Quebranto.
49 O Quarto Elemento é a Terra.
Notas iniciais
Carol.
Eu não entendia como Topázio não cansava da própria voz. Deus sabia que seu eu a ouvisse por muito mais tempo, surtaria. Já haviam se passado quatro dias desde a oferta de aliança absurda que ela fizera à Nora. Sabrina estava irreconhecível após sobreviver à tortura infligida por Mozart. Como punição pelo desafio de Nora, Topázio reduzira a comida de todos os prisioneiros. Era degradante observar à tudo, sem mover uma palha para impedi-la. Só que era preciso. Fernanda e Tânia enquanto isso, eram mantidas como objetos de uma coleção rara. Ficavam presas, mas eram bem tratadas. As crianças eram praticamente ignoradas pelos nossos inimigos. Isso provavelmente se devia ao fato de Topázio não ter ideia do que aqueles gêmeos eram capazes. E se dependesse de mim para tal, continuaria sem saber. Eu não queria Dino e Vilma sendo maltratados. Eles não. Enquanto nos sentávamos às mesas da boate, na pista de dança, ela ficara de pé próxima ao bar. Sentada no chão, Thaís cantarolava com Dante uma melodia triste e reconfortante ao mesmo tempo. Eu não saberia dizer de onde vinha aquela canção, mas era tocante. Algo me fazia lembrar seu nome, das tardes em que Luca ligava o som de seu carro e ficávamos juntos no lado de fora do condomínio. "Pais e Filhos", Legião Urbana. Naquela época, eu me contentava em comer um sanduíche vegetariano cheio de ketchup, e sentir o cheiro de Luca junto ao meu. Logo, aquele programa ingênuo tornou-se parte de meus dias, ao lado de Victoria, Otávio e Ana. A roda dos cinco, como éramos conhecidos na escola. De certo modo, eu perdera tudo para Vicky. Ela roubara meu namorado, e traíra minha amizade. E apesar de eu ter recebido por sua causa a fama de vadia do grupo, tinha de admitir: era dela de quem eu sentia maior falta. Distraída, notei a grande ironia que era reconhecer tamanha beleza, na voz de alguém tão podre quanto Thaís. A música seria muito mais bela, se eu não houvesse visto a verdadeira face da mulher cruel que a estava cantando. Alguém sem escrúpulos, que faria de tudo para continuar em sua posição de privilégio e segurança. Mesmo que pra isso, Cecília tivesse que morrer sob ordens de Topázio.
– Enfim chegou a hora. — Topázio declarou, pegando-me de surpresa. Distraíra-me totalmente de seu discurso pra boi dormir, sobre a importância de agirmos como uma família. — Hoje, puniremos aqueles que ameaçaram a segurança de nosso grupo. Precisamos demonstrar que atos de desordem e calúnia não serão tolerados sob o meu comando. Marcílio, Alexandre. Trouxeram o que eu lhes pedi?
– Não foi difícil. Os desgraçados são estúpidos mesmo. — respondeu Marcílio com um sorriso debochado.
– E mesmo assim um deles quase te matou. Pra ver como cê é esperto, cara. — brincou Alexandre de longe. O rapaz negro de dreadlocks apenas ergueu o dedo do meio, em resposta.
– Ótimo. Depois do jantar poderemos resolver esta questão. — ela virou-se para nós, seus verdadeiros súditos. Todos fantoches vazios em suas mãos habilidosas. — Meus queridos, eu sei que posso parecer rígida. Mas não posso permitir que aqueles que puseram em risco nossa comunidade, saiam impunes dos crimes que cometeram. É o único jeito de conseguirmos fortalecer os alicerces de nossa comunidade. Principalmente, com a chegada de um bebê. Precisamos garantir um ambiente seguro e tranquilo para o neném de Fernanda. As crianças são nosso futuro. É exatamente por isso que, para garantir a sobrevivência de nossa espécie, transformarei o recém nascido em Inumano, assim que ele vier à luz.
– Não! — gemeu Lavínia, estancando sua trajetória pouco antes de curvar-se sobre a mesa, para servir uma tigela de geleia de amora vencida. — Quer dizer, não seria melhor esperar um pouco, Topázio? — ela indagou, aterrorizada. Temia ter desrespeitado sua líder, certamente. Para mim, ela havia provado que tinha coragem.
– Bem querida, fico feliz que tenha dividido conosco sua opinião. Certamente a levarei em conta. Farei o possível, e o melhor que puder para garantir a integridade da criança. Tudo bem? — o sorriso gentil de Topázio não me enganava. Ela estava possessa.
– S-Sim, claro! — Lavínia parecia aliviada por ter tirado o dela da reta. Nervosa por ela, acabei encontrando o olhar de Jonas, sem querer. Ele parecia dividido. Torturado. Como se preso em um pesadelo do qual não poderia acordar. Mas ele estava disfarçando os próprios sentimentos. Encostado numa pilastra, respirava fundo. Se eu não o conhecesse bem, não poderia definir o que de fato ocorria ali. E ele não era o único. Dimitri também parecia desconfortável com toda a situação, talvez até mais do que Jonas. Ele não era minha primeira opção numa situação daquelas, mas com Tânia presa e Sabrina incapacitada, não me restavam muitas, de todo modo. Usar os gêmeos estava fora de questão. Movendo os lábios sem emitir palavra, Jonas chamou-me para perto. Aproveitamos enquanto todos começavam a comer, e nos afastamos de fininho.
Do lado de fora, o céu estava nublado. A rua deserta parecia zombar do meu estado de espírito, com sua tranquilidade artificial. De maneira psicótica e doente, eu sentia falta dos monstros, da agitação. Os poderes de Cecília me soavam mais como uma maldição, do que como um presente de Deus, ou da Deusa, que fosse. Qualquer coisa era melhor que a estagnação. De que adiantava termos segurança, se ao redor as criaturas se acumulavam, e os recursos eram cada vez mais escassos? Isso por si só já seria uma questão a debater, se não tivéssemos uma louca no poder. Outra vez. Todos os desgraçados de antes, se tornavam desgraçados ainda piores. Mas enquanto Arlindo era um bastão de madeira, Topázio era uma katana. Muito mais volátil, e perigosa. Uma sociopata sem qualquer gatilho motivador, além do prazer de seu sadismo desenfreado. Com a leve dor de cabeça que eu sentira o dia todo afrouxando, notei com surpresa a mão de Jonas em minha coxa. Ele não demonstrara qualquer carinho para comigo, desde que caíra sob o controle de Topázio. Eu fingira não me importar, para não levantar suspeitas, mas estava louca. Naquela hora, por incrível que parecesse, não me importavam as aparências. Eu só queria ser amada. E que toda aquela loucura tivesse algum fim.
– As coisas estão estranhas... — Jonas comentou, meio vago. Ele fitava o chão como se tivesse vergonha do que dizia. — Acho que Topázio é má. Ela me assusta, às vezes. — ele parecia uma criança perdida. O tom de sua voz era infantil. E vê-lo naquele cárcere mental, acabou comigo. Lágrimas arderam em meus olhos, e eu quis punir aquela loira maldita por trazer tanto sofrimento a mim e aos meus amigos. Agarrei as mãos de Jonas, e ele me olhou, acanhado.
– Você confia em mim? — ele fez que sim. Eu sorri, o calor esquentando meu peito. — Que bom. Eu preciso de você Johnny. — implorei. — Não posso mais fazer isso sozinha. Topázio não é quem parece. Precisamos detê-la. Lembre da Victoria. Topázio a está ferindo.
– Vicky... — Jonas sussurrou o nome, como se não o falasse há anos. — Onde ela está? — ele perguntou, os olhos arregalados.
– Pouco depois que ela te dominou, nossos amigos foram presos. E eu não pude fazer nada pra impedir. Só com sua ajuda isso vai dar certo. Quis te procurar antes, mas você parecia um perdigueiro, atrás do Alexandre.
– Me desculpe. — ele pediu, também emocionado. — Eu podia ter feito tanto por eles... E por você.
– Não é hora pra isso, querido. — coloquei a mão em seu rosto, e ele fechou os olhos. Olhei ao redor, e levei meus lábios aos dele. Nosso beijo foi rápido, e urgente. — Vamos aguardar o momento certo. Não vou cometer o mesmo erro que cometi com Luca. Você não vai morrer.
– Quando agimos?
– Hoje à noite.
Tropecei por mais de uma vez enquanto lutava para equilibrar a bandeja que Thaís me entregara. Eu havia abandonado os saltos altos há meses, e imaginei que no fundo, aquilo era algo bom. Quando nervosa, meu nível natural de falta de jeito ia do zero ao cem em um segundo. O que antes era um pavor descontrolado e medo irrefreável, agora era apatia e lentidão. É claro que eu não era mais a louca que grita enquanto corre de zumbis. Nem a maluca que entra em pânico e põem a vida dos amigos em risco. Eu era mais do que eu fora um dia, e ainda assim, uma refém das circunstâncias. Ainda sem poder me acostumar com os cabelos curtos, senti cócegas quando os mesmos roçaram em minha nuca. Tensa, mirei a extremidade esquerda do camarote. Deitada num canto, Ana acalentava uma Sabrina pálida e suada em seu colo. A loira tinha os olhos fechados com força, e parecia sentir dores terríveis. Meu coração apertou ao vê-la naquele estado. Já Ana parecia fora de si, apática. Ela com certeza devia estar sentindo-se culpada por todo o ocorrido. Infelizmente, de fato ela deixara-se enganar facilmente por Topázio, tamanho o seu desespero por refúgio. Mas isso era algo que ela deveria resolver sozinha. Eu mesma entendia algumas coisas sobre buscar redenção, e podia afirmar que as coisas sempre pioravam, antes de melhorar. Com gestos sutis, depositei as tigelas de sopa rala feita de cenouras e couve ao lado delas, e toquei a testa de Sabrina. Estava ardendo em febre. Peguei então o pano úmido que Lavínia colocara ao lado da comida, e depositei sobre a testa dela. Apesar de nossas diferenças, eu jamais desejaria algo assim à outra pessoa.
– Viu só o que sua amiga fez? — cuspiu Ana, cheia de desprezo.
– Topázio não é minha amiga. — falei, sem pensar.
– Não mesmo, ainda bem que você sabe. Ela é sua dona. — Ana riu, debochada. — Eu nunca gostei de você de verdade. Sempre te aturei por causa dos outros. Na falsidade mesmo. E sabe por que? Porque eu sempre soube o tipo baixo de vagabunda que você é.
– A sopa está aqui. É mais fácil de engolir se estiver quente... — sugeri, ignorando seus desaforos. Ela era um animal ferido. Morderia antes de morrer. E apesar de estar segurando-me para não mandá-la ao cacete, preferi deixar que pusesse para fora sua ira. Sabrina gemeu com a sensação do pano frio, e senti profunda tristeza por toda a situação.
– AO INFERNO COM SUA MALDITA SOPA!!! — Ana cuspiu na minha cara. É, isso aí. Na. Minha. Fodida. Cara. Com aquela gosma transparente no rosto, afastei-me dela e esfreguei rápido minha blusa, para tirar aquela porcaria. Vaca. — Vai mesmo, sua desgraçada. Eu vou te matar quando sair daqui. — é claro que Ana não mataria ninguém com suas condições físicas nulas, mas resolvi que não era bom pô-la à prova.
Com as quatro vasilhas restantes na bandeja, aproximei-me de Fernanda, que estava na extremidade direita do camarote, abraçando os joelhos. Uma corrente prendia seu tornozelo à parede. Sentada num pufe ao seu lado, Tânia lia o Código da Vinci, entretida. Os gêmeos jogavam com um pega-varetas encontrado por Dimitri no exterior, e pareciam estar aproveitando o tédio. Eu não sabia como seria recebida, e temia que uma cuspida na cara da Carol estivesse virando a nova modalidade esportiva da moda. Mesmo assim, engoli o meu orgulho (que orgulho?), e me aproximei.
– Deixem as pedras no chão e a saliva na boca até eu ter terminado. — avisei. — Ou vão acabar estragando a comida.
– Você nos decepcionou, Carol. Como pode ajudar Topázio? — Tânia parecia imensamente triste. Com as mortes de Diana e Madeline, ela perdera suas duas melhores amigas. Agora, era a membro mais velha do grupo. E era triste vê-la tão arrasada. — Depois do que ela fez à Diana, eu não posso perdoá-la. E a pobre Sabrina?
– Eu não participei dessas coisas. Não tenho nada com isso. — sem olhar para trás, comecei a me afastar de todos no camarote.
– Vai mesmo deixar ela roubar o meu filho? — a voz de Nanda alcançou-me como um chicote a estalar. Mordi o lábio inferior e fechei os olhos com força, no pé da escada.
– Topázio que faça o que quiser. — e desci. Não pude olhar para trás, ou todos perceberiam que meu rosto, dizia completamente o oposto.
O resto do dia foi particularmente monótono. Mas uma coisa me remoía a mente. O que será que Alexandre e Marcílio haviam trazido do exterior, para Topázio? Quem ela puniria? Não importava quem fosse, mas eu não permitiria. Não outra vez. Curiosa, percebi que Dante estava sozinho, num canto. Com uma expressão confusa e dolorosa no rosto, ele mirava um conjunto de xadrez de metal e vidro. Hugo havia decidido que era crueldade que todos considerassem o surfista um loiro burro. E tomara para si a causa de ensiná-lo a jogar xadrez. Agora, o loiro mirava o jogo como se soubesse que algo faltava ao cenário, como se sentisse falta do amigo mas não pudesse recordar o motivo. Exatamente o mesmo que ocorrera quando eu lembrava Jonas à respeito de Victoria. A telepatia de Topázio estava privando meus amigos de suas memórias. Era muito mais cruel e poderosa do que eu supunha. E, se antes isso ainda não estivesse claro, para mim havia se tornado a partir daquele momento. Topázio tinha que morrer. Ela não mudaria, não naquele mundo. E abusaria do poder enquanto pudesse afetar aos outros. Eu não sabia o motivo de ser imune à sua trapaça. Talvez fosse devido ao fato de minha própria capacidade de manipulação e frieza serem extremamente altas, embora isso me classificasse como uma vadia frígida. Outra vez.
Sozinha em meu canto, tive tempo apenas de acenar para Jonas, que passou por mim acompanhado de Dimitri. Os dois conversaram por longo tempo no bar, e ambos pareciam cada vez mais com eles mesmos. Se eu pudesse contar pelo menos um pouquinho com a sorte, diria que talvez estivesse retornando definitivamente aos próprios juízos. Quando Topázio começou a pedir a presença de todos no salão principal, eu sabia que as coisas iam esquentar. Aproximando-me de Dimi enquanto ele saía da cozinha, toquei em seu braço.
– Jonas conversou com você? — ele acenou positivamente. — E então?
– Se as coisas passarem dos limites, vamos agir. Mas se tudo ficar sob controle, espere. Eu tenho um plano. Vamos precisar de mais tempo pra colocar em prática. — ele dizia tudo movendo a boca minimamente. Era assustador, e impressionante.
– Ok. — mudança de planos inesperada. Àquela altura eu devia saber que não podia julgar as pessoas pela aparência. Pelo que parecia, Dimi era bem mais sério em situações de perigo. O fanfarrão encrenqueiro sumira.
– Atenção, pessoal! — chamou Thaís, com um sorriso radiante. — A punição dessa noite, vai ser especial. Como já sabemos, aqueles que desejavam tomar nosso grupo, foram capturados. São pessoas sórdidas, que para conseguirem o objetivo de seus intuitos, usaram dos meios mais terríveis. Caluniaram nossa líder, e traíram nossa confiança. Causaram a morte da pobre Diana, e plantaram um inseto mutante na cama de Mirla. — eu estava em choque. Meu olhar cruzou o de Jonas quando Thaís mencionou Diana, e vi que ele estava sem palavras. Olhei para o alto, e vi as cabecinhas de Dino e Vilma, assistindo à tudo de longe. — Mas, sabemos que nenhum motim surge sozinho. Todo movimento tem líderes. E eles estão aqui.
Sons abafados de pancadas e gemidos vieram da "sala de orações" de Topázio. Com seu vestido colado impecavelmente branco, Topázio mirava a porta do recinto, enquanto Alexandre e Mozart vinham arrastando Hugo e Ricardo por cordas de fibra resistentes. Hugo tinha uma marca de arranhão no pescoço, enquanto Rico era afligido por um corte em seu supercílio.
– Esses dois incentivaram os seus cúmplices a tentarem nos atacar. Agora, serão julgados pela Deusa. — Thaís anunciou, solene.
– Que a Mãe determine o destino de ambos. — concordou Topázio. Tive vergonha por elas. Se a Mãe Terra realmente estivesse assistindo àquilo tudo, certamente devia estar desgostosa do que fora capaz de gerar sobre si. — Comecem o teste. Minha sentença foi dada. — quem ela pensava que era? A rainha Elizabeth?
Por instinto, todos seguimos Alexandre, enquanto ele rumava para o exterior da boate. A rua principal fora modificada desde o momento que eu tivera com Jonas. Uma espécie de cercado improvisado fora armado, com um círculo de veículos em volta de uma cadeira de simples de madeira, que fora colocada no meio do lugar. Alguns latões de lixo em chamas estavam posicionados ao redor, iluminando tudo de maneira uniforme. Eu quis perguntar a alguém o que estava rolando, mas me mantive quieta. Atenta a cada expressão de Rico e Hugo. Se houvesse o menor indício de que eles não iam conseguir, eu usaria a faca enfiada no cós de minha calça. Pelo menos Topázio, eu levaria comigo. As formas do que aconteceria ali começaram a ser descortinadas rapidamente. Com malícia, Mozart amarrou Hugo à cadeira, e esbofeteou o seu rosto. Ricardo rugiu no aperto de Alexandre, e foi jogado no chão com tudo. Sob o olhar disciplinado de Topázio, Thaís entregou uma mordaça para seu namorado. Hugo foi silenciado, ao mesmo instante em que Mozart cortava a corda ao redor dos pulsos do mais velho, que ainda estava sem fôlego após o impacto com o chão.
– É simples. Se vocês sobreviverem à este pequeno teste, poderão voltar ao cativeiro. Ninguém tentará matá-los outra vez. Se falharem. Bom... Então terão falhado. — sua serenidade era o que mais me chocava. Ela não tinha sentimentos.
Ricardo estava ofegante enquanto mirava todas as direções da rua principal. Tensa, eu torcia minhas mãos fitando Jonas. Ambos sabíamos que as chances de sobrevivermos eram nulas caso partíssemos pra cima de Topázio do nada. Mesmo assim, se algo de mal acontecesse com Rico ou Hugo, eu pagaria o preço pela cabeça daquela mulher odiosa. Os sons característicos dos mortos-vivos começou a ser ouvido, quando Marcílio virou a esquina, trazendo um deles por uma corda. O zumbi estava com os braços amarrados, e a cabeça enfiada em um saco de estopa. Era um homem magro, com roupas de cozinheiro, que um dia haviam sido brancas. Alexandre adiantou-se para alcançar o colega, e puxou o monstro até o cercado, jogando-o com extrema brutalidade por cima de um dos carros. O mercenário pulou em seguida, e tirou o saco da cabeça da criatura. Com um movimento rápido de sua faca, soltou o cozinheiro e o lançou sobre Ricardo, partindo em seguida. Sem diferenciar uma vítima da outra, o zumbi contentou-se com o alvo mais fácil. Hugo. Ele partiu para cima da cadeira onde o mais jovem jazia atado, observando ao espetáculo bizarro com olhos aterrorizados. Puxando o cadáver por um de seus braços, Ricardo jogou-o ao chão, desequilibrando-se no processo. Caído sobre um de seus joelhos, o dentista usou toda a sua força para conter o avanço do zumbi com apenas um de seus braços, empurrando-o de costas em seguida. Meus olhos acompanhavam a cena, me fazendo sentir náuseas por testemunhar aquela loucura. Ricardo chutou o rosto do andarilho, retorcendo-lhe a face. Pisou, e pisou de novo. Estava acabado.
Mas Marcílio ainda não havia terminado. Em seus dois braços, ele continha mais dois mortos-vivos. Um garoto em uniforme escolar da prefeitura de Búzios, e uma mulher estranhamente familiar. Meus pesadelos gargalharam ao criarem vida, no momento em que o capuz de ambos foi removido. Com um olho negro e outro vermelho e a marca de sangue seco onde Mozart lhe esfaqueara, Diana caminhava em nossa direção. Seu corpo, já demonstrava reflexos do tempo decorrido, e um tom pálido e enrugado encobria-lhe a pele do rosto. Em seu ombro direito, marcas de mordidas e pedaços faltando eram exibidos, demonstrando as evidências de que seu corpo fora vitimado por necrófagos pouco depois de ter sido descartado. O pensamento de ver o corpo sem alma de uma amiga tão querida daquela forma, me fez tremer da cabeça aos pés. Sem tirar nem por, eu estava realmente passando mal. Vê-la sendo jogada por sobre um carro, como se fosse um animal, era bem mais doloroso do que simplesmente reviver a sua morte. Definições para o meu ódio por Topázio: inexistentes. Ricardo começou a chorar ao avistar os corpos reanimados que se dirigiam a ele, sem saber o que fazer. Mais uma tortura além da imaginação. Nos olhos de Hugo, eu via lágrimas de dor e desespero. E eu tinha certeza que naquele momento, não era pela própria vida que ele estava chorando. Ela pela de seu primo. Eu mesma temia por Ricardo. Ele abandonara estranhos à própria sorte para sobrevivermos, sim. Mas conseguiria esmagar o crânio de Diana?
Ele mesmo deu-nos a resposta. Com um encontrão decidido, derrubou o corpo da mulher frágil. Rapidamente, correu e emaranhou-se com o zumbi adolescente, como numa briga colegial. O zumbi rasgou-lhe a camisa social azul clara, arrebentando dois dos seus botões. Desvencilhando-se das unhas indesejadas, Rico bateu com a testa do rapaz no asfalto até que o mesmo parasse de se movimentar. Arfando, ele recobrou sua respiração, exasperado. De supetão, virou-se para trás. Ele esquecera-se de Diana, que àquela altura lançava-se contra Hugo com apetita mordaz. O rapaz ergueu erroneamente as pernas amarradas, e chutou a mulher para longe, com um impulso forte. Isso derrubou a cadeira onde era mantido cativo, deixando-o totalmente indefeso. Diana tomou outro impulso contra ele, e acabei gritando de pavor. Topázio riu, saboreando meu medo. Provavelmente ela acreditava que eu estava de alguma forma aproveitando o show. No entanto, só o que me tranquilizou vou ver o instante em que Ricardo puxou Diana para longe de Hugo, pelos cabelos. Ele a jogou no chão novamente, e sentou-se sobre o cadáver. Imobilizando os braços da criatura, ele mantinha-se no controle, enquanto ela mordia o ar em revolta. Contudo, sua cabeça e dentes não eram altos o bastante para representarem perigo enquanto Rico não se mexesse. Lentamente, os cabelos loiros escuros de Ricardo caíram sobre sua testa, cheios de suor. Ele ergueu seu olhar na nossa direção, e haviam lágrimas ali.
– Por favor... Eu não posso. — ele pediu. E Topázio sorriu. Ela ia dizer algo, mas o estampido de um tiro cortou a noite recém-escurecida, acertando a testa de Diana em cheio. Surpresa, eu olhei ao redor, assustada. Com um revólver erguido na direção de minha amiga, Dante tremia como vara verde. Era a pistola de Dimitri, que ele deixara sobre uma das mesas, na boate.
– Diana era boa. Agora vai descansar. — ele olhou pra Topázio. — Nós cuidamos dos nossos. E Diana era uma de nós. Não era?
– Sim, ela era. — concordou Topázio. — Foi por causa dos prisioneiros que ela acabou morta. Todos vocês viram. — ela estava carregando a voz de poder, tentando alterar a percepção do surfista. Apesar de não ser um possuidor de grande intelecto, era claramente fácil identificar a nova resistência que se formava na mente do loiro bronzeado. Pelo que parecia, Topázio não era mais tão infalível.
– Se eles tramaram a morte de Diana, por que choram por ela? — ele perguntou, e retornou para o interior da boate, como se de fato, não quisesse saber da resposta.
Estupefata, permaneci trocando olhares com meus dois cúmplices por certo tempo. Ricardo ficara olhando na direção de Dante por algum tempo, antes de correr para perto de Hugo, verificando se ele não fora ferido. Ele puxou a mordaça do mais novo, e chorando, os dois se abraçaram. Como tive que me conter para não abraçá-los também! Mas mesmo que não me rejeitassem, eu não podia arriscar tanto. Thaís parecia irada enquanto aguardava uma palavra de Topázio sobre a atitude de Dante. Ninguém esperava por aquilo. Ninguém podia imaginar que alguém tão pacato e tão aéreo pudesse ter uma atitude tão humana e tão desprendida. Eu mesma esquecia facilmente que aquele garoto vivia conosco. Mesmo sendo lindo, era tão lerdinho que nem fazia falta. Aquele tiro, me fez olhar pra ele como alguém respeitável pela primeira vez. E a coisa mais difícil, era me fazer respeitar alguém.
– Vamos para dentro. Leve os dois de volta pra cela. — Topázio pediu, apática. Ela ainda mirava o lugar vazio entre Lavínia e Manuela, de onde Dante saíra em direção à Privilège.
Quando tudo aquilo acabou, e os ânimos se acalmaram, constatei algo que eu já sabia. Se aquela situação continuasse, em breve as "brincadeiras" de Topázio passariam dos limites. Ela era como o louco Nero, incendiando a própria cidade. Era uma roleta russa humana. E, se eu quisesse viver à longo prazo, ela precisava ser morta. Daquele momento em diante, eu tinha plena consciência de que não se tratava mais de apenas ser uma heroína, de salvar o dia. Era pura e simplesmente uma luta por minha própria vida. Por meu próprio futuro. E, acreditem, não há motivação melhor para alguém como eu, do que uma ameaça direta...
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