto: as bochechas proeminentes e o nariz pequeno continuavam lá, mas os traços infantis foram substituídos por marcas rígidas, formando um rosto anguloso e delicado. Os lábios carnudos ainda se mantinham os mesmos, também, mas de alguma forma se tornando mais convidativos e sensuais, assim como os olhos escuros, que eram capazes de sondar todo o ambiente de forma afiada. Os cabelos negros estavam bem maiores do que eu lembrava, descendo em ondas grossas por suas costas esbeltas.
Seu corpo também estava diferente. Cada curva estava mais proeminente: sua cintura, antes magricela, agora estava alinhada a curvas acentuadas em comparação aos seus quadris mais largos. Os seios estavam maiores, redondos e evidentes no suave decote do vestido branco, que dava uma falsa impressão virginal às pernas torneadas. Eu sentia que poderia enlouquecer apenas por observá-la, assim como todos os outros ao meu redor, e isso me irritava.
Durante anos eu pensei que havia esquecido esse sentimento infundado e impossível, mas bastava uma fisgada de olhar para que tudo voltasse a mim com fúria. E eu não podia fazer absolutamente nada a respeito dos olhares nada discretos que eram direcionados a ela. O ciúme me corroía por inteiro, acendendo uma vontade imensa de socar a cara de qualquer um que se atrevesse a espreitar sobre seu corpo de uma forma mais indevida. Eu podia sentir meus punhos se cerrando aos poucos, meus nós dos dedos ficando brancos à medida que eu aplicava mais força a eles. Parecia que ninguém além de mim tinha o direito de observá-la.
— Cuidado para não babar, Belikov. — A voz sarcástica e risonha de Christian Ozera chegou aos meus ouvidos como um rompante, desligando-me automaticamente das lembranças agridoces às quais eu estivera preso. — Todos já sabem que ela é gostosa, não precisa ficar aí averiguando.
— Eu não estou babando. — Revidei de mau-humor, deslizando os dedos sobre o queixo apenas para tirar a dúvida. — Só estava olhando porque a reconheci de algum lugar.
Isso lhe arrancou uma risada.
— Não se finja de tonto. Você sabe, e ambos sabemos que você sabe, muito bem quem ela é. O tempo não passou tão rápido e ela também não mudou tanto.
— Para mim ela mudou bastante. — Me defendi, carrancudo.
Christian fingiu conferir sua silhueta e, depois, balançou a cabeça.
— Eu acho que você ficou mais chocado com a sua volta do que qualquer outra coisa. Não estava esperando por essa, hein? Não é sempre que se pega Dimitri Belikov desprevenido.
— Nisso você tem razão. — Retruquei.
— Mas e aí? Vai ficar só olhando ou vai fazer alguma coisa a respeito?
— Você fala como se eu pudesse fazer alguma coisa. Não, faz tanto tempo que só tenho feito isso, graças àquelas regras estúpidas que os meus pais inventaram para nos manter separados, que já nem sei se ela se lembra da minha existência.
— Nossa, quanto drama, hein? Como vocês dois sobreviveram durante tanto tempo?
Lancei a ele um olhar afiado.
— Calado, Ozera. Não finja que não sabe da nossa história. — Suspirei e olhei para os arredores, perdido em pensamentos. — Eu lembro o quanto aquela insistência em impedir que nos aproximássemos apenas alimentava a vontade que eu tinha de falar com ela e conhecê-la melhor. Só que isso foi uma droga, porque eu tive de engolir todos os idiotas que faziam gracinhas com ela enquanto eu ficava lá, só olhando de longe.
Ele balançou a cabeça com um sorrisinho malicioso.
— Isso tudo é ciúmes, Belikov? Eu sei que você sempre teve uma queda por ela, mas pensei que, depois de tanto tempo, você já teria esquecido ou algo assim.
— Eu também pensei que tivesse. — Admiti com um longo suspiro, ciente de que evitar o inevitável seria uma perda de tempo. — Mas, pelo visto, não.
— Nah, isso é exagero. Você não a vê há muito tempo e está apenas confundindo as coisas, Dimitri. Um homem pode se sentir atraído por uma mulher sem precisar cair de quatro por ela. Você mesmo vive me dizendo isso, ou esqueceu? Vai me dizer agora que o meu herói de infância, o conquistador de calcinhas, não passava de um charlatão?
Suspirei, desviando o olhar dos seus azuis afiados. Christian era uma das únicas pessoas que se tornou próxima a mim durante esses anos, mais precisamente por conta de minha personalidade mais fechada. Claro, eu tinha uma porção de conhecidos na cidade, mas nada passava disso. Eu tinha sérios problemas no quesito “confiar em alguém”. Entretanto, esse bônus vinha com um ônus bastante inconveniente, que se resumia a um melhor amigo que conseguia me ler como se eu fosse a droga de um livro aberto.
— Prefiro não comentar sobre isso. — Respondi simplesmente.
— Oh. — Ele levantou uma sobrancelha na minha direção. — O quê? Vai me dizer que ficou ofendido agora. Você não gostava dela? Não era o que me dizia uns anos atrás?
— Sim, era. — Suspirei.
— Então?
— Então, nada. Mas não se preocupe, eu ainda posso continuar sendo seu ídolo teen. — Dei uma risadinha quando ele fechou a cara, tentando socar meu braço. Esquivei-me a tempo. — Eu tinha mesmo uma quedinha por ela quando era criança, depois na adolescência... enfim, já faz muito tempo. De qualquer forma, não importa mais.
— Uma “quedinha” não dura tanto tempo assim.
— Sim, mas ela era a filha do meu patrão. Mais como o fruto proibido, eu acho. Eu tinha a ilusão de que poderia ser mais gostoso, entende?
O sorriso malicioso voltou aos seus lábios.
— E nem chegou a provar? Que decepção.
— Bem que eu queria, mas não.
Antes que ele dissesse mais alguma coisa indevida e que eu não estava a fim de escutar, virei a cabeça na direção dela mais uma vez, observando-a esticar seus braços em torno de Lissa, sua melhor amiga e também a namorada de Christian, ambas com sorrisos enormes em seus rostos. Sorri involuntariamente ao vê-las, como o belo idiota apaixonado que eu sempre fora. Era inevitável ficar feliz quando ela também estava, compartilhar suas alegrias, seus sorrisos, mas também suas tristezas. Pude sentir a emoção aquecendo o meu peito calmamente, como se ele tivesse estado apenas adormecido antes de sua chegada.
Talvez Christian tivesse razão ao dizer que eu não era aquele cara que eu pensava ser, já que quase todos os conselhos que lhe dera não eram seguidos por mim, ou, ao menos, não quando se tratava dela. Eu não podia negar isso, mas algo sempre me fazia refletir. Era tão estranha a sua capacidade de me tirar do chão em poucos segundos, mesmo que sem se dar conta, levando-me a crer em cenas ilusórias em que eu podia imaginar nós dois juntos. Cresci vivenciando tanto essa ilusão que agora era difícil me desprender dela e seguir com a minha vida. E provavelmente era esse fato que me deixava tão preso ao passado.
Eu ainda podia sentir o olhar de Christian. Ele queimava em minha pele impiedosamente. Eu temia apenas que ele resolvesse se intrometer na minha vida e tentar me ajudar de alguma forma, e eu absolutamente não queria isso. Já me bastava todas as cenas constrangedoras que vivenciara ao lado dela quando mais novo, não precisava de mais. Lembrava-me perfeitamente de todas as vezes em que me perdera em seu olhar travesso, gaguejando como um imbecil cada vez que tentava falar algo com coerência, para, logo depois, sentir minhas bochechas em chamas e sair correndo de seu alcance como o belo covarde que era.
Entretanto, uma lembrança em particular rondou minha mente de supetão, e eu sorri internamente ao recordar que aquele fato me deixara isolado no celeiro por dias, sem nenhuma coragem de encarar seu rosto outra vez.
— Vamos, Dimitri. Eu prometo que se você fizer esse favorzinho vamos deixar você brincar com a gente.
Olhei desconfiado para minha irmã mais velha, Karolina, que ainda insistia para que eu me fantasiasse de noivo e me casasse com sua nova boneca, Clarisse. Todos os seus amigos estavam ao meu redor, lançando-me olhares pidões como se realmente me quisessem ali, e eu, como a criança ingênua de dez anos que era, acreditei.
— Promete mesmo? — Perguntei, ainda duvidoso.
— É claro! Acha que eu mentiria pra você?
Na verdade, sim, eu achava. Karolina já me enganara mais vezes do que eu poderia contar, sempre dando um jeito de roubar minha parte nos raros doces que meu pai comprava no mercado quando lhe sobrava dinheiro. Entretanto, eu estava empolgado demais com a ideia de brincar com seus amigos “mais velhos” para prestar atenção naquele detalhe.
— Tudo bem. — Eu disse por fim, fazendo todos saltitarem, extasiados.
Suas mãos me agarraram automaticamente, arrastando-me pela casa até seu quarto. Eu evitava entrar lá, já que ela havia me proibido, mas, além disso, porque eu achava um pouco nojento. Tinha muitas coisas em cor-de-rosa e às vezes eu encontrava suas calcinhas pelo chão. Tremi só com a lembrança. Entretanto, antes que eu pudesse pensar muito sobre estar sendo infectado de perfume, perdi-me na confusão de roupas, gel de cabelo e tantas outras coisas que elas enfiavam em mim.
No fim da maratona, eu estava irreconhecível. Com a ajuda de minha mãe, Karolina costurara calças sociais em cor-de-rosa, que combinavam com o terno que eu trajava. Minha camisa era de listras e em um tom um pouco mais escuro, e eu carregava no bolso ao lado uma enorme flor. Meu cabelo estava tão lambido com gel que parecia que eu estava há dias sem tomar banho. Eu me sentia extremamente desconfortável com aquela roupa, fora que eu seriamente duvidava da minha masculinidade naquele momento — ou a masculinidade que eu pensava ter naquela idade; entretanto, tentei ao máximo ignorar isso, já que estava louco para poder me juntar às brincadeiras de minha irmã e seus amigos. Realmente, o esforço poderia valer a pena.
Porém, o que eu não tinha ideia até então era que havia somente algo ainda melhor do que os amigos mais velhos de Karolina. Com dez anos eu já sentia uma imensa curiosidade a respeito da filha do patrão, aquela com quem meu pai me proibia de brincar e que despertava estranhas sensações em meu peito. Eu jamais imaginei que ela pudesse aparecer na minha frente bem no momento em que eu estaria dizendo “sim” à boneca no altar improvisado no jardim.
Primeiramente, não notei sua presença — ninguém notou; entretanto, foi inevitável que escutássemos as suas risadinhas ao longe. Ela estava em companhia de sua amiga, Lissa, e ambas estavam escondidas atrás de uma árvore. Aquilo não era raro. Ela e seus amigos viviam correndo pela propriedade e às vezes espreitavam sorrateiramente quando estávamos brincando, como se quisessem participar também. Confesso que essa mania que meu pai tinha de impor limites entre nossas relações me irritava muito, já que era evidente a curiosidade de ambos os lados da questão. Tanto eu e minhas irmãs quanto a filha do patrão e seus amigos queríamos nos descobrir — éramos apenas crianças, afinal.
Eu tinha certeza de que ficaria imensamente feliz com sua aparição se não fosse o pequeno detalhe de que eu estava vestido de um modo ridículo e, ainda por cima, casando-me com uma boneca. Lembro-me de ficar paralisado quando elas saíram do esconderijo e vieram na nossa direção, seu sorriso acanhado enquanto perguntava a Karolina o motivo de eu estar fazendo aquilo. Depois, a risada estrondosa que irrompeu de seus lábios assim que minha irmã respondeu o que quer que fosse. Eu já estava completamente envergonhado e com as bochechas em chamas; porém, quando ela me disse para me casar com alguém de verdade em vez de com uma simples boneca, oferecendo-se, inclusive, para ocupar seu lugar, não consegui mais me segurar. Saí correndo em disparada para longe, arrancando aquelas vestimentas horrorosas de meu corpo enquanto me distanciava de tudo e tentava encontrar um lugar onde eu pudesse me esconder.
A lembrança de sua inocente proposta ficou presa em minha memória durante um bom tempo...
— Ora, ora, ora, se não é Rosemarie Mazur. A que devo a ilustre honra?
Foi como um balde de água fria que voltei ao presente a tempo de encarar aqueles mesmos olhos escuros de minhas lembranças. Eu estivera tão distraído que mal notei que ela e Lissa vieram na direção de nossa mesa e estavam posicionadas a poucos passos de distância de mim. No entanto — e para minha sorte —, fui poupado de um imenso vexame, pois Christian havia se encarregado da tarefa de distraí-la enquanto eu recobrava a consciência.
— Não seja idiota, Ozera. — Ela retribuiu. — Eu sei que você odiou o fato de eu ter voltado. Se eu bem me lembro, você vivia com ciúmes de mim e de Lissa, sempre fazendo birra quando saíamos para qualquer lugar.
— Que absurdo! — Ele rugiu, mas seu sorriso de lado denunciava que não estava realmente irritado. — Se bem que a sua ausência foi de extrema importância para que eu e Lissa tirássemos os atrasos depois daquelas saídas, não é, amor?
— Christian! — Lissa o repreendeu com um tapa. Suas bochechas estavam vermelhas de vergonha.
— Você é sempre tão sutil, Ozera. — Murmurei sem querer, o que atraiu os olhares de ambas na minha direção. Parecia até que elas não haviam me notado, uma vez que Rose abriu um largo sorriso e cobriu a distância que existia entre nós, jogando-se em meus braços de supetão.
— Dimitri! — Ela exclamou sorridente, enquanto eu apenas tentava me recuperar do choque que se alastrara sobre mim. Eu não conseguia pensar racionalmente, ao menos não quando seu perfume de rosas atingia minhas narinas e me embriagava lentamente. Ah, como eu sentira falta daquilo.
Ficamos daquela maneira durante um longo tempo, até que ela se afastasse um pouco para me olhar atentamente. Seus olhos me sondaram por inteiro, e eu tinha a sensação de que ela poderia ler meus pensamentos apenas com uma mirada. Sorri um pouco quando ela gargalhou da nossa situação constrangedora; afinal, estávamos com as mãos entrelaçadas no meio do salão com quase toda a cidade como testemunha. Eu era capaz de ouvir os chiados de fofocas ao fundo, provavelmente especulando qual seria a nossa relação, mas pouco me importava. Eu estava tão concentrado em seus traços delicados que o mundo se desligou completamente, deixando-nos a sós em uma bolha particular.
— Senti a sua falta. — Ela sussurrou.
— Eu também senti a sua, Roza.
Assim que ouviu seu antigo apelido saindo de meus lábios, ela sorriu. Fazia tanto tempo que eu não a chamava assim que não pude conter meus lábios a proferirem a palavra. Tudo bem, no momento aquilo não pareceu importar muito, principalmente quando me vi preso no brilho de seus olhos outra vez.
— Então, será que você pode nos contar um pouco sobre o que andava fazendo por Austin? Além da faculdade, claro, e, obviamente, todos os corações partidos que você deixou pelo caminho. — A voz de Christian interrompeu nosso silêncio e me sugou com força de volta ao mundo real. Eu poderia socá-lo pela interrupção, mas agradeci por ele ter me poupado de uma situação constrangedora.
Rose se desvencilhou de meus braços gentilmente e nos fez sentar lado a lado à mesa. Christian e Lissa seguiram seu exemplo, sentando-se a nossa frente. Não pude conter o sorriso triunfante que surgiu em meus lábios quando vi alguns homens dali contorcendo-se de inveja; afinal, muitos deles queriam estar em meu lugar. No entanto, logo tratei de escondê-lo. Eu não gostaria de me parecer como Adrian anos atrás, que portava a mesma expressão altiva quando estava ao seu lado como se ela fosse um tipo de prêmio a ser exposto. Para mim, Rose não era nada disso, e eu me sentia um pouco culpado por ter sequer pensado em algo parecido.
— Austin não é tão divertido quanto parece. Quer dizer... é, mas só se você souber o que procurar. Tem muitas coisas para fazer se você tem com quem sair ou algo assim, senão se torna um pouco chato. Eu fiz algumas amizades, mas... não sei. Todos me pareciam um pouco estranhos. As pessoas não são como aqui. Por um lado, é bom, já que quase ninguém cuida da sua vida nem nada, mas, fora isso, posso dizer que eu praticamente não mudei de cidade.
— Ah, vai me dizer que a capital é igual a esse fim de mundo? — Christian desdenhou.
— Não, eu não quis dizer isso. As pessoas são mais descoladas por lá, mais modernas e tudo isso. Eles riram do meu sotaque! — Ela exclamou, fazendo todos rirem. — Ah, você iria adorar as roupas que eles vendem, Lissa.
Deixei-as falando sobre as banalidades da capital sem interrupções. Lissa parecia ávida por mais e mais informações sobre as grifes de moda ou assuntos universitários que Rose estava mais do que disposta a revelar. Christian parecia extremamente entediado, escorando o rosto sobre uma das mãos e fingindo bocejos categoricamente, mas sua namorada mal parecia notá-lo, o que me fazia tirar sarro da sua cara. Porém, eu não me preocupei muito mais com o meu melhor amigo, uma vez que eu tinha algo bem mais interessante para prender minha atenção.
Eu mal podia acreditar que ela estivesse ali, tão próxima. Aquilo era a realização de sonhos antigos e que eu jurei estarem esquecidos no fundo de minhas lembranças. Só que eu sabia muito bem que o primeiro amor, mesmo platônico, seria algo difícil de deixar para trás, principalmente alguém como ela. Acompanhava embasbacado cada movimento seu: a forma como falava e gesticulava suavemente, mexendo nos cabelos ou mordendo o lábio inferior de quando em quando. Eu me sentia tão estúpido contemplando seu rosto daquela forma. Tinha a impressão de que, se eu me descuidasse, saliva escorreria de meus lábios.
Só que aquilo não durou muito, felizmente.
Christian exigiu um pouco da atenção de Lissa, puxando-a descaradamente em direção à pista de dança no meio do salão, deixando-me por minha própria conta. Automaticamente, fiquei nervoso. Aquela sensação não era nova, ao contrário, eu a conhecia bem até demais. Minhas mãos começaram a suar frio, um arrepio desconfortável desceu pela minha espinha e minhas pernas tremeram, mas eu me forcei a aparentar calma. Eu não queria parecer aquele adolescente que sempre fugia quando a situação ficava fora de controle. Eu era um homem adulto, afinal. Agora, já podia me gabar da experiência que tive e de todas as lições que aprendi ao passar dos anos. Passara por enrascadas bem piores do que esta e me saíra bem. Não havia nada a temer.
O que poderia dar errado, afinal?
— Então — Rose começou a dizer. —, vocês me fizeram falar e falar sobre a capital, mas ninguém me disse nada sobre Alvarado. Ainda continua a mesma coisa?
— É difícil dizer. Para mim, tudo parece igual, mas talvez seja porque nunca saí daqui. — Disse distraidamente, ainda sem muita confiança na minha própria voz. — Você notou algo de diferente quando voltou?
Ela franziu as sobrancelhas por um momento, pensativa.
— Acho que não, mas também não faz nem uma hora que cheguei. Tive tempo apenas de deixar minhas malas com Mikhail e vir correndo para cá. Eu estava morrendo de saudades de todos, principalmente de Lissa, e quando fiquei sabendo sobre a... — Ela interrompeu a frase no meio e piscou por um momento, atordoada. Encarei-a e vi que seu semblante antes animado começou a minguar, parecendo subitamente muito abatido. Questionei-me como não pudera perceber aquilo antes, mas, antes que eu pudesse perguntar o que estava acontecendo, ela tratou de balançar a cabeça para os lados, como se quisesse afastar os pensamentos, e voltou a falar como se nada tivesse acontecido: — Bem, não importa. Creio que foi bom voltar para cá, no fim das contas.
— Eu imagino. — Respondi, indeciso. Conhecia a mulher diante de mim, mesmo após todos aqueles anos, sabendo, inclusive, que algo errado acontecia. Porém, se ela não quisesse me contar eu não poderia fazer nada. — Apesar de ser um pouco suspeito para falar. Eu cresci aqui e jamais saí desde que meus pais vieram da Rússia. Todas as minhas lembranças envolvem esta terra, mas eu não acho que sairia daqui por qualquer razão.
Rose olhou em meus olhos durante um longo tempo. Parecia me estudar ou as minhas palavras — eu realmente não sabia. Mas também, como poderia? Vê-la presa aos pensamentos daquela forma me deixava desconfortável e inseguro. Eu nunca soubera como agir quando ela fazia aquilo, o que não mudara desde aquela época, tentando, quase desesperadamente, desviar a sua atenção para outra coisa. No entanto, quanto mais retribuía seu olhar, mais perdido nele eu ficava. Naquele momento, não consegui fazer outra coisa senão mergulhar na profundidade e na beleza de seu olhar, ao mesmo tempo levemente curioso a respeito do que se passava na sua mente. Era evidente que estava curiosa com algo a meu respeito, mas eu não fazia ideia do que rondava por ali, não até ela finalmente voltar a falar:
— Você está certo. Eu não o imagino fora daqui, mas você nem precisaria ter me dito isso, já que está praticamente escrito na sua testa.
Aquilo me pegou de surpresa.
— Ah, é? — Perguntei. — Eu sou assim tão óbvio?
— Não! — Ela logo respondeu, de olhos arregalados. — Você não é óbvio, pode acreditar em mim. Eu estava me referindo ao fato de que você me passa a impressão de que nasceu grudado na terra. Não o imaginaria fora daqui nem em mil anos.
Sorri de lado.
— Nasci grudado na terra?
— Bom, é... — Suas bochechas coraram e ela desviou o olhar. — Me desculpe, é difícil explicar. Mas vou tentar assim mesmo! — Ela respirou fundo como se estivesse prestes a correr em uma maratona. — Você é aquele tipo de pessoa que passa uma sensação forte de segurança. É como se você gritasse “casa!”, entende? Esse seu jeito tranquilo é acolhedor e bom de sentir, principalmente para alguém tão agitado quanto eu, por exemplo. Eu sempre tive essa mania de me enfiar em confusão ou querer sumir do mapa por algum tempo, mas é a sensação de retornar para onde se pertence que é a melhor. Eu duvido que haja qualquer tipo de aventureiro sem um porto seguro, porque é inevitável querer voltar.
Não pude deixar de abrir um imenso sorriso com isso.
Será que ela me via assim, como seu porto seguro?
Eu tinha de admitir que esse pensamento me atordoou de uma forma que jamais fizera antes. Minha mente, inevitavelmente, começou a especular sobre seus verdadeiros motivos de retorno, o que era ridículo, de certa forma. Mesmo que Rose sentisse pelo menos um terço do que esteve presente em meu coração durante todos estes anos, ela não teria abandonado nada disso para fazer sua graduação no lugar mais distante possível daqui. Eu jamais faria isso, e até suspeitava de minhas próprias escolhas ao ficar ali, insistindo em trabalhar na mesma fazenda de seus pais. Se para ela aquelas terras eram seu porto seguro, eu não poderia negar que representavam o mesmo para mim — afinal, era o único lugar onde as lembranças não me deixavam esquecê-la. Ainda mais quando eu não quisesse esquecer.
— Acho que você tem razão. — Sussurrei. — Eu entendo o que quis dizer sobre um lugar fixo para permanecer. Além do mais, gosto da paz e do silêncio que tenho aqui. Adoro acordar com o canto dos pássaros e com os raios de sol batendo no meu rosto. Gosto do trabalho pesado e ao ar livre. Minha família toda ainda vive aqui, inclusive. Não faria nenhum sentido se eu resolvesse sair de uma hora para outra.
Assim que ouviu minhas palavras, Rose desviou o olhar e suspirou longamente.
— Eu não sei se posso concordar com isso. — Ela disse. — Tenho dificuldade de me prender a este lugar. Foi fácil demais sair, entende? Apesar de algumas pequenas coisas, não havia realmente um motivo que me fizesse ter vontade de dar as caras por aqui novamente.
Franzi o cenho ao ouvir suas palavras, sem ter ideia do que ela realmente queria dizer com tudo aquilo. Se ela não falava sobre a fazenda de seus pais, sobre o que seria então?
— Existe alguma razão para isso? — Perguntei.
Rose se sobressaltou ao ouvir meu questionamento, como se tivesse falado mais do que deveria. Novamente, suas bochechas assumiram uma coloração rosada e ela pareceu constrangida, desviando o olhar do meu para que eu não visse o que ela não fazia sucesso em esconder.
— Não é nada. — Ela disse, por fim. — Eu não quero falar de assuntos desagradáveis. Ao menos, não agora. O que você acha de espairecermos um pouco? Quer dançar comigo?
Por mais que a preocupação e a curiosidade duelassem em meu interior, engoli a sensação causada com força e tentei mostrar um sorriso acolhedor. Mais uma vez repetindo que, se Rose não estivesse pronta para dizer o que fosse, eu não deveria insistir. Não quando estivéssemos tão perto um do outro como há muito tempo já não acontecia.
Levantei-me de supetão e estendi minha mão para ela com um floreio que a fez rir.
— Sei que não é nenhum pouco cavalheiresco porque você mesma me convidou antes, mas... que tal esquecermos esse detalhe e eu lhe convidar para dançar como se deve?
Rose ergueu as sobrancelhas para mim.
— Você sabe que fica ridículo quando dá uma de galã, não sabe? — Dei de ombros, não afetado por sua brincadeira.
— Não me custa tentar.
— Tudo bem. — Ela suspirou, vencida. — Vamos lá, sr. Brad Pitt versão Texas.
Não pude deixar de gargalhar com sua piada.
— Roza, Roza. Você não tem jeito.
Ela sorriu de lado.
— Nunca disse que eu tinha.
— Foi por isso que senti tanto a sua falta.
≈O≈
Naquela manhã, acordei com os raios de sol em minha pele.
Um sorriso enorme cruzou meu rosto de forma involuntária, e ergui meu corpo da cama tão rápido que mal me reconheci naquela atitude. Embora eu gostasse de acordar cedo, geralmente aproveitava meus primeiros minutos para divagar sobre as atividades do dia. No entanto, havia algo em particular que tomava minha mente e não me permitia pensar em mais nada, por mais que eu tentasse arduamente: ela.
Desde a noite em que ficáramos até às duas horas da madrugada aproveitando as atividades da festa regional de São Vladimir, aquelas velhas esperanças da minha época de garoto se reacenderam como brasas de fogo por minha pele. Eu tentava a todo custo me manter são e pensar racionalmente, mas era muito difícil fazer isso quando meu coração gritava na esperança de tê-la finalmente em meus braços. Aquilo era ridículo, eu sabia. Já sofrera o suficiente no passado para saber que o sentimento que aflorava em meu peito mais uma vez apenas me levaria ao fundo do poço. Estava cansado de alertá-lo sobre os riscos, mas dificilmente o meu coração ouvia minhas palavras, pois, assim como a controversa se fazia presente, minhas emoções tendiam a ocupar o mesmo nível de espaço.
Mesmo assim, levei meu dia como qualquer outro. Tomei um banho rápido, escovei os dentes e tomei café, seguindo a pé para minhas atividades diárias na fazenda dos Mazur, que ficava a quase trinta minutos de caminhada. Eu poderia ir a cavalo até lá, mas, por alguma razão, preferi o modo tradicional. Talvez eu precisasse apenas pensar.
Tudo seguia da mesma forma monótona de sempre. As primeiras e rotineiras atividades mal me ocupavam a mente, pois eram tão comuns que eu não precisava prestar muita atenção nelas. Dei de comer aos animais, tirei o leite da manhã para os Mazur e conferi se a pequena produção estava em ordem. Mikhail dera conta do recado, como sempre, por isso segui para o cercado dar rumo às ovelhas. Os cães Triss e Merlim me ajudaram a levá-las até o pasto e, quando percebi, já estava em meio à plantação de trigo, ceifando a nova safra sob o sol escaldante que irradiava calor logo acima de minha cabeça.
— Muito ocupado? — Uma voz perguntou.
Virei-me a tempo de ver Rose parada com os braços para trás das costas. Suas feições eram um misto de curiosidade e deleite. Passei os olhos por seu corpo moreno, que refletia os raios de sol e a faziam iluminada como um anjo. Claro, se eu ignorasse as roupas que ela usava, talvez aquela comparação pudesse surtir um efeito menos carnal em mim. Com um short jeans que não cobria quase nada e uma regata branca por baixo de uma leve camiseta xadrez de botões, botas típicas do Texas e um chapéu parecido com o meu, seus cabelos ondulando com a brisa e um sorriso encantador, era difícil me manter concentrado em algo que não fosse ela. Não conseguia parar de encará-la feito um imbecil, mas, mesmo assim, tentei manter a expressão neutra, como se seu corpo sensacional não me afetasse nenhum pouco.
— Na verdade, não. — Respondi, esfregando o suor da testa. — Dormiu bem?
— Uhum. — Ela disse.
Franzi o cenho pela resposta curta e nada característica dela. Rose geralmente falava muito e, durante aquelas semanas em que nos encontráramos às escondidas para conversar e saber mais um sobre o outro, eu pensei que ela estaria bem mais falante quando viesse conversar comigo. Uma parte de mim me dizia que eu estava imaginando coisas, mas outra parte — a que eu tentava abafar a todo custo — teimou em perguntar:
— Algum problema?
Rose mordeu o lábio inferior, apreensiva.
— Não exatamente… eu só queria conversar com você.
— Conversar? — Repeti em choque. — Tem certeza disso? Você sabe que seu pai pode aparecer a qualquer momento e ele não vai gostar nada de nos ver aqui, ainda mais comigo distraído na hora do serviço...
— Ora, Dimitri. Você acha que, com vinte e três anos, aquele velhote tem algum poder de influência sobre mim? Ou sobre você? Tudo bem, talvez sobre você, mas, se ele ousar te demitir, eu o contrato de volta. Pronto.
Sorri abertamente com sua frase, voltando a me concentrar em meu trabalho e ignorando seu olhar cobiçoso sobre meu torço nu. Ralhei-me mentalmente por ter tirado a camiseta mais cedo.
— Falando assim, até parece que não sabe o pai que tem.
— Justamente! — Ela juntou as mãos uma à outra e me lançou um olhar suplicante. — Por favor, Dimitri. É só por um momento. Eu preciso muito conversar com alguém, senão vou explodir.
Foi só depois de alguns instantes que percebi a gravidade da situação. Larguei a foice que carregava e olhei para ela, notando pela primeira vez as olheiras embaixo de seus olhos. Por mais que ela tivesse tentado as camuflar com maquiagem, eu era capaz de notá-las. Aquilo era muito estranho, pois, na última vez em que nos encontramos, ela estivera de bom astral e feliz. Nada semelhante à expressão agoniada que eu via naquele momento.
— Tudo bem. — Eu disse. — Só me deixe tomar um banho.
— Claro.
Quinze minutos depois, nós dois estávamos na cozinha da mansão, bebendo o chá gelado de limão que Alberta preparara logo cedo. Quase ninguém aparecia ali àquela hora, de acordo com Rose, o que era essencial se quiséssemos falar sobre o assunto que a incomodava tanto. Eu me remexia na cadeira impacientemente, observando-a encarar seu chá de má vontade, balançando a colher dentro da xícara com desinteresse. Pelo visto, eu teria de começar o assunto, seja lá qual fosse.
— Rose? O que está acontecendo?
Ela me encarou por um momento, varrendo meu rosto da mesma maneira que fizera na primeira vez, quando chegou. Milagrosamente, não me senti estranho ao ser analisado daquela forma, apenas curioso. Por fim, ela respirou fundo, como se seus pensamentos a ferissem.
— Algo ruim. — Respondeu. — Eu não sei mais o que fazer.
Pisquei, atordoado.
— O quê? Que tipo de coisa ruim?
— Esse é o problema. Eu sei que tem algo ruim acontecendo, mas não tenho ideia do que é. Pensei que, como você trabalha aqui há tanto tempo e nunca saiu desta fazenda, poderia me dizer o que está havendo.
— Eu? — Creio que minha feição de espanto deveria estar mais do que evidente, pois Rose estendeu sua mão até tocar na minha por cima da mesa. O calor se espalhou por ali no mesmo momento.
— Você não percebeu nada diferente? Nenhuma saída repentina e sem aviso dos meus pais? Nenhuma receita médica? Nenhuma sacola de farmácia suspeita?
— Rose... eu não estou entendendo aonde você quer chegar com isso.
Ela jogou seu corpo com fúria contra a cadeira.
— Eu sei que algo está acontecendo com meus pais. Mais especificamente, com a minha mãe, mas ninguém quer me dizer o que é. Nós nunca nos demos muito bem, de qualquer forma. — Ela franziu os lábios, pensativa. — E agora o meu pai veio com uma história de que eu deveria ser mais tolerante com ela. Dá para acreditar nisso? Justo o meu pai, o rei da intolerância? Quem ele pensa que é para me dizer isso? E por quê? O que eles estão me escondendo de tão grave?
Fiquei em silêncio por um instante, aguardando até que ela colocasse suas ideias no lugar. Eu tinha a leve impressão de que ela não me via realmente ali, apenas divagava sozinha sobre seus problemas. Admito, eu não ficara sabendo de nada sobre Janine ou Abe, mas também, como poderia? Assim como meu próprio pai, meus patrões jamais dispensaram as regras de segregação entre nossas classes. Janine, particularmente, era a mais exigente de todas, mas não apenas sobre os assuntos relacionados aos seus empregados.
Eu me lembrava perfeitamente das discussões intermináveis que ela tivera com Rose anos atrás. A rebeldia e valentia da filha eram, muitas vezes, interpretadas como intransigência, mas Rose nunca quisera um real desafio. Claro, ela amava sua mãe, porém discordava a respeito de vários pontos de vista que Janine insistia em impor. Ela não queria que sua filha desrespeitasse os códigos de conduta ideias a alguém do seu nível; por isso, frequentemente impunha castigos severos e limites rígidos a seus passos. Eu suspeitava, inclusive, que fora ela a responsável pelo namoro de Rose com Adrian Ivashkov tanto tempo antes. Afinal, eu tinha certeza de que ela era ambiciosa àquele ponto.
— Seu pai pode estar certo. — Arrisquei. — Depois de tanto tempo separadas, eu pensei que você tivesse perdoado sua mãe pelo que ela fez. Ou, pelo menos, parado de brigar por qualquer motivo. Você mesma disse que já está velha o suficiente para isso.
— Você não entende... — Ela suspirou. — Com a minha mãe não tem conversa. Desde que eu cheguei, ela não me dirigiu uma palavra. Estou perdida.
Franzi as sobrancelhas.
— Sério?
— Sim. Me faz ter vontade de ir embora de novo. — Ela olhou para mim com pesar. — Lembra-se da nossa conversa na festa de São Vladimir? Sobre um lugar para permanecer? Eu não tenho nenhum. Achei que, quando eu voltasse, seria diferente, mas tudo continua igual. Minha mãe não mudou nada. Continua a mesma controladora de sempre.
— Cada pessoa é diferente da outra. — Eu revidei calmamente. — Você teve seu tempo para respirar e para pensar, fazer sua vida fora daqui. Mas ela? Você já perguntou a ela quais os motivos de ela ser assim?
— Não me interessa os motivos dela. Minha mãe nunca esteve comigo quando eu precisei. Sempre foi fria e intolerante. — Suspirou mais uma vez. — Será que não pode entender isso?
— Eu entendo que você esteja chateada, mas não o fato de você se recusar a falar com a sua mãe. Isso faz anos, Rose. Você não sabe o que está acontecendo e fica aí tirando conclusões precipitadas. Por que não pergunta você mesma o que está acontecendo? E para a pessoa certa desta vez, não a um mero empregado.
— Eu não vou fazer isso. Não vou dar o gostinho de ser a primeira a me render.
Encarei-a, chocado.
— Rose, você está se ouvindo falar? Ela é sua mãe, caramba. Isso não conta nada para você?
— Claro que conta. Mas... eu não sei. Sinto como se ela fosse uma estranha. Esse título, “mãe”, não tem muito significado para mim. — Ela me encarou firmemente. — É muito fácil para você falar, também. Sua mãe é tão boa e gentil. Quantas vezes eu já não implorei que a minha fosse como a sua? Mas isso nunca aconteceu. E também nunca irá.
— Você está sendo injusta. E intolerante também. Vive falando dela, mas age da mesma forma. Já parou para pensar que vocês duas não se entendem por que não querem dar o braço a torcer? — Seu olhar impassível me fez suspirar. Olhei-a de maneira séria, tentando de tudo para fazê-la entender meu ponto. — Rose, a vida é curta demais para se prender a esse tipo de coisa. Quando você se arrepender, vai ser tarde demais. Pense nisso.
Eu não permaneci ali para ouvir sua resposta.
Por mais que doesse vê-la tão nervosa e apreensiva, eu não podia concordar com tudo o que ela fazia sem tentar colocar minha opinião em pauta. Sempre acompanhei de longe as intrigas de Rose com a mãe, percebendo o quanto isso a afetava. Eu sabia que ela nunca admitiria em voz alta, ao menos não agora, depois de adulta, mas era perceptível o rancor que tinha ao falar de Janine, como se lamentasse a má relação que ambas tiveram e sentisse falta de dizer tudo isso a ela.
Porém, eu nunca compreendi, em todos aqueles anos, o motivo que as levava a ser tão teimosas. Estava na cara que se ressentiam uma da outra, mas continuavam se ignorando como sempre. Por quase dois meses, isso se seguiu. Rose continuava sem falar comigo, o que eu não estranhei, mas também não deixei de sentir. Minha intenção jamais fora desdenhar sua relação com Janine, muito menos recriminá-la por algo que estivera fora de seu controle naquela época. Porém, as coisas mudam, e as pessoas também.
Tantos anos rondando pelas terras dos Mazur serviram como uma bela lição de vida a diversas pessoas que passaram por ela, inclusive Janine. Rose podia se recusar a enxergar, mas todos percebiam a mudança drástica pela qual Janine passava. Ela tentava se aproximar de sua filha sempre que possível, às vezes só por parar ao seu lado, às vezes por lhe fazer um elogio ou um comentário bondoso. O que mais assustou a todos foram as mudanças de atitude em relação aos empregados da fazenda. Ela e Alberta passavam horas conversando na cozinha e, muitas vezes, Janine vinha ao estábulo me perguntar sobre os cavalos. Algumas pessoas guardavam certo rancor e estranhavam sua atitude, mas eu não via daquela forma.
A única que parecia não perceber era a pessoa mais importante naquela história.
Rose continuava estranha. Estava obstinada com algo que eu não consegui decifrar — embora suspeitasse. Eu via claramente em seus olhos — e não apenas eu, diga-se de passagem. Mais pessoas perceberam que algo estranho cercava aquela mansão, cujos sons de gritos e brigas eram cada vez mais frequentes. O aperto que eu carregava no peito me dizia que algo ruim acontecia, mas esperava profundamente que estivesse enganado.
O que eu não imaginei, no entanto, foi que aquilo se concretizasse tão rápido.
Eu estava aproveitando o tempo frio para escovar a crina de Buria, minha égua crioula e mais fiel companheira, antes que a chuva decidisse dar as caras. O tempo estava instável demais para correr o risco de adiar o serviço e me arrepender por não o ter feito antes. Foi quando, com o canto do olho, vi um vulto passar rapidamente, seguindo para longe. Meu rosto se virou naquela direção imediatamente apenas para me deparar com a silhueta de Rose correndo para o oeste. Estava certo de a ter ouvido soluçar.
— Rose? — Eu chamei, mas ela não ouviu. Já estava longe demais para isso. — Rose, o que está havendo?
Mas ela não parou, continuou rumando na direção oeste da propriedade sem realmente ver aonde ia. Preocupado, levei Buria até o estábulo e a amarrei ali, correndo ao encontro de Rose o mais rápido que consegui. Porém, ela já estava muito longe, e tive de apressar o passo para acompanhar seu ritmo frenético. Chamava seu nome com a intenção de pará-la, mas isso apenas fazia com que ela corresse mais rápido.
Por fim, quando suas pernas finalmente foram vencidas pelo esforço, Rose estagnou de supetão. Seus joelhos cederam aos poucos e ela caiu com ruído no chão, levando as mãos ao rosto com desespero. Ela se encolheu toda e seus ombros começaram a balançar, como se ela estivesse chorando, e foi isso o que me fez parar.
Eu simplesmente não conseguia acreditar na imagem que meus olhos viam, pois aquilo não podia estar acontecendo. Fazia tanto tempo desde a última vez que a vira daquela forma, e nem fora por minha causa. No entanto, foi inevitável que a lembrança me atingisse com a força de um tapa no meio da cara.
— O que foi? Você tem medo de ouvir a verdade?
Adrian Ivashkov estava de frente para Rose, com seu porte esguio e superior de sempre. Seus olhos ferventes a encaravam com ódio e seus braços estavam abertos, como se a provocasse. Eu estava escondido atrás de algumas árvores, espreitando a discussão que ambos travavam há mais de meia hora. Ainda assim, era capaz de sentir a grande tensão que ele exalava, parecendo a ponto de explodir.
— Mas essa não é a verdade! — Rose gritou de volta. — Eu não traí você! Que tipo de pessoa você acha que eu sou? Aquelas vadias com quem você está acostumado a foder?
Ele lhe deu um sorriso desdenhoso.
— Se você se acha tão diferente delas, só prova que são iguais. Oh, não. Espere. — Ele colocou os dedos sobre o queixo e fingiu pensar. — Acho que me enganei: você não é igual a elas; você é muito pior, e sabe por quê? Pelo menos elas deixam muito claro o que querem de mim, e eu o que quero delas. Mas e você, que finge ser tão pura e casta para todos? Apenas para me apunhalar pelas costas depois!
— Adrian, eu já disse mil vezes: eu não traí você!
— É isso o que você diz, mas não foi o que eu vi! — Ele exclamou, dando mais um passo para a frente. A cada minuto que se passava, Adrian estava mais próximo de Rose. — Quer saber mais? Eu não preciso disso. Eu sou jovem, bonito e podre de rico. Mulheres não me faltarão, ainda mais quando eu estou tão decidido a te esquecer, Rose. Pode ser que demore, pode ser que custe muito trabalho, mas eu vou me esquecer de você. Só espero que se lembre do dano que me causou quando estiver rolando na cama com aquele imbecil.
— Rolando na...? Mas que merda, Adrian! Pare de dizer essas coisas!
— Pare você de mentir! Não ouse negar o que aconteceu. Eu sempre soube. Estava bem na minha cara o tempo todo. Você e o Belikov sempre de conversinha por aí, sempre trocando olhares... é óbvio que não demoraria muito para me presentearem com um par de chifres, não é mesmo?
Senti meu corpo se tencionar quando meu nome foi citado.
Então, era sobre isso que eles falavam? Sobre mim?
— Espera aí... o quê? — Rose ergueu as mãos para a frente e franziu o rosto em confusão. — Dimitri? O que ele tem a ver com isso?
Adrian cerrou os punhos.
— Eu já disse: não se finja de santa, porque ambos sabemos que você não é. Eu vi vocês dois lá no celeiro! Vocês pareciam um casalzinho apaixonado! É claro que pareciam, não é? Vocês já se encontravam assim enquanto a gente estava namorando.
— Você só pode estar louco.
— Sou, sou louco! Louco, neurótico e otário. Sinto tanta raiva de você que nem sei o que sou capaz de fazer. — Ele berrou. — E, ainda por cima, esta merda de cidade pequena já está comentando o seu feito! — Fechou os olhos e passou a mão pelos cabelos. — Fiquei com fama de corno, para variar.
A situação seria engraçada se eu não me sentisse tão estranho. Como ele podia falar de mim daquela maneira baixa? Principalmente, quando eu não podia me defender? Bom, tecnicamente eu podia, mas nenhum deles sabia que eu estava escondido, e eu não desejaria piorar ainda mais a situação de Rose ao sair de trás das árvores para defender sua honra. Além disso, até para mim era óbvio que ela não fizera nada, e não porque fosse a pessoa que Adrian acusara, mas, sim, porque eu sabia que Rose nunca corresponderia as minhas investidas enquanto estivesse comprometida. Isso não era algo que seu caráter permitisse. Além do mais, éramos apenas bons amigos que tentavam manter uma relação às escondidas de nossos pais.
Que direito ele tinha de duvidar disso? Claro, provava que Adrian não conhecia nada sobre Rose, não como eu conhecia. Mas o que me irritou mais fora o fato de ele sair por aí bradando aos quatro ventos o quão supostamente sem vergonha Rose era. Eu sentia vontade de interromper a discussão e defendê-la a cada vez que ele repetia isso; tomando, pela primeira vez na vida, alguma coragem e deixando de ser aquele adolescente covarde de antigamente. Porém, isso não foi preciso, uma vez que Rose olhou longamente para Adrian, soltando uma gargalhada alta que subitamente apagou qualquer pensamento meu.
Ambos olhamos para ela como se ela estivesse louca, mas, depois de ver a cara irritada dele, eu mesmo tive de conter, com muito custo, o meu próprio riso. No entanto, Rose continuou rindo; tanto, que suas mãos passaram a descansar sobre o abdômen, como se ela estivesse segurando a dor.
— Adrian, você é tão ridículo. — Ela guinchou. — Se é com isso que você está tão preocupado, sinto muito. Eu não posso fazer muita coisa para conter os comentários maldosos. O máximo que consigo é tentar desmentir os boatos às poucas pessoas que me perguntarem sobre isso, o que, eu preciso dizer, ninguém fez.
Ele estava muito irritado, eu podia ver isso claramente. Lembrava-me dessa mesma expressão em seu rosto nos momentos em que eu presenciei os dois discutindo, o que fiz muitas vezes. Sinceramente, eu nunca entendi o motivo por trás do envolvimento de Rose com ele, mas também fiquei extremamente feliz quando eles terminaram, e não apenas porque eu gostava dela.
Ele era simplesmente idiota demais.
— Ora, sua vagabunda! — Subitamente, Adrian levantou a mão, como se fosse dar um tapa no rosto de Rose. Meu corpo rapidamente entrou em ação, tencionado e pronto para correr em sua defesa; porém, ela fora mais rápida. Suas mãos, aparentemente tão delicadas, desviaram as de Adrian com maestria, e ela o segurou pela camiseta com raiva.
— Nunca — repito, nunca — erga essa mão suja na minha direção outra vez, entendeu? Você não sabe do que eu serei capaz de fazer caso isso acontecer.
Aparentemente assustado com a reação da ex-namorada, Adrian pulou para trás enquanto ajeitava o amassado das roupas. No entanto, ele não se deixou intimidar. Logo, aquele olhar desdenhoso tomou seu rosto mais uma vez, e ele olhou para Rose como se ela fosse a pessoa mais asquerosa que ele havia visto.
— Ótimo. Com sorte, nunca mais encostarei mesmo. Faça o que quiser com aquele cocheiro de merda. Eu quero mais é que se danem!
E assim, Adrian virou as costas para Rose e saiu apressadamente de nossas vistas, deixando a perplexidade em seu rosto e a irritação no meu. Como ele ousava dizer coisas como aquelas? Será que ele não tinha nenhuma noção do ridículo? Bem, é claro que não. Porém, eu não pensaria nisso. Estava mais concentrado nela, que ainda encarava o espaço vazio a sua frente e balançava a cabeça para os lados como se quisesse entender o que acabara de acontecer. Eu tinha de admitir que também estava beirando à confusão, mas logo tratei de tirar o assunto e, principalmente, alguém como Adrian da cabeça. Ele não valia a pena.
Só que Rose não parecia concordar.
Ela caiu no chão de forma ruidosa e começou a chorar. Eu não conseguia acreditar que ele a fizera chorar. Adrian não valia isso. Eu queria fazer algo para que ela parasse, mas não conseguia, mesmo sabendo que Rose não merecia aquela dor. Eu era um imbecil, sempre fora. Via a criatura mais encantadora de todas bem ali, contorcendo-se em agonia, sem fazer nada a respeito. Eu desejava sugar toda a sua tristeza; porém, parado ali, não conseguia fazer nada.
Foram as palavras de meu pai que me fizeram parar de vez. Se alguém descobrisse que eu tivera qualquer tipo de contato com a filha intocável do patrão eu estaria perdido. E foi por isso que, como o covarde que já estava acostumado a ser, e me odiando pela atitude, saí sem olhar para trás. Seus soluços foram a trilha sonora que acompanhou meus pesadelos pelos próximos cinco anos.
Vê-la daquela maneira quebrou meu coração, ainda mais por saber que já era a segunda vez que eu a observava naquele estado. Algo bem no fundo de minha mente ainda soprava o quão inútil e covarde eu poderia ser, mandando-me correr como fiz durante todos estes anos. Porém, em um ato de coragem, mandei-o se danar. Rose estava certa: éramos adultos agora e, por mais que eu adorasse meu emprego naquela fazenda, meu amor por ela era bem maior do que isso. Eu não a abandonaria desta maneira mesquinha, não no momento em que ela mais precisava do meu apoio.
Decidido, segui a passos cuidadosos na sua direção, podendo ouvir seus soluços mais claramente conforme eu me aproximava. Meu peito se apertou com pura compaixão, e me abaixei cuidadosamente até que minha mão repousasse em seu ombro.
— Rose, está tudo bem?
Notei quando seu corpo se tencionou com meu toque sutil. Ela rapidamente desviou o rosto do meu olhar assim que notou minha presença, como se procurasse esconder o choro. Não pude deixar de sorrir com aquilo, mesmo naquela situação. Rose sempre tentava aparentar força a qualquer pessoa, ainda que estivesse despedaçada, como agora. Ela era tão parecida comigo nesse ponto.
— Você estava certo. — Ela respondeu, fungando levemente enquanto passava as costas da mão no rosto para enxugar as lágrimas. Seu rosto demonstrava toda uma firmeza que suas lágrimas desmentiam. — Eu a julguei mal.
— Quem?
Ela sorriu brevemente, mas este me parecia mais um deboche.
— Minha mãe.
— O que tem ela? Aconteceu alguma coisa? — Não obtive resposta, apenas mais uma onda de lágrimas vinda dela. — Rose?
A esta altura, nós dois já estávamos agachados no gramado verde, muito próximos um do outro. Em um ato impensado e movido pelo impulso, envolvi meus braços ao seu redor com ternura, deixando que ela se agarrasse a mim com força e chorasse o que fosse preciso em meu ombro. Por mais que estivesse morrendo de curiosidade a respeito do problema com a mãe de Rose, sabia, em meu interior, que aquele não era o momento certo para uma inquisição direta. Rose precisava apenas de um apoio. De um porto seguro.
E era isso o que eu seria.
Depois de um longo tempo, que, na verdade, pareceu-me curto demais, ela se afastou, levando consigo aquele intenso cheiro de rosas que eu tanto amava. Rose me olhou com ternura. Seu nariz estava vermelho e ela ainda fungava, mas, mesmo assim, eu a achava a criatura mais linda que já vira na vida. Permiti-me deslizar meus dedos pela pele macia de seu rosto, tendo o prazer de ver um pequeno sorriso brotar em seus lábios, os mesmos que eu pensara em beijar inúmeras vezes.
Quando percebi o rumo que meus pensamentos tomavam, tratei de sacudi-los de volta. Eu deveria me concentrar apenas nela, não em minhas fantasias adolescentes.
— Está melhor? — Perguntei com a voz suave.
Rose balançou a cabeça.
— Um pouco.
— Quer me contar o que está acontecendo?
Seus olhos faiscaram pelo pesar.
— Por favor, não. Não agora.
— Se você não colocar isso para fora, será pior. Talvez eu possa te ajudar a resolver o seu problema. Afinal, somos uma equipe, não somos?
Rose mordeu o lábio inferior para conter as lágrimas que invadiram seus olhos, e conseguiu evitar que elas descessem mais uma vez. Seus pensamentos pareciam tão distantes dali que me vi mais preocupado do que já estava. Minha mente viajava através de qualquer alternativa horrenda que a pudesse estar ferindo. E eu absolutamente não conseguia conviver com esta expectativa.
— Minha mãe está doente. — Ela finalmente disse. — Foi por isso que meu pai pareceu tão insistente para que eu voltasse, foi por isso que me disse para ser mais tolerante, foi por isso que encontrei todos aqueles remédios escondidos na gaveta dela. E foi por isso que... — Respirou profundamente. — Foi por isso que ela tentou se aproximar de mim, mesmo que eu negasse, ou achasse que ela estava igual a antes.
Pude sentir meu rosto se desfigurando em uma expressão de choque. Pela primeira vez na vida, eu não tinha palavras para usar.
— Mas isso não é o pior. — Ela continuou, finalmente olhando em meus olhos. – Você tinha toda a razão. Nós perdemos tempo demais brigando como dois galos raivosos do Tennessee sem nos preocupar com as consequências. Perdemos todas as melhores experiências que uma mãe e uma filha poderiam ter, e eu não tenho lembrança alguma a que me agarrar sobre ela. Nem me decidir sobre amar ela ou não eu consigo.
— Não fale assim. — Eu ralhei. — Tudo isso pode se resolver se você deixar de ser turrona pelo menos uma vez na vida. Essa... essa doença da sua mãe, ela é muito grave? — Rose concordou com a cabeça, sem forças para proferir as palavras. — Terminal?
— Não. Pelo menos isso. Mas ela corre riscos, Dimitri. — Rose me olhou de forma assustada. — Eu não suportaria se isso acontecesse.
Eu sorri.
— Então? Aí está a sua resposta. Diga a ela o que você acabou de me dizer: que não quer que ela piore, que está disposta a conversar e colocar tudo em pratos limpos... mas quando eu digo isso, me refiro a tudo mesmo. Nada de esconder as coisas embaixo do tapete. Sua mãe tem o direito de saber tudo o que você pensa a respeito dela.
— Você acha mesmo? — Pude sentir uma fagulha de esperança em sua voz.
— Claro.
Depois disso, ficamos em silêncio, apenas abraçados um no outro enquanto eu continuava acariciando seus cabelos sedosos. Eles eram macios sob meus dedos, que se deliciavam com aquela textura suave a cada novo toque. Eu não sabia ao certo o que mais dizer para acalmá-la, pois toda aquela situação ainda girava em minha mente. Apenas admirava o horizonte cinzento e cada vez mais carregado, pensando no quanto ele traduzia bem meus sentimentos. Não era à toa que o céu estivesse tão escuro. Repentinamente, como se quisesse me provar alguma coisa, um raio ruidoso cruzou o céu, produzindo um som ensurdecedor. Olhamos para cima ao mesmo tempo, e senti o corpo de Rose tremer levemente ao meu lado.
— Daqui a pouco vai chover. Eu acho melhor voltarmos para a fazenda antes que... — Minha fala veio tardiamente, pois, assim que comecei a me levantar, senti as grossas gotas de chuva caírem sobre o meu corpo.
Olhei para o céu com irritação e isso fez Rose gargalhar, o que me surpreendeu. Porém, não tive tempo de transferir minha revolta da chuva inconveniente para ela, pois a quantidade de água sobre nossas cabeças começou a aumentar, até que a dor nas costas fosse quase insuportável e o barulho zunisse em nossos ouvidos. A cascata de água era gelada, e logo estávamos ensopados.
Olhei para Rose.
— Vamos sair daqui logo, antes que peguemos um resfriado.
— É, mas a mansão fica longe daqui. — Ela revidou, erguendo os braços para cima e rodopiando como uma criança. — E já estamos molhados mesmo! Por que não aproveitar?
— Você só pode ser louca. — Eu disse, balançando a cabeça.
Rose me lançou um olhar malicioso. Engoli em seco.
— Eu nunca disse que não era. Está com medo de uma chuvinha?
Suspirando, e completamente rendido, balancei os ombros como se não me importasse com mais nada e comecei a correr atrás dela. Assim que percebeu meus movimentos, ela soltou um gritinho agudo e escapou de mim por pouco, disparando rapidamente para longe. Eu havia me esquecido do quão rápido ela podia correr, sempre utilizando alguma árvore ou mesmo a própria lama encharcada para me distrair. Parecíamos duas crianças brincando de pega-pega, rindo e curtindo a vida inocentemente. Era como se estivéssemos recuperando todo aquele tempo em que não podíamos nos falar por causa de uma regra estúpida de nossos pais.
Mas nada daquilo importava naquele momento.
Rose estava comigo, sorrindo largamente e respirando de forma difícil. E quando finalmente a peguei, agarrando sua cintura com força, o que nos fez cair desastrosamente no chão, eu finalmente percebi que nada mais nos impedia. Se, antes, mesmo com nossos pais nos proibindo de brincar ou nos conhecer, isso nunca nos afetara realmente, o que dizer de agora? Nós dois éramos adultos maduros e conscientes de nossas ações. Ao olhar para os seus olhos escuros, tão faiscantes e profundos, tive a certeza de que tudo valera a pena, por mais louco que fosse.
Seu olhar estava preso ao meu, e eu não conseguia fazer outra coisa senão encará-la. Estávamos tão próximos que eu era capaz de aspirar seu cheiro doce de rosas, que, agora, estava misturado ao odor de terra molhada e ao frescor da chuva que caía ao nosso redor. Eu mal podia acreditar que, finalmente, o desenrolar de meu sonho mais íntimo estivesse sendo real. Rose estava ali, sob o meu corpo, sorrindo amplamente e me encarando com expectativa; no entanto, eu me forcei a ser racional. Nada seria tão perfeito se ficássemos naquele estado, com os pingos impiedosos embaçando nossa visão e resfriando nossos corpos. Por isso, ergui-me rapidamente e lhe ofereci minha mãe, que ela, hesitante, agarrou.
— Acho que já chega de diversão por hoje. — Eu disse com um sorriso. — Se não sairmos logo daqui você vai pegar um resfriado.
— Tudo bem. — Ela respondeu de cabeça baixa, mordendo o lábio inferior como se estivesse nervosa.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Eu gostaria de explicar a ela que não a estava rejeitando, apenas preocupado com o seu estado de saúde. E que, se dependesse da minha vontade e do que esteve em meus pensamentos pecaminosos durante todos aqueles anos, ela não teria motivo algum para se sentir assim. Porém, optei por poupar minhas palavras, já que apenas gastávamos tempo e nada resolveríamos se continuássemos por ali.
Guiei-a na direção do único lugar que eu poderia pensar no momento. Estávamos bem perto do pequeno chalé que eu comprara quando finalmente conseguira juntar dinheiro suficiente para viver sozinho. Ele ficava razoavelmente longe da propriedade dos Mazur, mas não tanto assim; por isso, seria bem mais fácil guiar seu caminho de volta no dia seguinte. Rose me seguiu sem resistência alguma, curiosa sobre o que estava acontecendo.
Quando finalmente entramos, deixamos um rastro espesso de água por onde passávamos, mas eu não me importei. A única coisa em que pensava era em Rose e seu queixo tremelicando devido ao frio. Rapidamente, fui até o banheiro, liguei a água quente do chuveiro e a convidei para entrar. Ela ficou hesitante a princípio, mas não resistiu ao ver o vapor saindo do banheiro. Em seguida, fui ao meu quarto e procurei pelas menores roupas que tinha no guarda-roupas, feliz por Viktoria, minha irmã mais nova, ter deixado um punhado das suas quando dormira aqui tempos atrás. Por último, alcancei toalhas limpas e as entreguei a Rose, que me agradeceu com um sorriso e se entregou ao banho.
Eu não me preocupara muito com minha própria situação, mas logo comecei a sentir o efeito do corpo resfriado. Arranquei as roupas molhadas e as joguei na máquina de lavar na lavanderia. Como só havia um banheiro no chalé, eu me sequei da melhor maneira que pude com a toalha, usando o secador de cabelo para tirar o excesso de água dos meus fios ensopados. A esta altura, Rose havia terminado o seu banho e eu lhe entreguei o secador para que pudesse secar as próprias madeixas. Segui para a cozinha com a intenção de preparar algo quente para seu corpo não sofrer tanto com a brusca inversão da temperatura. Na despensa não havia nada além de alguns pacotes de achocolatado; por isso, agarrei-os junto a um pouco de leite morno para fazer duas xícaras de chocolate quente para nós dois.
Entreguei o recipiente fumegante para Rose, que olhava para todas as direções, menos para o meu rosto. Ela estava linda com o vestido que conseguira da minha irmã, com estampa de flores cor-de-rosa que caía até pouco acima dos joelhos. Tentei não pensar muito no cheiro que exalava dela enquanto ainda estivesse preocupado com sua saúde, mesmo que ela aparentasse estar bem. Fui ao meu quarto e peguei um cobertor grosso de lã que serviu para nos cobrir enquanto nos sentávamos no sofá, o silêncio reinando depois disso.
— Me desculpe. — Rose finalmente falou. — Eu não queria causar tanto inconveniente a você. Não devia ter feito aquilo. Foi imprudente e ainda pôde nos colocar em risco. Mas com os problemas todos da minha mãe eu... só quis me distrair e não...
Delicadamente, segurei seu queixo e obriguei seus olhos a me encararem.
— Ei, não tem problema nenhum, ok? Eu entendo que você queira esquecer disso por ora. E não me importo com a chuva. — Dei de ombros, gesticulando ao nosso redor para enfatizar a insignificância do fato. — Foi divertido. Me fez lembrar da nossa infância.
Tive o prazer de vê-la sorrir. Seus olhos se encheram de um brilho nostálgico e bastante conhecido por mim. Eu adorava aquela expressão, pois fazia seu rosto, na maior parte do tempo tão marcado e sensual, assumir traços de menina.
— É mesmo. Lembra-se de todas aquelas vezes em que a gente fugia dos nossos pais para tomar banho de chuva? — Sua risada preencheu o ambiente. — Céus, como eu gostava daquilo. Eu adorava quebrar as regras para ficar perto de você. Isso não soa insano? — Repentinamente, tornei-me consciente de nossa proximidade, minha mente me alertando para tomar cuidado com o rumo daquela conversa. Rose, por outro lado, não parecia se importar, aconchegando-se mais a mim e olhando fundo em meus olhos. — Você não concorda que era muito melhor quando quebrávamos as regras? Eu sempre me atraí pelo proibido. Me parecia mais gostoso.
No mesmo segundo, desviei minha atenção para a sua boca. Naquele momento, minha mente lentamente nublava as consequências daquele ato insano, apenas obcecada com o fato de que ela aparentemente sentia o mesmo que eu. Aquela frase era tão parecida com o que eu dissera a Christian na festa de São Vladimir que chegou a me assustar.
Engoli em seco.
— É. Eu também penso assim.
Com cuidado, Rose largou sua xícara ao lado da minha na borda da mesinha de centro e voltou à antiga posição devagar. Sua mão esbarrou em meu braço no caminho, mas ela não a retirou dali. Senti aquela conhecida onda de calor passar dela para mim e incendiar cada canto de meu corpo, que fervia por todos os motivos possíveis, menos o fato de eu ter pegado chuva minutos atrás.
— E você não acha que já obedecemos as suas ordens por tempo demais?
Mal acreditei em suas palavras quando as ouvi, tendo de repeti-las uma dúzia de vezes na minha cabeça para ter certeza de que não entendera errado. Estávamos tão perto um do outro que nossas respirações se misturavam, causando-me um frenesi delicioso. Minha pele formigou inteira e senti meus lábios se ressecando. E foi quando minha língua passou por eles para umedecê-los outra vez que percebi o fato de Rose estar na mesma situação que eu. Ambos intercalávamos olhares entre nossas bocas e olhos. Palavras já não eram mais necessárias. Por isso, não fui capaz de me conter, capturando de vez seus lábios com os meus, em um movimento rápido e certeiro que ensaiei durante toda a minha vida.
Rose fora pega de surpresa no primeiro instante, mas ela logo sucumbiu, dando lugar ao forte desejo que sempre nos consumiu. Ela retribuiu o meu beijo de forma faminta, ávida. Parecíamos sedentos um pelo outro, mas, estranhamente, eu não queria parar. Sabia que, em meus sonhos mais íntimos e pervertidos, eu procurava descobrir todos os detalhes de sua pele, sentindo a textura de seu corpo e beijando cada cantinho que pudesse encontrar, lentamente, até fazê-la perder o controle. Entretanto, nunca me passou pela cabeça, em todos aqueles anos, que quem não conseguiria manter o controle seria eu.
Seus lábios macios eram a minha perdição, suas mãos entrelaçadas nos fios de cabelo da minha nuca me deixavam desnorteado. Cada toque e cada beijo que trocávamos tinha poder. Porém, isso não bastou por muito tempo. Ergui o corpo de Rose ao mesmo tempo em que ela ajeitava a postura em meu colo, rodeando minha cintura com suas pernas bronzeadas. A posição nos deu um contato mais íntimo, e o calor pareceu se intensificar por minha corrente sanguínea. Tomei-a de forma selvagem, apossando-me de seu corpo e a agarrando bem perto de mim. Quando o ar me faltou, separei-me para beijar a pele de seu pescoço, distribuindo-os lentamente por ali enquanto minha língua e meus lábios faziam seu trabalho em lamber e sugar. Eu não me importava se deixaria alguma marca, eu não estava pensando racionalmente, mas a forma como Rose se agarrou aos meus ombros e se esfregou sem pudor algum em mim provou apenas que ela gostava daquilo — e gostava muito.
Um rosnado baixo retumbou de meu peito quando ela infiltrou suas pequenas mãos por baixo da minha camiseta e deslizou suas unhas sobre minha pele, que se arrepiou instantaneamente. Decidido a devolver o favor, segui para a parte de trás de seus quadris e a puxei para mais perto, levantando a saia do vestido até que eu fosse capaz de ver que ela não colocara a calcinha de volta após o banho. Encarei-a com uma sobrancelha erguida e ela me respondeu apenas com um sorrisinho perverso, dobrando-se para beijar o meu pescoço.
Tomei aquilo como um incentivo e continuei. Eu estava em parte distraído com as suas carícias, em parte excitado com a visão de sua intimidade nua, mas forcei meus dedos a seguirem um caminho que serpenteava por qualquer lugar, menos por ali. Eu espalmei minhas mãos em suas coxas e trilhei caminhos circulares e lentos, aproveitando seus beijos e o quanto o seu cheiro me consumia. Enquanto isso, observei que Rose se tornava mais e mais impaciente pela minha demora. Ela enroscou um dos braços em meu pescoço e usou a força dos quadris para rebolar no meu colo, forçando sua intimidade para mais perto da minha mão, ou extravasando o tesão com as unhas em minhas costas, que a esta altura deveriam estar vermelhas.
— Dimitri, vai logo com isso. — Ela murmurou roucamente em meu ouvido.
Como não possuía mais controle algum sobre meu corpo, que já estava há muito tempo rendido aos encantos da mulher que se encontrava diante de mim, a única coisa que poderia fazer era acatar as suas ordens. Aproximei minha mão de sua intimidade e, sem aviso, toquei o seu ponto mais sensível, que estava entumecido. Foi fácil deslizar em movimentos circulares, pois ela estava muito excitada. Rose jogou a cabeça para trás em surpresa e entreabriu os lábios rosados com uma expressão de prazer que nem mesmo em meus sonhos mais eróticos me fazia tão excitado. Ela estava extremamente úmida, e isso possibilitou que lentamente a penetrasse.
Conforme deslizava meus dedos para o seu interior e mantinha um vai e vem gostoso, mais e mais ela se desfalecia em meus braços. Rose gemia longamente próximo a minha orelha, sua respiração ofegante fazendo cócegas ali. Minha mão esquerda voou na direção do fecho do vestido e o abri em um único movimento, contando com a sua ajuda para tirá-lo sem interromper o movimento da outra mão. Quando me dei conta, a peça já voava pelos ares e eu contemplava seu corpo impecável com meus olhos cobiçosos. Seus seios empinados subiam e desciam atrás do sutiã rendado devido à frequência com que seus pulmões trabalhavam, e acabei não resistindo à tentação de enterrar meu nariz no meio deles, sugando e mordiscando toda a extensão da pele sensível que estava descoberta.
Seus gemidos ficaram mais altos quando pressionei seu clitóris com o dedo polegar, mas não parei até senti-la estremecer violentamente, seus espasmos somados à contração de sua intimidade fazendo minha ereção quase insuportável de ignorar.
— Ah, Dimitri... — Ela murmurou. — Eu vou... eu...
E aconteceu. Seu primeiro orgasmo provocado por meus dedos. O que mais eu poderia esperar disso? Estava tão malditamente sem fôlego e satisfeito que parecia que a pessoa que acabara de gozar tivesse sido eu, não ela. A visão do corpo de Rose em meus braços, suada e ofegante enquanto processava tamanha quantidade de prazer, era a coisa mais linda que eu já vira na vida. Meus olhos não deixaram as feições de seu rosto, gravando cada detalhe. Eu tinha certeza de que nem mesmo Michelangelo seria capaz de retratar tamanha beleza.
Seu corpo estava mole e pesado sobre o meu, e ela mordiscava o lóbulo de minha orelha preguiçosamente, parecendo estar em transe. Eu sabia que Rose estava bem longe dali, em um lugar extremamente feliz e colorido e, enquanto esperava o efeito de seu orgasmo passar, peguei-a gentilmente em meus braços, carregando seu corpo junto ao meu até o meu quarto. Eu me recusava a fazer amor com ela bem no meio do sofá onde várias outras mulheres estiveram. Não, Rose merecia algo muito melhor do que isso. Eu queria poder mostrar a ela o poder que tinha sobre mim, passar todos aqueles sentimentos que estiveram em meu interior durante todos os anos que tivera a sorte de ter ao seu lado ou em meus pensamentos. De fato, extravasar aquela paixão ensandecida que eu tinha por ela.
Quando eu finalmente coloquei seu corpo sobre o colchão macio da cama, não consegui conter um ofego maravilhado. Rose era magnífica, eu sempre soubera disso, mas, naquele momento, ela parecia exalar ainda mais sua beleza, ressaltada pela sensualidade de seu corpo. Os seus cabelos negros se espalhavam pelos travesseiros puídos e simples de minha casa e, por um momento, senti-me constrangido pela simplicidade do lugar, mas ela não parecia se importar com o estado quase precário da minha casa. Eu via nos seus olhos que ela pensava, assim como eu, que nada mais poderia importar além de nós dois.
Inclinei-me sobre ela na cama e capturei seus lábios mais uma vez, desta vez com mais calma. Estava decidido a levá-la ao paraíso, amá-la até que não me restassem mais forças. Por isso, lentamente deslizei minhas mãos por seu corpo, tocando cada pequena parte que eu pudesse encontrar. Escorreguei, em seguida, meus lábios por onde outrora meus dedos estiveram: ombros, colo, seios, barriga... sua pele estava em chamas, e Rose se contorcia embaixo de mim sempre que meus beijos atingiam um local ainda desconhecido.
— Dimitri... — Ela sussurrou quando atingi seus seios mais uma vez, roçando os dentes pelos mamilos túrgidos ainda por cima do sutiã preto. Ergui a cabeça o suficiente com o objetivo de olhar fundo em seus olhos. — Não me torture assim.
— Você não gosta quando eu faço isso? — Eu perguntei, provocador. Para piorar a sua agonia, pressionei minha ereção ainda coberta pela calça entre suas pernas, insinuando movimentos lentos que a fizeram revirar os olhos.
No entanto, em um momento de distração — talvez por cometer o equívoco de pensar que uma mulher como Rose seria tão dócil e submissa a alguém —, senti-a firmar o aperto das pernas ao redor dos meus quadris e me forçar para trás, invertendo nossas posições e me deixando embaixo dela. Seu sorriso sacana abafou qualquer protesto que estivera preso na ponta de minha língua, e não consegui deixar de sorrir de volta.
— Assim é bem melhor. — Ela disse, colocando o dedo indicador no queixo de forma pensativa. Não deixei de notar que seus quadris não pararam o movimento em cima dos meus, deixando-me louco — provavelmente uma pequena vingança pela demonstração que eu fizera segundos atrás. — Não acha injusto o fato de eu estar quase nua quando você ainda se mantém completamente vestido?
Ergui as mãos para o alto em rendição.
— Sou todo seu. Faça o que quiser.
Minhas palavras fizeram seus olhos brilharem, e ela mordeu o lábio inferior em expectativa com o que pudesse estar rondando por sua mente naquele momento. Sem uma palavra a mais, ela rapidamente me jogou contra o colchão, prendendo minhas mãos acima de minha cabeça para evitar que eu me mexesse. Eu sabia que poderia sair dali facilmente, mas não seria idiota de estragar a magia da coisa, principalmente quando seus lábios se apossaram dos meus mais uma vez e, em seguida, migraram mais para baixo, sobrevoando meu maxilar e o sugando com força.
Não demorou para que suas mãos chegassem à barra da minha camiseta, puxando-a para cima lentamente. As unhas dela arranhavam suavemente cada pedaço de pele que ela encontrava, assim como eu fizera mais cedo, só que isso não durou muito, infelizmente. Se eu pudesse, teria suas carícias para sempre, mas a peça de roupa já estava fora de meu corpo antes mesmo de eu piscar os olhos. Não resisti a espalmar minhas mãos em seus quadris quando seus beijos chegaram ao meu peito, subindo por suas costas até atingir o fecho do sutiã, que eu rapidamente abri. Rose ergueu o tronco para trás, o suficiente para jogá-lo longe e me proporcionar a visão mais enlouquecedora que eu poderia ter: seus cabelos escuros caindo por sobre os ombros e cobrindo parcialmente a pele de seus seios grandes e perfeitamente redondos, que faziam uma bela sintonia com a cintura fina e os quadris largos; suas coxas torneadas envoltas em meu corpo apenas aprimorando a visão e me deixavam cada vez mais excitado.
— Vê algo que gosta, camarada?
Não pude deixar de sorrir ao ouvir meu antigo apelido.
— Muitas, Rose. Muitas.
Sem perder mais tempo, ergui meu corpo e me permiti navegar por sua pele macia, apoiando suas costas com uma mão enquanto a inclinava para trás a fim de a expor completamente. Olhei em seus olhos um segundo antes de mover meus lábios até um de seus seios, chupando o mamilo entumecido. Minha mão se fechava perfeitamente sobre o outro, e o acariciei com leveza enquanto traçava um caminho circular com minha língua pelo primeiro, sentindo-a roçar nossos membros e puxar meus cabelos com força. Ficamos um bom tempo dentro desse jogo até que eu invertesse a ordem e recomeçasse tudo outra vez.
Logo mais, ela aproximou os lábios do meu ouvido, sussurrando de forma rouca:
— Você não se cansa de brincar? Não quer acabar com isso de uma vez?
Por um momento, arrepiei-me da cabeça aos pés, meus braços se fechando com mais força ao seu redor enquanto ela ainda se esfregava em mim para aliviar o tesão.
Olhei-a profundamente.
— Esse é um caminho sem volta, Roza. Se cruzarmos a linha agora, eu não sei se serei capaz de voltar atrás. — Suspirei. — Você me tem nas suas mãos.
Rose ofegou devido a minha revelação repentina. Ela agarrou firmemente meus ombros e se afastou alguns centímetros de mim, segurando meu rosto com ambas as mãos e me olhando profundamente. Seu nariz tocou o meu e não contive meus dedos quando voaram até sua nuca, emaranhando-se nos fios de seus cabelos sedosos.
— E você me tem nas suas. Não percebe? Eu sempre quis que me fizesse sua, Dimitri. Quero que me faça sua agora. — Ela sussurrou. Eu não poderia negar, nunca ouvira mulher alguma me dizer isso com tamanha sensualidade. — Me deixe amar você.
Meu coração deu um salto e minha pele inteira formigou de forma assustadora. Não consegui mais conter meus instintos desesperados e, quando dei por mim, já estava pairando sobre ela mais uma vez, sentindo suas mãos se desfazendo dos botões de minha calça jeans. Como um verdadeiro animal, livrei-me das peças que me faltavam e estendi minha mão até a gaveta ao lado da cama, onde eu guardava meu estoque de preservativos, colocando-o da forma mais rápida que eu pude — o que ainda não me parecia o suficiente.
Assistindo a minha impaciência de perto, Rose apenas riu e voltou a acariciar os meus braços, guiando o meu corpo de volta para ela com as pernas abertas à espera de seu encaixe. Apoiei minhas mãos ao lado de sua cabeça e a encarei com paixão, mas quando estava prestes a abrir a boca para falar o quanto a amava, senti-a se aproximar e me calar com seus lábios em um beijo que demonstrava muito mais do que minhas palavras poderiam.
Foi aí que entendi.
Não importava o fato de que nossos pais viviam tentando nos separar por causa de um preconceito arcaico e infundado, não era necessário guardar todos aqueles sentimentos com tristeza ou rancor, esperando pelo dia em que eles passariam; não havia distância alguma que ela ou eu pudéssemos tomar sem que voltássemos às bases. Nós sempre fomos loucos um pelo outro. Isso era evidente, palpável. E não havia palavras para descrever algo que ambos já deveríamos ter sabido há muito tempo: ela me amava; eu a amava. E era assim que deveria ser.
Sem querer adiantar mais um minuto daquele fim inevitável, colei nossas testas e guiei suas mãos junto as minhas acima de nossas cabeças, deslizando calmamente para dentro dela. Gememos em uníssono quando, sem perceber, nossos corpos começaram a se mover em sintonia. Rose estava escorregadia devido ao suor e ao gozo de seu orgasmo, e isso me permitiu aumentar o ritmo das investidas, apreciando cada bater de quadris e nossos gemidos sôfregos se misturando no ar ao nosso redor.
Eu não me lembrava qual fora a última vez que me sentira tão envolvido a uma pessoa como naquele momento — na verdade, eu tinha certeza de que aquilo jamais acontecera. No entanto, não queria que aquilo acabasse. Só que foi inevitável que ela estremecesse novamente, gritando meu nome enquanto gozava pela segunda vez na noite, alguns segundos antes de eu mesmo acompanhá-la, atingindo meu paraíso particular.
Nossas respirações estavam densas quando finalmente paramos de nos mover, mas meus olhos permaneciam tão bem fechados que chegava a doer. Eu me recusava a abri-los se isso significasse voltar ao mundo real, tendo de encarar a verdade de que, assim que acordasse, o outro lado da cama estaria vazio. Quantas vezes já não tivera o mesmo sonho? Sabia muito bem que a desesperança seria inevitável e voltaria a crescer em meu peito de forma impiedosa. Meu coração se rasgaria em mil pedaços e eu teria de me obrigar a seguir em frente ainda que isso contrariasse os meus sentimentos mais profundos. E foi por isso que, ainda de olhos fechados e tentando me convencer de que aquilo tudo acontecia de verdade, aproximei-me dela com carinho e aspirei seu doce perfume de rosas.
— Diga que eu não estou sonhando. — Sussurrei desejoso no seu ouvido, fazendo-a rir. Seus dedos passeavam calmamente por minhas costas. Inevitavelmente, meus olhos se abriram no segundo em que ela alcançou meu rosto com a outra mão, afagando-o e devolvendo o meu olhar profundamente. Eles queimavam com um sentimento cru de paixão e amor.
— Você não está sonhando. — Ela disse com um sorriso travesso.
Sorri de volta, circundando sua cintura e a trazendo para mais perto. Seus braços se enroscaram ao meu redor e eu senti suas mãos se embrenharem em meus cabelos conforme eu lentamente tomava os seus lábios mais uma vez. Meu inconsciente ainda me alertava sobre o descabimento e a ilusão daquilo, mas eu forçava tais pensamentos de volta. Pela primeira vez, podia dizer com todas as letras que o que estava vivendo era real e não um sonho qualquer.
E se dependesse de mim, isso jamais mudaria.
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