Quebranto.
102 Quando a escuridão viesse...
Notas iniciais
Victoria.
Apressei meus passos enquanto adentrávamos o Saguão Principal dos Alojamentos. Nervosa, percebi que estava olhando constantemente ao redor, procurando ameaças em cada sombra. Observei as passagens para os andares superiores e para a prisão, enquanto Manuela liderava o caminho para o elevador dos dormitórios. Guilherme estava bem perto dela, com suas mãos sustentando um revólver calibra trinta e oito, enquanto ele mirava ao redor. O silêncio era intenso, mas carregado de uma tensão agridoce. Estávamos muito incomodados com a facilidade. Mesmo com todo o planejamento, ninguém estava esperando que aquilo fosse tão simples. Arantes colocou a mão sobre meu ombro, indicando com a cabeça o elevador. Eu sequer notara que havia parado de andar, encarando a bancada dos Organizadores. Passos fortes e rápidos vinham de fora, e temi que pudesse ser pega e perdesse aquela chance. Apressada, entrei na estrutura metálica e escura. Abri e fechei minhas mãos, tentando regularizar o ritmo da minha respiração. Não conseguia explicar o que estava sentindo. Era como se parte de mim não estivesse certa sobre o que estávamos prestes a fazer. Era como estar num labirinto. Você nunca tem certeza se está mais próximo da saída, ou indo direto para um matadouro.
– Vai dar tudo certo. – Manuela desabafou, pegando na minha mão. – Temos que acreditar, não é? Assim como você acreditou que eu podia ser salva. Sei que já agradeci, mas queria repetir isso. Sabiam que Vicky impediu que eu tirasse minha vida, por pura estupidez? Ela me tirou do meio de uma multidão de zumbis, e me trouxe de volta à realidade. Perdi meus dedos no processo, mas nunca me senti tão viva.
– Você sabe que eu nunca deixaria alguém morrer daquele jeito. Você só estava confusa, depois de perder Mirla. E ficou devastada por descobrir quem Topázio era, e o que tinha feito. É natural. – Correspondi ao seu afeto, apertando de leve sua mão na minha.
– A morte de quem a gente ama, tem esse poder. Pode trazer uma força indescritível, ou nos incapacitar totalmente. – Arantes concordou, parecendo um tanto chateado, ainda que estivesse concentrado no ambiente ao redor. – Eu só queria sangue, quando descobri quem havia matado o Rhuan. Não me arrependo do que fiz com Herbert lá em Búzios, mas aquilo não é o tipo de coisa que eu faria. Não sem motivo.
– Todos nós já fizemos coisas difíceis, nesses últimos anos. Para nossa sorte, aqui na Fortaleza não precisamos mais nos preocupar com isso. Assim que prendermos Renée, tudo estará resolvido. – Guilherme voltou a preparar sua arma, o que me levou a sacar a minha. Numa formação um tanto tímida, deixamos o elevador assim que ele parou no famoso corredor vermelho. – Agora parem de falar, ou vamos acabar alertando nosso alvo.
– Até que enfim, chegou a hora. Vamos colocar um fim nisso. – Manuela liderava nosso grupo, decidida a finalizar sua missão pessoal. Dava pra ver o quanto aquilo significava pra ela.
Pouco semelhante aos outros, o corredor de dormitórios dos Nove trazia requinte nos detalhes da sua ornamentação. Havia uma fileira de pequenos lustres em tom de dourado escuro, cada um deles, no vão entre as portas dos quartos. No fim do corredor, um último pórtico encerrava os aposentos presidenciais, cujas chaves permaneciam somente com Silvia. Era o mais opulento de todos, com a bandeira do Brasil gravada em relevo na madeira. Nem mesmo os zeladores entravam ali, se a presidente não estivesse presente. Agora, certamente estaria trancado. Segundo papai, Silvia passava muito pouco tempo ali dentro. Ela não era o tipo de mulher que curtia um descanso. Não enquanto ainda houvesse qualquer outra coisa a ser feita. Quando paramos em frente ao quarto de Renée, senti que finalmente havíamos chegado num ponto decisivo de toda aquela história. Mas a incerteza ainda assombrava minhas ações. E se estivéssemos nos precipitando? Certamente, não seria a primeira vez. Aquela intuição dentro de mim incomodava tanto, que me fez sentir as inseguranças da velha Victoria. Desejei por um momento, que Nora estivesse ali. Nos últimos anos, havia sido mais fácil ser outra pessoa. Era como se tudo o que a tornasse real, não viesse de mim. No entanto, nos últimos tempos eu já não sentia paz. Não desde a noite em que Ricardo havia sido assassinado. Aquilo era algum sinal? De que meu “lado Nora” enxergava algum perigo que eu me recusava a reconhecer? Antes que eu pudesse expor o que achava, Manuela girou a maçaneta e adentrou o quarto, seguida de perto por Guilherme. Renée estava deitado sobre um imenso sofá de couro negro, dormindo de barriga para cima. Um livro pendia de seus dedos, caído e aberto sobre o carpete. A Letra Escarlate. Eu não imaginaria Renée como um fã de Hawthorne. Nos detivemos por um momento, olhando ao redor.
O espaço que naturalmente abrigaria quatro pessoas, se fosse um dormitório ordinário, estava repleto de estantes com livros do mundo antigo. Era lindo. Nunca fui uma fã assídua de literatura clássica nos velhos tempos, mas não podia deixar de admirar toda aquela beleza. Havia muita memória ali. Pedaços de um país que já não existia mais. Enquanto eu meditava sobre isso, sem tirar os olhos de Renée, Guilherme e Arantes caminharam na direção dos outros cômodos, revirando o dormitório. Manuela hesitou um pouco antes de apanhar o livro do chão, olhando para o Nove. Ele parecia pálido, mas respirava. Atenta, aproximei-me e toquei sua testa. Estava fria, e ele parecia mole. Não era um bom sinal. Notei que Manuela estava percebendo o mesmo que eu, e quando nós nos olhamos ela rapidamente veio ao meu encontro.
– O que está acontecendo com ele? – Ela esganiçou-se, apreensiva. – Não morra, desgraçado! Não morra! – Ela tentou bater no peito dele, mas eu a afastei gentilmente usando um único braço, sem muito esforço.
– Acho que ele foi envenenado. – Observei, nervosa. – Quem faria algo assim?
– Ele tentou se matar. Eu chamo isso de culpa. – Arantes tinha um frasco laranja nas mãos. – São comprimidos calmantes. É uma puta quantidade de Diazepam. Esse cara queria mesmo morrer.
– Ele bebeu dois fracos, com meia garrafa de uísque. – Avisou Guilherme, vindo da pequena cozinha do dormitório. – Parece que nosso culpado descobriu que já sabíamos de tudo.
– Não faz sentido. – Objetei. Obviamente aquele povo nunca tinha visto CSI. – Alguém que está por cima, não se mata. Ele não tinha razão pra ter feito isso. Se era capaz de matar o Ricardo e de armar pra se livrar da Faye e da gente, certamente usaria a vantagem que tinha pra nos pegar. E não correr na frente e se matar.
– Ele ainda não morreu. – Lembrou Manuela, olhando-me com firmeza e confiança. – O que fazemos?
– Vou provocar o vômito. Se tivermos sorte, essa quantidade toda de comprimidos ainda não foi absorvida. Então talvez ainda dê pra gente tirar ele dessa. – Expliquei, ajoelhando-me ao lado de Renée, e curvando seu corpo para a frente. Com minha força incomum, era como brincar com uma boneca de tamanho ridículo, ainda que possuidora de articulações perfeita. Amparando sua cabeça, enfiei meus dedos indicador e médio em sua garganta, apelando para os seus reflexos faríngeos.
Renée convulsionou para a frente e vomitou um líquido escuro e espesso sobre seu carpete. O cheiro podre do vômito revirou meu estômago, e os outros cobriram seus narizes. Tudo rescindia a álcool. Haviam comprimidos ainda inteiros no meio da massa espalhada pelo local, e Renée parecia respirar com mais leveza após minha intervenção. Apesar disso, ainda estava dormindo. Fiquei mais tranquila por ter conseguido chegar em tempo. Ao menos o levaríamos para o Hospital antes que as coisas piorassem. Limpando seu rosto com uma toalha de rosto que Manuela me passou, observei seus traços. Ele era um homem bonito, apesar de eu tê-lo hostilizado desde o princípio. Nunca havia reparado nisso. Mas Beatriz, sua irmã, também não era feia. Suor brotou em sua pele, e pude constatar a melhora em sua aparência.
– Gente, é sério... Não acho que Renée esteja por trás disso. – Expliquei, afastando-me da poltrona e cruzando os braços. – Sei que queremos encontrar um culpado, mas tudo isso soa fácil demais. Quase orquestrado. Sei que foi difícil o que fizemos até aqui, mas sinto que algo não se encaixa. Se Francine e João Pedro brigaram com ele, como Carol disse, então já sabiam e não disseram nada. O que significa que no mínimo, protegeram um criminoso. Pensem bem.
– Faz sentido, mas ao mesmo tempo. Tudo aponta para ele. Os Arquivos de Orlando que eu vi, lembra? Ele era o único além dele, que também queria Faye longe dos laboratórios, na primeira rebelião. Quando Orlando se rebelou, Renée ficou na dele. Não soa estranho? – Manu parecia em dúvida, enquanto os rapazes olhavam para nós duas, tentando decidir em quem acreditariam mais.
– Faz, até demais. E esse é o problema. É quase como se quisessem incriminar o Renée por tudo. Quanto mais penso nisso, mais acredito que temos menos motivos pra culpá-lo. – Levantei-me, aproximando-me de Manuela. – Ricardo ia querer que encontrássemos a pessoa certa, amiga. Você também o conheceu bem. Ele era estúpido, mas era do bem.
– Era sim. – Ela concordou. — Acho que voltamos à estaca zero, então. Quem sabe quanto tempo vai levar até acharmos o culpado? – Manuela parecia chateada.
– Não seja pessimista. – Guilherme já estava perto da porta. – A única alteração que eu faria no que você disse, é que não vamos precisar achar o culpado. Ele vai achar a gente. – Guilherme abriu a porta do dormitório, sorrindo. Pela porta, João Pedro entrou com cerca de quatro sentinelas em seus ombros, todos completamente uniformizados e armados. Usavam máscaras de ninja, no entanto. Eu não podia divisar os seus rostos. – É uma pena que vocês não sejam completamente burras. Não precisaríamos ter ido tão longe. Acontece que com o seu pai vigiando a vadia dele vinte e quatro horas por dia, fica difícil conseguir um tempo a sós com a doutora. – Guilherme apontou para mim com sua arma, enquanto João Pedro permanecia calado, observando nossas expressões de choque com humor ácido.
– Sabe, não tenho grandes problemas com seus amigos, nem familiares. Mas sua gente tem o hábito de se meter em coisas que não deviam. Por exemplo, essa mocinha aí. Desde o primeiro dia Agnes nos alertou sobre o quão interessada ela parecia, em nossos Arquivos. Convenhamos, como investigadores vocês são ótimos sobreviventes. Quando as coisas saíram do controle com seus amigos, assim que chegaram aqui, percebi que seriam problema. Como Hugo e Tânia escaparam, Ricardo foi um aviso. Ao invés de recuarem, vocês se tornaram ainda mais atrevidos. Além de aberrações, passaram a se infiltrar em nossa comunidade, agarrando postos de alta responsabilidade e dominando aos poucos o nosso meio de vida. Quanto tempo vai levar até Faye nos obrigar a todos, a nos tornarmos inumanos? Me perguntei, desde que aquela maldita voltou. Talvez Orlando estivesse certo no fim das contas, eu pensei... Ela curou a tal Cecília, mas não fez isso com você, nem com a Fernanda. Deve haver um motivo. – Enquanto ele fazia seu discurso de vilão (que soava extremamente clichê, mas não deixava de ser assustador), percebi o quão óbvio era tudo aquilo. Nosso próprio ego nos guiara em outra direção, mas às vezes, a mais simples explicação é a correta.
– Faye não me curou, porque eu não preciso de cura. O GM salvou minha vida várias vezes. Você não faz ideia de como eu lamento pela existência dele, mas para o bem ou para o mal, ele não me afeta como às outras pessoas. Fernanda estaria morta, se não fosse por ele também. Ela foi infectada pelo meu sangue. Nós duas não sofremos de nenhum efeito colateral esquisito. Mas Cecília ficou cega, quando foi infectada. Encontramos outros, também. Eram loucos, psicopatas, canibais, até mesmo sociopatas. – Expliquei, tentando ganhar tempo para pensar numa saída. Os homens de João já tinham Manuela e Arantes sob a mira de revólveres, e minha amiga estava decepcionada demais com Guilherme, para pensar claramente. – Eu tive um amigo que não era perigoso, também. Mas ele morreu. O que estou tentando dizer, é que para algumas pessoas, o GM funcionou como deveria. Ele aprimorou as capacidades humanas. Faye não pretendia que as empresas da família deixassem um desastre completo acontecer. Além do mais, foi Orlando quem comandou tudo. Até a construção da Fortaleza.
– Orlando queria parar de pesquisar uma cura depois dos primeiros meses, porque ele sabia que isso não ia ter fim. Mas a Faye queria continuar experimentando. Ela queria resultados diferentes, e conseguiu muitos fracassos antes que ele tentasse pará-la. Aqui na Fortaleza ela deixou de se submeter a ele, e assumiu a liderança com o aval dos Nove imbecis, incluindo a mim. Estávamos assustados, e não vimos quem ela era. Alguém que você não vê. – Ele estava totalmente louco. Como explicar divisão e multiplicação para alguém que acredita que três mais dois, é igual a cem? – Ela voltou o Conselho contra Orlando, alegando que ele era paranoico, e que estava perdendo a razão. Ela abriu os Laboratórios para investigação, mas já tinha tudo pronto para fugir quando ele se rebelou. Ela levou amostras e instrumentos para realizar suas pesquisas em Búzios, com alguns dos idiotas que acreditaram nela. Até os dois estagiários já estavam prontos. Conveniente, não? É quase como se ela já tivesse planejado a viagem... Mas não se preocupe, vou provar o que estou dizendo. Quando esta noite acabar, eu vou mostrar a todos quem essa mulher é, de verdade. Não a paladina virtuosa que todos imaginam, com certeza. Ela está bem distante disso...
– A única coisa que você está mostrando, é que ficou completamente louco. Principalmente se acha que ninguém vai tentar impedi-lo. – Guilherme agarrou o meu braço. Eu poderia incapacitá-lo facilmente, é claro. Desarmá-lo e quebrar suas mãos, e então lidar com João rapidamente. Mas meus amigos não eram transgênicos. Eles não conseguiriam evitar qualquer dano. Era meu dever preservá-los. Ainda mais agora, pois por minha culpa e permissão, eles estavam naquela situação. – Uma vez que você nos leve até lá em cima como reféns, não terá mais volta, João.
– Não ouviu os gritos? Nem os tiros? Nós estamos bem além de qualquer volta, Victoria. Hoje, todos vão perceber que a pior coisa que já fizeram, foi permitir que você e seu Circo de Horrores entrassem nessa ilha, trazendo Faye de volta. E quando eu terminar de destruir os laboratórios, vou assistir com prazer enquanto vocês morrem. – O aperto em meu braço aumentou. Um impulso pareceu correr do meu peito até os músculos do braço, e tive que me controlar para não descarregar toda a minha fúria em Guilherme.
Enquanto éramos arrastados corredor afora à sua frente, João Pedro vinha logo atrás, assoviando uma melodia infernal que só fazia sentido para ele. Não havia nada de especialmente intimidador a respeito dele. Como eu dissera outras vezes, ele era tão comum quanto seu nome. Mas a forma como era capaz de ameaçar a vida de todos que importavam para mim, sem piscar nem demonstrar emoção, demandava de uma frieza sem precedentes. Topázio e Arlindo, nenhum deles era frio. Nem mesmo os mercenários, ou os canibais. Era todos extremamente histéricos e até selvagens. Aquilo era completamente diferente. João Pedro tinha um propósito. Pior. Ele realmente acreditava, do fundo de seu coração, que estava certo. Alguém com convicção, ainda que homicida, era uma força a ser reconhecida. O problema era que, no caso, nós estávamos bem na linha de tiro dessa força. E se tinha uma coisa da qual eu tinha certeza, era de que eu não queria ser destruída por ela.
– Agnes! Então você conseguiu! – João parecia impressionado. Sem sorrir, mas com uma expressão extremamente satisfeita, a chefe falsa de Manuela acenou positivamente, começando a caminhar perto de nós. – Então Abel está preso? Ele seria um problema entre os sentinelas. Muitos que aceitaram trabalhar para nós ainda o respeitam. Se ele morresse, seria um problema.
– Ele está trancado e seguro. Junto com o Diogo, e a Carolina. Quase matei os dois, mas tinha que descer até aqui. Quer dizer, talvez a Carolina ainda morra. Exagerei na dose de sedativo. Pelo que me comunicaram, a explosão do Memorial funcionou como esperado. A Escola já começou a pegar fogo. Aqueles que foram atingidos pela saraivada de tiros já estão voltando. Logo vão atacar o Hospital. Caos instantâneo, João. Você conseguiu. – Tive de levar alguns momentos, para me recuperar. Como aquela gente podia estar falando de incendiar uma escola, de maneira tão trivial? Manuela estava horrorizada, olhando para mim em desespero. Arantes parecia furioso, mas mortificado e preocupado.
– É perfeito. Neste meio tempo, ninguém percebeu que matamos a Silvia. E quando os feridos forem levados para o Hospital, as pessoas dirão que tem um confronto acontecendo. As ruas estarão desertas, cheias de mortos vivos. Nós, vamos controlar tudo em seguida. E quando salvarmos as crianças, ninguém vai questionar quem estava certo. Bem a tempo para Francine completar a missão dela. Soa como um bom plano, não é Vicky? Acho que nem seu pai previu essa. – João estava rindo, mas não havia humor algum ali. Era como um robô assassino, falando aquilo por falar. Ele não ligava de comentar estratégia na nossa frente, porque já estávamos mortos em seus planos. Como ele mesmo dissera.
– É por isso que enlouqueceu a Irma? Ficou com medo dela nos dizer que você tinha mandado matar a Faye? – Desafiei, aproveitando para tirar mais aquela pulga da minha orelha. Já que ele estava todo falante...
– Não contratei assassinos para matarem a Faye. Queria ela longe daqui, mas não contratei ninguém. Uma pena, pois eu teria contratado, se tivesse encontrado um grupo destes querendo vagas aqui. Mas parece que não sou o único que tem senso de justiça. Mais alguém sabia da ameaça que Faye Keiko representa. – Ele deu de ombros. – Mas não é do meu estilo usar Beijo das Sombras. E foi exatamente isso que deixou a tal de Irma louca.
– Mas a Faye examinou o corpo e não achou nada... – Calei a boca, percebendo que ele queria incriminá-la por isso também.
– Não sei o que te deram, João. Mas faz Beijo das Sombras parecer fraco. Seu doente, filho de uma puta... – Arantes cuspiu, rindo de escárnio. Com um acenou, um dos sentinelas traidores socaram o sargento, cujo nariz sangrou imediatamente.
Quando alcançamos o lado de fora, vi alguns zumbis caminhando na direção do Pátio Central. Pessoa que vestiam seus uniformes, e pareciam saudáveis apesar de mortas. Naquele momento, meu coração ficou dividido, e fraturado em mil pedaços. Um para cada amigo espalhado por aquela droga de Fortaleza. Ao menos os gêmeos, Carlos e Cecília estavam juntos. Talvez Francine não fizesse nada com eles. Nanda protegeria Tânia e os bebês no Hospital. Diogo e Carol estavam presos, o que também significava que estavam o mais seguros possível. Manuela, Arantes e eu estávamos com problemas, no entanto. Hugo, Otávio, papai e Dante, também. Tinha que encontra-los, mas antes, tinha que escapar dos meus captores. O que era bem mais fácil falar, do que fazer. Era possível ver o palanque que Silvia montara, dali. Seu corpo caído também. Conforme nos aproximávamos dele, os sentinelas de João matavam os zumbis mais próximos, com seus silenciadores. Percebi, contudo, que a maioria das vítimas de seus primeiros disparos, haviam sido fatais. Pelo visto, a quantidade de mortos reanimados não era além do que poderia ser contido, o que só reforçava a antecipação de tudo. Como um gigantesco jogo de tabuleiro. Havia sangue no asfalto, e mesmo a tarde que já se tornava noite parecia entristecida. Para mim, aquilo não era nada além de algo que eu já vinha me preparando para notar. Não existe lugar seguro no fim do mundo. Não existe Fortaleza, em seu sentido intransponível. Porque as ameaças principais, nunca foram os monstros. Nem os mortos. Mas sim as pessoas desajustadas que esse tipo de mundo produz, gente sem escrúpulos, e que convive no meio de todos. Como lobos em pele de cordeiros. Como sempre, era o mal do próprio homem, que trazia o seu fim. Desde o princípio, eu devia ter me preparado para quando a escuridão viesse...
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