Notas iniciais
E agora, o fim.

Na manhã de sábado, Miguel foi mais indulgente ao preparar o café da manhã para Gabriella: Ovos, waffles, chocolate, atole embora não estivesse um clima frio. Era o começo de um adeus.

Lyla não tinha notificado aceleração no processo de desintegração daquela realidade e, com tudo já planejado para sua partida, Miguel só quis passar um último dia com a filha. Quando viesse a noite, ele iria pegar o metrô sozinho. Outras pessoas assistiriam ele tentar salvar algum animal ou pessoa dos trilhos — apenas um holograma convincente — e então, o trem viria. Num átimo de segundo, atravessaria um portal. Seria estranha a ausência de um corpo, um caso jamais resolvido, e para todos os efeitos, Miguel O’Hara daquele universo estaria oficialmente morto. Gabriella ficaria por conta própria.

O cânone entraria nos eixos. Certo?

Um dia, quem sabe, ela pudesse procurá-lo. Era o máximo que Miguel se permitia sonhar. Ela se tornaria uma Aranha, não? Um dia, seria elegível para entrar na Sociedade Aranha. Ele contaria para Gabi o que aconteceu, mesmo que ela tivesse ódio dele por um tempo. Miguel cogitava também cuidar dela à distância, afinal, não poderia fingir para si próprio que jamais a tinha conhecido, que jamais a tinha amado, que jamais tinha sido pai.

Mas, naquela manhã de sábado, ele apenas levou-a para um jogo tranquilo no parque ainda perto do centro com Marina e Suzana, suas melhores amigas. Manteve o sorriso educado frente aos flertes ocasionais da mãe de Marina. Levou protetor solar e lanches. Ao fim do passeio, as meninas pediram sorvete e havia uma sorveteria próxima, entre o movimento sempre incessante de Nueva York.

Enquanto elas saboreavam picolés, ele pediu licença para adentrar outra loja ali perto. Tivera uma ideia no caminho e era bom que ela estivesse acompanhada das outras mães, em segurança, enquanto ele botava seu pequeno plano em prática: a loja vendia cacarecos coloridos e não foi difícil encontrar algo perfeito para Gabriella. Por educação, também comprou dois chaveiros para Marina e Suzana — era Suzana que amava golfinhos, não? — mas o de Gabi era mais especial: uma aranha roxa feita de crochê.

Ainda na loja, pediu um post-it e uma caneta para escrever um recado e colar na argola, de um jeito que ficasse quase como uma etiqueta.

Mal terminou de escrever quando sentiu um solavanco. Veio do chão; não, veio do próprio fundamento daquela realidade. A urgência daquele instante justificou Lyla surgir sem a permissão direta de Miguel, mesmo com outras pessoas ao redor. Dane-se se estivessem surpresos, havia coisa pior para se preocuparem.

— Começou. Chamei reforços! Protocolo Fireweb em andamento.

— Fala para o Peter vir agora. Ele vai entender.

Colocou o chaveiro no bolso e saiu correndo para a filha.

O que faria em seguida?

Primeiro, avançou para logo pegar Gabi no colo. Sim, o uniforme azul e vermelho surgira no corpo, os caninos tornaram-se mais evidentes na boca e um brilho carmesim acendeu-se nas íris. Pegou-a rápido, sem nem sentir seu peso; só o impacto seu olhar arregalado e confuso.

— O que tá acontecendo, papá?

Não respondeu.

Na Sociedade Aranha, Miguel já tinha projetado protótipos baseados no mecanismo dos relógios multidimensionais. Assim como aqueles aparelhos não permitiam que seus usuários se fragmentassem ao adentrar outros universos, os protótipos seguiam esse raciocínio — o intuito é que fossem instalados em pontos daquela teia da realidade para cessar a extinção daquele universo; se possível, que o remendasse também. Ele contava que houvesse ainda tempo.

Viu as meninas, Marina e Suzana, correndo com as mães. Todos corriam. Ninguém sabia onde se abrigar. O céu rachava, partido como nunca deveria ocorrer; mais estranho que um cenário de teatro de desfazendo, pior do que um mosaico explodindo. Tudo parecia de repente ser feito de vidro: concreto, terra, metal, plantas, carne, ossos, pessoas inteiras. E tudo se estilhaçava.

Adiante, viu mais Aranhas tentando evacuar o lugar e instalar os protótipos. Tinham chegado.. Já existia um protocolo para esse tipo de situação, mas até então nunca tiveram necessidade urgente de colocá-lo em prática. O pior era o som: os gritos, os tendões daquela dimensão se estirando e rompendo, os fragmentos. Peter, aquele Peter B. Parker que atravessara universos, estava mais perto. Cruzaram o olhar. Vieram outros solavancos, um pior que o outro.

Miguel tentou correr mais rápido, Peter ajudou uma pessoa que caíra. Em vão. Uma avalanche desintegrava tudo o que encontrava pela frente. Miguel olhou para baixo, para sua filha que soluçava, sem chorar direito, sem falar direito. Um outro relógio multidimensional, quem sabe? Isso resolveria, pois não chegariam a tempo a outro lugar seguro. Mas ele teria tempo de pegar outro relógio? Teria tempo de tirar o próprio para entregar à ela?

Aquele olhar duraria para sempre em sua memória. Havia sido o último. Em um estalar de dedos, o peso em seu colo se desfez e não sobrava nada em suas mãos. Só ar. Sua menina, seu tudo havia se reduzido a nada. E aquele universo também.

***

Miguel estava sozinho. Ou quase. Entendia que Lyla estava ali, pois sempre estava, encarando-o com tristeza e silêncio. Não havia nada o que dizer. Ele e Peter B. Parker foram os últimos a sair daquela imensidão vazia, depois de se certificar que não havia mais nada, de fato, para se recuperar ali. Era um tipo de destruição diferente: não havia gritos, lamúrias, ecos; não havia fogo, destroços, fumaça; não havia sangue, nem corpos. Silêncio e vazio. A contagem de desaparecimentos calculada por Lyla era praticamente inútil, pois poderia se resumir a tudo. Tudo fora destruído.

As Aranhas da Sociedade ainda não sabiam a extensão daquela história. Talvez tivesse sido um vilão novo e aterrorizante, alguém que nem mesmo Miguel tivesse conseguido lidar. Fazia sentido, já que ele não tinha sido visto há semanas e tudo em torno daquele sumiço era envolto de muito segredo. Em breve, Miguel colocaria o ocorrido em palavras. Sua disciplina também o obrigava a escrever um relatório oficial, algo digno para a morte de um universo inteiro.

Naquele instante, precisava apenas de um tempo. Um tempo considerável.

Com as luzes de sua sala na Sociedade Aranha desligadas, ele encostou-se numa mesa e olhou o horizonte no vidro. Nada ali havia mudado. Chorou em silêncio. Do bolso, Miguel tirou o chaveiro com seu recado para Gabi. Tinha ficado seguro, por alguma razão. Talvez por roupas e objetos se atrelarem ao código de estabilização do relógio multidimensional. Brincou com a textura macia da aranha de brinquedo, releu a mensagem que jamais Gabriella teve a oportunidade de ler.

Você me amou mesmo me achando no lugar errado

Não teve medo das quelíceras

Agora, te acompanho sempre

Pois continuo te amando também.


Você chegou ao fim do livro. Parabéns!