É nove da manhã e o aroma de orvalho chega às minhas narinas quando coloco o braço para fora da janela. Arrisco-me a fechar os olhos e aproveitar o pedaço de paraíso europeu que me envolve enquanto a locomotiva corre contra o vento. Há um prazer quase infantil em experimentar aquilo apenas aos vinte e dois anos. Enfim fora de casa, fora de minha zona de conforto, longe de pais tradicionais e tediosamente conservadores. Nunca em minha vida teria imaginado render-me por total ao mundo dos não-mágicos, como havia então decidido desde o início da estação. Prometi, ao completar meu novo aniversário, que faria esta viagem com meu próprio dinheiro, fruto de trabalho honesto e significativo para os que cruzavam o mesmo caminho que eu.

Passei cerca de doze meses cultivando flores e vegetais numa horta periférica a Londres, em zona rural e modesta, cheia de bruxos e não-bruxos vivendo em completa harmonia, sabendo todos uns dos outros e sem qualquer outro tipo de competição. É difícil recordar os anos anteriores, quando o medo existia e nos sugava todo o resto de vitalidade que poderíamos preservar em nosso mais íntimo estado de sonhos latentes. No meio disso tudo, por incrível que pareça, aconteceram casamentos, nascimentos e celebrações de toda sorte, pois o ser humano é assim, precisa de algo que o tire das loucuras que os poderes e prazeres trazem, mesmo aos mais isentos de qualquer envolvimento.

De repente, o estalo de vidraça me tira dos devaneios que já haviam até se tornado hábito difícil de evitar. É um jovem, mais ou menos da minha idade, segurando uma mochila e fazendo sinal para que eu abra o compartimento e o deixe entrar. Confesso ter pensado algumas vezes antes de tomar uma decisão, visto que estranhos não são o que mais gostaria de ter na mesma cabine que eu, principalmente por ter sido uma cabine adquirida individualmente, com a óbvia intenção de permanecer sozinha. Pode parecer egoísmo, ou até comportamento antissocial. Mas ainda sou uma garota viajando pelo mundo sozinha num trem que demora mais do que meu sono poderia aguentar. Infelizmente, ainda guardo os traumas de um mundo pré-guerra, em que o lema vigilância constante faz mais do que muito sentido. O garoto simplesmente hesitou antes de tirar um documento do bolso e grudar no vidro para que eu pudesse ler o seu nome. Parecia um passaporte e a sua fotografia era idêntica ao seu rosto. Apenas com a diferença de três ou quatro centímetros de cabelo e a barba por fazer.

Ele foi bem inteligente em mostrar aquilo, numa tentativa levemente desesperada de me passar confiança. Mas o que me fisgou foi seu pedido implorado, as mãos juntas, como uma oração, e seus olhos, aqueles olhos cinzentos que a cada tombo da locomotiva cruzava com raios de sol, tornando-se meio azulados, cintilantes. Limitei-me indicar o queixo em direção ao meu lado, mas ele fez sinal de que por fora estava trancado. Sabendo que seu sobrenome tratava de sobrenome mágico, não envergonhei-me em girar o dedo indicador duas vezes para a direita e uma para dentro, como um gancho, abrindo a porta. Mas o garoto abriu a boca em choque, provavelmente surpreso com minha naturalidade em ser espontânea, em ser eu mesma acima de tudo.

― Você… é…?

― Sim, eu sou. Não se preocupe, estamos seguros ― fiz o sinal inverso, para a porta fechar atrás dele ― Atrás de nós é apenas parede e na cabine da frente tem um casal de idosos dorminhocos.

Ele sorriu.

― Nos conhecemos? ― ele estendeu a mão, meio galanteador, mas talvez tenha sido coisa da minha cabeça.

― Eu o conheço, mas você não me conhece. Astória Greengrass.

Depois de apertar minha mão, o viajante pegou um lenço do bolso e secou o rosto para afastar o suor.

― Por que não se senta? ― quis saber, achando certa graça em suas maneiras levemente acanhadas.

― É, é, tem razão. Mas antes… Por favor, diga-me, como é possível que duas pessoas tenham se visto e apenas uma se lembra da outra?

― Isso acontece com bastante frequência, Senhor Malfoy ― disse apenas para prová-lo de que conhecia muito bem aquele sobrenome ― Cada um vê o que julga valer a pena ver. Talvez estivesse bastante ocupado sendo um badboy para reparar numa garota mais nova e quieta, embora da mesma Sala Comunal que você.

― Espera ― disse ele, sentando-se subitamente, a mochila agora abaixo do banco que ele dividia comigo ― Greengrass. Astória Greengrass, correto? ― sim, talvez ele tenha olhado em meus olhos também, só para ter certeza ― O tempo lhe fez muito bem, Senhorita Greengrass, se me permite dizer. Com todo o respeito, é claro.

― Obrigada ― respondi com menos entusiasmo que sei que ele esperava. Ao invés disso, abri minha bolsa para ocupar-me com chocolates belgas.

Draco Malfoy ficou me observando por algum tempo em silêncio. Talvez tenha percebido que a conversa havia terminado e que assim seria pelo resto da viagem. A curiosidade, entretanto, entregou-lhe quando subitamente me empurrou uma caderneta com um desenho de nós dois sentados no trem e no balãozinho de fala, perguntando para onde eu ia. Escrevi, sorrindo, que ia para qualquer lugar. Mas ele não se aguentou:

― Qualquer lugar? Onde fica isso?

― Onde eu quiser ― respondi, na maior naturalidade.

― Isso não faz o menor sentido. Estou achando que você está escondendo algo.

― E se eu estiver?

― Cá entre nós ― Draco olhou ao redor antes de inclinar-se para bem perto e me falar, no pé do ouvido: ― Se estiver precisando de um cúmplice para dividir a pena, sei esconder um corpo. Na teoria, é claro, caso esteja se perguntando.

Então ele abre um sorriso e dividimos uma gargalhada. Consultando o relógio descubro que havia se passado cerca de 1h desde que seu ruído na vidraça da porta me acordara de sonhos na janela. Draco me parecia mais interessante agora do que nas lembranças de meu tempo de escola. Onde seu tom de voz era corrosivo, autoritário e quase robótico. Dele, tudo que me lembro é de ser desejado por minhas colegas de dormitório e temido pelas crianças do primeiro e segundo ano.

Chega a ser estranhamente tentador conhecer esse novo Draco, pós-guerra, solitário e implorando por companhia num trem desconhecido no mundo dos não-mágicos. Gosto desse novo Draco. Este tem cheiro de aventuras e o mesmo olhar de juventude interrompida que o meu. As tatuagens em seu pulso dançam no reflexo da janela quando ele tenta controlar seu topete louro-escorrido que se rebela pela ventania que se intensifica. Consigo o mais próximo de escaneá-lo em sua aura que vibra na mesma fase que a minha.

Talvez Draco tivesse razão. Estou escondendo segredos desde meus onze anos. Desde que adentrei o mundo dos bruxos, escondo tudo sobre mim. É para isso que estou num trem. É por isso que vou à qualquer lugar, porque tenho a demanda de trajeto, não de destino.

E talvez você, Draco, você seja esse trajeto.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.