Quebranto.

99 O sexto pecado é a Inveja.


Notas iniciais
Eu tinha prometido que esse capítulo sairia mais rápido, e aí está. Não sei porque, mas estou tendo uns probleminhas com o Nyah! quando navego usando o Chrome. E como o Internet Explorer é um - palavrão inserido aqui -, queria avisar que li todos os reviews recentes e estou louco para responder, assim que o site parar de mimimi. Queria também aproveitar para agradecer às novas recomendações de Laáh, e Bree Tadashi. Realmente, vocês foram super gentis e generosas comigo, suas lindas. Não mereço todos os elogios que me fizeram. Super obrigado, e espero que estejam gostando. Agora, vou parar de falar porque vocês devem estar curiosos. Boa leitura pra vocês, amores!

Manuela.

Victoria e Cecília passaram por mim com os outros, em direção ao exterior. Ainda faltavam algumas horas para o almoço, mas eu não podia ignorar a sensação incômoda do suor que molhava minha nuca por baixo dos cabelos. Era puro nervosismo. Não que eu estivesse de fato apavorada, mas para alguém tão pouco acostumada com tarefas como aquela, não era nada fácil agir como se estivesse tudo ok. Não quando eu planejava roubar minha chefa, dando o primeiro passo para uma série de acontecimentos no mínimo imprevisíveis. Olhando para os lados com uma expectativa incerta, tive de respirar bem fundo para controlar meus nervos. Que diabos eu estava fazendo? Não podia arriscar ser descoberta! Bufando com o estresse, fiquei ouvindo enquanto Agnes falava com Renée pelo interfone da bancada que ficava na recepção dos Dormitórios. Pelo visto, havia algum problema com zeladores que não estavam cumprindo suas obrigações da forma devida. Dando de ombros, toquei o braço de Agnes e apontei para o banheiro, avisando que estaria por lá. Ela assentiu, voltando aos seus assuntos sem maiores preocupações. Verificando para ter certeza de que ela estava virada de costas para mim, virei no corredor seguinte, indo em direção oposta ao banheiro. Passei direto pela sala dos Arquivos, e pelos locais onde outros Organizadores atualizavam as listas de provisões para a Fazenda, e os relatórios de trabalho de cada Secretário. Haviam muitos gabinetes ocupados naquele momento, mas detive-me no último corredor do nosso andar. Produtos de Limpeza. Como éramos os responsáveis pelos zeladores, todo o estoque de produtos químicos separados e guardados ali para o uso futuro, eram muito bem protegidos e vigiados. Eram artigos raros, de todo modo. Cada vez mais escassos e difíceis de encontrar.

Entrei num dos depósitos, pronta para procurar o que me daria uma distração perfeita para tirar Agnes de circulação. Ela deixava seu cartão numa das gavetas da bancada, então obviamente seria extremamente fácil roubá-la quando eu tivesse terminado. Continuei checando as prateleiras entre escovas de dente, papel higiênico, sabonetes e detergentes. Finalmente, encontrei o que eu desejava. Uma garrafa de álcool, e uma caixinha de fósforos. Agarrei o frasco, saindo depressa da sala. Com medo de não conseguir esconder o que eu estava segurando, entrei no primeiro gabinete que encontrei e despejei o conteúdo por toda a parte. Eu sabia que não havia câmeras no interior da Organização, então ninguém poderia acusar a mim. Acendi um dos fósforos e ateei fogo a uma estante de livros, e a uma escrivaninha. Joguei a garrafa e a caixinha em meio ao fogo. Se tudo desse certo, pouco me importaria que percebessem que o incêndio fora proposital. Fechei a porta do local atrás de mim, enquanto o fogo e a fumaça começavam a levantar das labaredas. Corri como louca até estar a poucos metros de distância da recepção. Pondo o cabelo de volta no lugar e limpando as gotículas de suor da minha testa, tentei parecer menos louca do que me sentia. Deus, eu iniciara um incêndio! Quanto tempo eu teria até que alguém gritasse e chamasse por Agnes?

– Você demorou. O que houve? — Agnes sorriu gentilmente, analisando-me com cuidado. — Parece meio verde.

– Algo que comi não desceu bem. Coisa de louco — respondi, forçando uma expressão apreensiva. — E então? Como foi o telefonema com o chefe? — Tive que puxar algum assunto, já que ninguém parecia perceber meu início de incêndio amador.

– Péssimo. Por alguma razão, Renée está uma pilha de nervos. Deve ter brigado com o João Pedro de novo. — Comentou maldosa. Então Agnes cobriu a boca, sorrindo entre os dedos. — Desculpe, saiu sem querer. Todos falam que Renée e João estão juntos, mas nunca confirmaram nada. Aposto que isso te pegou de surpresa, né?

– Realmente. Dois Conselheiros juntos é o tipo de fofoca que o povo adora ouvir, né? — Ela assentiu. Obviamente, minha mente estava além. Eu lembrava-me do dia em que encontrara aqueles dois conversando no Hospital, com Dante. Deviam estar discutindo por causa de Ricardo. Certamente a causa da morte de Rico fora a relação dele com João. O que só confirmava minha ideia. Renée era mesmo o culpado. Enfim eu acreditava naquilo com todas as minhas forças.

– É sim, só não espalhe demais por aí que eu te contei. — Ela piscou. — Não quero me meter em encrenca.

Estava prestes a tranquilizá-la, quando a primeira assistente gritou. Mordendo uma das minhas bochechas por dentro da boca para controlar a ansiedade, observei enquanto vários deles gritavam o nome de Agnes. Ela pediu rapidamente para que eu vigiasse a bancada, e saiu de cena para solucionar o problema. Agitada, puxei imediatamente as duas enormes gavetas abaixo do objeto de mármore, revirando o conteúdo com urgência quase irracional. O cartão azulado estava lá, com o nome de minha chefa gravado em relevo. Apanhando-o, enfiei o treco por dentro do sutiã, correndo para junto de Agnes. Assim, eu poderia dizer que outra pessoa roubara o objeto, após eu ter deixado o local às moscas. Ainda seria ruim para o meu lado, mas bem menos arriscado do que ser a única suspeita de roubar o cartão. Nervosa, apertei meus dedos mutilados com a mão boa, esfregando uma na outra para afastar aquela sensação de agonia interna. Quando alcancei o local onde Agnes estava, o meu incêndio patético já havia sido erradicado. A maior preocupação era sobre alguns papéis importantes que eu queimara sem querer, incluindo boa parte dos relatórios feitos pelos zeladores naquela semana. Lamentei que muitos tivessem tido o trabalho de escrever aquelas coisas à toa, já que eu as queimara. Mas também não podia voltar atrás, ou ficar arrependida. Eu completara minha tarefa. Estávamos mais próximos de agarrar Renée e expulsá-lo da ilha, com sorte.

– Minha nossa! O que será que provocou isso? — Agnes estava nervosa, seus olhos denunciando uma dúvida genuína. — Manuela! Que bom que está aqui! Depois do que houve, vamos ter que parar mais cedo para o almoço. Vou pedir aos zeladores que venham depressa, dar um jeito nisso tudo. Se eu reportar que algo assim aconteceu no meu turno...

– Podemos deixar fora dos registros. — Um rapaz mais jovem sugeriu, atemorizado. — Senhor Renée não nos perdoaria por algo assim.

– Muito bem, então. Faremos isso, Murilo. — Concordando, ela voltou sua atenção para mim. — Vamos, Manuela. Preciso comer, fiquei estressada com esse incêndio!

– Perfeito. — Sorrindo e me sentindo super falsa, caminhei ao lado de Agnes na direção do exterior. Quando ela percebesse o furto do cartão de acesso, ele já estaria nas mãos de meus amigos há tempos.

No refeitório, sentei-me entre Nanda e Cecília, na mesa de Victoria. Ela parecia distraída enquanto segurava a mão de Diogo sobre a mesa. Carolina comia em silêncio, assim como Helena e Arantes. Hugo e Dante conversavam baixinho, e Hugo sorriu de maneira envergonhada. Senti um pequeno calor no peito ao vê-los juntos. Gostei bastante de ter conseguido unir aqueles dois. Olhando para a mesa dos Nove, vi Silvia inclinar-se para Otávio, falando algo ao ouvido dele. Nosso amigo olhou na direção da mesa, mas Cecília desviou os olhos para baixo. Havia algo tenso ali, mas senti-me inibida de fazer qualquer comentário. Por mais que houvesse alguma intimidade entre nós devido ao tempo de convivência, não era da minha conta. Mas aquela quietude mortal estava me matando. Eu sabia que todos queriam ouvir o que tinha acontecido comigo, mas não podíamos dar na cara. Decidindo que aquilo já estava insuportável, fingi deixar meu garfo cair e abaixei-me para buscá-lo. Retirei o cartão do sutiã, arrastando-me sob a mesa. Reconheci as coxas de Vicky, enfiando o rosto entre suas pernas. Horrorizada, ela arregalou os olhos quando me viu ali, e tive de me controlar para não rir. Estendi o cartão na direção dela, e Vicky revirou os olhos, como se de repente tivesse percebido do que se tratava minha loucura. Mordendo o lábio inferior para conter uma risada, ela tomou o cartão da minha mão. Quase bati a cabeça sob a mesa, quando Diogo pôs o rosto para baixo, surpreendendo-me. Ele parecia confuso, mas preferiu não dizer nada, erguendo-se. Voltei à minha posição inicial, trocando um olhar humorado com Nanda e Cecília, que pareciam chocadas com minha falta de jeito.

– Pelo menos ninguém viu nada, né? — Rindo, Cecília cobriu os lábios com a mão.

– Eles viram a Manuela de quatro sob a mesa, feito doida. — Nanda comentou, fazendo todos rirem na mesa. — Sério Manu, precisava disso tudo?

– Não sou uma espiã profissional como vocês, então improvisei. — Dei língua para Nanda, e Hugo acabou sorrindo. — Sério, se vissem o que fiz pra pegar isso daí... — Lembrei-me de minha conversa com Agnes. — Acredita que o Renée teve um caso com o João Pedro?

– Como é que é? — Hugo manifestou-se, rindo em escárnio. — João pode ter atraído o Rico de propósito, para causar ciúmes no Renée. Esse doente o matou por ciúmes.

– Seria uma razão para Francine e João estarem tão irritados com ele. Vai ver os dois pensam a mesma coisa, mas não podem dizer nada por não terem provas. Acho que quando prendermos esse maluco, vamos descobrir tudo o que está havendo aqui. De um jeito ou de outro. — Carolina parecia tão forte ultimamente. Quer dizer, ela sempre fora admirável para mim, mas já tinha ouvido histórias sobre sua transformação. Como ela devia ser, antes de tudo?

Nervosa, esfreguei minhas mãos suadas na calça. Não sabia o que ocorreria naquela noite, e tinha medo de que mais cedo do que eu esperava, tivéssemos que lutar por nossas vidas outra vez. Victoria não era mais a Secretária de Defesa. Na mesa dos Nove, o pai dela parecia deprimido ao lado de Faye, que parecia tentar animá-lo com um beijo no rosto. Tensa, flexionei meu pescoço, tentando espantar a sensação incômoda de estarmos sendo vigiados constantemente. Como se ignorar os olhares desconfiados das pessoas não fosse difícil o bastante. De fato, podia dizer com toda certeza que aquele lugar só seria um verdadeiro lar, quando todas as mentiras tivessem um fim. Até lá, eu conformava-me com a inveja constante de um passado que não voltaria mais. Inveja de quem eu já fora. Alguém tão diferente de quem eu me tornara, que não a reconheceria nem se a visse outra vez no espelho.

Otávio.

Victoria não fazia ideia do que estava acontecendo. Não se podia recusar algo para a Silvia sem levantar suspeitas. No exato instante em que deixaram a sala do Diretório, Martha ordenou que Allan mantivesse sentinelas vigiando a todos do grupo, com constância. Eu precisava fazer alguma coisa, principalmente sabendo de tudo o que aconteceria naquele dia. Depois de tantos perigos, e de termos sofrido tantas perdas, será que era tão difícil desejar que eles aprendessem um modo diferente de fazer as coisas? Principalmente Carolina, e aquela língua afiada feito uma espada. Ela mesma fingira estar ajudando Topázio quando as coisas ficaram um inferno na boate. Como podia não perceber que a única razão da minha submissão, era para proteger a todos? Os Nove precisavam confiar em um de nós. De verdade, e não só porque Faye os dissera para agirem assim. Eu acreditava piamente que se pudesse me tornar alguém indispensável, então o futuro de meu filho estaria assegurado. Cecília estaria segura, e meus amigos também. Com poder para agir de acordo com aquilo em que eu acreditava, estaria mais perto de achar e punir os culpados pelos recentes assassinatos. Mas Victoria jogara fora essa oportunidade, simplesmente abrindo mão de um cargo, quando poderia ter expressado sua insatisfação de outra forma. Sempre temos uma escolha, mesmo quando ela não é nada fácil. Engolir um sapo pode ser a única forma de viver para lutar outro dia. Pelo menos era dessa forma que eu pensava, antigamente. Agora que estávamos recomeçando, eu precisava voltar a ser quem eu deixara para trás. Tínhamos como viver ali, de verdade. Uma alternativa melhor do que qualquer buraco em que tentáramos sobreviver por mais de dois anos. Não era uma vida digna, embora tivéssemos uns aos outros. Tantos monstros, pessoas más e situações precárias... Não era possível que alguém sentisse falta daquilo.

– Está distraído, meu pequeno Otto. — Rindo, Martha segurou minha mão, afagando-a. — Não se preocupe. A bela Cecília não será implicada em nenhuma punição, caso Victoria seja acusada formalmente de insubordinação.

– Para ser sincera, acho que perder o cargo foi o bastante. Nossos desentendimentos não alteram o fato de que aquela jovem tem um dom extraordinário. — Silvia interpôs, inclinando-se na minha direção. — A força sobrenatural dela não se refere apenas ao físico. Mesmo que sua personalidade não seja tão pungente quanto a de Carolina, é igualmente tenaz. A forma como todos vocês se defendem e protegem uns aos outros, é digna de nota. Pessoas com histórias diferentes, sem parentesco algum. Mesmo as personalidades e gostos são diversos. É impressionante. — Ao contrário do que eu esperara Silvia não parecia rancorosa. — É uma questão de manter minha autoridade repreendê-la, mas não pretendo causar nenhum atrito entre nós. Mas peço que converse com sua irmã, Otávio. Faça com que ela reconsidere. Temos até mais tarde para voltar atrás.

– Sinto muito, presidente. Mas Victoria não vai mudar de ideia. — Tio Allan interrompeu o assunto, e sua voz era cheia de orgulho, apesar de tensa. — Minha filha se tornou uma jovem com uma firmeza de caráter assustadora. Está muito mais parecida com a mãe do que era antes de virmos para cá.

– De qualquer forma, são tempos perigosos. Não podemos deixar os inimigos verem desunião em nosso meio. — A presidente olhou para os seus Conselheiros. Com exceção de João Pedro e Helga, todos estavam ali. — Seus sentinelas não devem incomodar essa gente, Allan. Eles também são o meu povo.

– Mas, Silvia! E se eles decidirem tomar o Conselho? Com a força de Victoria e aquelas garras assustadoras da menina ruiva, eles podem nos matar a todos! — Martha parecia apreensiva, e provocou uma risada de Renée. Tássio também riu um pouco, dando um gole em sua caneca de alumínio. — Não zombem de mim! Tudo começou depois que essas inumanas chegaram. Elas são o foco da atenção de nossos inimigos. E podem muito bem se sentirem acuadas, rebelando-se!

– Eu lhe garanto, dona Martha, que está se preocupando com as ameaças erradas. — Tio Allan interviu. Meu sangue fervera ao ouvi-la referindo-se a nós daquela forma, mas minha expressão não denunciou nada, felizmente. — Meu afilhado está aqui, e é uma prova de que minha filha e seus amigos são dignos de confiança e respeito. Eles poderiam ter feito Faye refém quando chegaram, mas minha namorada está bem. Poderiam ter matado a senhora e nossa presidente, nas diversas ocasiões em que estiveram a sós conosco. E todos eles continuam esforçando-se e trabalhando, mesmo tendo sido mal recebidos e agredidos desde seu primeiro dia na Fortaleza.

– É verdade. Sem ofensas, mas se quiséssemos tomar o poder de vocês, já teríamos feito. — Aproveitando que Renée estava na mesa, olhei diretamente para ele. — Não somos iguais a Orlando, e muito menos parecidos com esses assassinos de máscara. No continente, lutamos contra a morte todos os dias, durante todo este tempo. Nossas expectativas se resumiam à próxima refeição. A vida de Victoria, e a de Nanda também, são dois milagres. Não fomos amparados por ninguém, e como todos vocês viram, perdemos muitos amigos. Mas ainda estamos aqui. Não somos nada parecidos com vocês, e até mesmo o mais fraco de nós pode derrubar alguns sentinelas se preciso. — Todos eles pareciam chocados enquanto encaravam-me, mas senti uma necessidade ainda maior de deixar clara a diferença de realidade entre nós e eles ali. Nosso inimigo oculto bem que poderia estar ouvindo, também. Olhei para Martha, e sorri de maneira amistosa. — Vocês têm razão em nos temer, mas por sorte, não precisam fazê-lo. Estamos do lado dessa comunidade. Protegeremos e trabalharemos com vocês. Mas aqueles que ameaçaram nossa segurança pagarão o preço. — Francine encarou seu prato como se tivesse perdido o apetite. Ela olhou nervosa para Renée. Não deixei escapar aquilo. — Com licença, preciso voltar ao trabalho.

Sem esperar pela autorização de nenhum deles, levantei-me e deixei a mesa dos Nove, partindo direto para o lado de fora. Sem que eu precisasse olhar para trás, sorri ao sentir os braços de Cecília ao redor da minha cintura. Seus seios tocaram minhas costas, e o simples toque dela foi capaz de acender o desejo em meu corpo. Com uma necessidade urgente, abracei-a e fechei os olhos ao sentir as mãos dela em meu pescoço. Ela fez carinho nos meus cabelos, e me deu um beijo. Correspondi ao seu afeto, puxando-a para o lado quando um casal de idosos decidiu sair do Refeitório, cuja saída ficara bloqueada por nós. Ela riu em meio ao beijo, e senti como se pudesse me apaixonar por ela de novo. Como alguém que passara por momentos tão traumáticos, podia ser tão mais forte do que eu? Cecília nunca fugia da verdade. Talvez, principalmente porque sempre tivera de vê-la antes de todos. Não sabia bem se considerava a perda dos seus poderes algo ruim. Ela parecia vulnerável, mas também liberta. Para mim, ela sempre seria extraordinária. Como se ela pudesse ler meus pensamentos, riu e balançou a cabeça, arrumando o cabelo castanho claro com uma das mãos.

– Você saiu tão bravo do Refeitório, que imaginei que tivesse caído em si. Tive que vir verificar como estava. — Seus dedos delicados deslizaram pelo meu rosto, e senti seu toque viajar por todos os cantos do meu corpo. — A coisa está feia?

– Martha me aborreceu, foi só isso. Tio Allan controlou a situação, e Silvia parece bem cônscia. Sabe amor, eu realmente gosto dela. Acho que é uma líder de verdade. Eu quem estraguei tudo. Por mais que eu tente, não sou bom em fingir como a Carol. E nem tão habilidoso em esconder o que penso. Juro que tentei. Mas acho que o antigo Otto morreu. Pelo menos, continuo com meu sarcasmo. E juro que ainda sei rir de mim mesmo! — Apertando-a mais firme, fiquei contente com o som de sua risada. — Obrigado por ser incrível.

– Incrível foi você ter aguentado por tanto tempo, nessa teimosia. — Ela parecia realmente contente, e isso era o que mais me deixava feliz. Desde a descoberta da gravidez as coisas pareciam meio estranhas, e temi que ela pensasse que de alguma forma eu não aceitava o nosso filho. Ou filha. — Não precisa me agradecer. Sei que você está fazendo o seu melhor, como todos aqui. Estou feliz por estar conosco outra vez, mas realmente entendo o que você queria para nós. Sinto muito por ter envolvido as meninas sem te consultar primeiro, mas acho que as madrinhas mereciam a notícia.

– Já imagino o sermão da Vicky, depois que tivermos prendido o Renée. Com a Carol é fácil. Como o teto de vidro dela é extenso, é só trocar umas gentilezas que ficamos bem. — Bufei, entrelaçando meus dedos aos de Cecília. — Saudades da época em que nós dois simplesmente não nos gostávamos. Seria tudo mais fácil se a Ana estivesse aqui. — Sabe a pequena pontada no peito que nós sentimos, quando lembramos alguém que se foi? Bem, senti aquilo. Meus olhos arderam, e Cecília beijou meu peito, deitando sua cabeça ali. Abracei seu corpo gentilmente, deslizando as mãos pelos seus cabelos. Eram tão macios.

– Eu sei. Sinto falta dela, também. Sei o quanto te machuca tê-la perdido. — Ela estava emocionada também. Acho que era a primeira vez em que eu falava francamente sobre Ana. Ela era minha melhor amiga. A mais importante depois de Vicky. Perceber o quão duro era suportar sua ausência, realmente machucava. — Mas eu acredito que cada um de nós tem uma jornada aqui, e que independente da conclusão, aqueles que amamos estão sempre conosco. Ainda vejo meus pais se eu fechar os olhos e lembrar da casa onde cresci. Quando estiver difícil, chame por ela. Ela sentirá seu amor, e estará contigo. Todos vieram da Deusa. Estamos interligados.

– Queria saber como você e a Nanda ainda têm fé. Mesmo com todas as razões para terem perdido isso. — Ela era incrível. Uma garota simplesmente fascinante. Com um palerma como eu! A diminuição da concorrência com o fim do mundo definitivamente tinha algo a ver com aquilo.

– Um deus ou deusa, é tão poderoso quanto a fé daqueles que acreditam neles. Independente das condições do mundo em que vivemos. Eu ainda acredito que haja algo de espiritual nisso tudo. Quem sabe o futuro não nos surpreenda? Agora que não posso mais vê-lo, sinto-me ainda mais livre para desejar algo de bom do porvir. — Eu adorava a forma como ela fazia as coisas mais complexas soarem simples. E ficava um pouco desconcertado diante da grandeza de espírito dela. Então tinha que descontrair.

– Eu vou gostar do futuro, desde que meu porvir seja com você. — Provoquei. — Porvir... Palavrinha gostosa de dizer. Tirou essa de onde?

– Fazia algum tempo que não usava. Deu vontade. — Ela deu de ombros, entrando no jogo. Rimos juntos, enquanto começamos a caminhar na direção do Pátio Central.

– Humm, quer dar uma pausa nos dormitórios, antes de voltarmos ao trabalho? — Indaguei. Não sabia por que ainda sentia-me nervoso perto dela, mesmo depois de tanto tempo juntos.

– É claro, Otto. Aliás, acho que você leu minha mente. Meus hormônios andam meio loucos durante a gravidez. Pode se preparar para um porvir bem intenso... — Deixei a risada escapar antes que tivesse percebido.

– Como eu disse, ele vai ser ótimo. — Abraçando-a, senti-me feliz o bastante para guardar aquele momento para sempre.

E considerando tudo o que aconteceria em breve, aquela lembrança se tornaria umas das mais preciosas da minha existência. Um momento de felicidade genuína. Um sentimento tão raro naquele mundo, que devia vir acompanhado com uma nota de advertência...

Notas finais
Eu aposto que tem gente vomitando arco-íris aí, hein? Nem que seja uma gotinha. :3 Amo esse casal, confissão de autor. A Cecília parece que tem um halo brilhando em volta, o tempo todo. TÃO CUTE! *-* Otto tomando jeito? Eu espero que sim. u.u Por favor, continuem comentando, meus amores! Ler o que vocês estão achando, é simplesmente a melhor parte do meu dia. Kisses by DroppingPieces!