Quebranto.
113 Golpe de Estado.
Notas iniciais
Hugo.
Eu odiava o frio que fazia na Cadeia. Apesar dos cobertores em minha cela, a solidão era uma coisa implacável, uma parede invisível mantendo qualquer forma de calor afastada. Mesmo o emocional. Quando Carol tirou minhas algemas, senti em seu rosto toda a hesitação daquele momento. Acho que se Abel não estivesse ali com Arantes, ela me deixaria livre para conversarmos. Infelizmente, eles fizeram valer as ordens de Allan e Faye, deixando-me ali para remoer aquela injustiça. Antes que pudesse ficar sozinho, tirei meus calçados e sentei sobre a cama fina e dura que haviam cedido para meu conforto. Envolvi-me nas cobertas, um pouco menos agoniado com aquilo tudo.
— Estamos tentando encontrar as imagens daquele dia, Hugo. — Constrangida pela presença dos outros sentinelas, Carolina pareceu incomodada, tentando falar com privacidade. — Alguém sumiu com as filmagens daquela noite. Uma circunstância que só reforça a minha teoria de que você não é o culpado.
— Eu até entendo de computadores, mas nem de perto consigo hackear um sistema como o da Fortaleza e apagar as imagens de mim mesmo matando uma mulher com a mente. — Afirmei, gostando do som daquilo. — Até mesmo as pessoas me cumprimentaram hoje, no Pátio. Todos sabem que não fui eu. Como poderia ferir o Dino? Aquele pregador que fica no Pátio Central também já disse que não fui eu, pelo que Dante me contou. — Desde os ataques de João Pedro, um homem começara a profetizar, praticamente louco, por toda a cidade. Allan mandara prendê-lo no próprio dormitório, mas Faye pedira que o deixassem solto, pois outras pessoas pareciam encontrar sentido no que o pobre coitado dizia.
— É o que me perguntei nos últimos dias. — Ajuntou outra voz, masculina, com um tom neutro que surpreendeu a todos. Nos viramos para olhar enquanto Otávio se aproximava. — Você nunca faria mal a eles, Hugo. Não de propósito. Eu devia ter pensado direito. Me perdoa. — Sorri, olhando para o garoto que um dia eu tentara beijar numa praia de Búzios. Ele parecia tenso e tinha as mãos fechadas em punho ao lado do corpo, como se tivesse dito tudo num único fôlego, extremamente ansioso.
— Demorou muito. — Rebati, com uma carranca. — Pensei que fosse continuar dormindo acordado por mais tempo. — Carol e os outros apenas observavam, mas tinha certeza de que ela devia estar segurando sua língua. O que já significava um avanço, uma vez que ela simplesmente parecia humanamente incapaz disto, anos antes.
— Não demorou, não. Eu só estava envergonhado pela forma como tenho agido. Não só com você, mas com todos. Com nossa família. À respeito das situações, e da Fortaleza. Foquei muito em ser aceito e em alcançar posição neste lugar, pra garantir que continuasse funcionando para o meu filho, pros bebês da Nanda. E o quê isso me trouxe? Perco cada vez mais a esperança de achar Cecília, e os amigos que eu não magoei estão mortos. Devo desculpas a todos vocês. Principalmente porque deixei que chegasse a isso, virando um carreirista cuja maior aspiração era um lugar no Conselho. Agora que o consegui, não tenho mais nada. — Ele parecia arrasado, com os cabelos pretos bagunçados e as bochechas vermelhas. Mas eu amava aquele garoto idiota. Ninguém resistia ao verdadeiro Otto, que finalmente quebrava a crisálida frígida com a qual se envolvera desde que chegara naquele lugar. — Eu não devia ter deixado esse lugar me mudar.
— Não devia mesmo. Mas você mudou porque quis, também. Mas isso não te torna um imbecil, se consegue assumir. Saiba que seu pedido de desculpas foi aceito com ressalvas. — Avisou Carol, com uma risada sarcástica. — Vai ter que nos ajudar a investigar essa situação. Não vamos ser enganados outra vez. Nem que a gente vasculhe cada canto da Fortaleza, até as florestas do lado de fora. Vamos achar quem enfiou o Hugo nessa merda, matou nossos amigos na surdina e sumiu com a Cecília.
— Soa como um plano, pra mim. — Otto e Carol deram as mãos sob os olhares carinhosos de Abel e Arantes. Os três sentinelas se retiraram em seguida, deixando-nos a sós. As chaves de minha cela tilintavam na cintura de Carol, conforme ela descia as escadas. — Queria poder te dar um abraço, amigo. Depois de tudo que você fez, sendo preso desse jeito...
— Eu sempre tive vocação pro drama. Chega de sentir pena de mim. Ou culpa por ter dado chilique e me posto aqui. — Bocejei. — Ao menos Dante sempre está por perto. Ele me trouxe cobertores extras. Também dorme aqui, quando deixam.
— Bem, com todas essas câmeras, espero que dormir seja tudo o que vocês andam fazendo aqui. — Ri alto. Ele estava mesmo de volta! — Desculpa pela malícia. É que não sorrio desde o dia dos atentados. Achei que não fosse conseguir achar nada engraçado, outra vez. Mas agora que realmente decidi parar de surtar sobre cada detalhe ínfimo, não consigo mais ficar sério. Francamente. Só rindo, diante de tudo o que aconteceu comigo.
Ele estava coberto de razão. Conversei com Otávio por horas, até que Dante surgiu, molhado após um banho nos andares inferiores. Ele ficou surpreso com a presença de Otto, e também o desculpou, chegando a conversar conosco sobre as novas aulas que teria com Vicky e Diogo. Por minha vez, sugeri que Otto organizasse buscas nas florestas do lado de fora, uma vez que os sentinelas haviam revirado cada canto da nossa base. Com exceção dos territórios externos e do Laboratório de Faye, que certamente não poderia ser o local de um esconderijo. Mesmo assim, algo me incomodava. Algum detalhe, que estávamos deixando escapar entre os dedos. Otto partiu prometendo que conversaríamos mais sobre nosso plano de ação, assim que ele conseguisse se desculpar com todos nós. Ele ainda não conversara com Victoria. Há mais de uma semana que os dois não se falavam. Otávio realmente passara muito pouco tempo fora de seu novo quarto, individual. No andar dos Conselheiros, ele se tornara ainda mais solitário, e mesmo nas refeições, sentava-se ao lado de Allan ou Tássio, o mais longe possível dos outros. Dante dissera que na maioria das vezes ele nem aparecia, comendo no quarto mesmo. Agora, parecia ter ressurgido, mas ainda havia muito a recuperar daquele cara bem humorado e cheio de vigor. A tristeza ainda era um peso constante sem seus olhos. Olhando para Otávio na direção da escada, até que ele sumiu ao descê-las, Dante riu com a surpresa do que acabara de ocorrer. Eu também acabei rindo ao ver a chave de Carolina em sua mão direita, que ele usou para abrir minha cela e trancar-se comigo, deitando ao meu lado.
Não dormíamos tão bem há meses. Por isso que, quando acordamos para o caos que se desenrolava no lado de fora, quase não conseguimos compreendê-lo.
Victoria.
O clima na sala de reuniões era mais frio que o normal. E eu não estava me referindo à temperatura. Tensa, estalei os dedos das mãos mais uma vez. Ao meu redor, as pessoas com poder de decisão hesitavam, diante daquela cena incômoda. Como decidir quem seria o líder da comunidade? Todos sabiam que Hugo havia salvado a vida de todos, e ainda assim ele estava preso por orden do meu pai. Aquilo por si só, fizera com que muitos cidadãos dentre nossos sessenta e dois membros, deixassem de apoiá-lo. Era sobre isso que Helga comentava, assinalando que teríamos um grande desagrado geral de meu pai deixasse de ser o Conselheiro de Defesa e se tornasse nosso presidente. Diogo bufara ao meu lado, esfregando o rosto com impaciência. Ele não entendia porque fora chamado, e não gostava nada de burocracia. Uma mudança em nossa estrutura seria mesmo necessária, e eu julgava que ele faria parte disso, de alguma forma. Notei que meu queixo estava apoiado por tempo demais sobre minha mão assim que ela começou a ficar dormente. Assustada, sobressaltei-me ao notar que todos esperavam que eu dissesse alguma coisa.
— Bem. O que eu penso sobre isso? — Repeti, incerta. Helga acenou positivamente, seus cabelos loiros emoldurando os seios robustos. — Ora, se a maioria não quer meu pai como presidente, não rola de votar nele, né? — Meu vocabulário era totalmente infantil quando eu ficava nervosa. Suspirei. — Bem, me desculpe Faye, mas eu me recuso a votar em você, se não posso votar no meu pai. — Senti todos os olhares sobre mim, inclusive a hesitação e a pequena rachadura em sua máscara de apatia. Ela sorria como se não fosse grande coisa, mas todos os outros pareciam surpresos pela minha imposição. Ela seria o caminho natural, como substituta dele. Mas eu tivera outra ideia. Ou melhor, Nora tivera. — Bem, um segundo e eu explico. Se me derem licença... — Fechei os olhos por um breve momento, invocando Nora com a minha mais clara intenção. Eu entendia seu desejo imbuído em minhas palavras, e a dava permissão para defender desejos meus, que eu sequer compreendia.
— Olha, pessoal. É o seguinte: a Nora não é exatamente gentil. Mas ela não é má. Muito. — Riu Diogo, diante da perplexidade dos Conselheiros. Faye parecia assustada, enquanto Helga e Tássio olhavam com certo estranhamento na minha direção, assim que abri os olhos. Otávio estava perplexo, contendo um sorriso. Felipe parecia bem, no geral. Mas meu pai estava tenso.
— Ok. Explicando porque a Vicky não vai votar na Miss Japão. Ela não quer. Por que? Eu diria "porque não", normalmente. Até porque, numa eleição você não costuma justificar voto. Mas a questão é: Ela não serve. Essa mulher é claramente egoísta, e nesse ponto todos concordamos que o Hugo não teve escolha na sua transformação. Ponto dois: Ela criou uma mutação que, se tivesse saído errado, teria transformado o Hugo num monstro capaz de matar todos nós. Ou seja, é uma irresponsável. Terceiro: Não tem prática nenhuma lidando com uma crise verdadeira, nem liderando pessoas numa situação extrema. O mesmo erro que vocês cometeram com a Silvia, que era uma política e não uma líder pra esse mundo. E quarto... — Nora parou, segurando o dedo mindinho e pensando em seu quarto motivo. — Bem, eu não tinha um quarto. Mas agora tenho. A Victoria é uma escolha muito melhor. Mesmo sendo nova, tem o respeito do nosso grupo. E vamos combinar, sem a gente esse lugar já era. Vocês seriam zumbis engaiolados na Muralha. Então, eu voto nela. Quer dizer, em mim.
De braços cruzados, Nora encarou todos eles. Allan parecia chocado, enquanto Otávio sorria discretamente. Faye parecia incrédula, exibindo um humor que eu não vira modificar seus traços até então. Ela estava quase rindo abertamente. Devia achar minha sugestão absurda. Olhando ao redor, meu olhar tocou o de Tássio, e ele parecia bem animado, até. Talvez à despeito da forma eloquente e singela com que Nora verbalizara seu desagrado, eu tivesse mesmo defendido o meu ponto. Porque eu realmente achava tudo aquilo da Faye, ainda que não tivesse nada contra ela. Mas somente minha outra metade poderia dizer tudo aquilo tão bem.
— Não pretendo ofender. Mas como alguém com dupla personalidade pode ser melhor o que uma cientista renomada? — Helga indagou, tensa.
— Melhor duas personalidades, que nenhuma. Qual é, essa mulher parece um robô! — Nora debochou, e Diogo quase cuspiu sobre a mesa. Eu quis morrer.
— Victoria! Nora! Seja lá quem você for, não vou tolerar mais isso. — Allan levantou-se, e senti minha sobrancelha erguer-se para fitá-lo.
— Nora. E você não é meu pai. Eu nasci da Vicky, então caguei pro que você tolera ou não. Senta aí, porque contra fatos não há argumentos. Fomos nós quem descobrimos o que estava acontecendo e livramos o rabo de vocês. Nós trouxemos a senhora renomada viva de volta pra cá. E um dos nossos matou sozinho mais gente do que vocês treinaram, pra que nós estivéssemos aqui, agora. Nem você nem ela merecem liderar, embora sejam bons no que já estão fazendo. Você cuidando da segurança e ela... Você faz o quê mesmo, querida? — Nora estava sendo brutal. Otávio não aguentou e começou a engasgar, porque ele sabia que toda a Fortaleza fazia piada com as funções de Faye. As bochechas dela coraram, e sua expressão tornou-se mais robótica ainda que o normal. Helga não aguentou, e começou a cobrir os lábios, com um meio sorriso. Mesmo Felipe parecia envergonhado por rir.
— Quanta falta de respeito! — Allan estava furioso. — Eu quero minha filha de volta.
— Ela está bem aqui. Ouvindo. E concordando com tudo. Veja bem, eu não invento, seu Allan. No máximo aumento o que ela já pensa sobre as coisas. — Rindo, Nora virou-se para Tássio. — Vocês não precisam votar em mim. Só quis lançar a candidatura. Nem que eu tenha só o meu voto.
— Eu voto na Victoria também. Se Martha me colocou abaixo dela e confiou em mim, então meu voto é tão válido quanto qualquer outro aqui. E eu já vivi sob a liderança da Victoria. Ela sempre foi melhor nisso que o Ricardo. Prefiro minha vida nas mãos dela outra vez. Sem ofensa, Faye. — Otto sorriu, erguendo a caneta em sua mão. Emocionada, fechei os olhos por trás de Nora, reassumindo o controle. Uma lágrima desceu em meu rosto, olhando para meu melhor amigo. — Você é nossa melhor chance, irmã.
— Ninguém perguntou, mas se me chamaram, acho que posso votar. Vicky. — Diogo levantou a mão, e o encarei sorrindo. Também ergui a minha.
Meu pai estava olhando com a cara feia, totalmente irritado comigo. Não me importei. Seu olhar tornou-se ainda mais firme quando Tássio e Helga ergueram as mãos. Felipe não precisava, mas manifestou-se mesmo assim. Com uma superioridade numérica irreversível, ele ergueu a mão, e por último Faye, um tanto contrariada. Ela parecia decepcionada, embora seu rosto não entregasse nada. Papai estava bastante aborrecido.
— Espero que saiba o que fez, filha. Se colocou em perigo, numa posição na qual eu preferia ver outra pessoa. — Ele olhou para Diogo, e percebi que meu pai havia planejado que ele tivesse se oferecido como líder.
— Diogo nunca aceitaria ser um político, pai. Escolheu mal. Talvez se tivesse conversado comigo, tivéssemos elegido o Otto. — Ri, apontando para meu amigo, que apoiou-se em meu ombro.
— É, tio. O burocrata da família sou eu. Mirou mal. Acabamos elegendo alguém que realmente sabe o que está fazendo. — Zoando, Otávio fez Diogo rir.
— É bom ver você de volta, otário. — Comecei a rir com o trocadilho que meu namorado fizera com o nome do Otto, quando Helga aproximou-se.
— As pessoas vão se reunir hoje à noite, depois das tarefas, para anunciarmos nossa decisão. Meus parabéns, Victoria. Tenho certeza de que escolhemos bem. — Puxando-me à parte, Helga sussurrou conspiratória. — Eu também não estava engolindo a Faye como presidente. Falta carisma, entende?
Eu ainda estava rindo, totalmente incrédula, enquanto deixava o prédio da Diretoria. Otávio e Diogo estavam ao meu lado, como se eu nunca tivesse me desentendido com meu amigo. Realmente, não havia nada o que discutir depois do que havíamos feito lá dentro. Numa virada totalmente inesperada, por culpa da Nora, agora eu tinha uma responsabilidade com a qual não sabia lidar. Achava que seria mais fácil do que viver fugindo dia após dia, mas ainda assim, era assustador. A imagem de Silvia levando um tiro na minha cabeça sacudiu minhas ideias, proporcionando uma hesitação que eu não sentira até então. Imaginando o que faria para manter esta notícia em segredo, quase levei um susto quando chegamos ao Pátio Central e vimos a multidão que se reunia em plena praça. Todos estavam gritando, concordando em um coro, com um sujeito de barba que subira num caixote. Ele gesticulava para o ar, brandindo um cabo de vassoura, seus lábios movendo-se em fúria enquanto falava. A manhã enviava fortes raios solares sobre a Fortaleza, e a testa do velho brilhava de suor. A maioria de seus ouvintes eram zeladores, do pequeno grupo de quinze que haviam restado. Outros membros estavam ali. Funcionários das cozinhas, do Hospital, e dos Arquivos. Todos parecendo ainda mais entusiasmados à medida que nos aproximávamos.
— Mas que merda é essa? — Disparou Otávio, franzindo o cenho.
— A pior coisa que poderia acontecer. A porra de um culto. — Resmungou Diogo, e por algum motivo sua palavras me deram arrepios.
Se seu comentário era profético ou não, eu ignorava. Mas naquele instante, sabia que uma nova fase teria início na nossa comunidade. Para o bem, ou para o mal.
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