Quebranto.

96 O terceiro pecado é a Gula.


Notas iniciais
Yay! Mais um capítulo! Não, não é milagre de Natal! Também não estou tentando fazer chover na cidade de ninguém, com essas postagens múltiplas. Só estou aproveitando os efeitos da mordida alucinógena de um bichinho chamado inspiração. Mesmo sacrificando mais uma noite de sono, kk. De qualquer forma, espero que gostem desse capítulo. Boa leitura!

Manuela.

Ficar perto de Hugo naquele momento não me faria nenhum bem, e nem a ele. Eu seria muito mais útil cumprindo com minhas funções de forma responsável. Mas eu não me referia às funções delegadas pelos Conselheiros. As funções a que me referia tinham muito mais a ver com o que Victoria pedira que fizéssemos. Espionar nossos chefes. E no meu caso, este era o Renée. Um dos nossos suspeitos mais estranhos. Talvez eu não devesse agir enquanto ainda era dia, mas seria muito mais complicado invadir aquele lugar e as salas dos Arquivos às escondidas. Melhor seria bisbilhotar novamente, enquanto Agnes estivesse distraída. Para ser franca, eu vinha quebrando regras naquele lugar desde o primeiro dia, e nenhum dos Organizadores parecia realmente focado em seu trabalho. Nenhum deles seguia à risca o que devia fazer. Grande parte até alternava-se em sonecas soturnas. O que significava mais cobertura para mim, é claro. Faltava bem pouco para que eu terminasse de ler o caso de Orlando. Ao que parecia, ele tinha um sério problema com Faye. Acusava-a de ter roubado sua pesquisa, e de muito mais do que nos haviam dito. Para Orlando, Faye já conseguira produzir a cura, mas não planejava usá-la nas pessoas. Grande parte do apoio que conseguira, fora declarando que a cientista infectaria a população da ilha com um agente mutagênico, modificando a todos. É claro, Faye negara tal absurdo. Num julgamento formal, Orlando forçara o Conselho a votar sobre a pesquisa da cura. Derrotado por cinco votos contra dois, o antigo Conselheiro da Ciência seria deposto, e Keiko assumiria seu lugar. Esse foi o estopim de todo o conflito que abatera a Fortaleza antes de nossa chegada. Segundo o que constava nos Arquivos, Faye insistira em compartilhar suas pesquisas com os demais Conselheiros, para provar que não estava realizando experiências mutagênicas. Silvia investigara o laboratório da moça, invalidando completamente o depoimento de Orlando. Àquela altura Faye não conseguira sequer estabilizar a cura de modo que afetasse os zumbis, e não encontrara um inumano em quem pudesse testar seu soro.

Agora que todos sabiam que Cecília havia sido curada por ela, e que os transgênicos não eram só uma história dos sobreviventes de fora da ilha, todos estavam extremamente preocupados com a presença deles na ilha. Era natural que o conflito se reacendesse com a chegada de Faye. Mas se alguém estava matando pelas ordens de outra pessoa, então a coisa ia muito além de uma simples hostilidade. Um grupo organizado sobrevivera à queda de Orlando, e ainda planejava se livrar de Keiko e talvez até mesmo de Silvia. Com a plataforma de evitar que o ser humano piorasse as coisas, haviam recrutado mais pessoas desde o fim da Guerra Civil. Aquilo era monstruoso. Folheei o Arquivo de Orlando, respirando com dificuldade o ar daquele cubículo empoeirado. Era estúpido que tivessem enviado alguém do grupo de forasteiros para um serviço como aquele. Eu não reclamaria da sorte, contudo. Fui até a página que relatava o julgamento de Faye. O início daquilo tudo. Ali, havia o nome do único Conselheiro que concordara com Orlando. Renée. Finalmente entendi a animosidade entre ele e Arantes. Todos suspeitavam que Renée fosse partidário do agitador, mas ninguém podia provar seu envolvimento em nenhuma das ações de Orlando. Para mim, ele deixara Renée incólume, para que este terminasse o seu serviço, caso ele falhasse. O que de fato aconteceu. Agora, quanto tempo teríamos até que Renée fizesse sua próxima vítima?

– Manuela? — Chamou Agnes, abrindo a porta. Rapidamente fechei o Arquivo de Orlando e o joguei no chão. Chutei-o para baixo da escrivaninha velha, e deitei a cabeça entre os braços, sobre a bancada. Já estava vermelha depois de chorar por Rico, então ergui meu rosto bem devagar, aproveitando o estado desgrenhado dos meus cabelos. — Oh, desculpe. Estava cochilando, não é?

– Sim. Mas já estou bem. Eu ia mesmo levantar. Estou com fome, e não gostaria de perder o almoço. — Expliquei, afastando minha cadeira da mesa. Notei que o olhar de Agnes varreu o móvel, tentando encontrar algo estranho. Ela devia achar esquisito que eu passasse tanto tempo trancada naquela sala abafada, e com razão.

– É mesmo, eu vinha falar sobre isso com você. Estamos saindo para almoçar. Se quiser pode vir conosco. — Sua expressão era simpática, e percebi que Agnes assemelhava-se muito com uma boneca serviçal. Ou com Thaís, quando ainda era ela mesma e só puxava o saco de Topázio. — Sabe, um pouco de conversa pode mesmo te animar.

– Eu agradeço, mas tenho planos. Guilherme deve estar vindo me buscar para o Refeitório, e combinei de encontrar meus amigos antes de cada um retornar às suas funções. — Por instinto, alisei meus dedos feridos, achando estranho que eu os sentisse perfeitamente normais, quando não os estava tocando.

– Sabe, vou te dar um conselho. O fato de você e seus amigos ficaram tão fechados o tempo todo, às vezes é visto como se não quisessem fazer parte de nossa comunidade. Algumas pessoas acham que isso é uma conspiração para tomar o que é nosso, e vocês não podem deixar que os culpem por tudo de ruim, isolando-se ainda mais. — Agnes deu uma última olhada na sala, e observou meus pés por alguns instantes. Pensei que ela tivesse visto o Arquivo embaixo da escrivaninha, e prendi a respiração. — Sapatos legais. Você deu sorte ao ganha-los. Tranque tudo quando sair. Até mais.

Eu definitivamente não era feita para momentos de tensão como aquele. Soltando o fôlego e esfregando as mãos no rosto, limpei o suor frio do pescoço antes de levantar e arrumar a sala novamente. Com tudo o que eu sabia naquele momento, não tinha motivos para duvidar de que Renée tinha algo a ver com aquilo tudo. Mas talvez não estivesse sozinho. Afinal, ele já teria sido desmascarado em algum momento, se não tivesse a proteção de outra pessoa. Outros membros dos Nove? Era possível. Talvez até mesmo Silvia, que não devia ter ficado triste ao assumir o controle de tudo. Afinal, aquela mulher era bem esquisita. Parecia viver numa bolha própria de democracia misturada com comunismo, onde tudo era perfeito e ninguém era assassino a cada esquina de sua ilha. Ela era bem como os políticos de antes daquilo tudo. Não que uma prostituta soubesse muito de política, mas eu podia dizer que do jeito que era, não funcionava totalmente bem. Do jeito que a situação estava no pós-apocalipse, não parecia que seria muito melhor, também.

Hugo.

O prédio que coordenava as atividades da Fazenda era um lugar legal. Estar ali com Dante era uma boa forma de esquecer a realidade terrível que esperava lá fora, e um jeito simples de conhecer melhor o que eu teria de fazer quando todos os pesadelos reservados para mim acabassem. Afinal, mesmo que minha formação em Geologia tivesse sido incompleta, eu conhecia uma coisa ou duas sobre as qualidades do solo, e os terrenos mais propícios para a ação humana. Segundo Tássio, o Conselheiro responsável por organizar o cultivo de vegetais e frutas, e a pecuária, isso seria útil o bastante. E eu estava feliz, por saber que ainda tinha uma função a exercer. Um lugar onde poderia significar algo. Além de uma forma de fuga muito bem-vinda. Caminhando sobre uma plataforma de ferro, eu e Dante observamos com surpresa quando entramos nas Estufas do local. Haviam dezenas de legumes e verduras sendo cultivados em grande quantidade, abaixo dos nossos olhos. Era um projeto incrível. Uma espécie de agricultura de subsistência em massa, a julgar pela disposição dos diferentes tipos de alimentos em posição circular. Simplesmente incrível.

– Sabia que iria gostar disso, meu jovem. — Tássio sorriu, e seus poucos cabelos brancos ao redor da careca arrepiaram-se mais do que nunca. — Nós mudamos o tipo de alimento em cada solo, a cada colheita. Assim não cansamos a terra, e aproveitamos ao máximo as condições que recebemos aqui. Tenho uma ideia fixa de trazer a estufa para fora do prédio, e usar os terrenos de pasto. Mas os outros Conselheiros consideram o gado mais importante. Se ao menos os bichos pudessem ficar mais perto da maldita floresta...

– O que tem lá? — Indaguei, apenas por curiosidade.

– Nada! Mas que ideia! O que poderia haver lá, meu jovem? Estamos isolados no meio do oceano. Não há nada na floresta. — Insistiu o homem, acenando progressivamente. Os óculos em seu rosto praticamente monopolizando as feições de sua face, com as lentes de aumento. — O único risco é que as vacas estúpidas acabam entrando naquele lugar, e terminem caindo de um dos declives de pedra, morrendo e desperdiçando um valioso recurso alimentício. Procurar pelo gado naquele ambiente seria uma tortura, também. Um desperdício de recursos, segundo Silvia. Eu digo para montarmos uma cerca e bloquearmos a floresta. Deixem os animais comerem por lá, é o que digo!

– Talvez não bloquear a Floresta seja uma boa ideia. — Dante sugeriu. — Se tem rios e riachos por lá, pode ser uma solução caso tenhamos algum problema com a água. — Ele deu de ombros, e seus cabelos loiros caíram sobre os olhos. Eu amava o brilho deles.

– Você é sensato, filho. Gosto disso... Sim, sim, um bom caráter... — Tássio ignorou o assunto, apontando para uma pilha de caixas abaixo da plataforma. — Ali ficam nossas sementes. Foram projetadas pela Keiko Enterprises, sabia? São transgênicas, então durarão por décadas sem estragar. A menos que um enxame de passarinhos apareça, haha! É um estoque digno, para alimentar nossa gula por duas gerações! — Acabei rindo da péssima piada. Aquele cara era biruta. Ouvimos o som do portão de ferro atrás de nós abrindo-se, e um homem chamou por Tássio, que volveu o corpo em nossa direção. — Eu retorno em seguida, rapazes. Apreciem a vista, sim?

– Você está bem? Digo, nesse exato momento. Não no geral. — Dante perguntou, coçando a cabeça. — Acho que seu chefe é maluco, Hugo.

– Vai ser divertido trabalhar com ele. — Concordei, olhando para um pé de abóboras morangas. — Obrigado por estar aqui, Dante. Você sempre foi muito melhor para mim do que eu mereço.

– Não seja idiota. Ninguém me obrigou a te tratar bem. Além disso, sou puramente egoísta quando se trata de você. Você sabe que não é simplesmente por amizade, que me mantenho ao seu lado. — Ele fitava a estufa, mas não a mim. — Você já sabe disso faz tempo. Lamento o que houve com Ricardo, e entendo se isso vier a ser uma barreira entre nós. Mas não precisa ser. Não quero apressar nada, afinal. Já esperei por um longo tempo, e posso esperar mais um pouco até que você esteja recuperado. Você já fez o mais difícil. Admitiu que sente o mesmo.

– Sinto sim, Dante. E entendo que você esteja preocupado, considerando tudo o que houve. Mas Ricardo era minha família, quando morreu. Não meu namorado. O que sinto por sua perda não tem nada a ver com o que vivemos. Escolhi você, e ele sabia disso. — Segurei as mãos de Dante, e levei um susto por estarem tão geladas. Eu ficava tão centralizado em minhas crises pessoais, que esquecia o quão nervoso ele também devia estar. — E sei que pode parecer que temos todo o tempo do mundo, mas isso não é verdade. A cada segundo temos uma nova prova disso. Se você quiser, eu estou pronto. Talvez nunca vá me recuperar, mas não vou deixar de viver.

– Tem certeza? — Ele estava mais próximo, naquele instante. Suas mãos haviam deixado as minhas, e pousavam gentilmente em minhas costas. Um pouco mais alto do que eu (não era difícil ser maior do que eu), Dante parecia uma muralha à minha frente. Seus cabelos loiros dependuravam-se me minha direção, e seus olhos verdes estavam brilhando, aumentando o contraste com a pele bronzeada. — Por favor, não brinque comigo, Hugo.

– Não estou brincando, palhaço. — Emburrei a cara, mirando seus cabelos. — Sempre achei seus cabelos bonitos, sabia? Até quando eram mais curtos.

– Se quiser, eu posso cortar. — Ofereceu, sorrindo. Sua expressão era meio pateta, como se ele estivesse empolgado pelo que eu dissera. Como se eu fosse grande coisa.

– Gosto do seu cabelo assim. O novo Dante é muito bom, também. — Respondi, erguendo meu rosto na direção do dele.

– Deve ser melhor do que o antigo, já que ele conseguiu te agarrar. — A expressão dele era ridícula, agora. Uma criança convencida, e com um senso de comédia nada preciso. Mesmo assim, estremeci quando sua boca aproximou-se da minha. Aquilo estava mesmo acontecendo? Sim. E eu queria. Talvez até precisasse daquilo. Precisava sentir o toque de Dante, algo pelo que eu aprendera a ansiar. — Merda! — Ele resmungou, no entanto, quando Tássio entrou na plataforma acompanhado pelo pai de Vicky.

– Lamento interromper, Hugo. Mas Silvia está convocando todos de volta à Fortaleza. — Allan parecia um tanto constrangido. Mas eu estava mortificado. Tássio fitava as sandálias de couro nos próprios pés, como se fossem a oitava maravilha do mundo. Com as bochechas vermelhas e a cara emburrada, Dante saiu puxando-me na direção da saída, e tive que apressar os passos para alcança-lo. Coitado, ele devia estar mesmo frustrado.

– Droga de Fortaleza, cheia de empata-fodas. — Cobri a boca com as mãos, para não deixar a risada escapar ao ouvir aquele chiado de revolta. Dante nunca xingava daquele modo!

– É só um beijo. Podemos repetir a qualquer hora. — Tentei quebrar a tensão, mas a cara dele continuava séria. Já estávamos quase deixando o prédio da Fazenda. — OK, era o primeiro beijo. Mas e daí? Nem tudo é como num filme.

– Seria como um filme, sabia? Acabaram com o clima. — Dante finalmente sorriu. — Agora, só vou repetir quando o momento for tão bom quanto aquele. E nem adianta fazer cara feia. Ranzinza.

– Idiota... — Devolvi o insulto, num tom de desprezo tão falso, que era quase caricato.

Quando alcançamos o Pátio Central, ele estava completamente tomado pelos funcionários das Fazendas. Haviam pessoas de todas as cores, sexos e idades vestidas de marrom, um total que devia ultrapassar os vinte. Aglomerados e com expressões de questionamento em suas faces, eles pareciam inseguros diante da decisão apressada de Silvia. Também estranhei aquilo. Aquela mulher estava dando muitos discursos ultimamente. Primeiro o papo sobre toque de recolher e revistas surpresas. Agora, esse desaforo de interromper as atividades de um Ministério inteiro, para fazer um comunicado. Aparentemente, ela se dirigiria somente à Tássio e seus funcionários, embora tivessem outras pessoas por ali, olhando o que aconteceria. Falando de maneira sóbria e banal, Silvia explicou rapidamente que decidiu interromper as atividades nas Fazendas ao pôr-do-sol, até segunda ordem. Ela desejava fechar os portões antes do anoitecer, para limitar ainda mais as possíveis rotas de fuga e ação de um ou mais rebeldes, caso estes estivessem usando o terreno de pasto e a floresta como esconderijos. Todos concordaram com a ideia, e ela anunciou os nomes dos primeiros moradores que terão seus quartos revistados. Coincidentemente, nenhum dos meus amigos foi escolhido. Assim como nenhum dos Nove, o que me pareceu estranho. E não só a mim. As pessoas encararam-nos, desconfiadas. Comecei a suspeitar de que estavam querendo nos avacalhar de propósito. Encarando a presidente com uma expressão carrancuda, logo notei a aproximação de Manuela. Ela parecia bem, embora seu olhar fosse urgente. Ela não disse nada ao chegar mais perto, apontando Guilherme com o olhar. Entendi que ela desejava segredo, e assenti imperceptivelmente. Logo, Victoria, Cecília, Diogo e os gêmeos também aproximaram-se. Ver Cecília sozinha me incomodou, e fui encontrar Otávio de pé sobre o palanque, ao lado da Conselheira mais próxima da presidente, Martha. Eca. Carolina e Arantes logo se juntaram a nós, junto com Helena. Carolina também parecia ter visto um fantasma, o que me fez concluir que havia gente demais ansiosa por ali. Aquilo precisava acabar.

Quando Fernanda veio do Refeitório, às pressas, percebi que aquele era o momento perfeito para uma reunião secreta. Assim como fizéramos na Privilège. Sem esperar que aquela mala da Silvia calasse a boca, comecei a me afastar do aglomerado de gente, em direção aos Muros. Se aquele era o lugar que haviam escolhido para tirar Ricardo de nós, então que fosse o lugar onde começaríamos de uma vez por todas, nossa jornada por justiça. Porque o que costumavam dizer naqueles tempos não era mentira. Realmente havia coisa pior do que os monstros. E esse perigo brutal e supremo, eram as pessoas. Principalmente aquelas que acreditavam lutar por um propósito. E agora, cada membro da nossa família disfuncional e corrompida tinha um propósito em comum. E se eu aprendera algo com aquela gente naqueles anos todos, era que eles jamais se renderiam.

Notas finais
É gente, as coisas estão um pouco mais claras... Ou muito mais confusas? Esse capítulo foi uma espécie de zona de segurança em meio ao caos. Um pouquinho de açúcar no meio do tempero. Para aqueles que estão aguardando a aparição dos nossos amados zumbis, não desanimem. Eles não estão longe. ;) Por enquanto, o foco continuará sobre esse suspense na Fortaleza. Esse plot será definitivo no que abordaremos com o último arco da história, então precisa ser bem trabalhado. Estou preparando uma surpresa bem deliciosa para vocês. Se tiverem alguma sugestão ou comentário sobre a fic, fiquem à vontade! Leitores antigos, novos, não tem problema. Podem até mandar MP, se quiserem. Espero que estejam curtindo, e nos vemos no próximo capítulo! Kisses by DroppingPieces!