Queen of ice and fire

2 Asas negras. Palavras negras.


Assim que olhou para Elaene, Robb sabia que ela tivera outra daquelas noites de pesadelos horríveis, a julgar pelo cansaço evidente nas duas manchas roxas embaixo de seus olhos verdes e cansados.

Desde quando viera para Winterfell, logo após o nascimento de seu primo Robert Arryn, Elaene sempre tivera nos braços dele, um conforto para os dias frios e tristes longe de casa.

De tempos em tempos os pesadelos se tornavam piores, por outros dias se acalmavam, mas nunca iam embora completamente.

Desde o primeiro ano em Winterfell, quando ainda eram crianças verdes, Eleane se esgueirava pelos corredores do castelo no meio da noite até encontrar o quarto de Robb, e só assim conseguia adormecer.

Lembrava da primeira noite em que Elaene fugira do seu quarto e batera em sua porta. Parecia um passarinho assustado e acuado. Adormeceram na mesma cama aquela noite, serenos com a doce inocência infantil.

Elaene começara a choramingar baixinho depois de pegar no sono, para em seguida ter tremores pelo corpo. Seus olhos viraram, mostrando apenas uma medonha órbita branca. Robb havia sentado na cama, e puxara Elaene para seu colo num instinto de proteção, até que seu corpo se acalmava aos poucos, e em ondas. Ela por fim, ronronava baixinho num sono calmo, profundo e tranqüilo. Sempre soubera que fora naquele exato instante, que passou a amá-la.

Esse amor havia transitado por várias fases, desde a inocência da infância, até os beijos inflamados e dolorosamente interrompidos às sombras do represeiro no Bosque sagrado.

Porém, apesar de não ser nenhum segredo para qualquer pessoa que os observassem por um bom tempo, nunca puderam expressar abertamente o que sentiam, por medo das reprimendas de Jon Arryn.

Havia qualquer coisa de estranha na forma com que Jon Arryn tentava esconder Elaene atrás de desejos paternos superficialmente estranhos.

Desde quando completou-se o respectivo décimo quinto ano de Elaene, Robb teve uma conversa franca com o pai, sobre pedir à Jon Arryn a mão da amada. Ambos acreditavam que seria uma grande alegria e honra para as duas casas, afinal, Ned fora protegido de Jon Arryn e compartilharam guerras e batalhas lado-a-lado.

A resposta de Jon Arryn foi desanimadora. Não aceitaria, e não haveria discussões. Ele simplesmente abominava a ideia daquela união.

Robb sabia do grande afeto que o pai sentia por Elaene, mas estranhamente, o pai dera a discussão como encerada.

Desde então, três longos anos se passaram, e o amor entre os dois floria cada vez mais, ao contrário do que o pai lhe dissera, como consolo.

Se encontravam em segredo, confidenciavam tudo, e chegaram até mesmo a fazer planos para uma fuga para as areias quentes de Dorne.

Todos sonhos juvenis. No fundo sabia que seu dever estava no Norte. Robb era o futuro senhor de Winterfell, e não poderia decepcionar sua família dessa forma. Por fim, decidiram que iriam esperar, e esperar, até que a idéia por fim se instalasse na cabeça do teimoso e super protetor Jon Arryn.

Quando se cruzaram no corredor para o pátio naquela manhã, Elaene lhe sorriu um sorriso frio e triste. Robb parou em sua frente interrompendo quaisquer que fossem os pensamentos que a atormentavam.

— Bom dia, Lady Arryn... — Sorriu-lhe o melhor meio sorriso que tinha, pois sabia que isso a agradava sempre. Mas o olhar triste e arisco que a jovem lhe deu a denunciou.

Segurou seus braços delicadamente caminhando de volta pelo corredor, abriu a porta de uma das salas vazias e fechou atrás de si.

Quando olhou Elaene, tinha a certeza de que havia algo muito grave no pesadelo da noite anterior. Se aproximou em um impulso e a beijou suave nos lábios, segurando sua cabeça com as mãos.

— Quão ruim foi o dessa noite? Porque não me procuraste? Não tens mais em mim aquele conforto de sempre?

Elaene não queria comentar sobre o sonho. Se sentia uma pertubada. Não possuía o dom dos sonhos verdes, é sabido. Todos os seus sonhos eram confusos, macabros e lhe doíam o corpo. Por vezes, podia jurar que era um castigo dos deuses por ter matado sua mãe quando nasceu.

Segurando as mãos de Robb pousadas em seu rosto, tentou o melhor que pôde para esconder sua preocupação.

— Não é nada, meu amor. Apenas um sonho qualquer. Não quero lhe perturbar com essas coisas. É claro que você é meu conforto, meu amigo, minha vida. Mas não acho que seja adequado continuar a frequentar seu quarto pela noite...

Enquanto várias lembranças dançavam em sua mente, Robb soltou uma risada tímida. Elaene não resistiu e sorriu também, dessa vez de verdade.

— Tu bem sabes que está cada vez mais difícil dormirmos assim... tão juntos.

Quando as palavras lhe bateram no rosto, Robb a segurou pela cintura, diminuindo ainda mais a distância de seus corpos, quando seus lábios apenas roçavam os de Elaene, a voz saiu apenas por um sussurro.

— Eu lhe peço perdão, sei que nunca foi apropriada a forma como lhe beijo quando estamos a sós. Mas não consigo pensar em mais nada quando sinto teu cheiro e teu calor, tão próximos à mim desse jeito.

Com o pé na porta, lá estava Theon em frente aos dois, com o sorriso do tamanho da Mata de lobos na cara.

— Bom dia, Stark! Sei que aqui dentro lhe parece muito mais... agradável, porém Sor. Rodrik ficará feliz com a presença dos ilustres pombinhos no pátio para as aulas de arco do teu irmão.

Não era a primeira vez que Theon flagrara os dois, Robb nem teve a decência de corar, ao contrário de Elaene que sempre se irritava com os sorrisos, palavras e olhares maliciosos do outro protegido de Ned Stark.

A morena se limitou a ignorar Theon e fazer seu caminho para o pátio, enquanto Robb lhe seguia atrás, não sem antes socar Grejoy no ombro.

Reunidos no pátio estavam seu meio irmão bastardo Jon Snow, Rickon em cima de uma carroça de palha, acompanhado os treinos vidrado e dando gargalhadas, e Elaene.

Elaene sempre foi uma exímia arqueira. Desde criança, ainda no Vale quando mal conseguia andar, já treinava com o Sor. Vadis Ergen. Sua terra natal sempre fora conhecida pelas perigosas tribos selvagens das cadeias montanhosas do Vale.

“Uma mulher deve saber se proteger”, dizia seu pai.

Então Elaene segurava os braços delicados de Bran, e o instruía para o melhor alcance e mira.

Pobre Bran. Podia jurar que nunca seria um bom arqueiro. As várias flechas se desviavam a metros do alvo, acima, ao lado, e até mesmo para o chão, provocando risos dos irmãos.

— Qual de vocês foi um bom arqueiro com dez anos? — Disseram-lhe Ned Stark em reprimenda — Continue praticando Bran.

A paciência do pequeno lorde acabou quando sua irmã mais velha, surgiu atrás de si, em uma só flechada, acertou o alvo em cheio, dando a chance de Bran apenas ouvir o zunido da flecha em seu lado direito.

Ah, Elaene amava Arya como uma irmã, talvez como uma filha. Podia jurar que Arya era sua cópia perdida, sangue do teu sangue. Arisca, teimosa e com espírito de guerreira nas veias. Com certeza Arya não puxara somente a fisionomia da linhagem Stark. Havia algo de selvagem nela. O sangue dos antigos reis do norte pulsavam em seu corpo.

Enquanto Bran, Arya e Rickon corriam pelo pátio se provocando e rindo, Ned recebera a notícia de um membro da patrulha da noite capturado. Os Stark seguiam a tradição antiga e Elaene via nobreza e sabedoria nos dizeres: Um homem que dá a sentença, deve brandir a espada.

Assim, Ned convocou os filhos Robb, Jon e Bran, juntamente como seu protegido Theon para seguirem a selar o destino do desertor.

Elaene já havia presenciado execuções. Desertores, foras da lei que preferiram a morte ao invés de abraçar o negro, e por vezes traficantes de escravos. Esses eram os mais odiados por Elaene. Porém, já havia sangue suficiente em sua mente naquele dia, preferiu buscar a tranquilidade em um mergulho no lago quente do bosque sagrado.

=^=

Horas se passaram desde quando os Starks partiram para executar a sentença, e Elaene sabia que a qualquer momento retornariam. Quis curtir o sossego do momento de solidão e logo após se trocar, ficou sentada à beira do lago apenas sentindo a fumaça mansa lhe esquentar o corpo.

Num momento de meditação, mal percebera a aproximação de Robb, encostado no represeiro.

Quando olhou para trás, o rapaz a fitava com um olhar estranho.

— Robb? Não te ouvi chegar?.... O que aconteceu? Porque me olhas assim?

Robb se aproximou meio sem jeito, e sentou sobre os joelhos próximo a Elaene, a após um momento em que lhe parecia uma eternidade, eis que ela realmente se preocupou.

— Robb? O que houve?.... Robb, conte-me!

— Sinto muito, Elaene... Um corvo chegara essa tarde... é sobre seu pai. Jon Arryn está morto, meu amor!