Queimadura

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Oie pessoal! Muito inédito eu duas vezes no ano postando fic, já que eu normalmente posto uma e depois sumo por anos kkkkkkkkkkk mas enfim, eu resolvi participar do projeto do November Hinny (@HinnyNovember) e saiu essa historinha aqui. Como eu disse, ela foi inicialmente inspirada pela música Sunburn do Ed Sheeran (caso alguém queira ouvir: https://www.youtube.com/watch?v=VMq5R79Nx28&ab_channel=EdSheeran-Topic). Na verdade, essa história inspirada nessa música está na minha cabeça há ANOS, e finalmente ela saiu graças ao november hinny kkkkkk Queria agradecer e parabenizar o projeto, foi a coisa mais linda do mundo ♥ muito feliz de ter participado! Também é a primeira vez na vida que escrevo Hinny, e calhou de ser a maior one que escrevi até agora kkkkkk então tô ansiosa pra saber o que vcs acharam! Também queria dar um alô pra Morgana, que também tá participando do november hinny. Eu roubei o sobrenome da sua Ginny pra mim, então muito obrigada! (link do perfil dela: https://fanfiction.com.br/u/611658/. Leiam a fic do nh dela, é perfeitaaa!) Enfim, acho que é isso. Eu revisei a história, mas caso achem algum errinho ou alguma coisa, não hesitem em me dizer. Boa leitura!

QUEIMADURA

A luz do sol que passava pelas cortinas entreabertas da janela acordou Harry naquela manhã de sábado. Virando-se de lado, a primeira coisa que sentiu foi um tremendo ardor nas costas. Coçando os olhos e tateando a mesinha de cabeceira por seus óculos, percebeu que a mulher ao seu lado ainda dormia tranquilamente, e levantou-se sem fazer barulho. De pé na janela ao lado da cama, empurrou um pouco as cortinas e sentiu o cheiro da maresia inundar o quarto. Ainda tentando fazer com que seu cérebro acordasse, Harry ficou ali, encostado no parapeito da janela, observando o vai-e-vem das ondas do mar e inebriando-se com o cheiro da praia.

— Já está acordado? – Harry ouviu-a perguntar, e virou-se para olhá-la. Ela afastava os cabelos pretos do rosto, sentando-se na cama e alongando o tronco desnudo.

— Sim, mas não faz nem cinco minutos. Dormiu bem? – Ele perguntou, e ao receber uma resposta afirmativa da namorada que ainda estava em processo de despertar, ele voltou o corpo novamente para observar a praia.

— Meu Deus, Harry! O que aconteceu com suas costas? – Cho perguntou, rapidamente levantando-se e indo verificar de perto. Assim que tocou levemente a pele das costas de Harry, ele se retraiu em dor, soltando um grande ‘’ai!’’. Cho automaticamente tirou sua mão, com um olhar de desculpas direcionado a Harry. Ele caminhou até o espelho que ficava em um canto do quarto e tentou ver suas costas. Sua pele, especialmente a parte superior de suas costas, estava extremamente vermelha. O menor toque doía de fazê-lo lacrimejar. Já chateado, frustrado e sabendo seu destino, ele voltou a mirar Cho, que o olhava preocupada.

— Esqueci do protetor solar ontem. – ele simplesmente comentou, esclarecendo tudo. A menina soltou um suspiro, e sentou-se na cama.

— Toma um banho com água fria e depois deita aqui, que eu passo uma pomada para queimadura nas suas costas. Hoje você pode usar a blusa de proteção solar e a gente pode passar o dia dentro de algum lugar coberto. – Cho disse, o tom de pena presente em sua voz. Harry assentiu, apesar de suspeitar que um banho gelado e uma pomada não iam aliviar o suficiente para que passasse o dia exposto ao calor da praia novamente.

Mas resolveu obedecer à namorada, para que não houvessem intrigas. Durante o banho, cada pingo de água caído em suas costas, ao mesmo tempo que aliviava um pouco, doía e ardia igualmente, tendo sido quase impossível para Harry ensaboar sua pele naquela região sem querer chorar. Após deixar o banheiro, com a toalha enrolada na cintura, Harry encontrou Cho já pronta, vestida em sua saída de praia com o biquíni por baixo, sentada na cama com uma pomada na mão, a sua espera. Ele pacientemente deitou na cama ao seu lado e pediu para que ela tivesse cuidado.

Cho assumiu um tom carinhoso ao ver de perto a queimadura na pele do namorado, e tentou espalhar a pomada por toda a extensão de suas costas da forma mais branda e amável possível. Mesmo utilizando suas mãos de fada e passando a pomada quase sem encostá-las na pele dele, Harry continuou sofrendo bastante com o toque e chegou a choramingar. Preocupada, ela perguntou se ele achava que conseguiria sair do quarto de hotel aquele dia.

— Amor, sinceramente, acho que não. Tá doendo demais. – Harry murmurou, tentando concentrar-se em algo que não sua dor. Cho ficou um pouco calada, ponderando o que fazer.

— Tudo bem. Eu posso ficar aqui com você, a gente pode alugar filmes na tv e aí é bom que posso ficar passando a pomadinha nas suas costas a cada hora. O que você acha?

Harry apoiou-se nos cotovelos para chegar mais perto de Cho, e percebeu em sua expressão que ela estava chateada com toda a situação. Ele sentia-se um pouco culpado, na verdade, por estar causando aquele contratempo. Já fazia mais de um ano que, devido às agendas de trabalho apertadas dos dois, eles não conseguiam arranjar um finzinho de semana sequer para viajar e relaxarem juntos. E, agora, finalmente haviam conseguido, aproveitando um feriado que havia caído em uma segunda-feira. E aí Harry resolvia ter um comportamento típico de sua cabeça de vento e esquecia de se proteger contra o sol, em plena praia, em pleno verão. Ele sorriu tristemente e disse:

— Cho, vai e aproveita a praia. Eu vou ficar bem no quarto, juro. É melhor eu descansar e aproveitar hoje para melhorar, e quem sabe amanhã eu não consiga ir à praia com você de manhã, antes de voltarmos para Londres?

Ela pareceu pensar um pouco sobre a possibilidade, mas acabou aceitando. Harry sabia o quanto Cho amava viajar, e principalmente, o quanto amava a praia, e o quanto ela havia ficado feliz quando marcaram a viagem. Tirar a empolgação dela para que, em vez de se divertir no mar, ela passasse o dia com ele, em um quarto, assistindo a filmes (que já era como passavam boa parte de seus finais de semana em casa), era como arrancar doce da boca de uma criança. Harry a amava demais para privá-la daquele momento que sabia que ela havia esperado ansiosamente.

Alguns minutos mais tarde, depois de se certificar de que Harry tinha tudo que precisava para sua jornada, inclusive que ele conseguia passar pomada em si mesmo, Cho despediu-se dele com um beijo terno em seus lábios e deixou o quarto.

Então, deitado na cama e fadado a passar o resto de seu feriado preso em um quarto de hotel, enquanto sua namorada se divertia na praia, Harry passou a fazer o que todo mundo faz quando se encontra ocioso: pensar. Inicialmente, tudo que Harry conseguia pensar era em como ele tinha sido tão burro a ponto de esquecer de passar protetor solar. Ele era tão branco quanto uma folha de papel ofício, por Deus, ele deveria lembrar de algo tão importante quanto protetor solar! Agora, teria que ficar dias e dias passando pomadas, hidratantes e loções para cuidar da intensa vermelhidão em suas costas, além de não conseguir aproveitar o fim do feriado.

A partir daí, sua mente divagou, então, para todas as vezes que havia se queimado na vida, e, bem... haviam sido muitas. Harry possuía um extenso histórico de queimaduras, desde as de sol, a queimaduras no fogão, até uma vez que se queimou gravemente com gelo, após participar de uma competição de quem aguentava segurar um cubo de gelo por mais tempo, quando criança. Pensou, também, em como todas suas queimaduras haviam deixado para trás alguma marca. E, descendo pela toca do coelho desses pensamentos, pensou também em todas as pessoas que haviam passado pela sua vida. Pessoas que haviam ido embora e deixado para trás uma cicatriz.

Ele lembrou, obviamente, de Pansy Parkinson. A garotinha de cabelos pretos e atitude agressiva era inesquecível. Quando estudaram juntos, no fundamental, Harry era apaixonado por ela. Eles até conversavam e mantinham um relacionamento amigável, mas, uma vez, quando, no auge dos seus oito anos, Harry decidiu se declarar, a resposta foi um tanto ríspida. Ele escrevera um poeminha bobo falando que ela era tão linda quanto a lua, e no cantinho da folha, colocou um singelo ‘’quer ser minha namorada?’’, junto de duas caixinhas com ‘’sim’’ e ‘’não’’, para ela marcar a opção. Pansy, ao receber o bilhetinho em sua carteira no meio da aula, riu abertamente e, olhando-o com desprezo, disparou: ‘’eca, Potter! Eu nunca namoraria alguém nojento como você!’’. Todos da sala riram da humilhação pública de Harry, que fora chorando para casa e precisou de muito colo da mãe e sessões de psicoterapia para recuperar-se do trauma.

Lembrou também de Draco Malfoy. Ele e o menino de olhos azuis eletrizantes haviam sido melhores amigos no ensino médio. Juntamente a Hermione e Ron, os quatro formavam um quarteto inseparável. Harry tinha um apreço muito grande por todos os amigos, mas as coisas com Draco eram... diferentes. Harry não entendia porque, mas gostava de observar os cabelos loiros do garoto, sentia-se exultante nos dias em que sorriam um para o outro e sofria nos dias em que não haviam sorrisos. O coração acelerava na presença muito próxima do menino, e um leve encostar de braços era o suficiente para causar-lhe arrepios. Em algum momento de seus anos de ensino médio, em uma das tardes em que se reuniam para jogar videogames na casa de Draco, algo aconteceu. Lábios foram selados e tudo mudou. O breve relacionamento dos dois, que nunca foi oficializado ou verbalizado para muitas pessoas, terminou com muitas brigas, dor e angústia. Draco e Harry se viram pela última vez no dia da formatura, e Harry honestamente achava que era o melhor para ambos. O envolvimento dos dois fora extremamente conturbado e confuso, mas apesar de tudo, Harry era grato a Draco por ter lhe esclarecido e ensinado muitas coisas sobre sua sexualidade.

Mas todo o sofrimento que Draco lhe trouxe não era, nem de longe, comparado ao sofrimento que tivera ao perder ela. Ginny fora sua namorada, e eventual noiva, em um relacionamento que durou 6 longos anos. Ela fora uma parte muito presente e significativa de sua vida que, atualmente, estava muito bem guardadinha em uma caixa, que ele trancava, dava um jeito de esconder as chaves, e empurrava para o fundo mais fundo da sua mente. Volta e meia, no entanto, todos seus esforços de mantê-la escondida falhavam, como se, contra sua vontade, alguém viesse e brutalmente a abrisse, tal qual a caixa de Pandora, deixando tudo sair e revelando seus sentimentos mais soturnos ao mundo. Era em momentos como esse, que ele estava desprevenido, que a caixa se abria, e ele revivia todos os acontecimentos novamente.

—

A primeira vez que ele encontrou Ginny, ela era caloura na Universidade de Hogwarts, e ele estava no segundo ano. Harry era capitão do time de futebol masculino oficial da Universidade, e, todos os anos, havia uma seleção para entrada de novos jogadores. Então, aproximadamente um mês após o início do semestre, a data da seleção foi marcada, e, no dia, todos os aspirantes a jogadores apareceram no campo, assim como os capitães dos times masculino e feminino. Era tradição que a masculina acontecesse primeiro, e a feminina logo em seguida, e que todos os que comparecessem ao evento assistissem às duas seleções. Naquele ano, Harry não precisaria recrutar muitos novos jogadores, já que apenas dois integrantes do time haviam se formado no ano anterior, e percebeu que teria problemas para se decidir, já que haviam cerca de vinte alunos, em sua maioria calouros, ansiosíssimos por mostrar suas habilidades futebolísticas e garantir sua vaga no time. Apesar disso, ao longo do processo, Harry acabou percebendo que grande parte dos tentantes não eram tão bons assim, ou que o nervosismo estava atrapalhando seu desempenho. Qualquer que fosse o caso, a decisão acabou vindo bem natural para Harry, que, dos cinco melhores, escolheu Colin Creevey e Seamus Finnigan para as posições de atacante e zagueiro.

Já bem cansado de tanto correr no campo e observar atentamente as manobras dos meninos, assim que findou a seleção e sentou-se nas arquibancadas junto de seus colegas de time, Harry apenas desejou que o processo seletivo feminino não fosse tão demorado. Afinal de contas, tudo que ele queria era chegar no seu dormitório o mais rápido possível e tomar um banho bem longo e relaxante. Harry assistia a seleção feminina sem dar muita atenção, bebericando devagar a água de sua garrafa. Foi então que ele viu os cabelos vermelhos reluzentes entrando em campo, com um andar determinado e o queixo bem elevado. Devido à distância que estava do campo, Harry não conseguia ver muito bem a figura da menina, apenas os cabelos ruivos chamativos presos em um rabo de cavalo e sua estatura mediana. Assim que Angelina Johnson, a capitã do time feminino, soprou o apito, a menina passou a mover-se de forma impressionante pelo campo. Harry a observou maravilhado driblar as demais jogadoras, e marcar dois gols sem grandes esforços. Nunca tinha visto tamanha agilidade em nenhuma outra jogadora do time. A pequena partida com a garota foi rápida (para Harry havia ficado claro que Angelina não precisou de muito tempo para perceber que queria a menina no time), e os olhos de Harry não haviam se desviado dela por um segundo sequer. Ainda muito intrigado, a observou cumprimentar todas as jogadoras, e deixar o campo, indo sentar-se do outro lado da arquibancada, a fim de assistir ao resto da seleção.

A segunda vez que Harry a viu foi no dia de divulgação dos novos membros dos times de futebol. Ele e Angelina marcaram de encontrar-se no hall principal da Universidade exatamente às três da tarde, para que pudessem ambos pendurar os resultados do recrutamento no quadro de avisos ao mesmo tempo. Depois de pendurarem os papéis, eles afastaram-se e ficaram no canto da parede, observando enquanto a enxurrada de alunos se amontoava diante do quadro para conferir se seus nomes estavam lá, ou apenas curiosos em saber quem eram os novos jogadores de cada time. Alguns saíam exultantes, outros dando risinhos, e outros desolados. Harry ficou de olhos atentos o tempo inteiro, procurando a moça de cabelos ruivos no meio da multidão, mas ela não estava lá. Havia bisbilhotado a lista de Angelina e descoberto que seu nome era Ginny Prewett, e que, como era esperado, ela havia passado no teste. Estava ansioso para vê-la novamente, e, especialmente, ver qual seria sua reação. Após o movimento se dissipar, Ginny ainda não havia aparecido. Angelina despediu-se de Harry alegando precisar passar na biblioteca, mas ele permaneceu a postos no hall, esperando por ela. Não muito tempo depois, ele viu um vulto ruivo surgir na ponta do corredor, e, ficando ainda mais no cantinho, ficou na expectativa de vê-la. Ela chegou, a passos largos e determinados, assim como no dia da seleção, e rapidamente passou os olhos pelo papel grudado no quadro de avisos. Um enorme sorriso surgiu em seu rosto enquanto ela comemorava internamente. Tão rápido quanto havia chegado, Ginny voltou a percorrer seu caminho, virando-se e indo embora, dessa vez exalando felicidade. Harry, meio embasbacado a observá-la, quase a perdeu de vista. Mas, em um súbito ímpeto, correu alguns passos até chegar perto dela, a chamando. Ela se virou, com um semblante curioso. Foi a primeira vez que Harry a viu realmente de perto, e, nossa, como ela era linda. O cabelo, ele pode perceber, era um pouco mais puxado para o laranja do que havia pensado, e os olhos castanhos eram grandes e cheios de vida. Tinha um nariz arrebitado enfeitado de sardas, que cobriam também suas bochechas e um pouco de sua testa. Os lábios eram um pouco finos, mas bem rosados e condizentes com o resto de seu rosto.

— Oi, e-é... Eu sou o Harry. – ele disse, ainda pasmo com sua beleza e com o fato de que realmente a tinha chamado, e agora sem ter a menor ideia do que dizer.

— Eu sei. – ela comentou simplesmente, e ficou esperando que ele dissesse algo mais.

— Você... sabe? – Harry perguntou, sem entender direito, mas sentindo um pouco de orgulho por saber que ela sabia de sua existência.

— Você é o capitão do time de futebol. – Ginny disse como se fosse óbvio, um sorrisinho displicente nos lábios.

— Ah, sim, é verdade... – ele riu um pouco. – Bem, eu só queria te parabenizar por ter entrado no time. Você foi realmente muito boa lá no campo.

— Obrigada! Isso significa muito vindo de você... Sabe, a maior sensação futebolística de Hogwarts? O jogador mais novo a virar capitão na história do time. – ela sorriu. Harry pareceu ter ficado muito envergonhado com os elogios, o rubor tomando seu rosto. Não conseguiu responder muita coisa, apenas ficou assentindo e rindo. Ginny e ele ficaram em um silêncio constrangedor, sem saber para onde olhar ou o que dizer.

— Bem, eu vou indo. Combinei de encontrar uma amiga nos jardins. – ela disse, por fim, se despedindo e indo embora, deixando Harry no meio do corredor. Ele permaneceu lá por alguns instantes, sentindo algo aquecer no peito.

Pelas semanas seguintes, Harry continuou a encontrando casualmente pela Universidade: nos corredores, no refeitório, no campo. Eles sempre se cumprimentavam e Harry por vezes tentava manter uma conversa amena, mas nunca levava muito tempo até um dos dois ficar sem palavras e arranjar uma desculpa para sair dali. Harry se via cada vez mais e mais encantado com Ginny, e passou a assistir aos treinos de futebol do time feminino apenas para vê-la em ação. Nada parecia deixá-la tão feliz e confortável quanto estar em campo, e nada parecia deixar Harry tão contente quanto observar a agilidade de Ginny jogando. Acabou descobrindo por meio de amigos que ela era caloura de Educação Física, e que morava em uma das repúblicas femininas de Hogsmeade, vinda de Londres apenas para estudar.

Após algum tempo de encontros casuais pela Universidade e muita admiração à distância, Harry resolveu chamar Ginny para sair. Em uma sexta-feira, ele esperou que o treino dela acabasse e foi esperar perto da porta do vestiário. Ele já havia percebido que ela era uma das últimas a sair nos dias que, após o treino, ela ainda teria aula, pois tomava banho e se arrumava no vestiário mesmo. Como essa sexta era um desses dias, ele tomou seu tempo e ficou enrolando nas imediações do local para despistar a atenção das outras meninas, e, assim que a maioria delas já havia saído, ele direcionou-se para mais perto e ficou esperando. Quando ela saiu, em um surto de coragem, ele foi até ela e a convidou para tomar um café no fim de semana. Prendendo a respiração, os segundos que levaram até que ela respondesse pareceram uma eternidade. Para a surpresa e contentamento de Harry, Ginny aceitou, e trocaram telefone para poderem combinar os detalhes.

No primeiro encontro, alguns dias depois do convite, Harry estava extremamente nervoso. Enquanto a esperava na porta do café (ele havia chegado cerca de 15 minutos adiantado), constantemente limpava as mãos suadas na calça, que insistiam em continuar suando, e tentava manter seu coração calmo. Ginny chegou exatamente na hora combinada, vestida em roupas tão casuais, mas que a favoreciam tão bem, e Harry não conseguiu disfarçar seu alívio e alegria ao vê-la. Já na metade do encontro, Harry percebeu que não havia motivo pelo qual ter ficado tão aflito. A partir do momento que se sentaram em uma das mesinhas, as coisas fluíram naturalmente. A conversa era muito tranquila, os risos eram constantes e a sensação dos dois era a de que se conheciam já há bastante tempo. O tempo voou, e, assim que a deixou na porta de casa, Harry já tratou de convidá-la a um próximo encontro. O sorriso que recebeu como resposta já dizia tudo.

Com o passar do tempo e dos encontros, Harry e Ginny ficavam cada vez mais próximos e confortáveis um com o outro. Harry se encantava a cada dia mais com o jeito determinado e preciso de Ginny, enquanto ela achava uma graça que ele fosse tão aventureiro e empolgado, sempre a querendo levar em uma trilha ou uma viagem de acampamento. Ginny adorava os fins de semana que ia passar no dormitório de Harry (de forma clandestina, diga-se de passagem, já que teoricamente era proibido que meninas ficassem no dormitório da universidade dos meninos). Fora, inclusive, em um desses fins de semana, que, tomando café da manhã junto a ele na pequena mesinha, ela virara e o pedira em namoro, cerca de quatro meses após o primeiro encontro. Harry havia ficado muito surpreso e, engasgado com seu café, perguntou se ela estava falando sério. Ele nunca se esqueceria do olhar divertido que ela o dera, apontando para si mesma: seu cabelo todo bagunçado, preso em um coque, e, em seguida, para seu corpo, que usava apenas uma das camisetas de Harry. Ela riu e disse ‘’eu acho que isso entre nós já é um namoro, mas vamos pelo menos oficializar as coisas, né’’. Ele riu de volta e a beijou, selando, assim, o relacionamento dos dois.

E os meses passaram e viraram um ano, e depois dois, e depois três. Harry e Ginny permaneciam juntos e mais apaixonados do que nunca, sendo um dos it couples da Universidade de Hogwarts. Era sempre muito legal ver o quanto Harry torcia por Ginny nos jogos do time feminino de futebol, e o quanto ela se empenhava em gritar o nome do namorado das arquibancadas quando a situação se invertia. As viagens tornaram-se inúmeras, as idas até a casa dos pais de cada um também, e o amor entre eles só parecia aumentar. Harry sentia como se Ginny fosse sua cara-metade, e, por vezes, nem conseguia lembrar como era a vida antes de ter a ruiva ao seu lado. Ginny amava o quão desbravador e apaixonado Harry era por tudo que fazia, e sabia que queria ficar ao seu lado para sempre. Mesmo que isso significasse ter que ouvir ele falar por horas e horas sobre assuntos químicos e físicos que ela não gostava, não ligava, e nem entendia, mas que não o impedia de falar tanto quanto um papagaio sobre. Harry sentia exatamente o mesmo, apesar de isso significar ter para sempre uma mulher mandona e teimosa na sua vida. Afinal, Harry admirava muitíssimo a qualidade da ruiva de ser determinada em tudo que queria, e não demorou muito a perceber que ela usava essa determinação também em sua vida pessoal, com ele, para convencê-lo a fazer o que ela queria.

O relacionamento dos dois parecia funcionar muito bem, mas a primeira vez que ele realmente foi posto à prova foi quando Harry finalmente se formou em Engenharia Química, dando alegria a todos, mas que, infelizmente, significava que ele não tinha mais o que fazer em Hogsmeade. Ele voltou para sua cidade natal, Godric’s Hollow, enquanto Ginny ficou em Hogsmeade para seu último ano de faculdade. O ano se passou com algumas dificuldades. Ginny não conseguia ir visitá-lo muito frequentemente, devido ao aperto da faculdade, e Harry somente voltou à Universidade de Hogwarts nas temporadas de campeonato, para assistir aos jogos da namorada. As agendas ocupadas de cada um por vezes também dificultaram a comunicação, e passavam dias a fio sem se falar direito. O relacionamento, naturalmente, esfriou um pouco, e às vezes Harry deixava pensamentos sombrios sobre um Dino Thomas (que era colega de classe de Ginny e sempre tentou algo com ela, mesmo sabendo de seu namoro com Harry) conseguindo passar muito tempo sozinho com sua namorada tomarem conta de sua mente, abalando sua confiança e autoestima. Esses momentos eram seguidos por calorosas discussões com Ginny, que o repreendia por pensar que ela pudesse realmente traí-lo. Ao final daquele ano e eventual formatura de Ginny, o relacionamento voltou um pouco a normalidade, dado que passaram as férias de fim de ano juntos na casa da família dela, em Londres.

Após o início do ano novo, Harry precisou novamente voltar à Godric’s Hollow para sua vida e emprego, e Ginny permaneceu em Londres. Agora, no entanto, havia a perspectiva de morarem juntos em Londres, onde haviam mais possibilidades para ambos. Portanto, no início de Março, Harry já se mudava de mala e cuia para a cidade, onde ele e Ginny começaram a dividir um apartamentinho em um bairro mais afastado do centro. Não era muito, mas era o que o salário dos dois conseguia pagar. Ao se pegarem morando juntos e bem felizes, todo o fogo do início retornou, e o namoro dos dois nunca havia estado melhor. O momento parecia muito propício para um passo maior na relação dos dois. Foi aí, então, que Harry arquitetou todo um plano para pedir Ginny em casamento, exatamente no dia em que haviam tido seu primeiro encontro, quatro anos antes. Harry planejou levá-la em uma viagem de acampamento, só os dois, para passarem um tempo sozinhos longe da civilização e do barulho da cidade. No meio da noite, em um lugar tão tranquilo que conseguia se equiparar à paz que sentiam na companhia um do outro, sob as estrelas, Harry ajoelhou-se e a pediu em casamento com um anel simples, mas que era a cara de Ginny. Tudo fora muito reservado e tocante, do jeitinho que ele sabia que ela ia amar. A resposta de Ginny ao pedido veio com um beijo muito terno e carinhoso, e Harry achou, naquele momento, que nunca poderia sentir-se mais feliz.

E os meses continuaram passando, com o casal mais unido do que nunca e fazendo mil planos para o grande dia. Harry trabalhava como engenheiro químico em uma empresa de consultoria ambiental, enquanto Ginny era treinadora de um time de futebol de uma escola esportiva conceituada em Londres. Seu grande sonho era, na verdade, ser jogadora profissional de futebol, mas, como não havia tido oportunidades de entrar em nenhum time feminino da Inglaterra, ela havia deixado isso em segundo plano, e continuava jogando em um time amador apenas como hobby. Com o tempo passando, e as promoções e aumentos de salário vindo, eventualmente Harry e Ginny conseguiram melhores condições aquisitivas e mudaram-se para um apartamento melhor em um bairro também bem melhor.

Tudo ia muito bem, obrigado. Os preparativos para o casamento continuavam a passos lentos, pois eles queriam realizar a cerimônia em uma época que todos da família de ambos pudessem comparecer, e como um dos irmãos mais velhos de Ginny morava na Bulgária, só poderia ir à Inglaterra no ano seguinte. Desse modo, tudo estava andando sem pressa, e poucas coisas haviam sido decididas. Hermione, uma das amigas de Harry desde a infância, estava exultante com a ideia do casamento do amigo, e, dado que havia virado amicíssima de Ginny também, sempre que havia oportunidade, elas engatavam em conversas intermináveis sobre a festa. Ginny costumava rir e dizer que toda a animação dela era para compensar a vontade que a própria tinha de se casar, já que namorava Ron, o outro amigo dos dois, desde o ensino médio, mas mesmo assim, não achava que ele iria pedi-la em casamento em nenhum futuro próximo. Hermione sempre ria meio sem graça, mas nunca negava. A vida prosseguia sem demais problemas, e a expectativa de casarem, e posteriormente, constituírem uma família cheia de ruivinhos de olhos verdes era bastante bem-vinda à mente de Harry. Nenhum dos dois imaginava a grande dificuldade e dor que viria em seguida.

Já no ano seguinte, pouco tempo após completarem seis anos de relacionamento, surgiu uma oportunidade para Ginny que faria a vida de ambos virar de cabeça para baixo. A notícia chegou em uma quinta-feira à noite, quando Harry estava sentado no sofá assistindo a um filme que passava na tv aberta enquanto esperava Ginny chegar do trabalho. Ela tendia a chegar mais tarde do que de costume nas quintas devido ao treinamento individual que fazia com alguns jogadores, e, naquela noite, não foi diferente. A única grande diferença daquele dia foi que, normalmente, Ginny chegava extremamente cansada, querendo apenas tomar um banho, jantar e dormir. No entanto, naquela noite, quando abriu a porta do apartamento e deu de cara com Harry no sofá, ela estava estonteante. O sorriso que ia de orelha a orelha já indicava que algo havia acontecido, e Harry não levou nem cinco segundos para perguntar o que se passava. A resposta veio como um grande tapa de surpresa na face de Harry:

— Hoje, mais cedo, recebi uma ligação da Austrália. Aparentemente um olheiro da seleção feminina australiana estava aqui na semana passada e assistiu aos meus jogos do campeonato amador da Inglaterra. Eles me convidaram para fazer um teste.

— Um teste? – Harry perguntou, incerto do que ela estava falando. Ginny exalava felicidade.

— É, você sabe, ir passar um tempo lá, treinar com as meninas do time, quem sabe jogar um amistoso e ver se me adequo... Se eu passar no período probatório, entro como integrante oficial da seleção.

Harry estava sem palavras. Ele sabia que devia falar algo, até porque Ginny olhava para ele cheia de expectativas e alegria. Ele queria e devia parabenizá-la, mas só conseguia pensar no que isso significaria para eles.

— Meus parabéns, Gin. Isso é realmente muito legal. – ele disse, por fim, após alguns segundos silenciosos.

— É sensacional! – Ginny não parecia ter percebido a hesitação de Harry, e caiu sobre ele em um abraço comemorativo.

Harry decidiu não comentar sobre naquela noite. Ginny estava muito feliz, e não parecia certo estragar a felicidade dela com o que ele saberia que seria uma conversa difícil. Assim, então, a sexta-feira se passou sem muitos comentários sobre o assunto, dado que ainda estavam em ritmo de trabalho, e o assunto voltou a surgir apenas no fim de semana. Harry percebeu que não conseguiria adiar muito mais a conversa quando passou por trás de Ginny em um momento que ela estava usando o computador, e viu que ela já estava dando uma olhada em passagens.

— Então, quando eles querem que você vá? – ele perguntou, sentando-se na cadeira em frente à dela na mesa.

— Ainda preciso confirmar o dia com o treinador da seleção, mas já no mês que vem. – Ginny respondeu, sem dar muita atenção e sem tirar os olhos do computador. Harry respirou fundo, tentando tomar coragem para iniciar o assunto. Coçou a cabeça, estralou os dedos, olhou ao redor, e finalmente soltou:

— E você vai sozinha? – Ginny finalmente desviou o olhar da tela, e parecendo bastante confusa, encarou Harry.

— Sozinha? Claro que não. Você vai comigo, não? – Ela perguntou, algo que parecia certo em sua cabeça lentamente começando a mostrar-se como incerto. Harry suspirou.

— Eu vou? Eu não sei, Ginny... Nós não conversamos sobre isso. – percebendo que renderia uma conversa, Ginny empurrou o notebook para o lado e concentrou-se em Harry.

— Bem, eu... Eu achei que você fosse me apoiar nisso. Sempre foi meu sonho e você sabe. – ela falou, as mãos estendendo-se sobre a mesa e alcançando as de Harry do outro lado.

— Eu apoio, Gin. Eu só achei que seu sonho acabaria sendo mais... Nacional. – ele riu pelo nariz, encarando os dedos enlaçados dos dois. – Não sei se tenho vontade de sair do país, largar meu emprego e deixar minha família só para te acompanhar do outro lado do mundo. – completou.

— Só para me acompanhar? O que aconteceu com ‘’a mulher da minha vida e que quero passar o resto da minha vida com’’? Nós vamos casar, Harry. – ela subitamente soltou sua mão da dele, agora claramente irritada com a situação.

— Eu sei, amor, e eu quero me casar e quero sim passar o resto da minha vida com você. Eu só não sei se estou pronto para fazer isso do outro lado do mundo. – ele se exasperou.

— Qual a diferença de ficar comigo na Inglaterra ou na Austrália? – ela perguntou, ácida, uma sobrancelha erguida.

— Nenhuma. – ele respondeu, tentando fazê-la recuar na rigidez. Ginny ergueu ainda mais a sobrancelha, em sinal de descrença. – É só que é estranho ir para o outro lado do mundo para isso. Se formos para a Austrália, e por algum motivo não dermos certo... Eu vou ter largado toda minha vida por você, Ginny, e aí estarei completamente sem rumo e muito longe de casa. – Harry exalou, deixando todas suas preocupações saírem também.

— Se você não sabe se vamos conseguir ficar juntos na Austrália, significa que não sabe se vamos conseguir ficar juntos aqui também. – ela se levantou, demonstrando uma frieza que estava longe de sentir por dentro. Pegou a bolsa que estava no cabideiro e as chaves, indo em direção a porta, deixando um Harry completamente paralisado na mesa. – Muito bom saber que você não acredita no nosso amor, e que nem me ama o suficiente para conseguir me apoiar nesse momento tão importante para mim. Você acha que não estou com medo, Harry? Você acha que não estou morrendo por dentro por ter que ir morar tão longe da minha família? Mas eu sabia que ia conseguir e que ia ficar tudo bem, porque eu teria você ao meu lado. Isso seria tudo que eu precisaria. Todo o resto iria se ajeitar aos poucos, porque o que era realmente importante já estaria comigo. – suas palavras cortavam como facas, mas o que realmente machucou Harry fora o olhar doído e desapontado que Ginny lhe lançara. Eles se encararam por alguns segundos, o silêncio se tornando ensurdecedor. Sem esperar mais, ela abriu a porta e saiu, deixando um Harry devastado para trás.

Depois de muito refletir, Harry decidiu que era melhor esperar Ginny voltar para casa. Assim, eles poderiam realmente conversar e fazer as pazes. E ele esperou, e esperou, e esperou. O relógio anunciava a chegada da meia noite, os olhos de Harry estavam muito pesados, mas ele ainda a esperava. Por volta de uma e meia da madrugada, o sono venceu Harry, e ele resolveu conversar com Ginny apenas no dia seguinte, na esperança de que quando acordasse, ela estivesse em casa. Mas ela não estava. Nem apareceu pelo resto do domingo. E na segunda, quando voltou do trabalho no fim do dia, grande parte das coisas dela tinham sumido do apartamento. Harry já estava bastante desesperado a esse ponto, e começou a perguntar dela para as pessoas. Soube de Luna, uma das amigas de Ginny, que ela estava ficando na casa dos pais, como ele suspeitava. Harry foi até lá duas vezes, na expectativa de conseguir conversar com ela. Na primeira, não a encontrou, mas teve uma breve conversa com o senhor Prewett que o deixou bastante esperançoso. Ele disse que Ginny estava extremamente triste e decepcionada com Harry, mas que achava que ela ainda estava disposta a consertar as coisas. Harry, então, voltou pela segunda vez, mas, diferente do que achava todo mundo, Ginny mal quis vê-lo. Falou com ele de muita má vontade, apenas uma meia dúzia de frases, e, com os olhos cheios de lágrimas e uma voz muito instável, disse algo que Harry jamais esqueceria:

— Não tem mais volta, Harry. Acabou.

Os primeiros meses sem Ginny foram os mais difíceis da sua vida, ele julgara. Era difícil acordar sem ver os cabelos vermelhos quase laranjas no travesseiro ao lado. Era difícil chegar de um dia cansativo no trabalho e não a encontrar sorridente em casa, e de repente sentir todo seu cansaço se esvair só de vê-la ali. Era difícil passar por todos os lugares da cidade sem lembrar dela, do seu sorriso, dos momentos felizes e dos momentos sombrios que passaram juntos. A verdade era que, se quando estavam juntos, Harry já não conseguia mais se lembrar de como era a vida sem Ginny, agora que estavam separados, ele já não sabia mais como viver. Os dias perderam a cor, o brilho, o cheiro. Tudo era cinza, triste e nublado. Ele tinha certeza absoluta que Ginny era sua alma gêmea, se é que isso existia, e saber que havia a perdido por um motivo que tinha resolução era simplesmente demais para que ele pudesse suportar.

Já seis meses após o término, Harry sentia como se precisasse erguer sua vida novamente. Finalmente tomou coragem de mudar de apartamento, deixando todas as lembranças de Ginny irem embora junto com o imóvel antigo. Voltara a sair para se divertir, beber com os amigos, passear no parque sem pretensões. Apesar de ser constantemente pressionado para voltar a ter uma vida amorosa, Harry ainda não se sentia pronto para tal. Foi quando, em uma noite agradável de outono, ele, Hermione e Ron saíram juntos para ver uma exposição de arte em uma galeria da cidade. Harry estava achando tudo bem entediante, para ser sincero, até que, caminhando sem rumo por um dos corredores, ele trombou em alguém. Apressou-se em se desculpar, e foi tomado de surpresa quando olhou para quem era a pessoa que havia tropeçado. Era uma moça bem mais baixa que ele, de olhos puxados, e um cabelo muito liso e preto. Uma franjinha enfeitava a testa redonda, e o nariz pequeno combinava bastante com os lábios bonitos. Ela abriu um sorriso que iluminou sua face.

— Tudo bem! Foi culpa minha, eu estava muito distraída. – ela disse, e logo retribuiu as desculpas. Um tanto hipnotizado e estranhamente animado pelo sentimento que inundou seu peito naquele momento, Harry não demorou a puxar assunto com a moça bonita. Ao fim da noite, eles já haviam conversado bastante, e inclusive se juntado para rir das obras de arte expostas, que não tinham sido entendidas por nenhum dos dois. Ao se despedirem, a menina (que descobriu chamar-se Cho Chang) pediu seu número de telefone, que ele prontamente deu. Não conseguiu deixar de lembrar de certa ruiva, que também era destemida e não tinha medo de fazer o que queria, mas afastou esse pensamento.

No dia seguinte, pela manhã, Cho mandou uma mensagem. Ele não tardou a responder, e a conversa entre os dois se estendeu por dias a fio. Eles nunca pareciam ficar sem assunto ou desconfortáveis um com o outro. Depois de quatro dias, Harry finalmente a chamou para tomar drinks em um bar durante a noite, e o simples sentir que seu coração poderia descongelar o fazia ficar exultante. O encontro fora ótimo, e acordar ao lado de Cho na manhã seguinte, no apartamento dela, parecera tranquilo a princípio. Ele acordou primeiro, e ficou observando silenciosamente enquanto Cho ainda dormia. À medida que pensava sobre o fato de estar ali, começou a sentir-se cada vez mais desconfortável. A imagem de Ginny deitada, ao seu lado, dormindo, insistia em invadir a sua mente. E, quando Cho acordou e o encarou risonha com os olhinhos inchados de quem acaba de despertar, tudo que Harry conseguiu ver foram os olhos muito castanhos de Ginny que costumavam olhá-lo do mesmo modo, e isso o perturbou. Meio ansioso e com a cabeça cheia, Harry não demorou a ir embora da casa de Cho, que, caso tenha notado algum comportamento estranho do menino, não comentou. Naquele dia, a ansiedade atingiu Harry em cheio, e só conseguia pensar em como ele tinha feito tudo aquilo com Ginny. Era muito cedo, ele não podia ficar com outra pessoa. Ninguém nunca seria como Ginny, não tinha como comparar, ele não podia superá-la fácil assim. Culpou-se por ter sentido coisas por Cho, por ter conversado com ela, e por ter ido longe demais. Como ele poderia ter passado todos aqueles meses sofrendo por ter perdido o amor da sua vida, e agora simplesmente saía com outra? Daí, os pensamentos foram para Ginny. Como estaria ela? Estaria feliz? Ele havia ficado sabendo, por meio de amigos, que ela realmente fora para a Austrália. Passara pelo processo probatório e entrara na seleção. Ele sempre soube que ela conseguiria, e sentia felicidade por saber que ela estava seguindo seus sonhos. Mas será que ela já havia o superado? Já poderia estar com outra pessoa? Em um acesso de raiva e curiosidade, ele entrou nas redes sociais de Ginny, as quais não olhara desde a época que haviam terminado. Não precisou de mais de cinco minutos para ver muitas das novas fotos que ela havia postado: de paisagens na Austrália, de amigos novos, do time e dos treinos. E, é claro, do novo namorado dela. A dor que o atingiu fez com que não conseguisse stalkear muito, mas aparentemente o loirinho musculoso que estampava várias de suas fotos também era jogador profissional de futebol. Harry saiu do Instagram, jogou o celular longe e chorou. Chorou muito, por toda a dor que estava sentindo. Por não ter insistido mais em Ginny, por ter sofrido tanto por ela, por ter se sentido culpado de começar a se envolver novamente, e por se sentir estúpido ao vê-la tão feliz com outro alguém.

Depois daquele dia, Harry resolveu seguir de verdade com sua vida. Continuou a ver Cho, e quando, em algum momento que estavam juntos, Ginny surgia em sua mente, tentava a todo custo deixar os pensamentos de lado. Ele sabia que a vida com Cho nunca seria como a vida com Ginny. Era impossível, afinal, elas eram completamente diferentes. E no início fora muito difícil, sempre inconscientemente tentando comparar as duas nas mais diversas situações. Harry tentou muito achar o mesmo que tinha com Ginny em Cho, e, depois de muito bater a cabeça em ponta de faca, percebeu que isso nunca aconteceria. Ele sabia que devia, de uma vez por todas, deixar Ginny ir. Cho o amava, o fazia se sentir bem, e o apoiava em tudo, e era isso que importava. E demorou, mas ele conseguiu. Com o tempo, ele e Cho construíam um relacionamento cada vez mais forte. Apesar de ser um amor diferente do que o que sentia por Ginny, ele amava Cho. Era muito bom ficar ao lado dela, era calmo e paciente.

Já fazia mais de um ano que Harry e Cho estavam juntos, e Ginny era como um fantasma do passado em sua mente. Ela já não aparecia em seus pensamentos com frequência, mas, toda vez que acontecia, Harry percebia que doía cada vez menos. Mesmo assim, ele teimava em fechá-la em um baú e guardá-la no fundo de sua cabeça, pois temia que, um dia, Ginny retornasse com força total e ele fosse novamente devastado por tudo que ocorrera.

—

Perdido nas memórias do passado que desenterrara aquele dia, Harry percebeu que já era entardecer, e havia passado o dia no automático. Ao menos lembrara-se de comer e passar seus cremes e pomadas, caso contrário, Cho ficaria realmente brava com ele quando chegasse da praia. Checando o horário, resolveu tomar mais um banho gelado bem rápido, a fim de trocar de roupa e convidar Cho a ir jantar em algum restaurante da cidadezinha. Sentiu que era o mínimo que podia fazer, dado que tinha praticamente estragado o feriado (supostamente divertido) dos dois. Graças à pomada e aos líquidos ingeridos durante o dia, Harry se sentia consideravelmente melhor, e sentiu de fazer esse agrado à namorada. Como esperado, Cho se mostrou muito feliz com a recuperação de Harry e o convite, e não demorou a ir também tomar um banho, a fim de tirar a areia do corpo.

Ali, sentado na cama e observando melancolicamente Cho enquanto ela tirava o biquíni e ligava o chuveiro, Harry pensou mais uma vez no seu dia e decidiu que havia feito a escolha certa. Ginny havia sido grande parte da sua vida, mas talvez um amor tão arrebatador e intenso como o que tinham não fosse saudável. Ou talvez toda a paixão deles apenas não fora feita para durar a vida inteira. E estava tudo bem. Ele poderia viver com isso. Rindo de forma despretensiosa e saudosa, Harry teve a certeza de que Ginny fora parte essencial de sua vida. Ela o ensinara uma porção de coisas, o alegrara em muitos momentos e o ajudara em vários aspectos. Mas, aparentemente, fora apenas essa a missão dela na jornada de Harry. Passar por sua vida, mudá-lo, ir embora e deixar uma marca. Exatamente como uma queimadura.

Notas finais
Muito obrigada por ler! Beijinhos!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!