Quebranto.
28 O Julgamento dos Ímpios.
Notas iniciais
Victoria.
Os olhos de Carolina estavam opacos. Ela nem parecia mais a mesma. Sangue escorria de sua boca, enquanto ela parecia desvanecer sob o manto da exaustão. Sua camisola negra de cetim estava completamente coberta de poeira e a alça havia rompido. Curiosa e estupefata olhei ao redor buscando sinal de perigo. Saulo estava próximo a mim, ajudando Diana a apoiar o corpo de Jonas contra uma parede. Diogo parecia cansado, enquanto arfava e apoiava seu peso contra meus ombros. Gemi um pouco sob os seus músculos definidos e suados. Ele parecia um monstro de tão grande, e doía sustentá-lo sozinha. Mas eu não o soltaria, de modo algum. Não depois de vê-lo levar um tiro para defender-me. Era difícil assimilar o momento, quando não era possível sequer perceber a origem do ataque contra nossas vidas. Eu vira um homem desconhecido por um breve momento, e então ele estava atirando contra a ambulância, sem nenhum motivo aparente.
Sobressaltando-me, vi Otto puxar-me pelo ombro até o local onde reconheci Ricardo e Luca caídos, ambos feridos. Com um gesto amável, Sabrina apoiou Diogo em meu lugar, enquanto eu me abaixava ao lado do meu namorado. Ana ajudou Carolina a se levantar e a trouxe consigo, enquanto era possível ouvir a fuga desesperada de Arlindo, que tentava escapar do acampamento, aparentemente. O suor colava alguns fios de cabelo ruivos contra a testa de Luca, e eu nunca havia achado aqueles olhos verdes tão lindos. Meus olhos arderem e senti as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Ele havia sido baleado no peito? Minha sina seria assisti-lo morrer logo depois de ter reencontrado-o?
— Vicky? Oh merda, vou mesmo morrer... Você veio me buscar? – gemeu ele, pálido. Uma de suas mãos estava pressionada contra o peito ferido. Um arrepio sacudiu meu corpo ao notar o tiro que espalhava uma mancha de sangue sob sua blusa. Notei que Ana estava obrigando Ricardo a beber alguma coisa, e me senti imensamente feliz por vê-lo outra vez. Ele pareceu captar meu olhar por um breve momento, e sua expressão mudou para uma surpresa feliz e incrédula. Apesar de não compreender aquele cenário caótico, apoiei o rosto de Luca entre minhas mãos, e o beijei com o máximo de brandura e delicadeza que julguei possíveis. – É você mesma. Está aqui... – sua voz, era um fio de som em meio ao mar revolto. – Carol... O que houve com ela? – mesmo que fosse natural estar preocupado com uma amiga, me senti estranha com a pergunta de Luca. O que estava havendo? Eu havia acabado de beijá-lo, e ele perguntava pela minha melhor amiga? – Seus olhos estão diferentes, Vicky... Você está linda... – e então Luca desmaiou, deixando-me tensa e ainda mais confusa.
— Céus! O que houve nessa merda de lugar? – esbravejou Diogo, irritado. – Eu sabia que aquele imbecil do Arlindo era problema!
— Ele dominou o lugar todo! Vai acabar fugindo! – gorgolejou Ricardo, sem fôlego. Ele ainda estava caído próximo a Luca, e parecia realmente machucado.
— Não vai mesmo! – gritou Sabrina, a namorada de Ana. Ela parecia feroz, ferida, e resolvida a tomar uma atitude. Pegando um revólver da mão de Julia, ela correu na direção para onde nosso atacante havia fugido poucos minutos antes. Logo Saulo também estava correndo atrás do homem, assim como Ana, que havia corrido atrás de Sabrina, provavelmente preocupada com o destino dela.
Nervosa, senti meus nervos se agitarem, e ergui as mãos do peito de Luca a tempo de vê-las tremendo como varas verdes, totalmente ensanguentadas. Agitada, pude sentir a presença crescendo no meu peito, como uma energia estranha capaz de amortecer os meus sentidos e movimentos, substituindo-os por algo maior, até mesmo melhorado. E também, extremamente assustador. Apenas o gemido fraco de Carolina interrompeu a torrente que certamente traria Nora à tona. Aproximando-me com receio, ajoelhei no chão ao seu lado, apoiando o pescoço de minha amiga com um de meus braços, enquanto amparava seu rosto com a outra. Os cabelos compridos e lisos estavam suados, e seus lábios estavam ressequidos e rachados. Era de dar dó, e eu nem precisava ser médica para perceber que se tratava de um quadro de exaustão. Aparentemente, Carol havia sido submetida a um tremendo esforço físico e emocional recentemente, pois ela parecia-se muito comigo própria, quando fora resgatada por Jonas semanas antes. Senti o compasso de meu coração acelerar, quando as portas da casa que era usada por Ricardo na última vez em que eu estivera no Trocado, se abriram. Através delas, irromperam Vilma e Dino, seguidos de perto por duas mulheres mais velhas, uma delas muito parecida com o líder do nosso grupo. As duas se detiveram ao perceber a minha presença, até que vi, com certa emoção, uma vacilante Fernanda insinuando-se até a calçada onde eu estava. Julia, Otávio e Mozart estavam apreensivos. Pareciam extremamente cansados, também. Diana ainda pressionava o ferimento na perna de Jonas, que estava reclamando num tom baixo. Diogo havia se acomodado num meio-fio, pressionando o tiro de raspão que recebera enquanto a expectativa em torno da fuga de Arlindo parecia baixar sobre o grupo como uma neblina densa.
— Victoria! – com um grito entrecortado, Vilma abraçou-me pelo pescoço, afundando a cabeça em meus cabelos sujos. Dino também se aproximou em seguida, e me abraçou.
— Achamos que você tinha morrido. – disse o pequeno Dino, seus cabelos negros tão grandes que quase lhe cobriam os olhos. Ainda assim, seus olhos azuis pálidos podiam ser identificados entre o véu obscuro. – Você está fedendo, também. O que acha de um banho? – não consegui me controlar, e acabei rindo, apesar de toda a situação.
— Um banho seria perfeito, admito. Mas temos que ajudar nossos amigos, primeiro. Carolina, Luca, Diogo, Ricardo e meu amigo Jonas estão feridos. Será que podemos levá-los para a Enfermaria? – indaguei, direcionando meu olhar para as mulheres mais próximas.
— Arlindo roubou as chaves de Ricardo, quando assumiu o controle. Elas ainda estão com ele. – contou a mulher mais idosa, de olhar bondoso. Ela havia se agachado ao lado de Ricardo, e estava alisando seus cabelos freneticamente, seu olhar pesaroso. – Filho, onde está Hugo?
— Filho? Quem é Hugo? – perguntei totalmente perdida.
— Sou Madeline Shepard, mãe do Rico. – contou-me a mulher, com um sorriso. – Pelo que soube você se perdeu do resto dos meninos quando foram à minha casa. Ainda não tivemos a oportunidade de nos conhecermos. – disse ela, afável. – Lamento que tenha sido em circunstâncias tão... Aterradoras. Hugo é meu sobrinho, portanto primo de Ricardo. Arlindo o prendeu em algum lugar, junto com Eloá... – começou a senhora, em dúvida. Ela notou que obviamente eu também não conhecia a mulher negra parada perto de nós, e abriu um novo sorriso. – Esta é Tânia, veio com o grupo de Saulo. É uma enfermeira, e a melhor chance dos nossos feridos.
— Vamos ter que improvisar algo. Não posso deixar eles caídos na rua, desse jeito. – decidiu-se a mulher chamada Tânia, como que percebendo a sua deixa. – Vocês podem me ajudar a transportá-los, com o máximo de cuidado possível? – ela dirigiu a pergunta à Mozart e Otávio, que meramente assentiram. Otto pegou Carolina no colo, enquanto Mozart começou a auxiliar Diogo, que evitava pisar com a perna que havia sido rasgada pelo tiro de raspão de Arlindo. Absorvida pela tarefa, a mulher então pareceu paralisar, franzindo o cenho. – Onde está Miguel, Julia? – a jovem garota apenas negou a resposta, com um gesto. Aquilo deixava claro o destino do amigo que ela e Tânia possuíam. O garoto que havia sido morto tentando me salvar.
Acabei ajudando Diana a levar Jonas e Ricardo para dentro, e depois senti minhas mãos suarem enquanto Luca era erguido por Otávio, que segurava suas pernas, e Mozart, que o alçava pelos braços. Ele foi levado para dentro da casa, e fiquei sozinha na varanda, com Julia, Fernanda e os gêmeos. Olhei na direção do local para onde todos haviam corrido, e pensei no quê deveria estar acontecendo do outro lado do acampamento. De súbito, passei a torcer com todas as minhas forças para que tudo acabasse dando certo, de alguma forma. Não havia muito que eu pudesse compreender, naquele clima de incerteza e pânico. A verdade, é que não era desta forma que eu planejara meu reencontro com meus amigos. Ao invés de boas-vindas tranquilas e acolhedoras, recebi o caos. Não que eu já não estivesse acostumando-me a isso, mas era cansativo. E muito opressor.
Se você não fosse tão sentimental, teríamos ido atrás desse cara. Ao invés disso, você ficou lambendo e alisando seus amigos, como uma maldita mãe ursa.
Trinquei os dentes, sentindo a frase de Nora ecoar na minha mente como um grito estridente. Era algo quase físico, como um resíduo alimentar preso no dente. Você não vê, mas pode sentir a presença do intruso, incitando dor e reivindicando espaço. Tão surpresa quanto grata, sorri ao perceber Fernanda apertando minha mão, num afago gentil e equilibrado. Ela tinha olheiras fundas, como se a noite anterior houvesse sido tão longa quanto um dia inteiro. Seus cabelos ruivos, geralmente tão belos e coloridos do modo como eu os lembrava, estavam agora um pouco mais escuros, e apagados. Apesar disso, ela consolou-me com sua presença. As lágrimas em seus olhos, boas-vindas mudas. Abracei-a, contente por ter tido a oportunidade de rever aqueles que eu aprendera a amar com a necessidade, e o medo. Ainda assim, eu não podia ignorar o frio em meu estômago, insinuando-se como uma serpente inquieta, com a expectativa do confronto entre o homem chamado Arlindo, e aqueles que o haviam perseguido. A situação de Luca também me preocupava a ponto de provocar uma incômoda enxaqueca, pois não ter certeza sobre seu ferimento ser ou não grave, era pior do que seria saber que ele estava mal de uma vez. Nas naquele momento, com Nanda em meus braços e as saudades em meu peito, tudo o que eu mais desejava, era que nosso lar fosse preservado. E da maneira mais urgente possível.
Mesmo que eu fosse obrigada a me render à Nora, mais uma vez.
Ana.
Meus pés afundaram na lama pela quinta vez, quando tentei pular um latão de alumínio amassado, do lado de fora da barricada. Pelas bordas de minha visão, consegui identificar alguns zumbis nas calçadas de ambos os lados da rua. Mais à frente, Saulo e Sabrina finalmente haviam conseguido encurralar Arlindo. Meu coração palpitou quando ele disparou contra os dois por três vezes, errando os disparos efetuados a esmo. Sabrina e Saulo se entreolharam, e ouvi um grito da parte de Arlindo quando ele me avistou. Outro estampido encheu o ar, e por puro reflexo, me joguei no chão batendo com o pulso que eu ferira meses atrás contra o chão. A dor reacendeu a velha torção mal curada, e encolhi-me pressionando o ferimento contra o peito, deitada em posição fetal atrás de um dos veículos abandonados e estragados. Reunindo forças, arrastei-me o suficiente para que meus olhos pudessem captar o que se passava mais à frente. Olhando também para os lados, notei que alguns zumbis já haviam percebido a minha presença no local, bem como a dos outros.
Nervosa, decidi que só sairia daquele lugar quando tivesse certeza de que Sabrina ficaria bem. Ela havia salvado minha vida antes de encontrarmos com Lupa, e eu devia isso a ela. Ansiosa, acompanhei os desdobramentos do que seria uma das mais violentas lutas que eu já presenciara até então. Tentando usar a arma, Arlindo percebeu que havia ficado sem munição. Sorrindo, Saulo sacou seu revólver, sendo impedido de matá-lo por Sabrina. Ela então retirou sua própria arma da cintura, e entregou-a ao colega, tomando a dianteira.
— Finalmente, vou me ver livre de você. – cuspiu Sabrina, com lágrimas de ódio ardendo em seus olhos. O vento fazia com que sua farta mecha de cabelos loiros esvoaçasse contra o rosto. – Você vai pagar por tudo que fez a mim.
— Vou, é? Pra mim, você bem que gostou. – rebateu o homem, com uma risada rouca. Saulo vacilou um pouco, incerto.
— O que ele fez Sabrina? – a completa dúvida em sua voz, fez com que Arlindo risse ainda mais, um riso que revolveu minhas entranhas.
— Eu comi a vadia! – gritou, abrindo os braços. – E você, seu escroto, nem percebeu nada! Eu podia ter pegado sua irmãzinha também, aquela ninfeta... – antes que ele concluísse a frase, um tiro ecoou seco. A perna de Arlindo foi atingida, e ele caiu de joelhos, praguejando.
— Não! – gritou Sabrina. – Ele não merece morrer rápido! – irritadíssima, ela se moveu sinuosa como uma pantera. Seu avanço ondular terminou com um chute que acertou Arlindo no meio da boca. O homem se contorceu no chão, sujando-se de areia e pó, cuspindo sangue abundantemente. – Por cada noite de agonia... – Sabrina pisou em sua perna ferida, e ele gritou. – Por cada toque, por cada palavra que você me disse... – mais um chute, depois outro. Curiosamente, não tive pena alguma de Arlindo. Talvez, eu estivesse perdendo minha humanidade, já que não podia suportar a violência, meses atrás. Ou talvez, o desgraçado simplesmente merecesse.
Por um breve momento, esqueci-me de olhar para trás, e senti um aperto em meu ombro. Virei a tempo de deparar-me com o rosto destruído de uma mulher de meia-idade. Abrindo a boca cheia de dentes em putrefação, ela jogou seu peso sobre mim, tentando morder-me. Eu já vivera aquilo antes, então estava preparada. Agarrei-a pelos cabelos e bati com seu rosto contra o chão, jogando todo o meu peso naquele movimento. Ainda bati mais algumas vezes, antes que seu corpo parasse de protestar e ela de fato, morresse. Eu estava finalmente, aprendendo. Lembrei que apenas o chute de Sabrina fora capaz de matar um zumbi em avançado estado de composição. O que tantos golpes fariam com Arlindo, considerando a fúria que ela estaria sentindo?
Saulo provavelmente percebeu a aproximação dos mortos tanto quanto eu, pois começou a disparar contra aqueles que se aproximavam um pouco mais. Nossa maior sorte, é que a maioria dos zumbis que alcançava o topo do morro já estava deteriorados e fracos demais para representarem uma ameaça real. Sabrina desferiu outro golpe contra Arlindo, mas desta vez ele esperava o ataque. Agarrando o pé dela, ele a derrubou de costas no chão, com uma força de impacto que me assustou, mesmo de longe. Saulo tentou mirar com a arma, mas os dois se embolaram de tal forma, que ambos poderiam ser atingidos caso ele tentasse interferir. Logo, Sabrina deu uma cotovelada no pescoço de Arlindo, e lutando para se levantar enfiou os dedos no ferimento da perna de seu adversário. Erguendo-se e arfando, ela preparou-se para chutá-lo mais vezes, enquanto nosso inimigo gemia e chorava agarrando sua perna. Contudo, Saulo a segurou pelo ombro, com um gesto de negação. Sabrina pareceu irritar-se, mas acabei me aproximando e entrando em seu campo de visão a tempo de impedi-la de protestar. Ela percebeu que eu estava assustada, e também exposta ao perigo ali fora. Então recuou. Sorri orgulhosa por presenciar a restauração de sua honra. Seu pesadelo estava acabado.
— Temos que levá-lo para Ricardo. Ele é o líder desse grupo, e Arlindo feriu seus amigos, e não respeitou a hospitalidade com que fomos recebidos. Ainda não sei o que o levou a tentar dominar o lugar, ou se ele esperava que o ajudássemos. Mas fomos todos recebidos com tiros ao chegar aqui, então estou curioso para descobrir. E quanto ao que ele fez a você, Sabrina, eu sinto muito. Como seu amigo, falhei com você. Eu devia ter percebido, devia ter ajudado... – lamentou-se Saulo, terrivelmente chateado.
— Não se preocupe querido. Eu não queria que ninguém soubesse. Eu temia que esse animal pudesse feri-los. E a julgar pelo estado em que encontramos Luca e Ricardo, ele poderia, sim. – Sabrina sorriu, e pegou minha mão. Saulo assentiu com um gesto, e puxou Arlindo pela camisa, puxando-o na direção do acampamento enquanto o homem ferido simplesmente o seguia sem vontade.
Seguimos juntos, até que me detive para fechar os portões da barricada. Sabrina matou um zumbi que havia se esgueirado para o interior dos nossos limites, e fiquei aliviada por não termos de lidar também com uma invasão. Tomando consciência de mim mesma, senti-me subitamente suja e cansada. Meus ossos doíam como quando saía da academia de musculação, antes do mundo acabar. Olhei para as casas e para a mesa que utilizávamos como refeitório a céu aberto, suspirando ao contemplar os restos de fogueira que haviam ficado para trás. Com o sentimento triste de que nosso lar havia sido profanado pelo homem que caminhava à minha frente, segui Saulo até o centro do acampamento, onde em breve conheceríamos seu destino.
Victoria.
Ricardo grunhiu quando Madeline pressionou o pano de prato embebido em álcool contra a sua testa. O enorme ferimento provocado por Arlindo havia parado de sangrar alguns segundos atrás, mas vê-lo limpo fazia-o parecer muito pior. Meu velho amigo vez ou outra sorria para mim, tentando tranquilizar-me enquanto eu aguardava um veredicto de Tânia, a respeito do estado de Luca. Fernanda estava sentada em uma cadeira ao meu lado, nossas mãos ainda unidas num forte aperto. Carolina dormia no quarto de Madeline, totalmente exausta. Diana usara a cama de Tânia para limpar a mordida de cachorro na perna de Jonas, e agora ele também cochilava, sem entender direito o que havia acontecido em nosso acampamento. Eu também não entendia. Diogo estava sentado no sofá da sala, com a perna enfaixada. Tânia havia enganado-o para tomar um calmante, e agora ele dormia. Os gêmeos estavam sentados no chão, de pernas cruzadas enquanto acompanhavam os acontecimentos com interesse. Então Ricardo pediu que sua mãe parasse de limpá-lo com um gesto, e ela recuou. Com ar cansado, ele sorriu para mim, e pude notar seus lábios rachados pelo sol a que fora exposto.
— Fico feliz que esteja viva, Victoria. Faz algum tempo. – com uma piscadela, sua alegria ergueu o meu humor como fogos de artifício nas festas de ano-novo. – Vilma, Dino, posso pedir algo a vocês?
— Claro Rico. – concordou Vilma, sorrindo. Ela parecia ansiosa por ajudar.
— Sabem como arrombar uma fechadura? – indagou Ricardo, animado.
— Oh sim, fazemos isso direto no Depósito, pra roubar batatinhas fritas e... – Dino interrompeu-se ao receber um olhar raivoso de Vilma. – Desculpe. – emendou, com uma expressão forçosamente angelical.
— Tudo bem, estão desculpados. Podem repetir isso, e soltar Hugo e Eloá para mim? Luca e Carolina estavam tentando fazer isso quando o homem malvado os machucou.
— Tuuuuudo bem! – reagiu Dino. – Porta aberta! – então ele e Vilma se retiraram correndo, e tive que sorrir ao ver o modo como Fernanda olhava para eles. Ela parecia alegre, e também preocupada. Talvez temesse que a infância de ambos houvesse sido perdida. E de fato, havia. Mas não seria possível fazer muito a respeito, num mundo daqueles...
O silêncio repentino na sala foi interrompido pelo som da porta do quarto para onde Luca fora levado, se abriu. Tânia saiu com uma expressão grave, removendo as luvas de borracha que vestira às pressas para poder manusear o ferimento de Luca. Ela parecia nervosa, suada e cansada. Ao notar a expressão em seu rosto, senti meu coração falhar uma batida, e despencar em mim mesma. Com certeza, não era nada bom. Comovida, Diana me olhou com sentimento, acariciando minhas costas depois de abraçar-me com ternura. Ela se lembrava de Luca do tempo em que havíamos nos visto pela primeira vez. Fernanda apertou minha mão um pouco mais, e então percebi que deveria dizer algo. Seria doloroso, mas necessário.
— E então, Tânia? Como está Luca? – inquiri com cuidado. Temia a resposta.
— Ele está mal, Victoria. Não posso mentir para você. Só pude limpar o ferimento, mas seria necessário retirar o projétil. Coisa que não será possível a menos que alguém arrombe a Enfermaria, ou recupere a chave com Arlindo. Temo que Luca esteja enfrentando uma hemorragia, também. Talvez precise de uma transfusão, e logo. Por sorte, o tiro o acertou no lado direito, longe do coração. Pelo que vi, a bala ficou presa ao osso, sem perfurar os órgãos internos. Mas há sempre o risco de que um fragmento do tórax tenha perfurado alguma artéria ou veia importante. Temos que agir rápido. – as peças foram colando-se em minha mente, como um cenário devastador. Eu tinha que fazer algo, mas me sentia tão impotente. Os nervos de meus braços tremeram em espasmos soltos, e abracei-me para contê-los.
Todos pareciam chocados e com medo. Nosso torpor breve foi interrompido com o som da porta da frente batendo. Logo, uma Sabrina suja e desgrenhada entrou no ambiente, seguida de perto de Ana. Ela tinha duas chaves na mão, e as entregou a Ricardo. Havia sangue em Ana, e Sabrina estava com um ferimento na nuca, como o de uma queda, além de alguns arranhões nos braços, no colo, e um corte no lábio inferior. Ana não estava tão mal, mas parecia cansada e tristonha.
— Arlindo está preso. Os outros estão vigiando lá fora. – disse a loira.
— Vou precisar limpar esses seus machucados, querida. – disse Madeline, segurando seu pano com álcool e sorrindo. – Devo admitir que estou muito feliz em ver vocês. Eu sabia que Arlindo não duraria muito.
— Eu também estou mais aliviada. – concordou Tânia sorrindo. – O modo como aquele homem me ameaçou, fez arrepiar até meus pelos íntimos! – todos gargalharam mesmo eu. Notei com surpresa, que estar de volta ao Trocado, era tão bom quanto estar de volta a meu lar anterior. O sentimento, contudo, se dirigia às pessoas, e não ao lugar. Onde meus amigos estivessem, estaria meu coração. E como num ditado antigo, onde estivesse meu coração, estaria também meu tesouro.
— Precisamos resolver este assunto. – disse Ricardo, seu rosto tornando-se mais sombrio. Ele não teria clemência. Vendo-o como um verdadeiro e duro líder, senti-me contente por ter mudado meu voto quando Armando havia sido morto, e um novo líder tornou-se necessário. Solícita, levantei-me para acompanhar Ricardo até o lado de fora, ciente da presença de Nanda ao meu lado. Algo havia acontecido a ela, embora eu não me atrevesse a perguntar de imediato. Haveria tempo para tudo isso, depois.
Como uma procissão, saímos da casa que agora pertencia à Fernanda. No lado de fora, Mozart, Otávio e Julia dividiam um banco de madeira, enquanto Saulo mantinha Arlindo preso ao chão, com a arma preparada para atirar a qualquer sinal de movimento. Ao longe, vi Eloá descendo a rua com os gêmeos e um menino muito bonito, com cabelos coloridos em loiro, preto e alguns toques de verde e azul. Parecia uma boa pessoa. Ricardo sorriu ao ver o rapaz, e percebi algo que havia me escapado desde o começo. Ricardo era gay. Perceber aquilo me fez sorrir comigo mesma, porque eu nunca deduziria isso se não tivesse presenciado aquele momento. Sabrina e Ana também saíram da casa, assim como Diana e Madeline, seguidas por Tânia. Todos estavam se reunindo, prontos para o primeiro julgamento do novo mundo...
Otávio.
Vi os outros saindo da casa de Fernanda, com exceção dos feridos, que provavelmente não poderiam se mover livremente por algum tempo. Apesar de toda a minha curiosidade sobre o estado de Luca, que era aquele que parecia em pior, me contive diante do olhar frio de Ricardo. Ele parecia pronto para executar Arlindo friamente. Não consegui compreender a extensão do problema que havíamos enfrentado. Para mim, apenas havíamos sido recebidos por tiros por um homem maluco. Na minha concepção, outro grupo poderia ter dominado o Trocado, e não apenas um homem. Eu ainda me perguntava como aquilo podia ter acontecido. A ausência de Rafael também não parecia ter sido notada por nenhum dos meus colegas, tão imersos que estavam na confusão. Mas um detalhe como esses nunca escaparia a mim. Eu tendia a compensar minha inaptidão física com astúcia, principalmente em momentos de tensão, como aquele. Troquei um olhar ansioso com Julia, e tentei animar Mozart com um sorriso, já que o menino parecia pálido e coberto de pavor. Ri internamente, ao notar que finalmente tínhamos encontrado alguém mais covarde do que eu. A expressão de Ricardo se suavizou, e um sorriso inundou seu rosto quando viu Hugo. O garoto parecia abatido, mas bem. Já Eloá, estava horrível. Tinham hematomas por todo o seu corpo, além de um olho roxo terrível. Ricardo os saudou com um sorriso, e depois se virou na direção de Arlindo.
— Olá a todos. – anunciou-se Ricardo. – Otávio, poderia nos apresentar o novo amigo? – percebi que ele estava falando comigo, e sorri.
— É claro. Pessoal, este aqui é o Mozart. Encontramos com ele depois de sermos atacados por uma Inumana. Ela foi morta por Victoria, e conseguimos escapar. Infelizmente, perdemos Miguel. – informei, omitindo Nora do relato. Já tinha muito drama para que eu acrescentasse mais.
— Um amigo se foi, e ganhamos outro. – sorriu Ricardo, tranquilizando o rapaz. – Saulo, precisamos levar Luca para a Enfermaria. Você e Mozart poderiam carregá-lo outra vez? Tânia vai coordená-los ao chegarem lá. Assim que terminarmos aqui, me unirei a vocês. – pediu Ricardo. – Pode deixar a arma comigo. Arlindo não irá a lugar algum. – acrescentou ele, recebendo uma cuspida de Arlindo, em resposta. A saliva ensanguentada acertou o chão diante dos pés de Ricardo. Ele ergueu uma sobrancelha, com indiferença. Tânia pegou as chaves da Enfermaria da mão de Ricardo, e levou Saulo e Mozart para dentro da casa, com o intuito de buscar Luca. Victoria parecia aflita, mas não se adiantou para acompanhá-los. – Arlindo, estamos reunidos aqui para julgá-lo, como numa sociedade democrática. Contudo, como líder deste acampamento eu declaro a pena de morte viável. E ela será aplicada a você, se assim for decidido. Acusações? – a pergunta de Ricardo saiu dois tons mais alto do que o restante de suas palavras.
— Eu o acuso pela morte de Rafael. – disse Eloá, raivosa. – O acuso de agressão e espancamento, também. – Arlindo sorriu totalmente insano. Mas ele não se atrevia a dizer nada. Se o fizesse, talvez mesmo eu perdesse o controle.
— Eu também o acuso de agressão, e cárcere privado. – disse Hugo, implacável. – O acuso de ameaçar todos nós de morte. E o acuso por agredir Ricardo.
— Eu o acuso por me violentar, me agredir, e tentar me matar. O acuso de acertar Luca com um tiro no peito, agredir Carolina e ferir Diogo com um tiro de raspão. – disse Sabrina, chocando a todos.
— Eu também. – disse Fernanda, chorando. Meu peito palpitou, e fiquei completamente horrorizado. Quem seria capaz de fazer algo assim a ela? Então olhei para Arlindo mais uma vez. Descobrir todo o mal que ele havia feito, mudou até mesmo minha percepção sobre sua aparência. Agora, ele parecia uma animal, para mim.
— Sugiro a pena de morte. Quem concorda? – disse Ricardo, tenso. Seu rosto escureceu ao ver todas as mãos erguidas, em aprovação. Victoria parecia instável, tremendo discretamente. Eu julgava que ela estivesse tendo um trabalho excepcional para conter Nora, que devia estar agitando-se em seu interior, raivosa.
Os momentos seguintes nunca sairiam da minha cabeça. Ricardo fez um sinal para que Hugo levasse as crianças para dentro. Dino protestou, alegando que desejava assistir a execução. Vilma o silenciou com o um olhar, e os dois entraram em casa, enquanto Tânia saía com Mozart e Saulo, os dois homens levando um Luca branco como papel, na direção da Enfermaria. A urgência do estado de meu amigo parecia ter tornado tudo ainda mais grave. Desejei a morte daquele homem tanto quanto desejava sobreviver. Ele havia assassinado Rafael, uma das pessoas mais leais que eu já conhecera. Além de ser esta uma morte extremamente triste, ele também deixara Luca à beira da morte. Independente de tudo o que havia acontecido, ele ainda era meu amigo. Não deixaria o cara que o feriu, vivo. Ricardo destravou o revólver em suas mãos, e o som do objeto de metal silenciou até meu pensamento. Todos pareceram segurar a respiração, quando nosso líder preparou-se para executar a sentença.
Porém, Fernanda foi mais rápida. Atirando-se contra Arlindo numa fúria cega, ela puxou a faca de Hugo da cintura do rapaz antes que ele pudesse esboçar reação. Para mim, ela devia estar premeditando suas ações desde o início do “julgamento”. Com um único golpe, ela rasgou a garganta do homem, a pele negra abrindo-se para uma torrente vermelha, que esguichou e espirrou sangue para todos os lados, sujando a varanda da casa, e molhando Nanda em sangue. Victoria havia tentado segurá-la, e também ficou suja. Julia levou um susto, e começou a chorar. Ela segurou a minha mão por impulso, e nos olhamos por um momento. A imagem de seus olhos assustados demoraria a sair de minha mente. Ela escondeu o rosto em meu ombro, evitando olhar para a morte. Fernanda, por sua vez, soltava um grito de desvairo capaz de gelar o coração de todos nós, ouvintes. Todos estavam paralisados, presos em um estado de suspensão animada. A jovem ruiva havia sentado sobre os próprios joelhos, coberta de sangue. A pele mais vermelha que seus cabelos, pela primeira vez. Agonizando, o corpo de Arlindo ainda sacudiu-se algumas vezes, antes que ele morresse definitivamente. Victoria abraçou Fernanda por trás, e a menina começou a sacudir-se em espasmos, abraçando-a de volta. Diana fitava a cena com os olhos marejados, e Ricardo tinha a boca escancarada. Um barulho levou a atenção de todos para a porta, onde um Diogo ferido e dopado tentava descobrir a origem do problema.
— Que zorra é essa? – sua voz, contudo, morreu ao ver Victoria e Fernanda sentadas sobre uma poça de sangue.
Victoria.
Hugo esfregou a toalha úmida em meu rosto, limpando os últimos resquícios de sangue. Estávamos em uma salinha na Enfermaria, e Otávio nos fitava com preocupação. Ao meu lado, Fernanda abraçava o edredom com o qual havia sido envolvida, sem dizer uma única palavra. Diogo também estava ali, me olhando com uma cara esquisita. O ar de bom moço preocupado, definitivamente não combinava com ele. Em uma das salas ao lado, Luca estava sendo operado por Tânia, com a ajuda de Ricardo. Eu estava ansiosa pelo resultado da cirurgia, mais do que podia colocar em palavras. Afaguei o braço de Nanda, que havia ficado enregelada desde a morte de Arlindo. Aquela cena demoraria a sair de meu sistema, mas não era nada de extraordinário, desde que meus dias haviam resumido-se a matar zumbis, ou ser morta por eles. O fator perturbador era algo tão brutal ter partido de Nanda. Mesmo nosso elo mais amoroso e gentil, fora incapaz de permanecer intocado por aquele mundo. Como se ela pudesse ouvir meus pensamentos, minha amiga levou a mão ao pescoço, e retirou seu crucifixo de prata, depositando-o sobre uma bandeja cirúrgica sobre a cama onde estava sentada. O som da prata retinindo contra o aço pareceu exageradamente alto, quando ergui meu olhar para encontrar o de Diogo. Ele também parecia cansado, e devastado. Hugo estava mudo, ao meu lado. Ele desviou seu olhar do meu e começou a recolher os panos que havia usado para limpar a pele de Nanda, escondendo as lágrimas que haviam vencido suas barreiras emocionais. Apesar de não conhecê-lo muito bem, decidi que definitivamente gostava daquele garoto, pelo amor que havia demonstrado com aquele simples gesto. A porta da salinha abriu-se, e Diana e Ana adentraram o local, com expressões incertas. A verdade era que todos estavam desconcertados, com os últimos acontecimentos.
— Olá, Vicky. – sorriu Ana. – Você parece bem. – ela se aproximou de Nanda, e a abraçou. A menina mais jovem retribuiu o gesto, e sorriu fracamente. – Viu só? É bem melhor te ver assim, querida. O sorriso cai bem em você. – Diana também se aproximou de Ana, seu olhar maternal perquirindo a jovem.
— Querida, este crucifixo lindo é seu? – esquadrinhou suas mãos tateando o trabalho fino que envolvia a simples cruz metálica com pequenas vinhas e flores. – Sabe, você lembra minha pequena Lívia. Ela tinha cabelos de fogo como os seus lindos fios. Ela e meu marido se foram agora. Estou sozinha no mundo, como você pequenina. – Nanda ergueu o olhar para Diana, extremamente emocionada. Parecia uma criança novamente. – Também sou cristã, minha filha. Não desista do nosso Deus. – enxugando uma lágrima da menina, Diana colocou o colar de volta em seu pescoço. – Todo o mal passou. Enquanto houver esperança, ainda teremos uma forma de sobreviver. O que você fez, não lhe condenou ao inferno. Você já se arrependeu, e nosso Senhor perdoa. Você só precisa perdoar a si mesma...
Fernanda desabou. Chorando abertamente, era como se ela finalmente conseguisse colocar para fora toda a dor e revolta pelo que havia lhe acontecido. Ela abraçou Diana, e a mulher confortou-a como se abraçasse sua própria filha, chorando tanto quanto Nanda. Diogo tentou esconder seus olhos marejados saindo da sala, mas não antes que eu pudesse vê-lo. Sorrindo, percebi que eu também estava emocionada. Hugo trocou um olhar comigo, e afagou meu braço antes de se retirar, também. Otávio se aproximou da cama que eu dividia com Fernanda, e sentou-se no chão ao nosso lado. Ana sorriu, e sentou-se com ele, deitando a cabeça em seu ombro. Diana beijou a testa de Nanda, e saiu da sala alegando que traria algo para comermos.
— Hey. – disse Otto. – Animem-se, meninas. Estamos todos juntos de novo. – Nanda conseguiu sorrir, secando seu rosto.
— Já limparam tudo. – contou Ana. – O corpo daquele monstro está bem longe de onde nossos amigos estão descansando. Fizemos um túmulo para o Miguel também, e outro para o Rafa. Eloá e Sabrina cuidaram de tudo. Saulo e Mozart limparam tudo. Madeline e as crianças estão preparando o jantar. Carolina e Jonas estão descansando. – após os informes, ela e Otávio se olharam de forma esquisita, e mesmo Nanda pareceu desconfortável.
— O que eu perdi gente? – busquei saber, confusa.
— Agora que você voltou, precisamos falar sobre algo, Vicky. – disse Otto. Fernanda concordou, com um aceno. – Todos pensaram que você estava morta, sabe? E nesse tempo em que estivemos de luto, bem... O Luca e a Carol, eles... Ér... Ficaram. Sabe, juntos. Meio que morando juntos. Só os dois. – ele fez uma careta e olhou para Ana, que parecia tão desconfortável quanto.
— Eles não sabiam sobre você. Mesmo discordando da atitude dos dois, eles estavam desimpedidos... – amenizou Fernanda. – Mas a Ana bateu na Carol...
— Menos do que ela merecia. – corrigiu Ana, sorrindo.
E o quê eu pensava daquilo? Meu coração parecia murchar ao perceber que, embora fosse doloroso descobrir que Luca e Carol haviam seguido como se minha morte fosse algo banal, me senti menos decepcionada e irritada do que imaginei. Eu já sabia da atração que eles compartilhavam, e desde o dia em que havia descoberto os dois se beijando, no fundo já esperava que um dia Luca escolhesse Carolina, outra vez. Afinal, eu havia me apaixonado por ele quando os dois namoravam, e o destino era tão cruel, a ponto de precisar do fim do mundo para mostrar-me que eu nunca o tivera de verdade. Memórias e fragmentos de minha vida pregressa sacudiram minha memória, liberando uma única lágrima de meu olho esquerdo. Nosso abraço compartilhado no enterro de meu avô, o beijo molhado e salgado que havíamos trocado naquele mesmo dia. Nossa primeira noite, no dia da formatura. O modo como ele havia me mantido segura após nosso acidente com o carro. O jeito como me segurara em seus braços durante a noite, proporcionando-me paz apesar do desespero. Tudo aquilo fizera parte da minha história, e de um jeito saudoso e reverente, percebi que aquele capítulo, estava acabado.
Ainda assim, acho que devíamos arrebentar aquela vadia traíra. Vai, Vicky, deixa! Tô louca pra socar uma vadia! A ruiva cortou meu barato com o tal do Arlindo, estou na desvantagem!
Apertei os olhos com força, esfregando os dedos nas têmporas. Os gritos de Nora estavam me fazendo odiá-la. Como alguém podia falar tão alto, sem ao menos ter voz? Não era justo! Mesmo que a hipótese de ferir Carolina fosse tentadora, não era culpa dela por amar Luca. Não se ele também correspondia seu afeto. Eu não tinha o direito de atrapalhar a felicidade deles. Muito menos de agredir uma pessoa que estava cansada depois de ter sido agredida tentando ajudar aos outros. Não permitiria que Nora fosse tão absurda. Ela podia tirar o cavalinho da chuva. Um muxoxo de desagrado ecoou em minha mente, mas ela aquietou-se. Abri os olhos, e com humor vi Otto e Ana de olhos arregalados, com medo de Nora. Nanda parecia mais tranquila.
— Relaxa pessoal. Eu estou no comando. – garanti, e eles se acalmaram. Otto pareceu querer dizer mais alguma coisa, mas Tânia abriu a porta do quarto, trazendo à tona o assunto mais emergencial no momento. – Tânia! E aí? Como foi tudo? – levantei rápido demais da cama, e tonta, me apoiei em Nanda para não cair.
— A operação correu bem. – me alegrei, mas a expressão da enfermeira não me permitiu comemorar muito. Algo não estava tão bem assim. – Mas infelizmente, Luca teve uma hemorragia. Ele precisará de uma transfusão de sangue, se quisermos salvá-lo. Preciso dar um jeito de conter o sangramento, mas ele já está sangrando há muito tempo para aguentar muito mais... Ricardo vasculhou as fichas dos moradores, que ele anotou quando todos chegaram aqui... Só uma pessoa tem o sangue do mesmo tipo que o Luca. Ele precisa de você, Victoria. Aceita ser a doadora? – a pergunta de Tânia apertou meu peito. Mesmo magoada, eu faria tudo para que Luca ficasse vivo.
— Eu aceito, é claro. – concordei. Nora bufou um “Idiota” em minha mente, mas a ignorei dignamente.
Menos de meia hora depois, eu estava sentada ao lado da cama de Luca. Minha mão gélida permanecia fechada, forçando o sangue a fluir para uma garrafa de vidro, com o nome Fanta Laranja gravado. Revirei os olhos para a ideia que Tânia tivera, inspirada nas dramáticas cenas hospitalares do filme Pearl Harbor. Eu odiava agulhas, e me sentia extremamente enjoada com exames de sangue. Doá-lo, conseguia ser ainda pior. Minhas pernas estavam bambas, e os pés pareciam suados dentro das minhas botas de couro preto. Esfreguei minha calça Jeans com a mão livre, e soltei um suspiro de nervoso. Olhei para a garrafa, que estava próxima da metade. Tânia aguardava, em expectativa. Diogo se recusara a esperar do lado de fora, e me fitava com impaciência. De uma forma muito egoísta, ele estava com raiva por eu ser obrigada a fazer algo que me deixava mal. Apesar de minhas tentativas em explicar a importância do meus gesto para Luca, ele havia permanecido irredutível.
Assim como eu, se pudesse opinar. Nosso precioso sangue sendo transferido para o Luca... Eca! Sabe o quê algumas comunidades religiosas diriam disso? Um ato abominável se quer saber...
Mentalmente, mandei Nora pastar. Tânia olhou para a garrafa de sangue, e com um estalar de língua, deu por encerrada a primeira transfusão. Ela retirou a agulha do meu braço, e desatou a borrachinha que me apertara até então. Meio tonta, permiti que ela dobrasse meu braço sobre um pedaço de algodão, e pressionei o local com meus dedos. Eu me sentia totalmente imersa em mal-estar, quando o assunto envolvia sangue. Tânia recomendou que eu me alimentasse, e Diogo me amparou enquanto me retirava do quarto de Luca. Eu só rezava para que de alguma forma, ele ficasse bem. Eu repetiria a transfusão quantas vezes fossem necessárias, mas ele precisava viver. Caminhamos até o refeitório em silêncio, cumprimentando Saulo, Madeline, e as crianças no caminho. Na mesa de madeira onde ficavam as refeições, havia mais comida do que eu me lembrava de ter visto em semanas. Arroz, salsicha enlatada, biscoitos de água e sal, água do rio fervida, algumas maçãs meio estragadas, mas ainda comestíveis e até mesmo algumas latas de feijoada. Peguei alguns biscoitos e uma lata de salsichas, e Diogo me levou até a casa que ele utilizava antes de sair junto com os outros para nos salvar na Secretaria de Obras.
Era a primeira vez que eu via o lugar onde Diogo dormia. Desde que Ulisses, seu antigo colega de quarto, havia sido morto no lago que fornecia água para o acampamento. Por dentro, o lugar era surpreendentemente agradável. De acordo com Diogo, pertencera a uma família de seis pessoas, que haviam ido embora assim que os boatos sobre a infecção haviam sido divulgados para a população. Àquela altura, todos os ricos e poderosos estavam em um local seguro, e os centros urbanos por onde os pobres teriam que transitar cheios de mortos vivos. Senti o cheiro de Diogo inundar o ar, quando toquei em uma das almofadas verdes sobre o sofá de couro marrom. Aproximei-a do rosto, escondendo um sorriso. Ele estava arrumando as coisas desajeitadamente, até que reparou no que eu estava fazendo, e virou-se para mim, com um sorriso. Joguei a almofada de volta no lugar, com as bochechas ardendo.
— Tá tudo bem, loira? – Diogo tinha um ar sacana que eu não gostava nada. Ele sempre parecia estar me desafiando, explorando as partes menos agradáveis de minha personalidade.
— Tudo ótimo, Diogo. E com sua perna? – perguntei, apontando para o ferimento enfaixado.
— Quase nova. Vai ficar boa logo. Senti sua falta, Victoria. – ele falou isso mesmo? Nunca pensei que Diogo pudesse admitir algo tão frágil e comum, de maneira tão espontânea.
— Também senti sua falta, Diogo. – admiti. – Fico feliz que tenha voltado para nossos amigos. Me senti arrasada quando vi o carro que você tinha pego todo cheio de sangue.
— Se arrependeu de não vir comigo? – ele estava brincando comigo, com um olhar cínico.
— Sinceramente, não. Se eu não tivesse feito o que fiz, Nanda não estaria aqui. E valeu à pena, apesar de tudo que deu errado. – decidi. Eu não lamentaria o passado. Ele não mudaria nunca, de qualquer forma. – Olhando para trás, acho que o saldo foi positivo. Eu não sou mais a mesma. E você também não.
— É, não sou mesmo. Fiquei meio maricas convivendo com vocês... – resmungou Diogo, rindo no final.
— Ser bom não tem nada a ver com a masculinidade. – disse, sentando-me no sofá. De pé no vão que levava aos dois quartos da casa, Diogo fitou o chão por alguns instantes. Ele esfregou o rosto, e pareceu considerar por alguns instantes. Então veio na minha direção, me pegando totalmente de surpresa. Ele abaixou-se de frente para mim, colocando uma mão em cada uma das minhas coxas. Travei toda, ouvindo o som do sangue que pulsava para o meu rosto. Minhas bochechas deviam estar rubras de tão coradas.
— Eu gosto de você, loira. De verdade. Acho até que... Te amo? É, deve ser isso. Acho que te amo, Victoria... – meu mundo parou por alguns instantes quando ouvi as palavras de Diogo. Embora eu desconfiasse, achava que ele era muito amargurado pela vida para admitir algo sério tão facilmente.
— Diogo, eu... – não sabia o que dizer. Luca estava gravemente ferido, e nossa história não estava exatamente encerrada. Eu precisaria de algum tempo até fechar todas as portas, cicatrizar todas as feridas.
— Merda, Victoria, eu sei! Você ainda gosta do Luca, tá magoada porque ele te chifrou com a Carol, e eu sou bem mais velho, mas nada disso interessa. Eu só preciso saber se você sente a mesma coisa. Se você disser que não, paro de encher o saco. É só falar, não precisa de frescura. – as palavras de Diogo, embora duras, calaram-me. Acabei racionando a situação. De fato, ele estava certo. Desde o nosso beijo, ele era como uma presença no meu corpo, no meu coração. Mesmo que ainda fosse difícil aceitar todo o turbilhão que havia retirado tudo de seu devido lugar, peguei-me considerando se não seria possível aceitar as coisas como estavam agora. Eu me sentia mal por Luca estar ferido, mas o que eu sentia por ele não cabia naquele momento. Naquela casa, com o cheiro cítrico e amadeirado ao mesmo tempo de Diogo, só existíamos nós dois.
— Você não faz mesmo a menor ideia, né? – inquiri, rindo. – Eu sinto algo muito forte pro você, Diogo. Não pode ser algo natural, porque eu não me sinto normal quando penso sobre isso. Não sei se é amor, mas se for, então nunca amei de verdade antes. Porque não parece com nada que eu já tenha sentido, sabe? Você tem todos os meus opostos, e mesmo assim é difícil me imaginar longe. Eu não teria vindo até aqui sozinha com você, se não fosse desse jeito... – disse, quase não conseguindo respirar quando ele apertou seus lábios contra os meus. O beijei com paixão, sentindo a barba por fazer esfregar em meu rosto. Minhas mãos deslizaram pelos seus braços fortes, mas peguei-me afastando-o gentilmente. – Ainda estou fraca, da transfusão. Além disso, ainda tem toda a história com o Luca... Tudo bem se a gente voltar nesse assunto depois que ele estiver curado, ou... Você entendeu.
— Ok. Vou me comportar. – ele deu um sorriso torto, capaz de quase me fazer mudar de ideia. Sorri, e me levantei para tentar chegar ao quarto, vacilando um pouco com certa tontura. – Acho que a Tânia tirou muito do seu sangue. Vem cá. – ele me pegou no colo. A princípio, pensei em repeli-lo, mas acabei desistindo. Enquanto ele me carregava para o quarto, aconcheguei a cabeça em seu peito. Eu poderia me acostumar com aquilo. Era bom, e seguro.
Sendo levada em direção à escuridão, fechei os olhos e permiti que o sono de dias, enfim me levasse. Pois eu sabia que estaria segura. Diogo cuidaria de mim.
De nós, Victoria. Ele vai cuidar de nós.
Notas finais
Obrigado pela leitura! Kisses by DroppingPieces!
Fale com o autor