Quebranto.
48 O Terceiro Elemento é a Água.
Notas iniciais
Carol.
Eu sabia quem Topázio era. Apesar disso eu realmente, lá no fundo, esperava uma reação totalmente diferente do que todo o terror que houve, quando lhe contei que Diana pretendia fugir. Eu já devia saber que era pedir demais no nosso mundo. Não poder confiar nas pessoas, era algo cada vez mais entranhado no meu subconsciente, e mesmo assim, eu não havia aprendido. Acredito que no fundo, mais do que qualquer outro membro do nosso grupo, eu era quem mais temia o mundo exterior. Meu maior desejo era o de encontrar um lugar são e salvo, um lugar onde pudesse achar a paz. Quase o mesmo sentimento que Ana desenvolvera, mas por razões menos sentimentais. No caso dela, tudo era envolvido pela névoa da paixão. No meu, tratava-se apenas de reconhecer que, além de minha malícia, minhas pernas rápidas e manipulação, eu não tinha outras armas com que me defender no mundo lá fora. Perceber tardiamente que tudo o que eu julgara digno de esperança nos últimos meses revelara-se uma grande farsa, era mais do que eu podia suportar. Num minuto, eu estava contando que Ricardo e Diana pretendiam levar nosso grupo embora. Noutro, Mozart estava sobre mim, apertando com força meu braço atrás das costas. Eu odiava ser agarrada daquela forma. Quando ele me lançou no chão e Jonas (que devia ter me protegido), sucumbiu à uma espécie maluca de controle mental que Topázio exercia sobre as pessoas, senti-me chocada e ultrajada. Mozart havia sido acolhido por nós, e em todo aquele tempo, desejara o momento ideal para concretizar sua vingança. Quando Topázio ordenou que todos fossem presos em sua sala de orações, preparei-me para ser jogada naquele cubículo terrível com eles. Mas o comparsa da madame deteve-se, sorrindo. Topázio aproximou-se de mim, enquanto eu podia observar Fernanda sendo levada com Tânia, para o andar superior. Elas ficariam trancafiadas com os gêmeos. Sobressaltei-me ao sentir um toque suave em meu braço, e virei-me para encarar Topázio, que se me tocara sem que eu percebesse.
– A enfermeira vai ser útil. Precisaremos dela pro parto... — ela observou, sonhadora. Doente. — Foi interessante da sua parte vir me contar os planos dos seus amigos. Certamente, você percebeu o que eu faria quando soubesse que eles pretendiam fugir, e queria garantir que não fosse jogada no mesmo saco que o resto de seu... Bando? Enfim, não importa. — ela aproximou-se de mim, sorrindo. — Você é desprezível, Carolina. E sei que não vale o chão onde pisa. Talvez, possamos ser aliadas. — ela realmente estava se divertindo. Eu, estava confusa. — Como te disse no primeiro dia em que nos conhecemos, gosto de você. Acho que vejo um pouco de mim na sua geniosidade, eu era parecida com você, uns anos atrás.
– Por mim tudo bem. — se aquela era minha chance de ficar numa situação melhor que o resto do povo, eu agarraria. — Desde que nenhuma barata desça pela minha garganta enquanto durmo.
– Ora, meu doce... Se eu quisesse matá-la, faria isso agora. Posso fazer o que eu quiser dentro dessas quatro paredes. Se você está viva, é porque quero usá-la. Preciso de mais pessoas leais a mim. E também, vai ser um prazer cruel ver seus amigos presos, enquanto você está solta, livre. Aceita meu trato? — ela parecia linda, mesmo tendo a docilidade de um crocodilo. Aquela mulher me dava náuseas. Ela não tinha um propósito além de controlar o mundo imaginário criado por sua mente doentia. Até para mim isso era aterrorizante.
– Como eu disse, por mim está tudo bem. O que quer que eu faça? — indaguei, irredutível. Eu não sabia como Topázio poderia achar que eu não a trairia, mas tinha a impressão de que para ela, essa hipótese era absurda demais. Que louco ousaria trair a mulher no comando? Quem se arriscaria com Jonas ao lado dela? Com Thaís? Bem, eu nunca fui realmente sã. Ela descobriria isso logo.
Enquanto todos faziam suas tarefas consecutivamente, como se nada mais importasse, eu caminhei em direção à sala de orações. Eu tinha uma ordem à cumprir. À minha frente, Mozart e Thaís desciam no pequeno corredor estreito, rumo à escuridão. Ouvi alguns gemidos, e um arfar de dor. Gemendo, Otávio foi forçado por Thaís a subir a pequena escada, e logo atrás dele, Mozart vinha trazendo Diogo. Quando os olhares de ambos passaram pelo meu, notei descrença e raiva. No caso de Diogo, vi um sorriso de deboche, ou talvez ironia cruzar o seu rosto. Talvez, ele soubesse que eu era acima de tudo, uma sobrevivente. Talvez, sempre tivesse esperado que um dia, eu traísse nossos amigos. Sinceramente, pra mim o que Diogo pensava não fazia a menor diferença. Eu só não queria ver mais ninguém morrer. Fingindo indiferença, mexi em meus cabelos, e virei-me na direção de Thaís.
– O que Topázio quer com eles? — indaguei, moldando minha expressão numa máscara mortuária.
– Bem, na verdade quem quer acertar contas com o Diogo é o Mozart. — a sereia riu. — Topázio vai dar uma lição no seu amiguinho. Ela sabia que era ele quem estava conspirando com a Diana, contra ela. Ele era um dos líderes do seu grupinho de ingratos.
– Nós não somos amigos. Nunca mais. — arfou Otávio, no aperto de Thaís. Ela ergueu uma sobrancelha, a encará-lo. Eu, senti uma facada no peito. Se ao menos ele soubesse... Mas então, meu olhar encontrou o dele. Havia algo diferente ali. Ele estava fingindo? Pelos céus, ele havia notado! Controlando-me ao máximo para não expressar meu alívio, segui em frente, caminhando para dentro da escuridão.
No fim da pequena escada que levava ao local onde Jonas acorrentara Ricardo, Hugo, Victoria e Gabriel, encontrei um pequeno interruptor na cavidade que Topázio me indicara. Um pequeno abajur ao pé da parede acendeu-se, e o que vi, foi estarrecedor. Além de todos os meus amigos, que me encaravam com olhares inquisidores, acusadores, havia uma garota. Não era particularmente linda, e seus cabelos castanhos cresciam como uma névoa marrom e sem vida, ao redor de seu rosto. Suas unhas eram enormes, e os olhos (um preto e um branco), estavam enevoados, como se recobertos por uma membrana acizentada. Ela era cega, mas virou o rosto na minha direção. Em seu colo, Vicky ainda dormia, nocauteada por Jonas. Ela sequer vira Diogo sendo levado. Naquele momento, eu precisava simplesmente obedecer Topázio, e sair de perto daquele inferno. Aproximei-me da garota. Eu não fazia ideia de que a pessoa que Topázio me mandara drogar, era alguém tão singelo. Tânia havia me ensinado algumas coisas básicas nos últimos meses. Eu sabia como aplicar uma injeção. Mas eu também sabia que aquela heroína que eu usaria na garota, já devia estar estragada. E mesmo assim, não poderia voltar atrás, se eu quisesse ter a chance de salvar os meus amigos. Ignorando o odor fétido que enchia o ar abafado, vindo de alguns baldes cheios de imundície humana, largados à um canto, aproximei-me da menina, e agachei ao seu lado.
– O que vai fazer com essa menina, Carolina? — indagou Ricardo, preocupado. — Será que você não tem limites?
– Não sei. Quem está acorrentado? Acho que meus limites são mais flexíveis que os seus, realmente. — reconheci, vendo raiva crescer em seu olhar. Quase mordi meu lábio inferior de nervoso, mas suprimi o gesto. — Se não quiser ver, vire pro outro lado. — recomendei. Hugo obedeceu, arrasado. Gabriel simplesmente me fitava, impassível e abismado. Toquei o braço da garota, e ela suspirou. Pareceu ser atingida por algo, pois todo o seu corpo sobressaltou-se, tenso.
– Carolina. Há bondade em você. — ela comentou. Aquilo fez meu corpo convulsionar, e antes que eu pudesse perceber, havia me ajoelhado ao seu lado. Como ela adivinhara o meu nome? — Também vejo sombras, essas mais revoltas que o normal. É como se em você, um grande conflito vibrasse, todos os dias. Você é caos. Mas há beleza nele.
– Você é vidente? — perguntei, chocada.
– Sensitiva. Cada vez mais, com o passar do tempo, em minha prisão. — ela não parecia ter mágoas à respeito disso, o que era ainda pior. — Sou eu quem estabelece a proteção, contra as criaturas do Apocalipse. Eu sou o escudo, não Topázio. — com a boca escancarada, notei o quão sentido, fazia aquela revelação. Eu já devia esperar por isso, considerando que Topázio conseguira domar a todos tão facilmente. Ela não era só persuasiva. Era psíquica. Aquele era seu dom, a dominação. Não a proteção. De repente, meu estômago revirou. Aquela vadia era bem pior do que eu pensava.
– Está vendo pra quem você nos vendeu? — indagou Hugo, com uma expressão de asco em seu rosto. — Qual o seu nome, querida? — ele indagou, à jovem cega.
– Cecília. — ela respondeu, serena. — E não se preocupem. Isso está prestes a acabar. Para o bem ou para o mal. — ela fitou-me nos olhos, mesmo sem me ver. Seu olhar cinzento tocou o meu, e arrepiei-me inteira. — Faça o que veio fazer. As drogas ampliam o alcance da minha mente, dos meus feromônios. É necessário, se não quisermos ser atacados por criaturas mutantes, antes que tenhamos nos livrado de Topázio.
Compreendi que ela, conhecia minhas reais intenções. Assim como Otávio. Ricardo e Hugo, assim como Diogo, sempre haviam desconfiado de mim, e eu não os culpava. Sempre dera motivos para que todos mantivessem a guarda erguida, comigo. Eu nunca fora alguém fácil de lidar. Talvez na escola, meu lado negro fosse expressado na segurança de meus comentários maldosos e atitude ácida de vadia gostosa. Mas ali, na vida real, em cenas vívidas, tudo o que me restava era um mau gênio incontrolável, e uma péssima atitude. Sem mencionar todo o medo de morrer que eu sentia, desde o dia em que Nanda e Luca haviam impedido que eu me suicidasse. Agora, a vida que eles haviam salvo devia ser usada para algo. Eu podia fazer aquilo. Sem hesitar, apertei o braço de Cecília, firmando a região que receberia a agulha. Perfurei sua pele e injetei o conteúdo suspeito. Ela revirou os olhos e caiu para o lado, provavelmente dando longos passeios na terra dos Pôneis Encantados. Meus amigos viraram o rosto para mim. Ricardo cuspiu no chão, numa tentativa de me acertar. Ignorei todos. Principalmente porque, do andar de cima, ouvi gritos de pavor sendo emitidos, enquanto risadas histéricas ecoavam nas paredes. E aquela dor intensa, vinha de vários alvos...
Apressada, subi as escadas escorregadias da sala de orações e deparei-me com um show de horrores por essência. Ajoelhados ao chão, no meio da pista de dança vazia, Otávio e Diogo estavam sendo basicamente, linchados. Alexandre e Marcílio caminhavam ao redor dos dois, chutando-os e socando suas costas, provocando cada vez mais dor. Otto já tinha um corte feio acima de sua têmpora esquerda, e parecia ter dificuldades para respirar. Diogo, estava arfando com o sangue que escorria pelo canto de sua boca, e marcas arroxeadas manchavam seu peito. Próxima daquela sessão de tortura, fitando as próprias unhas, Topázio parecia distraída com um livro em sua mão. O exemplar de Macbeth parecia deslocado naquele cenário trevoso. Ela, por outro lado, parecia alheia ao próprio pecado. No andar de cima, logo ouvi um gemido encher o ar. Ana estava chorando. Diabos, somente naquele momento lembrei de minha amiga! Ninguém notara que ela e Sabrina, haviam simplesmente desaparecido desde o momento em que tudo viera às claras. E enquanto aquela madrugada de pesadelo não tinha fim, tive que me controlar para não chorar. Parados, de frente para o balcão do bar, Dante, Dimitri e Jonas bebiam, como se nada ocorresse ao redor. Aquilo era o que mais me doía. Senti o cheiro do jantar encher o ar, e noite que à despeito de tudo o que houvera com Mirla, com Diana e conosco, Manuela e Lavínia estavam cozinhando normal e pacatamente.
– O que está havendo com eles? — indaguei, controlando cada grão de ódio que descia pela minha ampulheta pessoal.
– Punição. Diogo está sendo punido pelas mortes dos amigos de Mozart. E Otávio, por conspirar contra mim. Ele levantou-se contra o caminho da Deusa, auxiliando aquela cristã imunda. Merece punição, julgamento. Eu o setenciei à morte. — ela comentou, como se não fosse nada.
– Não! — ouvi-me dizer, sem motivo aparente. Alexandre e Marcílio pararam as agressões, e me fitaram com desconfiança. Recompondo-me, armei o sorriso mais cínico da história, para eles. — Por que matar de uma vez? Mesmo espancando, a morte vai ser um alívio. É melhor torturar, ferir. Deixamos eles se curarem, e ferimos de novo. Até pedirem pela morte. Não é mais divertido?
– De fato. — concordou Topázio, sorrindo com supresa. — Você é muito criativa, minha cara. Meus parabéns. — ela sorriu. — Meninos, surrem os dois mais um pouco. Depois, joguem os cacos nos aposentos de Cecília. A diversão deles acaba de ser prorrogada.
– E o que está havendo lá em cima? — perguntei, bancando a inocente.
– Ah, isso. — riu-se Topázio. — Sabrina também está recebendo a punição dela. E como Ana se recusou a acreditar que eu nunca senti o menor apreço por ela, pedi que Thaís à segurasse contra a janela, enquanto ela assiste Mozart aplicar a punição de Sabrina, lá na rua. Afinal, ela estava quase convencendo Ana de que eu era perigosa, e planejava me matar, ameaçando a voz da Deusa na Terra. Tive que agir...
– O que você fez? — perguntei, tremendo diante da possível resposta.
– Uma coisa de nada. — ela deu de ombros. — Ana me contou que Sabrina foi abusada por um tal de Arlindo. Parece que isso não a impediu de ser tão insolente. Então, mandei Mozart replicar a diversão que ela já conhece bem. Ele me confessou que estava tão desesperado, que pensou em fazer isso com o pobre Hugo. Então, não se queixou.
Com uma ânsia de vômito quase intensa demais para esconder, agarrei uma pilastra de concreto, a mais próxima que encontrei. Topázio era um monstro. Aquele excesso de crueldade era quase, surreal demais. Quem seria capaz de tanto, sem motivo aparente? E como ela podia exercer um controle tão intenso, a ponto de ampliar o lado negro no interior de cada ser humano daquela boate? Por que seus poderes não haviam me subjugado, da mesma forma que haviam pego Jonas? O que diferenciava aqueles que estavam sob seu poder, daqueles que nunca haviam sido enganados por eles? Se ao menos eu soubesse a resposta, talvez pudesse obrigar todos ali a voltarem à si. Como se meu horror se tornasse ainda mais urgente, percebi que não era só Ana, quem estava gritando diante daquela barbárie. Longe, era possível ouvir os gritos de Sabrina, que inundavam a noite. "De novo, não." e "Por favor", chegaram aos meus ouvidos. Eu não podia suportar muito mais. Desesperada, mirei as portas da cozinha, que se abriram enquanto Lavínia se aproximava de nós, com uma panela fumegante nas mãos. Ela notou o sangue de Diana no chão, que se espalhara quando o corpo de minha amiga fora grosseiramente arrastado para o lado de fora por Mozart, e logo focou nas agressões à Otávio e Diogo. Agora, Otto fora erguido pelos cabelos por Alexandre, e quando Marcílio o chutou no estômago, os limites meus e dela, pareceram estourar. A panela de lentilhas espatifou-se no chão, espalhando o seu conteúdo ao redor da professora, que mirava meus amigos como se os visse pela primeira vez.
– O que está havendo? — ela olhou ao redor. — Alguém impeça isso! Por favor! Alguém faça alguma coisa! — ela gritava e gritava, apontando para o absurdo à sua frente. Eu, só pude rezar pra que ninguém a matasse por se opor à Topázio. Ao invés de me revelar com ela, mantive-me calada, como se não estivesse a ponto de gritar o mesmo, em seu lugar. — Será possível que nenhum de vocês está vendo isso? Onde nós estamos? Topázio, pare já essa cena ridícula. Como pode se dizer a voz da Deusa, e permitir um atentado desses debaixo do seu teto? — indignou-se a garota. Sua pele branca em excesso, ficara totalmente cor de rosa com os gritos, e seus cabelos pintados de vermelho, com as raízes negras, revolviam-se atrás das costas.
Mas o que mais me marcou naquele momento, foi que ao ouvirem as palavras da garota, todos que estavam sob o transe de Topázio, pareceram ficar confusos à respeito do cenário ao redor. Totalmente imersa em seu casulo de luto e medo, Manuela foi a única que não esboçou reação. Dimitri, pareceu acordar de um longo sono, e foi evidente que como eu, ele disfarçou sua descoberta. Jonas franziu o cenho fitando Topázio, mas logo depois ignorou a si mesmo, caindo em sua ilusão novamente. Talvez, ele tivesse desejado tanto que aquele lugar desse certo para mim, que se entregara à ilusão. Por achar que eu também acreditava em Topázio, havia caído nas mãos dela. E finalmente, entendi porque a inumana me mantivera viva, e solta. Aquele era o único modo de garantir o apoio de Jonas, que era naturalmente mais resistente aos seus encantos. Satisfeita, percebi que a situação poderia estar novamente, em minhas mãos. Com um simples sinal, Topázio enviou Marcílio contra Lavínia. O rapaz forte esbofeteou a garota no rosto, que caiu ao chão. Ela estava em choque, e revoltada com o ato. Provavelmente, jamais imaginou que as pessoas com quem convivera nos últimos meses, eram tão cruéis.
– Alexandre, arraste o Diogo de volta pra baixo. — pediu Topázio. — Jonas! Carregue o Otávio pra mim, sim? — meu namorado já estava indo, automático. — Marcílio, vamos prender nossa professorinha. Vamos ter que achar outra faxineira. E vocês, comportem-se! — ela acrescentou, virando-se na direção de Dante, Dimitri e Manuela. — Vamos descer, tenho uma conversa pela frente. Carol, venha comigo.
Eu a segui, mas minha alma estava longe. Ela era totalmente pior que Arlindo. E eu não poderia vencê-la sozinha. Da última vez em que eu tentara impedir um criminoso, meu namorado fora morto. Não faria nada impensado outra vez. Seria a piranha fria que eu fora educada pra ser. Por minha mãe, que achava que o mundo girava em torno das genitais femininas, e por mim mesma, que precisava viver naquele inferno. Eu seria Carol. A Carolina podia ficar escondida, por mais algum tempo. Meu primeiro pensamento quando olhei ao redor, naquele lugar pequeno e abafado, foi o de que simplesmente não dava pra acorrentar ou amarrar oito pessoas ali. Meus amigos estavam todos encurralados e apertados, nas posições mais desconfortáveis. Não haviam correntes suficientes para todos, e a maioria tinha cordas ou arames amarrando os pulsos atrás das costas. Preferi não focar nisso, enquanto o salto agulha de minha chefe desprezível batia contra o solo engordurado. Ela parou ao lado de Victoria, que parecia péssima. Uma manha vermelha escura ficara, na parte superior da bochecha que Jonas atingira. Certamente, um ou doisvasos sanguíneos rompidos, por dentro da pele.
– Sei que você possui uma outra personalidade. — observou Topázio. — Ana me falou tudo sobre você, e sobre o que é capaz de fazer. — ela passou a unha no rosto de Vicky, que sacudiu-se toda, para livrar-se do toque. A loira mais velha sorriu. — Descobri nos últimos tempos que ter amigos inumanos é muito útil. Bem melhor que matá-los. — ela observou. — Então, quero conhecer Nora. Quero saber o que ela acha de se juntar à mim. E vou trazer ela à tona. — ameaçou. — A menos que a traga sem resistir. E é bom não tentar nada. Pelo que sei, Nora não tem super força. Não vai arrancar correntes tão grossas, acredite.
– Não vou dar nada que você deseje. — Vicky foi clara. Mas tola. Levou uma bofetada.
– Vai, sim. Sabe por que? — Topázio agarrou o queixo dela com as unhas, e puxou na direção de Diogo, todo arrebentado. A mão da ex-prostituta tampava a boca de minha amiga, que tentou gritar de pavor quando viu o estado do namorado. — Porque posso fazer muito mais com ele. — Victoria debateu-se no aperto de Topázio, com lágrimas tentando escapar. Senti-me péssima por presenciar aquilo, principalmente por parecer ser uma capanga de alguém que eu desejava ver morta. Minha amiga remexeu-se por um tempo, em agonia. Até que parou. Em seu rosto, um olhar pungente instaurou-se. Seus olhos faíscaram, e sua boca curvou-se num sorriso. Nora. Eu me lembrava bem dela. Na última vez em que estivera no controle, tinha tentado me matar.
– O que quer de mim, vadia? — ela indagou, debochando de sua raptora.
– Desejo oferecer-lhe uma aliança. Poderá viver tranquila, sempre no controle do corpo que divide com Victoria, e ficar protegida pelo escudo da cega. Só precisa me ajudar a disciplinar os outros. Acha que pode fazer isso? — ofereceu a vadia, e eu só podia rezar naquele momento. Nora daria um jeito de se livrar de mim, se ficasse ao lado dela. E como apenas Victoria podia imaginar o que aquela criatura sentia, eu temia que pudesse concordar com Topázio, de alguma forma.
– É claro que posso ajudá-la. — Nora respondeu. — Posso deixar qualquer palerma nesse cômodo de quatro, em segundos. Posso matar todos, e sair sorrindo, sem sujar os cabelos. Posso até mesmo deixá-los dóceis como cãezinhos, sem usar domínio. Mas a questão é que não quero. Não quero fazer nada em seu benefício. Primeiro, porque você é a vadia mais maluca que já conheci. Segundo, porque só uma covarde se esconde num escudo que nem é seu de verdade, e leva os créditos pelo sacrifício de uma cega. E eu desprezo piranhas covardes. Não é Carolina?
Apesar da indireta, tive que me controlar pra não rir da cara de pau de Nora. A expressão de Topázio era impagável. Ela estava totalmente sem reação diante da agressividade fria de Nora. Provavelmente chocada e furiosa por alguém ter a audácia de tratá-la daquela forma. Exatamente como ela merecia. Certamente, encontrara alguém tão louca quanto si própria, e percebera que a única diferença entre ela e Nora, era que a personalidade sombria de Victoria, podia fazer exatamente tudo o que havia ameaçado fazer. E Topázio, era muito mais trapaça e crueldade, do que perigo físico real. Pela primeira vez desde que eu chegara ali, percebi que nossa inimiga, estava com medo.
– É uma pena. Aproveite bem sua cela então, querida. Você não deve durar muito mais, infelizmente. — ela queixou-se, quase debochando abertamente de nós, com seu falso pesar. Nora tentou puxar as correntes da parede, raivosa, mas não conseguiu nada. — Bom, foi divertido. — bocejou a inumana. — Mas estou com sono. Então, só larguem as tralhas por aqui, e vamos subir, meus queridos. Mozart deve estar quase terminando com Sabrina, e quero ver o trabalho que ele fez até agora... -
Eu sabia que, apesar de toda a loucura que estava rolando, eu não podia parar agora. Ou então, não conseguiria mais agir. Meus amigos precisavam de mim, justamente a única em quem menos pensariam em confiar. Eu precisava demonstrar que podia contribuir, que podia acertar pelo menos uma vez. E mesmo que estivesse em risco, eu tinha fixa em minha mente, a próxima fase de meu plano. Eu precisava falar com Dimitri, e com sua ajuda, tirar Jonas de seu transe. Só assim teríamos a mais remota chance, de um dia escapar daquela boate...
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