Quebranto.
2 O que deixamos pelo caminho...
Notas iniciais
A primeira coisa na qual pensei ao abrir os olhos foi no quanto sentiria saudades do ensino médio. Esperara por tanto tempo aquele dia, que agora que ele finalmente batia à minha porta, não me sentia preparada para vivê-lo. Sonolenta e ainda anestesiada pelo despertar, levantei-me na direção do guarda-roupa. Apanhando uma toalha de banho limpa, procurei por peças íntimas e uma calça jeans preta. A blusa do uniforme escolar me parecia tão obsoleta e opressora quanto sempre, mas havia algo de nostálgico na sensação do pano leve contra minhas unhas recém-feitas. Um sentimento triste e esperançoso parecia esgueirar-se entre as brumas que cobriam meu humor. Afinal, deixaria uma fase da vida para trás naquele dia. Adentrei sob a água fria do chuveiro, que mandou através do meu corpo pequenas pontadas gélidas como se anunciassem a agitação do dia que viria. O ato de pentear meus cabelos rebeldes nunca me custara tão pouco esforço. A verdade era que eu não dava a mínima para como pareceria aos outros nas próximas horas. Quando a noite chegasse, estaria linda em meu vestido de formatura, e ninguém ousaria dizer que eu não era bela. Ao fitar-me no espelho, reconheci olheiras que nunca haviam sido comuns até a semana anterior, quando comecei a dormir apenas quatro horas por dia, com crises recorrentes de ansiedade e terrores noturnos provocados pelo meu TOC(Transtorno Obsessivo Compulsivo).
Desci as escadas até a sala, onde reconheci os cabelos perfeitamente lisos e negros de seu irmão mais novo, por cima do encosto da poltrona. De tantas coisas boas que eu não herdara da genética extremamente bela da família de papai, os cabelos negros e brilhosos dos Frittoli era o que eu mais desejava. Escorregando no último degrau de madeira polida da escada, quase cai de joelhos aos pés da minha mãe, que me fitava com uma expressão que mesclava divertimento, e preocupação. Eliza Frittoli era uma mulher bela em seus quarenta e cinco anos, com olhos profundamente verdes, e cabelos tão loiros quanto os meus. Pequenas rugas de expressão começavam a marcar a idade em seu rosto, mas a matriarca da minha família não parecia se importar. Descendente de cearenses retirantes, sempre foi uma mulher de profunda alegria e dedicação, qualidades que sem sombra de dúvidas, haviam contribuído em muito para que conquistasse o coração do poderoso Allan Frittoli, meu pai. Ele era dono de uma rede de hotéis em Angra dos Reis, em um dos quais, mamãe trabalhava como recepcionista. Eu sempre achara a história de amor dos meus pais, o perfeito conto de fadas do século vinte e um. Agora que eu preparava para ingressar na universidade, rezava aos céus para que pudesse encontrar alguém, como mamãe havia feito. É claro que em minhas esperanças, Luca poderia ser essa pessoa, mas não me atrevia a expressar tais sentimentos em voz alta, principalmente na presença do meu pai, que nem fazia ideia de que eu tinha um namorado.
— Filha, está tudo bem? Imaginei que, com os acontecimentos de hoje, você ficaria ainda mais ansiosa do que já é. Então, fiz um chá de camomila para acalmá-la. Eu estava levando até o seu quarto junto com seu remédio, mas pelo visto, decidimos cair da cama hoje. – minha mãe estava sorrindo de modo que seus olhos pareciam iluminarem-se. — Escute, se você ficar nervosa, vai passar mal e não vai aproveitar nada. Vê se toma seu chá, e vai comer alguma coisa, menina! A Silvia está te esperando na cozinha.
— Tudo bem mãe, eu falo com ela. — dirigindo-me até a cozinha, passei pela sala e afaguei os cabelos do meu irmão. Em seus onze anos, Carlos exclamou um "hey" e voltou a assistir sua maratona de desenhos, com um meio sorriso.
A casa parecia mais iluminada do que realmente era, com seu piso branco e as paredes de vidro intercaladas com paredes de concreto, ou mármore. Desde criança, eu sempre odiara a decoração iluminada e ampla do local, que fazia com que as duas funcionárias do nosso lar precisassem passar horas esfregando o chão com cera e solvente. Com certa urgência, entrei na cozinha, cumprimentando a gentil mulher que trabalhara para meus avós, antes de mudar-se para minha casa com o casamento dos meus pais. Silvia Strauss era uma gentil matrona, descendente de poloneses e com cabelos ruivos rareando em grisalho, devido à idade. Com uma tigela de cereais numa mão, e o celular noutra, me sentei na enorme mesa de jantar. Eu me sentia oprimida quando me sentava sozinha ali. O tamanho e a cor escura da mesa de carvalho me faziam sentir realmente solitária. Sem prestar muita atenção, ouvi os ruídos de um comunicado jornalístico sobre uma nova gripe, ou coisa que o valha. Parecia que muitas pessoas estavam morrendo na periferia das favelas cariocas, onde o saneamento básico ainda era um tanto precário, em áreas mais afastadas. Embora eu me condoesse com o sofrimento daquelas pessoas, eu vivia distante delas em diversos aspectos. Mesmo estando no Rio de Janeiro, eu não fazia do que aquelas pessoas passavam, e do quanto precisavam lutar por uma vida digna. Eu nunca sequer passara vontade, que dirá dificuldade. Criada desde o nascimento no bairro nobre do Leblon, eu vivenciava um mundo totalmente diferente do que aquelas pessoas estavam acostumadas. E para ser franca, eu não tinha o menor interesse por pessoas que não faziam parte da minha família, ou do meu círculo de amizades. Com uma colher de cereais na boca, vi que uma mensagem era anunciada no meu Iphone e cliquei sobre a tela. Era Carolina. Sorrindo, li seu recado: “Realmente espero que você já esteja pronta. Se atrasar no último dia de aula não tá com nada. Estou virando a esquina da sua casa. Desce e me espera no portão. Beijos”.
— Mãe! Eu tô saindo! Tchau Silvia! Tchau Carlos! – gritei, correndo para as escadas que levam ao hall de entrada da minha casa. Puxei a porta de madeira, e tranquei-a logo em seguida. O sol despontava lindo naquela quinta-feira. Conhecido pelo calor, dezembro não poderia ter caprichado mais. Logo avistei o jipe vermelho de Carolina, e pude ver Ana, Luca e Otávio no banco traseiro. Sorri e me aproximei da calçada.
O veículo estacionou à minha frente, e subi sem pestanejar. Cumprimentando meus amigos, senti o vento batendo no rosto enquanto o jipe deixava o Condomínio Otto para trás. A brisa da manhã tinha cheiro de mar, característica que eu simplesmente amava naquele lugar. Não demorou muito para que chegássemos à escola católica São Judas Tadeu, onde eu passara os meus últimos três anos acadêmicos. Estacionamos o carro no interior do campus, nos dirigindo à entrada em seguida. Cada centímetro do lugar guardava lembranças de momentos alegres, e difíceis. Uma nota vermelha, uma atividade extra-curricular, uma feira de ciências conturbada. Momentos dos quais, estranhamente, eu sentiria falta. Ignorando meus impulsos de contar as rachaduras no pavimento, peguei na mão de Luca, trocando com ele um milhão de palavras não ditas. Juntos, nos afastamos do restante do grupo, indo para debaixo da sombra de uma mangueira, onde havíamos dado o nosso primeiro beijo.
— Hey, Vic. Lembra-se do nosso primeiro ano? – indagou Luca, me envolvendo com seus braços. Ele usava um blusão quadriculado por cima da camisa do uniforme, o que deixava as freiras malucas desde o primeiro dia de aula. Mas ele nunca mudara.
— Eu lembro. Eu era louca por você, e você namorava a Carol. Eu e ela nos detestávamos, até que você terminou tudo, e eu a consolei. Depois, nos tornamos melhores amigas, até ela descobrir que eu gostava de você, e a gente brigar na sua frente. Você descobriu tudo, e ela parou de falar comigo. – recordei, fazendo carinho nos cabelos ruivos dele. Eu sempre amara o modo como os fios de cabelo de Luca pareciam feitos de bronze, e no modo como contrastavam com seus olhos verdes, quase azuis escuros.
— Eu me lembro disso, foi bem no meio do ano. Logo depois entramos de férias, e eu não conseguia te tirar da minha cabeça. O mais engraçado, era que nós cinco morávamos no mesmo condomínio, e ninguém sabia. Otávio e Ana sempre foram unha e carne, e os únicos com quem você falava. Então fiz amizade com eles. Você ficou furiosa. – Luca sorriu com suas próprias lembranças, me apertando mais contra o seu corpo.
— Ora, eu pensei que você ia roubar meus amigos. Eu era muito ciumenta. – notei que ele havia soltado um risinho quando eu disse “era”, e o belisquei de leve, na barriga. – Eu mudei, ok?
— Claro, claro. – era óbvio que ele não discordaria de mim. Não no dia tão esperado por ele, depois de todos esses anos. Negociar minha virgindade para o último dia de aula me parecia uma péssima ideia. Eu não me sentia pronta. Carolina me mataria se soubesse, mas não tinha jeito. Ia ser hoje. – Quando você e Carol voltaram a se falar, foi assustador. Geralmente não fico amigo de ex-namoradas. Conviver com as duas era difícil, até porque eu não sabia o que sentia por você. Sempre te achei gata, mas te achava superficial, e muito metida. – agora as mãos dele estavam nos meus cabelos. Eu odiava quando ele fazia isso, por me sentir dominada, mas era estranhamente sedutor. – Eu devia estar louco, por pensar assim.
— Nem me fale. – concordei, beijando-o com um sorriso. – Quando meu avô morreu, eu vim chorar sozinha embaixo dessa árvore. Todo mundo já tinha ido embora, mas você ficou por causa do Clube do Livro. Nunca vou esquecer aquela noite. Eu achei que ia ficar triste pra sempre, mas você me beijou e disse que me amava. No dia seguinte, estava no cemitério, vestido de preto comigo. Seu apoio me fez forte. E eu sempre vou te amar, por isso. – quando Luca me abraçou outra vez, eu senti um prelúdio da emoção que viria à noite, quando a escola estivesse toda enfeitada, e todos estivéssemos vestidos como celebridades, ou algo assim. Ouvi o pigarro da Irmã Claudia, e me afastei dele.
Mais calmos, adentramos o prédio de ciências, onde ouviríamos uma palestra sobre universidades e opções de um futuro acadêmico brilhante. Ninguém de fato, estudaria naquele dia. Se eu soubesse o que viria a acontecer em menos de três dias, teria vivido tudo de modo muito diferente...
Fale com o autor