Quem é Helena?

4 Capítulo 4 - A velha e o dragão


Notas iniciais
Há uma dúvida me perturbando. Seria interessante Roberta narrar o ponto de vista dela sobre as irmãs ou não é válido?

Por Lívia

Ele estava me desafiando! Aquele olharzinho frio e intenso eu bem conhecia. Meu irmão era bem diferente dos outros garotos de sua idade. Tudo bem, não conheço muitas crianças da idade dele. Ainda assim acho que ele era bem diferente das outras. Fogo, um assassino e um dragão. Havia morte nos três, do fogo não dava para escapar. Já do assassino “seria um assassino mesmo?”. Não, era alguém armado que me fará sofrer. “Hum...” então era essa a resposta.

— Fácil, porta dois! Não tenho como sobreviver ao fogo, e o dragão pode me matar ou me comer. Então as chances de sobreviver é aguentando a dor! Ahá!

— Dragões não existem – resmungou Helena me fazendo a olhar séria.

— Por que você lê? – comecei

— Gosto das histórias.

— E sem imaginação assim pra que você quer ler? Dragões são fantasia, ok, mas tem toda uma lenda e poder neles. Não são criaturas quaisquer!

— Claro. Criaturas mitológicas. Que são apenas mitos. Mitos, que por definição é algo fantasioso.

— Aí garota, você é muito chata! Já que curte levar as coisas ao pé da letra, entenda isso... – nessa hora senti a mão de Roberta no meu braço. É, eu estava para passar dos limites.

Vi Helena deixar o sorvete dela na mesa e recostar na cadeira. Ela era muito certinha, muito recatada “muito é chata, isso que ela era”. Respirei fundo e levantei, espreguicei como se nada tivesse acontecido. Roberta amenizou as coisas, começou a perguntar sobre a adolescente. Beta era assim, calma, tentava agradar a todos e sempre conseguia. Tinha um jeitinho bom de tocar o coração da gente. Amiga desde tempos da escola, onde ela namorava um idiota e eu, bom eu era a mesma coisa de sempre, a abestada do grupo que usava coisas coloridas e extravagantes para parecer diferente. Foi uma amizade inesperada, diferente e apaixonante.

Enquanto elas conversavam eu tomava meu sorvete de pistache. Falavam sobre as coisas da escola, que eu não queria prestar atenção, pensava em outras coisas, por exemplo, em como Helena podia sorrir mais, aquela cara fechada poderia assustar qualquer um. Parecia aquelas velhas mal humoradas que você vê dando bronca nas crianças e furando a bola que caiu no jardim. Eu estava rindo enquanto imaginava a cena quando percebi as duas me olhando.

— Lembrei de uma piada...

Então veio a grande ideia. Roberta odiava brincar daquilo, mas nunca diria não. Já Helena, bom, essa eu já sabia como fazer entrar na onda.

— Eu desafio vocês!

Como esperado, Roberta estreitou os olhos e me analisou, eu sorri mostrando que ia pegar leve. Ela olhou Helena que não estava entendendo nada. Expliquei como funcionava, antes de alguém pular fora.

— Eu desafio vocês, uma por vez. Quem cumprir o desafio tem a chance de me desafiar de volta. E não pode contar que é um desafio!

— Que brincadeira – pausa — Idiota.

— Certo Roberta, seremos só nós, eu imaginei mesmo que Helena fosse medrosa demais pra isso! Vamos ver, eu desaf...

— Eu não sou medrosa! – Bingo! Ela caiu.

— Então mostra, é só uma brincadeira. Vou desafiar Beta primeiro, assim você vê como funciona. Pronta, flor?

Prendeu o cabelo e afirmou com a cabeça. Estava pensando em algo mais difícil, ela já era veterana nesses meus jogos de desafios. Olhei as outras duas mesas ocupadas, uma garotinha e sua mãe, na outra três rapazes que olhavam indiscretamente para nossa mesa e faziam alguns comentários que não prestei atenção. Olhei para o interior da sorveteria, o atendente e o caixa estavam conversando.

— Beta, vai lá dentro, pergunte ao atendente se ele lavou os copos. Independente da resposta dele peça um copo com água. Quando ele te entregar, dê o copo ao cara do caixa e diga que vai chover.

— Lili!

Eu já ria só de imaginar. Roberta era um pouco seria, tímida para algumas coisas, segura demais para muitas outras. Um fato é que ela confiava totalmente em mim e eu nela. Já esperava ela não cumprir, se fosse algo mais simples ela até faria, para minha surpresa ela levantou da mesa e foi lá para dentro. Passou olhando os sorvetes, andou devagar até o atendente. Pela cara de confusão que ele fez, ela realmente estava cumprindo. Comecei a rir quando olhei Helena observando, também incrédula, para ela. Quando o rapaz entregou o copo com água para ela e ela para o caixa eu tive que virar para rua, não controlava mais meu riso. Roberta chegou minutos depois, sentou seria e eu ria descaradamente.

— Você me paga!

Depois de muito rir de Roberta que estava tão vermelha naquela pele clara, olhei Helena.

—Sua vez. Certeza que não vai desistir?

— Eu não vou fazer nada idiota!

— Eu que escolho o que você vai fazer. Já está até decidido. Você vai ali naquela casa tocar a campainha, quando for atendida dirá que é uma mensageira. E entregará um papel para a pessoa. Você não sabe o que tem no papel. Apenas entregará.

— Qual papel?

Nesse momento levantei, fui até o caixa e pedi uma caneta emprestada, rabisque um guardanapo. Dobrei com cuidado e voltei. Deixei na frente dela e disse “esse”. As duas me olharam curiosas. Sentei cruzando os braços, com cara de triunfo. Ela tentou abrir o papel, mas o tapa que dei na mesa a fez pular de susto e me deu vontade de gargalhar.

— Você não pode ler. Vai lá, chame e entregue o bilhete. Se você não tem coragem apenas diga e eu ganho.

Pegou o bilhete com brutalidade e saiu pisando firme. Eu ria e Roberta me olhava com curiosidade. Dei de ombros como que dizendo “espere”. Joaquim estava sentado na mesa com a mãe e a criança, por lá continuou. Helena cruzou a rua, conseguia notar seus ombros tensos e a mão apertando o papel. Tocou a campainha uma vez. Sem resposta. Tocou uma segunda vez também sem retorno, quando virou para retornar uma velha senhorinha abriu a porta. Sorri por dentro e por fora, continuei a observar. Ela começou a conversar qualquer coisa e apontou à mesa, no mínimo ela estava contando sobre a brincadeira, isso não valia! Entregou o papel com receio e esperou que a senhora lesse. A reação da mulher foi demorada, leu, releu, olhou Helena e a abraçou. O desconcerto da garota era tanto que seus braços ficaram pendidos ao lado do corpo enquanto a senhora a apertava, até ceder e abraçar também. Roberta me olhou.

— O que estava escrito, Lili?

— “O dia está muito lindo hoje, quer um abraço?” – disse rindo.

Roberta pareceu de alguma forma se surpreender e isso aqueceu meu coração. O sorriso dela ainda era lindo desde quando nos conhecemos. Helena retornou vermelha, sentou sem dizer nada e assim ficamos em um silêncio um pouco incômodo, meio constrangedor.

— Ok! Roberta cumpriu o desafio, tem direito a me desafiar. Helena contou que era um jogo. Sim, eu vi você contar! Não valeu você não pode me desafiar!

Eu sei, fui injusta, mas regras são regras “olha quem está falando de regras!”. Ri daquela cara emburrada. Roberta disse “vou dar um desafio por nós duas, não se preocupe” e isso me fez rir mais. Elas pensaram um minuto e me mandaram sair da mesa para discutirem. Entrei e fui comprar chicletes, não tinha do sabor de que eu gostava, peguei um qualquer. Fiquei enrolando por lá até olhar na mesa e me chamarem.

— Seu desafio é ir até a mesa dos garotos e conseguir o número de um deles, sem contar que é um jogo, sem dar nenhuma pista que é um desafio.

Fácil! Sai rindo, havia 3 garotos na mesa, deviam ser da idade de Helena. Pedi licença e sentei antes de receber resposta.

— E aí? Saca, tão vendo aquelas duas garotas ali? Então, elas estão sem graça e me pediram pra vir aqui perguntar se vocês estão afim de sair mais tarde. É, eu sei, parece meio louco, mas eu estou aqui, não?

O mais velho olhou os amigos e soltou ter namorada. Os outros dois se animaram. Saquei o telefone e completei “me passem seus números para gente combinar”. Conversamos alguns minutos e percebi que as garotas da mesa já estavam impacientes. Sai da mesa rindo os cumprimentando. Sentei desajeitadamente deixando o celular sobre a mesa com o número de um deles a mostra.

— Consegui de dois deles, o outro tem namorada. Um deles conhece Helena e disse que acha ela gatinha, mas deveria usar menos os óculos – Helena ficou vermelha – e olhem só! – Joguei uma nota na mesa – eles pagaram o sorvete! Hahahahaha

— Lívia!

Era ótimo saber que ainda poderia surpreender alguém que me conhece há anos. Quando contei o que se passou na mesa Roberta me deu um tapa no braço dramatizando como fui capaz de fazer aquilo, enquanto Helena fez aquela cara de paisagem morta, eu estava realmente odiando aquela cara. “Não dá para agradar essa garota? Que chata!

Ficamos mais algum tempo, já estava para entardecer e fomos embora. Na volta deixamos Roberta em casa, ela deu aquele abraço firme e caloroso dela e um beijo no rosto de cada um e continuamos em silêncio. Esbarrei sem querer “foi querendo mesmo” em Helena e ela abraçou o próprio corpo e se afastou. Larguei ela de lado, fui brincar com Joaquim até chegar em casa.

A noite passou meio arrastada, jantamos, vi TV com meu pai e a nova esposa. Joaquim desenhava na mesa de centro e Helena foi para o quarto. Subi quando o sono bateu, já devia estar para virar o dia. Estava tudo escuro, só era possível ver a luz do celular sobre o rosto dela. Deitei e fui ouvir Engenheiros até apagar. Dormi com os fones.

Notas finais
Insisto, se acharem erros me avisem! E aceito toda e qualquer tipo de crítica e sugestões. A história é para vocês! Obrigada pela leitura!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.