Queen of ice and fire
15 O começo do fim

—Traição? Sansa escreveu isso? – Robb disse com surpresa na voz
—Foi escrito pelas mãos de Sansa, mas são palavras da Rainha. Você foi convocado como Senhor de Winterfell, para ir à Porto Real jurar lealdade ao Rei Joffrey, agora que Robert está morto.
—Joffrey coloca meu pai em correntes e agora quer bajulação?
—Essa é uma ordem real, meu Senhor. Se você se recusar a obedecer...
— Não irei desobedecer. Se o rei deseja que eu vá à Porto Real, assim será, irei para a capital. – Disse Robb enrolando a carta e a entregando para Meistre Luwin.- Mas não sozinho! Convoque os súditos.
Elaene arregalou os olhos e notou o sorriso torto de Theon. Meistre Luwin examinava Robb com cautela.
—Todos eles, meu Senhor?
—Todos eles juraram defender meu pai, não é verdade?
—Sim, eles juraram.- Notou o olhar orgulhoso do Meistre.
—Vamos ver o quanto o juramento deles tem valor.
Quando Meistre tomou seu caminho para obedecer às ordens de Robb, Elaene sentiu os joelhos tremerem e não pôde deixar de notar a mão tremula de Robb. No fundo sabia que aquilo era bom. Se Robb tinha medo, ao menos não era um idiota.
Um tempo depois, viu pela janela as dezenas de corvos seguindo viagem de winterfell.
=^=
Elaene praticava agora com muito mais afinco, visto que a guerra estava iminente. Sabia que Robb estava planejando deixá-la em Winterfell enquanto marchasse para o Sul, e evitou, até então, terem essa discussão. Ninguém a diria o que fazer. Nem mesmo Robb.
Puxou outra flecha da aljava e a encaixou no arco. Antes de puxar e tensionar, alisou a pena sentindo sua textura e fechou os olhos medindo a velocidade do vento. Puxou-a para trás, aumentando a tensão e posicionou-se a mirar o alvo. Segurou a respiração por vários segundos, e a soltou. Ouviu o barulho oco e ficou satisfeita com sua mira perfeita.
— Por mais que você seja uma pentelha arrogante, devo admitir que é a melhor arqueira de Winterfell. — Disse Theon atrás dela, enquanto observava seu treinamento.
— Tomarei isso como um elogio, Greyjoy. – Disse sem olhar para o rapaz, enquanto puxava outra flecha da aljava.
—Você sabe que Robb jamais permitirá que parta conosco, não é? — Elaene notou um tom quase de simpatia do rapaz.
Elaene devolveu a flecha na aljava, pois percebeu que não haveria sossego para treinar e parou em frente ao rapaz antes de ir embora.
—Não que seja da sua conta, Greyjoy, mas nem Robb e nenhum outro homem, me dirá o que devo fazer ou não.
Virou os pés após lançar um olhar cortante para Greyjoy, a tempo de ver o sorriso cínico no rosto dele.
=^=
Elaene estava tensa na mesa, e sabia que Robb também estava.
Desde quando cada um dos senhores do Norte chegaram à winterfell, atendendo ao chamado dos Starks, Robb vinha lidando com intrigas e disputas entre as casas.
Elaene sabia que Robb tinha um difícil equilíbrio para manter. Deveria ser humilde o bastante para ouvir os experientes Lordes, mas ao mesmo tempo, deveria ter pulso para transparecer uma liderança para que aqueles homens pudessem confiar e acreditar na causa que levantavam.
Estava um pouco absorta em pensamentos quando percebeu que Greatjon Umber continuava a importunar Robb pelo controle da vanguarda.
—Por trinta anos eu venho deixando corpos pelo caminho, rapaz. Eu sou o homem que você precisa liderando a vanguarda.
Robb, que estava claramente de paciência esgotada com a discussão, manteve suas feições imutáveis.
—Lorde Glover irá liderá-la. – Disse mais uma vez, calmamente.
— A droga da muralha irá derreter quando um Umber marchar atrás de um Glover. – Disse Greatjon enquanto apontava provocante para Lorde Glover.
Umber manteve a expressão fria e precisa, para deixar claro o tom intimidador.
—Eu irei liderar a vanguarda, ou tomarei meus homens e marcharemos para casa.
Nesse instante, todos na mesa pararam o que faziam para olhar Robb. O rapaz que havia soltado uma bufada de ar impaciente quando Umber iniciou a frase, mudou o rosto bruscamente quando notou o tom ameaçador do senhor.
Robb lançou um olhar gelado que esfriou a espinha de Elaene, e o manteve fixo ao senhor experiente em sua frente. Ela notou que o Vento Cinzento, que estava deitado aos pés da mesa, ao lado de Robb, levantou as orelhas como se sentisse a tensão no salão.
—Você está à vontade para fazer isso, Lorde Umber. – Disse Robb se levantando da cadeira- E quando eu terminar com os Lannisters, marcharei de volta para o Norte, lhe arrancarei de seu castelo, e o enforcarei por perjúrio!
Nesse momento, Lorde Umber enfureceu. Levantou-se botando a mão na bainha da espada, e socando para longe o prato em que se alimentava, o espatifando em vários pedaços pelo chão do salão.
Todos no salão ficaram atentos, e Elaene não soube o que fazer. Robb se manteve impassível, mas então Umber lhe ameaçou mais uma vez.
—Não ficarei aqui parado ouvindo insultos de um garoto tão verde que mija nas calças!
Quando fez menção de retirar a espada, Elaene sentiu um vulto subir na mesa. Ao mesmo tempo, se jogou na frente de Bran que estava ao seu lado, o protegendo de qualquer mal.
Assim que protegeu Bran, viu a tempo o lobo de Robb avançar sobre Greatjon derrubando-o no chão. Ouviu gritos de dor e um gemido. O lobo arrancou dois dedos do senhor nortenho, e avançou para trás, o permitindo levantar.
Todos em volta da mesa adotaram uma posição defensiva para defender Robb Stark, mas ele se manteve frio e calmo, como se nada demais tivesse acontecido.
Sua voz era gelada.
—Meu pai me ensinou que aquele que levanta aço contra seu suserano, responde com a vida, mas tenho certeza que Lorde Umber apenas queria cortar minha carne para mim.
Lorde Umber chutou a cadeira para o lado, segurando o sangue que teimava a jorrar por suas mãos.
—Sua carne? – disse o senhor enfurecido. Mas nesse instante, olhou ao seu redor e se deu conta que deveria encontrar o juízo enquanto havia tempo.
Elaene ficou chocada com a mudança de expressão, pois Greatjon amenizou as feições do rosto, acenando para a mão ensanguentada enquanto dizia.
—Sua carne é bem dura!
Robb começou com uma risada profunda e calma, dando lugar para gargalhadas por todo o salão. Logo todos estavam gargalhando, e Greatjon jogava a cabeça para trás rindo, enquanto Elaene e Bran olhavam a todos com rostos atônitos.
Bran lhe disse baixinho.
— O que há de errado com essas pessoas?
E pela primeira vez em muitos anos, Elaene se sentiu uma estrangeira naquela terra gelada.
=^=
Elaene estava na porta do quarto observando Robb despedir-se de Bran. Estava com o peito apertado em pensar deixar aquelas duas crianças ali, longe do pai, da mãe, e do irmão mais velho. Ela confiava plenamente em Meistre Luwin, mas mesmo assim estava com o coração dividido.
Elaene sabia que partiriam no dia seguinte, e naquela noite seria inevitável não discutirem a questão de sua ida para o sul, e quando Robb saiu do quarto de Bran, beijou sua mão e lhe disse.
—Precisamos conversar.
Entraram no quarto, e após retirar a espada da cintura e jogá-la na mesa, Robb anunciou.
— Partiremos para o Sul antes do amanhecer. Já dei instruções para Meistre Luwin, ele lhe ajudará e a apoiará no que for preciso.
—Do que você está falando?
—Você é minha noiva, preciso que ajude Meistre Luwin com as pendências de Winterfell.
Elaene se aproximou, percebendo que Robb evitava seu olhar.
— Que os Outros carreguem as pendências do castelo!
— O que você está pensando, Elaene? Isso não é brincadeira, isso é guerra!- disse lhe lançando um olhar firme.
— Quem você pensa que sou, Robb? Uma mulher que viverá trancafiada dentro de um castelo fazendo bordados e contabilizando dispensas?
—Guerra não é lugar para mulheres.
— Por que vejo guerreiras nortenhas em seu salão? É lugar para mulheres, desde que não seja a sua!
— Não posso permitir que você marche para a guerra. Não pode me pedir isso. Se algo acontecer com você, nunca me perdoarei!
— O meu lugar é ao teu lado! Não pode me negar isso. Não pode me julgar por querer lutar por aqueles que amo!
Robb sentou-se na cama botando as mãos na cabeça, se apoiando nos joelhos. Elaene se ajoelhou no chão à sua frente, e destampou seu rosto, segurando suas mãos nas suas.
—Caminharemos juntos. Vingaremos meu pai e o teu. Prometo-lhe. Além disso, preciso buscar Arya...
Robb sentia-se cansado e não tinha mais forças para convencer Elaene do contrário. Segurou seu rosto com as mãos, e após soltar um suspiro de redenção, beijou-lhe ternamente e encostou sua testa na dela.
=^=
Enfim haviam chegado ao Gargalo. Era uma região estranha, até mesmo para os Nortenhos. Habitada pelos cranogmanos, um povo estranho e misterioso, a região era composta por pântanos e charcos, e dividia Westeros exatamente, em Norte e Sul.
Quando chegaram ao Fosso Cailin, puderam analisar melhor os terrenos a seguir, as posições de suas divisões, e a localização do exército inimigo.
Por bem, ao longo do percurso, conseguiram agregar outros nortenhos de Vilas isoladas pelo selvagem e vasto norte, porém, Robb ainda se sentiu inseguro diante de sua inferioridade numérica em comparativo com o poderio do Oeste Lannister.
Ouvira a tarde toda conselhos de seus senhores nortenhos. Era sabido, através de espiões e batedores, a localização dos regimentos de Jaime e de Tywin Lannister.
Estava apoiado sobre a mesa, analisando as peças indicativas das localizações amigas e inimigas em cima do mapa, enquanto refletia sobre as estratégias. Jaime havia cercado Correrio com uma tropa menor que Tywin, caso Robb Stark conseguisse atravessar para o Sul através da Travessia dos Freys. Se avançassem sobre o Tridente, demorando mais tempo, mas poupando aliança com os Freys, Tywin marcharia de Harrenral, fazendo-o cair direto na boca do leão. Eram mais numerosos, mais poderosos e mais experientes que ele.
Sentiu o vento frio do lado de fora da sua tenda quando Elaene entrou. Estava vestida com as vestes masculinas, mas seu cinto marcando sua cintura a deixava linda. Uma bela guerreira Nortenha. Estava enciumado com os olhares que os homens lançavam à ela desde Winterfell.
Ela andou devagar como uma gata selvagem, e seus olhos estavam misteriosos. Quando chegou perto dele, beijou seus lábios lentamente. Robb laçou sua cintura trazendo-a mais próxima de si.
— Fica difícil me concentrar com você a me olhar e me beijar dessa forma...
—Sinto muito, Stark. Estava com saudades, não irei me demorar.- Quando girou para ir embora, Robb a segurou pelo braço a puxando de volta, fazendo-a trombar em seu peito.
— Fique um pouco, há tanto tempo que não ficamos sozinhos. – Disse aspirando o aroma dela em seu pescoço.- Você é o rosto mais confortante para mim aqui.
—Você encontrará a solução, Stark. Eu sonhei, eu vi.
Robb sorriu, não acreditando muito nos sonhos premonitórios de que ouvia falar.
— Espero que esteja certa.
—Senhor Stark?- disse o jovem escudeiro entrando na tenda e ficando corado com o constrangimento do momento íntimo que flagrou entre Stark e Elaene.- Vossa mãe chegou ao acampamento com Sor. Rodrick e Merlin Reed.
=^=
Sua mãe havia lhe dito o que ocorreu nas terras fluviais e o desvio estratégico para o Ninho da Águia. Sua tia realmente estava desequilibrada. Agora que o pai estava em correntes, perder o anão Lannister era a pior coisa que poderia acontecer. Sentiu ainda mais desprezo pela tia, já acumulado com as terríveis atitudes que teve com Elaene quando era criança.
Sabia agora que deveria encontrar uma solução, e rapidamente. A vida de seu pai estava por um fio. Perderam o trunfo que tinham nas mãos, só lhes restavam marchar com tudo para o Sul, e tentar chegar à capital, libertando vosso pai.
A questão é que estavam em menor número, e deveria escolher contra qual regimento atacariam: Jaime ou Tywin. Sabia que a travessia pelas Gêmeas seria o caminho mais rápido, e as areias do tempo corriam contra a vida de Ned Stark. Porém, sabia que se avançassem contra o cerco de Jaime, Tywin os engoliria em seguida. Havia uma ideia em sua mente, uma saída arriscada e muito ousada. Mas precisava da travessia dos Freys.
Por orientação de sua mãe, mandou Theon interceptar todos os corvos que saiam das Gêmeas. Catelyn havia contado histórias sobre o quanto seria sábio duvidar da lealdade de Lorde Frey, que apesar de ser súdito de seu avô, não era um homem digno de confiança. Se Lorde Frey tomasse partido dos Lannisters, saberia de imediato. Não queria ter de invadir as Gêmeas e desperdiçar dezenas, centenas, ou mesmo milhares de soldados nortenhos que seriam vitais para o verdadeiro e principal confronto, no sul.
Até então, supostamente, apenas convites para o seu casamento foram enviados das Gêmeas.
Decidiu que pela manhã teria uma decisão em mãos.
O garoto Reed que viera acompanhar sua mãe pelas terras do gargalho era um garoto estranho, como todo cranogmano. Os Reeds eram aliados há séculos dos Starks, sabia que podia confiar no garoto, mas ele olhava Elaene com um olhar enigmático. Não havia luxúria no olhar, mas sim um respeito ou uma certa reverência.
Estava absorto em pensamentos quando a própria Elaene o abraçou por trás, depositando um beijo nos seus ombros.
— Tenho de ter aquela travessia! — declarou Robb, furioso. — Nossos cavalos poderiam atravessar o rio a nado, mas não com homens vestidos de armadura sobre os dorsos lhes pesando tanto para o fundo. Precisaríamos construir jangadas para fazer passar o nosso aço, os elmos, as cotas de malha e as lanças, e não temos árvores para tal, ou tempo. Lorde Tywin marcha para o norte... — cerrou a mão em punho.
Ela olhou para o mapa em cima da mesa e interrompeu o silêncio, cochichando no ouvido do Stark.
—Precisamos daquela ponte...
—Eu sei – suspirou Robb – Mas a que custo?
Saberia no dia seguinte. Sua mãe iria ter uma reunião com Lorde Frey e negociar os termos da travessia.
=^=
Quando a noite chegou, já se preparava para enviar homens para as Gêmeas à procura de Lady Catelyn, quando a mãe veio ao acampamento lhe pedindo reunião com seus conselheiros de confiança.
— Então? O que temos?
Catelyn respirou fundo e continuou.
— Está feito — disse-lhe Catelyn. — Lorde Walder o deixará passar. Suas espadas também são suas, exceto quatrocentas, que deseja deixar ficar para defender as Gêmeas.
— Será como diz, mãe — respondeu Robb, olhando desconfiado –O que quis ele de nós?
— Dois netos de Lorde Frey serão escoltados para o norte até Winterfell — disse-lhe ela. — Concordei em recebemos como protegidos. São novos, com oito e sete anos. Parece que ambos se chamam Walder. Farão companhia para Bran, certamente.
— É tudo? Dois protegidos?
— O filho de Lorde Frey, Olyvar, virá conosco — ela prosseguiu. — Deverá servir como seu escudeiro pessoal. O pai quer vê-lo feito cavaleiro a seu tempo.
— Um escudeiro — encolheu os ombros. — Certo, está bem, se ele...
— Além disso, se sua irmã Arya regressar em segurança para junto de nós, está acordado que se casará com o filho mais novo de Lorde Walder, Elmar, quando ambos tiverem idade.
Robb pareceu embaraçado
— Arya não vai gostar disso.
Elaene concordou assustada.
— Não mesmo!
Catelyn olhou para Elaene, e com coragem terminou de determinar os termos, em sua sua parte mais delicada.
— E você deverá se casar com uma das filhas dele quando a luta terminar — Catelyn terminou. — Sua senhoria consentiu amavelmente em deixá-lo escolher a moça que preferir. Tem uma quantidade delas que julga serem adequadas.
— O que?
— São os termos de Lorde Frey.
— Mãe – disse suavemente – Sou comprometido, não posso concordar com isso.
—Robb, Lorde Frey é um homem orgulhoso e ambicioso. Se queres atravessar, esses são seus termos. Não decida agora, reflita sobre eles e o avisarei quando julgar certo. – disse Catelyn evitando olhar para Elaene.
A moça saiu da tenda com rapidez, se desviando dos braços do rapaz que a tentou segurar.
—Decidirei em breve, senhores. Com licença.
Quando alcançou Elaene, ela havia corrido para a mata lamacenta e se apoiou em um tronco. Chorava.
— Elaene?
— Eu sabia que o perderia! Eu sabia, Robb! Sempre soube... não é nosso destino ficarmos juntos!
— Do que você está falando? Você não irá me perder! Jamais irei aceitar os termos de Lorde Frey.
— Então você é um tolo, Stark.
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