Quebranto.

47 O Segundo Elemento é o Fogo.


Notas iniciais
Oii gente, mais um capítulo procês! Esse já demorou um pouquinho mais do que os últimos, pois foi beeeem difícil de escrever, e teve uma carga emocional terrível. Então, preparem os corações. A parada vai ficar... Bem, cês vão ver! Boa leitura!

Victoria.

Eu não sabia o que fazer. Enquanto todos despertavam e notavam o espetáculo tenebroso à nossa frente, logo dei-me conta que toda a segurança que havíamos julgado possuir, caíra por terra. Abraçada com Diogo, o senti puxando-me na direção das escadas, enquanto meus amigos já corriam para baixo. Manuela gritou ao notar quem era a vítima do último ataque. Com o rosto e o pescoço cobertos de sangue, Mirla gemia e chorava, agarrando os próprios cabelos negros e lisos. Descemos para o andar inferior, mantendo uma distância segura da gêmea à beira da morte. Abraçando Manuela, que desesperada tentava aproximar-se da irmã, Dimitri a impediu de expor-se ao risco. Parada na beirada da escada, Mirla nos fitou por alguns instantes, e pousou a mão levemente sobre o próprio estômago. Com uma tosse rouca, expeliu um verdadeiro jato de sangue, que escorreu em nossa direção. Logo em seguida, a linda mulher tombou, e desconjuntado, seu corpo rolou escada abaixo. Parando aos pés de Topázio, Mirla já estava sem vida.

– Meu Deus! — gritava Manuela. — Como isso é possível?

– Vejam! Que horror! — apontou Ana, para a enorme barata que saíra de dentro da garota, pela boca. O inseto andou sobre Mirla, e já estava tomando caminho para dentro de seu corpo novamente, quando Diogo jogou seu tênis contra o animal.

A barata afastou-se de Mirla e começou a vir em nossa direção, rápida e sinuosa como só os de sua espécie sabiam ser. Histérica, Carol gritava para que Jonas matasse o bicho sem parar, e junto com Vilma e Lavínia, havia subido no balcão do bar, de onde rugia seu horror. O bicho parecia buscar um alvo fácil, mas mesmo modificado pelo vírus zumbi, ainda não era maior que um escaravelho. Quando Sabrina finalmente o esmagou com uma das vassouras, todos se acalmaram. Tensa, notei que Diogo parecia realmente enjoado. Ele odiava e morria de medo de insetos. Eu não podia culpá-lo. Eles eram asquerosos antes, e também o eram agora. Durante algum tempo, sinto que todos perderam o ar. Ninguém sabia o que dizer. Por um motivo totalmente desconhecido, aos poucos todos os olhares votaram-se para Topázio. Todos sabíamos o que aquilo significava. Será que seus poderes estavam falhando? Acho que ela também sabia o sentido que aquela situação havia tomado. Tensa, fitou Mirla com um olhar enojado, e voltou-se para nós. Notei que Ana parecia preocupada, ao seu lado.

– Não se preocupem. Não tem nada de errado com nosso escudo. Acreditem, essas baratas já foram vistas por nós antes. E elas vivem em ninhos grandes. Se só havia uma delas, então devia estar nas roupas de alguém que partiu na última expedição para busca de suprimentos. Um acidente. Uma fatalidade, que poderia ter atingido qualquer um dos nossos. Só lamento que não tenhamos percebido nada a tempo. Poderíamos ter salvo Mirla... — e seus olhos encheram-se de lágrimas. Com uma expressão de sofrimento, Topázio apoiou-se na parede, e Ana a segurou pelo braço, tranquilizando-a. — Por favor Alexandre, Lavínia, Marcílio. Tentem dar um jeito nessa bagunça, sim? — enquanto todos começavam a trabalhar, Tânia conversava com Manuela, que parecia paralisada, fitando o nada. Ela estava em choque.

– Querida, por favor, fale conosco. — pediu a enfermeira, atenciosa. Ela mirou Ricardo com um gesto negativo, e ele pareceu entender, assim como eu. Manuela estava fora de si. — A ligação entre gêmeas não pode ser subestimada. Ela está totalmente abalada. Vai demorar a agir com naturalidade outra vez. Sinto que talvez este incidente a deixe instável por um longo tempo. — lamentou-se minha amiga, falando baixinho comigo e Diogo. Hugo e Rico também tinham escutado, e pareciam comovidos.

– Vamos buscar a Nanda e o Gabriel. Voltamos logo. — avisou-me Otto, que já se dirigia para a saída da boate com Carolina ao seu lado.

Quando Fernanda finalmente chegou, Alexandre já havia envolvido o corpo de Mirla com um lençol, e Diana o ajudava a envolver o corpo da dançarina, com cuidado. Em seguida, Dimitri ergueu a garota pelos ombros, enquanto Marcílio a erguia pelos pés. Notei que o homem moreno estava profundamente emocionado, chorando. Imaginei se ele sentira algo que nunca mais poderia ser dito para Mirla. Lamentei essa possibilidade, totalmente cruel. Diogo acariciou meu rosto, pedindo silenciosamente, por permissão para ajudar, para se afastar. Concordei com um gesto, abraçando a mim mesma conforme o via cada vez mais longe. Os rapazes levaram o cadáver para fora, e no interior da boate, Lavínia começou a esfregar o chão com sabão em pó vencido e água. Ela chorava durante a tarefa, mas parecia determinada. No bar, Mozart bebia um copo de uísque em silêncio, com Thaís sentada ao seu lado, e Dante com a cabeça deitada sobre os braços, no balcão. Gabriel abraçou Nanda com delicadeza, e logo Diana surgiu, vindo do lado de fora.

– Gente, hora de se despedir. — ela chamou.

– Prefiro me recolher em oração... — disse Topázio, fitando o chão ao lado de Ana. — Querida, vá com os outros. Thaís e Mozart me farão companhia na minha sala, sim?

– Tudo bem. Mas eu ainda quero que você confie em mim, e me deixe descer. — resmungou Ana, parecendo mencionar uma discussão que já devia ter tido com Topázio. Eu não saberia dizer. Mal havia trocado algumas palavras com uma das minhas melhores amigas, nos últimos meses.

Simplesmente segui o fluxo para fora, e conforme íamos chegando na rua à céu aberto, notei que o céu da madrugada começava a ser tingido pelos tons vermelhos do amanhecer. O corpo fora posicionado no meio da rua, e os meninos haviam forrado um segundo lençol no chão, antes de depositá-lo. Com uma pequena garrafa de álcool, Alexandre molhou o que já fora Mirla, e preparou o próprio revólver. Manuela ainda estava no interior da boate, em transe. Mas foi possível ouvir seu grito agoniado, quando um tiro certeiro impediu que a garota retornasse como zumbi. Com o estrago que a barata havia feito, ela não poderia ter se tornado uma Inumana. Somente talvez, um monstro como os que eu encontrara na igrejinha de uma fazenda, em Cabo Frio. Logo, Dimitri acendeu um fósforo, e o lançou sobre o líquido inflamável, começando a alimentar o fogo ainda maior, que logo passou a consumir Mirla por completo. Eu sabia que depois que o fogo tivesse devorado boa parte do corpo, ele seria alimentado ainda mais, até que não sobrasse nada além dos ossos. Então, um dos meninos o jogaria sobre a camionete de Diogo, e o jogaria do lado de fora das fronteiras que o escudo de Topázio criara. Era como havíamos combinado, antes. Quietos, todos fitamos as chamas, até que Diana deu um passo à frente.

– Que Deus tenha piedade de Mirla. Que ele finalmente a acolha em seus braços, e livre-a de toda a dor, concedendo-lhe o perdão esperado, e o descanso e paz que há muito não temos, nesta Terra. Sua jornada terrena chegou ao fim, sim. Mas sabemos que a morte é o início da verdadeira vida. Apesar de a fé cristã não ser a escolhida pela jovem que nos deixou, acredito que Deus saberá avaliar suas ações e seu coração, de forma justa. — ela calou-se quando Topázio surgiu, com o rosto impecável, como se nunca houvesse derramado uma lágrima. Linda e felina, ela parecia uma leoa de luto. Fitou Diana com frieza, e aproximou-se do fogo.

– Que a Mãe eterna receba sua filha, de volta ao seu ventre. Todos viemos da Terra, e à ela retornaremos. Nossas vidas, são como folhas de outono. Caem, e se esfarelam para tornarem-se parte do todo novamente. A Deusa, ama a todos os seus filhos igualmente. Ela não se importa com os deuses para os quais se ajoelham, nem com os pecados que cometemos. Ela simplesmente, ama. Que Mirla descanse. Sua morte, foi em vão e indesejada. Mas não será esquecida. — ela pareceu carregar cada palavra sua, de poder. Fitou Diana com um ódio genuíno, e eu estremeci. Estranho que eu tenha percebido isso tão claramente, e todos os outros, não. Busquei o olhar de Jonas, e ele parecera notar o mesmo, apesar de não aparentar preocupação.

"Eles estão totalmente seduzidos por ela, nem percebem que a vadia não dá a mínima pra ninguém."

Eu tinha que concordar com Nora. Nos últimos meses, juntas havíamos notado diversos comportamentos estranhos vindo de Topázio. Era como se ela sequer sentisse qualquer coisa. Como se todos fossem pequenas peças em seu jogo. Como se de fato, ela fosse superior, e em seu estágio, não pudesse sequer dar a devida importância para todos nós. Era como morar com um inimigo oculto, que a qualquer momento, poderia saltar de dentro da capa bem construída de Topázio, para nos devorar. Não saber quem de fato alguém com que se convive todos os dias é, é perturbador. Imaginar que alguém pode passar a vida inteira fingindo, com a frieza de um iceberg, é pior ainda. Quando finalmente retornamos para o lado de dentro, Lavínia já havia limpado tudo ao redor da escada. Manchas de água mostravam onde ela havia limpado. Com as mãos e os pulsos manchados de vermelho, ela mergulhava e retirava o pano de chão de um balde cheio de água vermelha. O sangue de Mirla. Eu devia admitir que a pequena professora tinha estômago. Além de ser a cozinheira oficial do grupo, ainda era entre nós, quem mais se dedicava às tarefas domésticas.
Com receio de nos acomodarmos outra vez nos colchões onde Mirla fora atacada, retiramos todos do andar de cima, para que Diana pudesse limpar tudo com Lavínia. Fomos descendo as camas para o enorme espaço vazio no andar de baixo, enquanto todos se encarregavam de trocar os lençóis e fronhas de todos os travesseiros e colchões. Quando todos voltamos para dentro, depois de jogar os tecidos sujos de sangue numa tina de água que havia sido preparada com bicarbonato de sódio para eliminar as impurezas, pudemos perceber uma pequena mudança na atmosfera do lugar. Todos estavam calados. Finalmente, a bagunça sangrenta fora limpa por toda a parte, e um leve cheiro de limpeza inundava o ar, embora os produtos usados estivessem todos fora de validade, ou quase. Eu sabia que alguns de nós estavam estranhando a situação. Mas foi o olhar de Diana, que me convenceu que ela tinha algo muito importante a dizer. Procurei por Nanda enquanto nossa amiga mais velha se dirigia à cozinha, provavelmente indo falar com Otávio. Encontrei a ruivinha no colo de Gabriel, numa agarração sem fim. Não precisei dar vazão ao comentário sarcástico que Nora enviou à minha mente. Eu sabia que eles haviam ido além. Sorrindo, aproximei-me gentilmente, sem querer ser muito irritante por atrapalhar.

– Posso interromper por um instante? — indaguei, rindo com a expressão dos dois. Estavam tímidos?

– Claro, Vicky! Cê nunca atrapalha! — assegurou-me Nanda, segurando minha mão com um sorriso. Ela era muito fofa, e em seus olhares eu sentia uma admiração tão sincera por mim, que me incentivava a ser melhor, a protegê-la. Como se ela fosse minha irmã mais nova. — O que houve?

– Reunião hoje. Logo depois do jantar. Diana suspeita de algo. — ela assentiu com um olhar, séria. Gabriel apertou-a com mais força, e senti as faíscas pulsarem entre os dois. Tão lindos. Tão jovens e puros. Mereciam bem mais que tudo aquilo.

Então não preciso dizer que foi com a maior cara de pau do mundo, que despistei Topázio depois do jantar. Alegando que eu desejava inspecionar o quarto que Fernanda e Gabriel usavam do lado de fora, pra ter certeza de que não havia risco, consegui que além do casal, Diogo e Diana me acompanhassem. Otávio simplesmente desapareceu antes do jantar terminar, e ninguém pareceu notar sua ausência. Até que encontrei a pequena aglomeração que havia se formado na porta da lanchonete avariada. Meu amigo trouxera consigo Carolina, Jonas, Hugo e Ricardo. Nenhum dos três parecia plenamente convencido das razões para estarem lá, principalmente Ricardo. Sem falar nada, apenas entramos e nos apertamos no pequeno espaço disponível. Senti-me uma sardinha enlatada, mas era melhor assim. Mal podíamos todos sentar sobre os dois colchões de solteiro que haviam sido unidos para formar uma cama maior. Ainda assim, todo o ambiente pareceu desvanecer, quando Diana falou.

– Eu tenho certeza de que Topázio queria me matar. — ela disse. Sem rodeios. Todos nos entreolhamos, e meus pelos da nuca arrepiaram.

– E por que acredita nisso? — eu notei que Ricardo estava tentando ser imparcial, em nome da nossa amizade. Fazê-lo perdoar Otávio já havia sido difícil. Aquilo estava indo além do esperado.

– O lugar onde a barata atacou, era minha cama até ontem. Eu troquei de lugar com a Mirla, sem avisar a ninguém. Sabia que ela tentaria algo. Só não esperava que fosse ser tão desleixada. Eu vi quando ela jogou o inseto sobre a garota, pensando que se tratava de mim. Já estou há uma semana sem dormir durante a noite, tirando apenas cochilos durante a tarde com a ajuda de Otto. Nós dois sabíamos que ela ia tentar me matar, e eu queria estar acordada quando a maldita viesse. Infelizmente, ela matou uma inocente que não pude ajudar. — Diana parecia transtornada. E, ao vê-la mencionar seu cansaço nos últimos dias, reparei que de fato, ela parecia bem mais abatida.

– Se ela fez mesmo isso, então tem algo sério a esconder. Ou teme que possamos fazer algo contra ela. — deduziu Jonas, com a mão sobre o queixo. — Mas não tenho ideia do que possa ser.

– Eu acho que ela deseja manter a todos no mundo de ilusão que ela criou. Quer que todos fiquem ao seu redor, sob o escudo, mas sem qualquer ambição de achar um lugar melhor, de encontrar mais gente. Ela deseja ser a autoridade máxima, ser adorada, ser indispensável. Sinceramente, é tão difícil entender uma vadia quando vocês veem uma? — disse Otávio, bufando de frustração. — A cabeça dessa mulher é como uma sacola cheia de gatos raivosos. Totalmente imprevisível, e corrompida por um papo religioso que embora seja bonito de ouvir, não é no que ela acredita de verdade. Temos que impedir essa doida. Ela vai matar qualquer um que ameace seu reinado.

– Eu acho que vocês estão exagerando. — opinou Carol. — Qual é, gente! Ela é namorada da Ana! Ana é super capaz de desvendar o caráter de alguém em segundos. Ela teria sacado algo de ruim se tivesse.

– Acho que não. — Fernanda cortou. — O amor cega as pessoas, Carol. Como o Jonas, quando te escolheu. — com a zombaria final, Nanda me fez rir. Carolina mostrou a língua pra ela, mas riu também ao receber o afago de meu amigo em seu ombro. — Mas não é só isso. Ana apostou todas as suas fichas nesse "mundo seguro". Ela quer estabilidade, quer ter paz. E Topázio de certa forma, personifica isso.

– E o povo que já vivia aqui? Tenho certeza que o tal de Dimitri sabe de tudo que a Marilyn Monroe faz. — resmungou Diogo, totalmente implicante. Revirei os olhos.

– Dimi não é assim. Eu confio nele. — declarei. Pra minha sorte, isso bastou para todos. — Também não acho que Dante saiba de alguma coisa que se passe ao redor. Ele é um doce, mas não é muito esperto... — tive de reconhecer. O que o surfista loiro e fofo tinha de bonito e simpático, faltava-lhe em cérebro.

– Dante é bondoso. Não concordaria com coisas erradas. — Hugo parecia convencido disso. Ele e o loiro andavam conversando muito ultimamente. Ai, ai... — Já o tal do Marcílio, parece ser mais pau mandado do Alexandre, que do Dimitri.

– Lavínia é um amor de menina. Tenho para mim que ela teme Topázio, mas não possui grande autonomia, e tem pavor do mundo exterior. Mesmo que não concorde com a chefe, vai ficar muda e continuar cozinhando e limpando enquanto puder sobreviver. — lamentou-se Diana.

– Pra mim, Manuela está descartada também. Ninguém ajudaria a matar a própria gêmea, para ficar como ela depois. E quando ela souber que foi Topázio quem fez isso... A coisa vai ficar feia. — decretou Otto, pensativo.

– Não podemos tratar Topázio como se tivéssemos alguma prova. — objetou Carolina. — E se ela for inocente?

– Ela não é. — rebateu Gabriel. — Diana sabe o que viu.

– Victoria, você ainda tem a chave que encontramos consigo? — com os cabelos grisalhos caindo um pouco além de seus ombros, Diana apertou minha mão nas suas. Confirmei com um gesto à sua pergunta. — Ótimo. Ela será nossa saída desse lugar. Ricardo, eu lhe peço, como nosso líder desde o início de toda a tragédia. Desde antes que eu me unisse ao grupo. Preserve nossas vidas. Diga à Topázio que iremos embora, e permita que todos fiquem à salvo de uma sociopata sem escrúpulos.

– O que você acha? — Rico perguntou à Hugo, mirando-o nos olhos com uma devoção palpável. Algumas coisas haviam mudado, pelo visto. Tirando um pouco do cabelo dourado do rosto, Hugo olhou Diana nos olhos, e assentiu. Ricardo apertou a mão dele, e segurou a de Diana. — Vamos embora desse lugar. Quem quiser ficar, será totalmente compreendido. Mas não é hora de expor mais ninguém aos desmandos de uma mulher sem equilíbrio. Mesmo que eu não tenha presenciado seu homicídio, confio plenamente em Diana. E se ela tentou matar um dos nossos, então é nossa inimiga. Todos concordam?

– Isso é um absurdo! Vocês estão ouvindo a si mesmos? Temos segurança aqui. Livre de monstros, lembra? Vamos jogar tudo fora porque Diana pensou ter visto algo? — Carol estava revoltada. — Não vou ficar aqui ouvindo isso. Esqueceram que Nanda está grávida, e precisa de um lugar seguro pra morar? Chega. Não aguento mais isso. — e se levantando, ela deixou-nos para trás. Jonas me olhou, e muda, pedi que ele fosse atrás dela. Ele seguiu a namorada, enquanto todos miravam o local por onde ela saíra, estarrecidos.

Sabíamos que não teríamos mais escolha. Com Carol totalmente envolvida na teia de Topázio, seria questão de minutos até que nossa inimiga soubesse tudo o que havia sido discutido naquele cubículo. Não havia mais como voltar atrás. Um círculo havia se fechado, e outro começava a ser aberto. Não era o momento para suspeitas, artimanhas ou fingimento. A tempestade apontava no horizonte, e só então pude perceber o quão cruel pode ser viver com o inimigo, literalmente. Além de tudo, eu sabia que viver uma ilusão é mais perigoso que ter uma realidade ruim. Um mundo que se estende por um quarteirão, não é segurança de verdade. Estávamos rodeados por mortos, e por animais mutantes. Em algum momento, encontraríamos uma criatura hostil cara a cara, e viver em comodidade, havia deixado todos com as reações mais lentas e menos impulsivas. No fim, mobilidade é sobrevivência. A humanidade já fora nômade antes, e para manter vivos uns aos outros, teríamos que ser de novo. Topázio com certeza teria um ataque, e provavelmente tentaria impedir nossa partida. Mas ela devia ser grata por escapar do assassinato de Mirla impunemente. Sim, eu podia vê-la ficando para trás. Mas um de meus maiores medos, era que Ana decidisse permanecer com ela. Eu não sei se suportaria a perda de uma amiga tão querida. Ainda mais por escolha própria.
Juntos, todos corremos na direção da boate. Mais atrás, Nanda era amparada por Gabriel, já que não podia correr em sua velocidade normal, em seu estado. Troquei um olhar com Diogo, e vi que ele havia pego sua arma do cós da calça, e estava tenso. Diana liderava o grupo determinada, flanqueada por Ricardo e Hugo. Otávio estava pensativo ao meu lado, provavelmente imaginando coisas a dizer para Topázio, que pudessem convencê-la a nos deixar ir. Eu sabia que meu irmão era bom. Mas acho que nem ele poderia nos livrar de um confronto, àquela altura. Quando finalmente adentramos a boate, não vimos o cenário que havíamos esperado. Num sofá de canto, Tânia tinha a cabeça de uma chorosa Manuela em seu colo, e parecia sussurrar palavras de consolo para a garota. Dante estava sentado no balcão do bar com Jonas, e os dois pareciam ter uma conversa habitual. Atrás do balcão, Dimitri mexia um drink, e fazia careta ao cheirar a mistura. Lavínia fazia barulho na cozinha, lavando a louça do jantar. E sentada de pernas cruzadas sobre um banquinho de madeira, bem no meio do salão do andar de baixo, Topázio encarava a porta por onde havíamos entrado. Ela parecia estafada, quase desestimulada por ver-nos. Fiquei por uns dois minutos a olhando, até notar a música que ecoava pelas paredes da boate. Thaís já estava cantando. E era por isso que ninguém sequer parecera notar nossa presença.
Atrás de Topázio, Mozart surgiu segurando uma Carolina lacrimejante pelos cabelos negros. Ela parecia pedir desculpas em silêncio, com o olhar desesperado em seu rosto. Com um revólver negro colado ao seu pescoço, o enorme Mozart a mantinha sob seu domínio. Olhei ao redor, tentando achar Thaís. Ela estava sentada no alto da escada de onde Mirla havia despencado. E cantarolava uma canção de ninar em inglês, com os dois gêmeos sentados ao seu lado. Ela os abraçava e sorria na minha direção. A ameaça era clara. Para minha surpresa, Marcílio e Alexandre surgiram ao meu lado, vindos das laterais das portas da boate. Eles haviam estado ali por todo o tempo, enquanto éramos nós todos, distraídos pelo canto de uma sereia Inumana. Alexandre atingiu Diogo no rosto com um soco rápido, e meu namorado sequer pôde reagir, com medo de que ferissem as crianças. Marcílio o chutou no estômago, e acabei permitindo que um grito de medo e raiva escapasse de minha garganta. Sem perceber, todos nos agrupamos uns aos outros, e pude sentir o corpo de Fernanda no meio, sendo protegida por todos nós. Mirando-nos, Topázio encurvou seus lábios carnudos num sorriso. A coisa mais fria que eu já havia visto na vida. Seu vestido colado branco e os sapatos vermelhos justos nunca antes haviam sido tão repulsivos. Os cabelos mantidos perfeito com laquê sequer se moveram, quando ela ergueu-se da cadeira, e andou para perto de nós.

– Não era pra ninguém ter descoberto nada ainda. — ela mirou as próprias unhas vermelhas. Vaca. — Vocês aceleraram meus planos. Principalmente você, velha. — ela acrescentou, com um sorriso quase divertido na direção de Diana. — Foi difícil te aturar por tanto tempo. Mas vocês todos, não se preocupem. Vão ter muitas escolhas pela frente. E você, minha doce Fernanda, será a mãe do meu bebê. Pra alguns a brincadeira acabou, mas o jogo ainda vai ser tão divertido! — e com uma animação quase infantil, Topázio observou em êxtase enquanto Mozart jogava Carolina violentamente contra o chão, e caminhava como um turbilhão em nossa direção. Ele tirou um canivete de sua roupa, que Ricardo havia entregue para autodefesa, e empalou Diana no peito, na frente de todos.

Foi um dos momentos mais difíceis da minha vida. Presenciar tamanha barbárie sem poder me mexer. Nora gritava sons indescritíveis em minha mente, implorando para sair. E eu sabia que se meu demônio privado viesse à tona, nenhum resto de Topázio seria reconhecido. Mas o pé de Alexandre estava no pescoço de Diogo, e Thaís tinha as crianças. E por mais que eu amasse Diana, sabia que sua morte era inevitável. Naquele momento, não havia nada que pudesse ser feito para salva-la. Estávamos todos de mãos atadas, literalmente. O grito de Fernanda foi chocante. Gabriel teve de contê-la com firmeza, enquanto seu corpo convulsionava em estresse absoluto. Rígida, eu pude sentir minhas unhas cortando a camada de pele mais exterior das minhas palmas, enquanto as lágrimas embaçavam minha visão. Mozart riu com o som de dor e espanto que Diana emitiu. Nossa amiga tão querida ainda segurou firme nos cabelos de seu assassino, como se tentasse lutar. Mais dois golpes foram desferidos, e o vermelho espirrou no chão recém-limpo. Mozart afastou-se com a mão direita cheia de sangue, e suor pingando da testa. Diana ajoelhou e caiu de bruços, sendo amparada rapidamente por Hugo, que estava em desespero. Corri para junto dele, enquanto Ricardo chorava em silêncio. O som dos saltos de Topázio domina o salão, enquanto ela caminha entre nós. Todos curvados e derrotados. Sem reação diante de tanto mal, de tanta loucura. Como se o fogo outra vez inundasse o mundo com seu apetite voraz, senti meu coração arder ao perder mais um pedaço. Olhando para Diana, lembrei-me dos primeiros dias de contágio. Do modo como ela sorrira , e em como havia insistido para que seu marido desse carona a mim e aos meus amigos. Se não fosse por sua bondade, eu não estaria viva. Nem Otávio, Carolina ou Ana. Ela salvara a todos nós, e mantivera nossos corações aquecidos em todos os momentos. Fora essencial para Fernanda, que agora sacudia-se inteira de dor e desolação.

– Victoria, não chora... — ela engasgou um pouco, mas parecia ter forças suficientes para fazer-se ouvir. Topázio estava de pé atrás de mim, fitando sua inimiga agonizando. — Deus está no controle de tudo, sempre. Seja ele masculino ou feminino, com o rosto ou a forma que tiver. Eu sei que há algo melhor, filha. Cuide da Fernanda. — ela ficou com um olhar vago, e mirou Topázio nos olhos. Uma força surpreendente captou minha atenção. Eu sabia que Diana estava perto do fim, agora. — Esse mundo, como está, é o lugar ideal para pessoas como você. Acredite, você não é melhor do que as criaturas que mantém do lado de fora. E a justiça virá, eu prometo... — com um sorriso, os olhos de Diana apagaram-se. Ela realmente, se fora. Topázio pareceu indiferente ao fitá-la, como se um brinquedo tivesse ficado sem bateria, e houvesse se tornado chato. Virou-se então na direção de Mozart, a quem naquele momento, eu odiava tanto quanto ela.

– Ok, até pra morrer a vadia dá trabalho. — ele riu. — Reúna esses aqui. Está na hora de Cecília receber companhia. Nanda vai pro andar de cima com a Thaís. — ela agarrou Nanda pelos cabelos, e chutou Gabriel no peito, quando ele tentou levantar para impedi-la. Caído no chão, o garoto lutava para respirar após ter o salto fino de Topázio pressionando seus pulmões. — E você vai ficar bem comportada, viu? Lembra que seu namoradinho pode morrer na hora em que eu quiser. Que nem a vagabunda da Diana, ok? — Nanda assentiu, em prantos. — Ótimo. Agora vá para junto de Thaís. Se quiser que o Gabriel viva, claro...

– O que eu faço com o grande aqui, Topázio? — perguntou Alexandre, rindo enquanto Diogo debatia-se em seu mata-leão.

– Ele pertence ao Mozart. Como prometido. — eles haviam feito um acordo? Deus, aquilo tudo era tão nojento. — Agora que não preciso mais fingir, meu dom está muito mais forte. Aqueles que acreditaram em mim em algum momento, vão continuar a acreditar. Eu poderia matar todos vocês, e seus amigos em volta, nem notariam. — ela vangloriou-se. — Mas tenho ideias melhores. Jonas? — ele fitou-a. — Prenda Victoria na minha sala de orações. Acorrente-a, já está tudo pronto.

Era inacreditável. Eu pensei durante os últimos meses, que como inumanos tanto eu quanto Jonas éramos imunes à ela. Mas ao que parecia, não. Ele tomou-me com violência em seus braços, e por um momento, pareceu perceber que estava sendo dominado. Sua expressão tornou-se dolorosa, mas ele não voltou atrás. Uma pancada na cabeça me deixou tonta, e apenas vi as sombras do caminho que me levaram para além da misteriosa sala de Topázio. Fora de mim, senti apenas que fui jogada contra o chão úmido, e tive meus pés e pulsos amarrados à correntes. O som de meus amigos sendo presos também fez-se ouvir, e logo aquele lugar escuro estava cheio de gente. Como Jonas era a pessoa mais forte que eu já conhecera na vida, nem preciso dizer que um soco dele fez com que eu dormisse o sono dos anjos dopados. Minha última lembrança, foram os dois olhos cobertos de cinza, e uma garota extremamente bela, que passou a mão delicadamente sobre minha testa. Aquela situação não poderia estar pior, mas de alguma forma, havia algo no modo como a menina me olhava, que indicava que tudo poderia ser ainda pior. E que era meu dever impedir isso. É claro que foi apenas um pensamento simples e rápido, antes que eu desmaiasse outra vez.

Notas finais
É, tenho que admitir. Estou de luto. Não é fácil se envolver tanto com todos os personagens e acompanhar as trajetórias chegando ao fim. Principalmente quando se trata de perecer nas mãos de outros humanos. E essa sensação de que o mal vence, tão presente no dia a dia de todos nós quando nos sentimos impotentes à respeito de algo, é bem cruel. Vivê-la na vida real e na ficção, é a sina de um autor. Porque, acreditem, depois que saem de nossas cabeças, cada personagem ganha vida e assusta a gente. Diana foi especial. Uma mãe, uma mulher, uma religiosa, uma amiga. Alguém improvavelmente resistente, que evoluiu muito, e tocou os corações de todos. Uma das minha favoritas. Beijos gente, continuem acompanhando! PRECISO de comentários sobre esse momento, kkkk... Kisses by DroppingPieces!