Antes mesmo de amanhecer, saiu da cama e resolveu caminhar pelo acampamento. Não conseguia dormir com a ansiedade que tomou conta, e pela bebida da noite que ainda embrulhava o estômago.

Botou um manto com capuz para se proteger da brisa gelada que antecipava a manhã, e colocou no bolso o objeto que lhe tirava o sono. Enquanto andava, lembrou-se primeiramente da conversa com Merlin no pátio de Correrio.

“- Temos muito o que conversar, Lady Arryn.

— Como sabias sobre tudo aquilo?

— Elaene... – disse Merlin lhe puxando para um canto entre a parede do pátio- creio que já ouviu falar dos videntes verdes...

Ela deu um riso de escárnio

— São apenas histórias...

— Mesmo?

Merlin lhe lançou um olhar questionador

— O que? Você é um vidente verde?

— Não somente eu...

Elaene virou-se para ir embora

— Você é maluco.

— Elaene, me escute. Não temos muito tempo para conversar agora. É importante que parta para o sul com o Pendragon.

— É mesmo? O que acontecerá agora, vidente verde?

— Você receberá algo de volta, hoje pela manhã. Precisas levar este objeto contigo para o sul.

— Por quê?

—Você saberá.

— Porque não paras de falar em enigmas e me diz o que queres de mim?

— Eu não quero nada de você, Elaene. Estou aqui para lhe servir, apenas. Sei que você está se sentindo sozinha e infeliz, mas saibas que isto aqui, é apenas o começo de seu destino. Você jamais deixará de amar o lobo, isso não há como mudar. Mas também amarás outro.

— Jamais amarei outro.

— Elaene, disso você já não pode mais fugir.

— Provar-lhe-ei que posso! –Disse com raiva.

— Um dragão pertence ao outro. Só assim outros nascerão, e o mundo estará a salvo.

— O que diabos isso quer dizer?

— Você saberás, não agora. Vejo-te em breve, e até lá estará transformada.”

Enfiou a mão novamente no bolso e tocou o objeto mais uma vez, tentando derrubar o medo de olhá-lo mais uma vez. Respirou fundo, e por fim retirou do bolso. Passou o dedo entre os detalhes e o cordão, lembrando o último encontro com Robb.

Robb estava debruçado sobre a mesa analisando alguns mapas da região das terras fluviais quando Elaene entrou no salão. Lançou-lhe um olhar frio.

— Ainda não partiste?

— Os homens estão se organizando para a partida, Majestade.

Aproximou-se da mesa, estranhando a si mesma pelo tratamento dado àquele homem que era tão próximo.

— O que queres de mim, Elaene?

— Gostaria de lhe pedir um favor, Robb.

Robb soltou um suspiro áspero e Elaene sentiu que por alguns instantes ele deixou a máscara do Rei do norte cair.

— Peço que deixes que Arthur veja Jaime, para se certificar que o amigo está bem.

— O que? Como ele ousa?

— Robb, seja sensato. Arthur foi escudeiro de Jaime. Ele apenas quer ver se o amigo está bem.

— Não, como ele ousa em te usar para isso?

— Ele não está me usando, pelos deuses!!! Será que dá para você abaixar os escudos por um instante e ser razoável?

— Eu não acredito que você está se deixando levar pela lábia desse cavaleiro de verão, Elaene.

Elaene suspirou, cansada de brigas.

— A resposta então é não. Obrigada, Majestade.

— Espere. – Disse Robb, contornando a mesa e parando em frente à ela. — O que estamos fazendo, Elaene?

— Eu honestamente não sei. A única coisa que sei, é que você sempre está irritado, e eu triste o todo tempo, e nenhum de nós tem culpa disso tudo.

— Desculpe-me por ser um completo imbecil. Eu não me conformo com o que tivemos de fazer.

— Será melhor que eu parta por um tempo, Robb. Isso não está tornando as coisas mais fáceis para nenhum de nós.

— Eu sei... leve isto contigo.

Robb pegou o amuleto em seu bolso, e botou nas mãos dela.

Elaene olhou chocada para o objeto e sentiu as lágrimas teimarem em preencher os olhos. Aquele havia sido o amuleto de proteção que Elaene havia trazido consigo do Vale. A única lembrança que tinha de casa, e havia dado à ele no bosque sagrado, como prova do amor e para estarem sempre juntos, haja o que houvesse.

— O que é isso, Robb? Isso foi um presente! O mais valioso presente que poderia lhe dar!

— Sinto muito, Elaene. Não posso ficar com isso... é mais do que posso aguentar.

Quando o encarou, ele olhava para baixo evitando o olhar dela. Elaene foi em direção à porta com passos largos e antes de partir virou-se para ele.

— Você não só me ofendeu, Robb. Você me machucou como jamais pensei que faria...

Saiu do castelo com um misto de raiva, frustração e tristeza. Mas agora estava ali no sul, com aquele mesmo objeto em suas mãos, e não conseguia imaginar o significado daquilo com seu futuro e com que o garoto Reed havia lhe dito. Ele havia dito tantas histórias que aconteceram até então, que pegou-se imaginando se o tempo realmente curaria a falta que sentia de Robb, e se seria realmente capaz de um dia, amar outro.

Se tivesse de amar outro alguém, talvez essa pessoa fosse Arthur. Sabia que se não houvesse Robb em seu coração, seria muito fácil se apaixonar por ele. Sentia-se atraída por ele, não podia mais negar a si mesma, e na noite anterior sentiu-se frustrada por um beijo que não ganhou.

Colocou o amuleto no bolso e seguiu o rumo, decidida a não mais sofrer por coisas que não poderiam ser modificadas.

Quando parou na porta da tenda dele, seu coração disparava. Estava nervosa como há muito tempo não se sentia. Arthur já havia se declarado à ela e lhe roubado um beijo no bosque sagrado, mas parecia que anos haviam se passado desde então. Era tudo tão diferente naquele tempo.

Balançou a cabeça para manter o foco que a levou até ali. Quando entrou de uma vez, viu que Arthur botava sua cota de malha. Sorriu-lhe e parecia estar de bom humor, apesar da irritação da provocação da noite anterior.

— Lady Arryn, veio me desejar boa sorte no pequeno torneio?

Elaene o encarou com um semblante sério e determinado.

— Não Arthur, não vim lhe desejar boa sorte.

Arthur fingiu se sentir ofendido.

— Tudo bem, minha rude senhora. Se eu for atacado por um gramequim a caminho da arena, espero que não se sinta culpada... – Disse enquanto terminava de apertar seu cinto de espadas na cintura.

Nesse instante, Elaene se aproximou com passos firmes empurrando Arthur contra o alicerce da tenda, o prensando as costas, e segurando-o pelos ombros. De uma vez, pressionou seus lábios com os dele, sentindo todo o susto e a tensão nos ombros do Pendragon.

Por segundos que lhe pareceram uma eternidade, Arthur permaneceu imóvel, como se estivesse incrédulo, mas então voltou a si e reagiu. Abriu levemente sua boca sugando o lábio inferior de Elaene e botou uma mão em sua cintura e outra mão foi para a nuca da Lady. Inclinou seu corpo, tornando-os impossivelmente mais próximos, explorando a boca dela enquanto sentia seu cabelo receber um puxão de mãos delicadas e determinadas.

Elaene aprofundou o beijo e mordeu o lábio inferior de Arthur delicadamente e tortuosamente lento, sentindo-o soltar um suspiro suave em seu rosto. Ele repetiu o mesmo movimento com o lábio inferior dela, o puxando delicadamente entre os dentes a fazendo jogar o próprio corpo contra o dele e recebendo um aperto ainda mais firme da mão dele em suas costas.

Subitamente ela sentiu-se assustada com a eletricidade percorrendo o próprio corpo, e interrompeu o beijo. Suas respirações estavam ásperas e sonoras e sentia a dele bater forte em seu rosto.

Quando abriu os olhos, ele lhe olhava com um olhar indecifrável. Permaneceram imóveis por um tempo, apenas se encarando e Elaene tocou o rosto de Arthur, notando o quanto a pele do rapaz era macia.

Seu coração estava disparado, e tão próxima dele, podia sentir que o dele também estava.

Deu alguns passos para trás mantendo o olhar com o dele, e antes de sair da tenda, disse-lhe brandamente enquanto Arthur permanecia mudo.

— Vejo-te na arena.

Arthur botou a mão em seu lábio inferior e fechou os olhos para memorizar as sensações. Teu coração ainda estava disparado e o cheiro de rosas que dela emanava ainda estava em sua tenda, na sua roupa e em sua boca.

— Deuses, tenham piedade...

=^=

Quando encontrou com a comitiva real na arena improvisada, a Rainha logo veio lhe abraçar. Acariciou seus cachos com carinho e lhe fez os bom elogios de sempre. Elaene ficou no lugar de honra junto com a rainha, enquanto os cavaleiros competiam na modalidade de justa.

Ao final, o combate que todos estavam ansiosos. Arthur enfrentaria Loras Tyrell, cunhado do rei Renly. Os dois eram ambos excelentes guerreiros de justas e todos conheciam a velha rivalidade entre as casas Tyrell e Pendragon, pela disputa do poder no reino da Campina.

Loras havia ganhado há pouco tempo a justa no torneio em Porto Real, em homenagem à Ned Stark, porém, os modos pelo qual venceu Sor Clegane se espalharam por boatos de que havia trapaceado com sua égua no cio.

Arthur não queria cometer erros contra Tyrell, pois sabia o quanto o pai ficaria orgulhoso de ver o filho de Mance com a cara na areia molhada da arena improvisada, na frente do Rei Renly e de todas as casas nobres e menores da Campina. Utilizou sua velha companheira de viagem, uma égua forte e destemida.

Além de derrotar Loras, queria vencer o torneio por ela... pensava no beijo que ela lhe tomou enquanto preparava-se em sua tenda, e isso o fez sorrir.

Quando Elaene viu os dois cavaleiros em suas posições, encarando um ao outro, sentiu que o coração a qualquer momento pularia pela boca. Seria tão amaldiçoada ao ponto de todos de quem gostava, tivessem um destino cruel? Fechou os olhos e fez preces para os antigos e os novos deuses para que Arthur ficasse a salvo.

Abriu os olhos a tempo de ver Lancelot entregar a lança para Arthur e ele fechar a viseira do elmo, concentrado no alvo logo à frente. Estava montado na sua égua marrom, com sua armadura habitual.

Loras estava praticamente fantasiado. Sua égua branca vestia um manto com desenhos de coroas de rosas coloridas. Sua armadura estava toda enfeitada de rosas azuis e brancas. E de seu elmo, saiam pelos coloridos formando um arco-íris.

Arthur acariciou a sua égua lhe dizendo algo, enquanto Loras colocava-se em seu lugar para a largada.

Quando o rei abaixou sua mão, Elaene viu que a égua de Arthur se empinou com imponência, e Loras também avançava. À medida que a distancia entre os dois cavaleiros diminuía, as preces de Elaene aumentavam.

Então o choque aconteceu.

Os dois cavaleiros bateram no peito um do outro praticamente ao mesmo tempo, e Elaene perdeu a respiração por uns instantes. Viu que a rainha ao seu lado deu um pequeno pulo da cadeira, para logo em seguida bater palmas nervosamente.

Na segunda preparação, o ritual de Arthur se repetiu. Conversou algo com a égua, e a acariciou na crina.

Novamente, foi autorizada a batalha, e Elaene concentrou-se tanto, que sentiu por um momento que havia movido a lança de Loras de seu alvo, apenas com seu pensamento. No último instante, Arthur posicionou sua lança precisamente mais à frente de Loras, lhe atingindo bruscamente no peito, com uma força que fez o cavaleiro rodopiar para trás e cair da égua, capotando no chão, enquanto a areia da arena subia.

Elaene deu um salto da cadeira, batendo palmas enquanto não controlava o sorriso e a excitação. De relance viu a Rainha com uma carranca aborrecida, logo deixada de lado para um sorriso polido e uma salva de palmas, após ver que o irmão havia se levantado do chão, sem maiores danos.

Arthur passeou em frente ao público que delirava e lhe jogavam rosas, empinando a égua.

Quando olhou em direção ao Tablado onde estava a realeza e Elaene, sabia o que deveria fazer.

Loras havia feito um arco de rosas que apanharia para a irmã e a entregaria, assim que ganhasse a competição, coroando-a rainha da beleza.

Arthur cavalgou e mirou a lança dentro do arco, deixando a todos curiosos. Levantou seu elmo, e caminhou em direção ao tablado.

Elaene se levantou, não entendendo o que Arthur fazia. Então ele lhe apontou a ponta da lança, lhe entregando a coroa de flores deixando todos atônitos, e Loras irritado.

Elaene sentiu-se paralisada enquanto Arthur lhe lançava o seu melhor sorriso. De ímpeto, se aproximou enquanto todos aplaudiam e sorriam em incentivo. Viu a própria rainha bater palmas empolgadamente e sorrir.

Sorriu também para Arthur, completamente tímida e assustada, mas quando tocou a coroa no momento em que a pegava, algo aconteceu. Era como se estivesse sonhando acordada, pois viu flashes estranhos enquanto olhava para Arthur e a coroa.

Viu um cavaleiro de cabelos longos e prateados e de olhos lilases oferecer uma coroa de flores azuis a uma mulher de cabelos escuros e olhos cinza. Assustada arregalou os olhos e sentiu o pavor tomar conta enquanto tremia as mãos e Arthur lhe olhava sem entender o que acontecia.

— Você está bem, Elaene? – Perguntou-lhe a rainha.

— Eu preciso respirar... eu preciso respirar. – Disse-lhe enquanto saia correndo, levando a coroa já amassada nas mãos.