Quebranto.
27 Encontro Vermelho.
Notas iniciais
Quando me sentei na van, finalmente pude mover minhas próprias pernas. Aos poucos, Nora se acalmou e foi mergulhando cada vez mais para dentro de mim, depois que Lupa havia morrido. Ninguém perguntou nada quando Nora seguiu Diogo até a ambulância que o grupo de Saulo havia usado para nos achar. Ela sentou-se calada, e aos poucos pude retomar meus movimentos. O pior era que agora eu tinha medo de mim mesma. Eu sabia o que se agitava em meu interior, e não gostava nada. Por mais que Nora houvesse salvado minha vida a de meus amigos, ela também havia matado Lupa com uma violência exagerada, e gostado daquilo. Como eu poderia acreditar que ela não tentaria assumir o controle e matar aqueles que eram mais valiosos para mim? Automaticamente, senti uma espécie de coceira no interior de minha cabeça.
Se eu quisesse matar seus amigos, eles estariam mortos.
Ótimo, agora Nora podia se manifestar a respeito dos meus pensamentos.
Nossos pensamentos, Victoria. Nossos.
Certo. Já estava ficando chato. Concentrando-me no que havia ao redor, notei que os meus amigos estavam começando a subir no veículo. Julia, Ana, Sabrina, Otávio, Diogo e o garoto gordinho que havia sido salvo de Lupa se apertaram no espaço limitado. No banco do carona, Diana amparava Jonas, que havia sido mordido pelo cão de Lupa na perna, e estava sangrando muito. Saulo dirigia. Em silêncio, os olhares de todos em algum momento se voltavam para mim. Eu queria tranquilizá-los, mas sabia que também precisava de um tempo para me acostumar com uma dupla personalidade. Eles também precisariam, com certeza. Aquela nova face do meu ser era mais um elemento que eu subestimara sobre mim mesma. Eu nunca imaginara que fosse capaz da terça parte do que eu fizera desde que o mundo havia mudado. Na verdade, perceber as mudanças e reveses impostos por tal situação, havia tornado-se um padrão doloroso nos meus dias. Antes que eu percebesse, havia me tornado exageradamente consciente da presença de Diogo a apenas alguns centímetros de onde eu estava sentada. Ele ainda tinha o olhar fixo em mim, e através de minha visão periférica pude sentir a inquietude de seus pensamentos. Ergui a cabeça e apoiei meu queixo sobre as mãos.
— Estou horrível, não é? – indaguei, com um sorriso fraco. Otávio pareceu considerar por um tempo, e sorriu, antes de me responder.
— Um pouco. – ele esfregou os cabelos, e notei que Julia havia analisado os movimentos de meu amigo, como se o avaliasse. – Sei que não devia perguntar isso agora, mas estou me coçando. O que foi aquilo lá atrás? – bufou ele.
— Não sei. Acho que Nora faz parte do que eu sou agora. – considerei por um tempo, e fitei as ruas escuras, vez ou outra captando as luzes rubras dos olhos zumbificados que se moviam nas sombras. – Talvez seja um reflexo da minha mutação. Sou uma Inumana. Enquanto Jonas é mais rápido e mais forte do que a maioria dos humanos, eu devo ter assumido uma personalidade má e habilidosa...
— Isso é tão Heroes... – balbuciou Ana, fazendo Sabrina e o menino gordinho rirem.
— Se eu achava que você era uma nerd, agora tenho certeza, amor. – declarou a garota loira, sorrindo. Ana murmurou uma réplica pouco convicta, e o clima suavizou um pouco. Notei que o rapaz que havíamos salvado por acaso tinha percebido à alusão, e o olhei realmente pela primeira vez. Uma blusa do Creed com mangas compridas e um jeans preto com uma corrente na cintura evidenciavam seu estilo alternativo. Um de seus pés estava descalço, e o outro mantinha um All-Star de cano longo, rasgado em um dos lados. Seu rosto exibia uma barba por fazer, mas os olhos cor de mel eram bonitos e atenciosos. Sem dúvidas, uma pessoa boa que havia se juntado a nós. Ele ainda sorria, com algo em seu rosto semelhante a alívio. E não era para menos. Até poucas horas, ele era um homem condenado à morte. Pensar nisto, aumentou minha simpatia por aquele rapaz.
— Olá. Sou a Victoria. Qual o seu nome? – seu olhar esfriou um pouco ao me encarar. Ele estava com medo de Nora. Mas logo sua expressão se tornou amistosa. – Me chamo Mozart. Minha mãe gostava desse cara. Nunca tive coragem de ouvir uma de suas músicas... – explicou-se, corando. – Muito incrível o que você fez lá dentro... A gêmea má mandou bem.
Agora eu gostei desse garoto.
Revirei os olhos mentalmente, afastando Nora para a periferia de meus pensamentos. Seria uma longa convivência, dali por diante. Sorri de volta para Mozart, e esfreguei minhas mãos suadas na calça imunda. Diogo estava distraído olhando para a estrada sobre meu ombro, enquanto Julia se inclinava para dizer algo a Saulo. Ana havia dormido com a cabeça deitada no ombro de Sabrina, enquanto Otto assoviava e evidentemente tentava manter-se acordado.
— É um nome bonito. – admiti. – O que você fazia antes disso tudo?
— Eu era cantor. – contou o rapaz. – Eu cantava em barzinhos por aqui mesmo. Quando os ataques no centro começaram, encontrei um grupo de adolescentes que havia se refugiado numa escola. Uns meses atrás, perdemos três membros nossos. Três crianças praticamente. Eles tentaram invadir algum mercadinho, mas foram mortos por um grupo maior, servindo de isca enquanto os desgraçados fugiam. – meu coração gelou. Notei a expressão de Otto estacando, enquanto Diogo parecia tentar segurar a ânsia de vômito. Mozart era amigo das crianças que Diogo havia matado meses atrás, quando conseguiu recursos para o grupo do Trocado. Resolvi que aquela era uma verdade que não precisava vir à tona. – Depois, foi questão de tempo até que o grupo todo desmantelou. Uma das nossas era irmã de um daqueles garotos. Ela e o namorado tentaram achar os assassinos deles, mas foram mortos por uns gatos de rua zumbificados que atacaram enquanto eles estavam do lado de fora do nosso esconderijo. Daí a coisa desandou. Separamos-nos quando a escola foi invadida, e eu me separei do grupo com mais dois dos nossos. Aí achamos Lupa. Ela nos manteve cativos. Só eu sobrevivi até agora...
— Que terrível! – num impulso, segurei a mão de Mozart, comovida. Sabrina também tinha os olhos marejados, enquanto o silêncio havia tomado o lugar. Todos haviam prestado atenção à estória. Todos estavam comovidos. – Está entre amigos agora. Vamos ajudá-lo, e tratá-lo como um dos nossos. Os vivos precisam ficar juntos quando os mortos mandam no mundo.
— Obrigado. – Mozart estava chorando, e abaixou a cabeça.
— Saulo e Julia nos encontraram há alguns dias atrás. Eles tinham um grupo acampando numa praia aqui perto. – contou Otávio, pondo-me a par de tudo, e mudando o foco da conversa. – Sabrina fazia parte do grupo deles.
— É verdade. – confirmou a garota. Eu sorri para ela, apenas pensando no quanto seu cabelo era cheio de estilo e simplesmente legal. – Um dos nossos, um cara chamado Miguel, veio com a gente. Ele não sobreviveu. Mas tem mais dois dos nossos. Arlindo, e Tânia.
— Eles ficaram no Trocado. – explicou Julia, sorrindo.
— Então os encontraremos logo. – afirmei, mais feliz do que lembrava-me de haver estado nas últimas semanas. – Está tudo bem aí na frente, Diana?
— Tudo ok, Victoria. – respondeu minha amiga. – A perna do Jonas parou de sangrar, mas ele dormiu. Não vejo a hora de tomar um banho...
— Nem me fale... – resmungou Saulo, rindo enquanto se mantinha focado na estrada. A última coisa de que precisávamos agora, era de um acidente automobilístico.
Apesar do medo que sentíamos, nenhum de nós quis esperar o amanhecer antes de seguir viagem. Até porque, todos deviam estar tão traumatizados quanto eu, após lutarmos por nossas vidas duas vezes seguidas, na Secretaria de Obras. Mesmo grata por ter me refugiado naquele lugar, e consequentemente ter escapado da morte, eu esperava nunca pisar por ali de novo. Senti meus olhos arenosos, e um torpor característico do sono, que veio mostrar a urgência do meu cansaço. Com o escuro na traseira da ambulância, não pude ter certeza. Mas creio ter identificado um beijo clandestino formando-se nos lábios de Diogo, enquanto a fraqueza assumia o controle do meu destino. Ele sorria, e eu tiuve certeza de que estava retribuindo o gesto de Nora.
Entre o sonho e a razão, senti meu alter-ego regozijando-se em meu interior.
Carolina.
O quarto golpe, abriu um corte no meu lábio inferior. Senti a areia no chão protestar contra o meu rosto, arranhando-o depois que Arlindo me lançou ao chão com um baque surdo. Embora não pudesse ter certeza, e tudo aquilo fosse muito doloroso, era bom acreditar que estava fazendo algo realmente certo, e pelo outros. Depois de quase ter tirado a minha própria vida em um momento de desespero, usá-la para tentar evitar o sofrimento dos meus amigos era um bom modo de me desculpar comigo mesma. Acreditei que talvez Victoria talvez ficasse orgulhosa de mim, se pudesse ter me visto naquela situação. Tudo havia começado, é claro, quando Luca e eu resolvemos libertar os outros.
Pouco depois de violar Fernanda, e confiscar as chaves da Enfermaria e do Depósito de suprimentos, Arlindo havia obrigado Hugo a amarrar Ricardo em um antigo poste de iluminação pública, em frente ao antigo terreiro de Jeanette. Em seguida, ele trancou Hugo no escritório da Associação de Moradores, deixando-o incomunicável. Foi questão de tempo até que ele acordasse Luca, Eloá e eu, para que vigiássemos as barricadas com nada além das mãos nuas. El havia recusado, e apanhado. Muito. Depois, foi praticamente carregada por nós, e deixada junto com Hugo, que parecia em pânico com sua claustrofobia. O pobre rapaz estava tendo dificuldades mesmo para respirar. Sob a mira de um revólver, Luca e eu nos dirigimos às barricadas, e começamos a caminhar em círculos ao redor da área segura. Não havia muito que pudéssemos fazer, além disso. Ouvimos e vimos alguns zumbis próximos, e também o som habitual de alguns poucos errantes que se mantinham mais distantes, tentando subir o morro íngreme, sem sucesso. Ainda assim, eu não me arriscaria lá fora de mãos abanando, nem Luca. No máximo, poderíamos gritar caso o lugar estivesse sob algum tipo de ataque, ou coisa do tipo.
Ao longe, distinguimos a voz de Ricardo, pedindo água. O que ele conseguiu, porém, foi um soco no estômago. Um gorgolejar profundo escapou de sua garganta, assustando-me. A casa que Fernanda usava para cuidar dos gêmeos estava silenciosa ao longe, contra o amanhecer enevoado pela fumaça ébria da fogueira noturna. Acabei ficando emocionada ao lembrar o que tinha acontecido com Nanda, e o modo como ela havia sido gentil, atenciosa e protetora comigo, quando eu mesma havia tentado pôr fim à minha vida. Apesar de condenar minhas atitudes, ela havia acolhido o meu verdadeiro eu, bem do jeito que eu era. Sem julgamento, sem um olhar de pena ou raiva. Nem mesmo Ana havia conseguido isso. Será que o próprio Luca, por quem eu havia traído a memória de minha amiga mais próxima, sentia-se da mesma forma sobre mim? Eu tinha muito medo. Medo de ter confiado em um sentimento que era só meu. Medo de ser julgada pelo resto da minha vida, por amar um homem que sempre amaria a memória de minha amiga morta. Medo de no fim, descobrir que ele nunca me amaria como eu o amava. E acima de tudo, talvez antes de tudo, eu tinha medo de haver me tornado alguém que nem mesmo eu conhecia mais.
Será que eu poderia reencontrar aquela garota sorridente, e extravagante de outrora? Voluptuosa, sim, mas também gentil e alegre. Eu não sorria há quanto tempo? Eu ainda conseguiria? Nem mesmo ironizar uma situação me era possível, pois a simples existência de um mundo como aquele no qual eu fora obrigada a imergir, era por si só, uma ironia. Se não, a maior delas. Esfreguei meus braços nus, sentindo a camisola longa de cetim afagar todo o meu corpo, até os tornozelos. Meus cabelos estavam ainda maiores, praticamente da mesma cor do tecido. Lembro-me de ter pensado, que qualquer um que me visse de longe, imaginaria que fosse uma assombração. Eu também me sentia assombrada. Percebi que estava chorando apenas quando a mão de Luca afagou meu braço, e logo senti seu peito contra as minhas costas, o abraço apertado esquentando meus ossos frígidos.
— Você está bem? Digo, fisicamente? – Luca tinha um vinco entre os olhos. Eu sempre amara sua expressão pensativa. Parecia como se ele pudesse ver minha alma, com aqueles olhos. Os cabelos ruivos agora estavam um pouco maiores, mas nem por isso ele parecia menos bonito.
— Fisicamente, sim. Estou bem. São apenas muitos pensamentos, na minha cabeça. – revelei, prendendo uma mecha rebelde atrás da orelha. – O que temos aqui, Luca? Você sabe como eu me sinto, mas eu realmente queria saber como você se sente.
— É sério? Acha que isso faz diferença na situação em que estamos? – ele me perguntou, entre incrédulo e assustado. Homens. Eu teria que desenhar?
— Faz toda a diferença, Luca. Suas próximas palavras podem definir o que eu pretendo fazer nas próximas horas. – e se eu vou me odiar pelo resto da minha vida, eu devia ter dito. Luca virou-me para encará-lo, e sorriu fracamente.
— Eu acho que amo você, Carol. Não é como com a Victoria, e você sabe bem disso. Mas eu sinto algo quando estou perto de você... Familiaridade. Segurança. Namoramos por anos antes de conhecermos a Vicky. Você soa como um lar, para mim... – eu sabia que ele queria poder dizer mais, mas não podia. Aquela situação era toda complexa e esquisita, eu não queria mais pensar naquilo. Teria de me contentar em receber apenas o que Luca poderia me dar. Fitei meus pés descalços, as unhas pintadas de preto, e lascadas em alguns pontos.
— Minha maior maldição, é saber que apesar de quantas vezes eu me quebre, sempre vou amar você. Você faz os meus cacos, se quebrarem. Às vezes, eu queria me perder pra sempre, só pra não ter de conviver com esses sentimentos... – cuspi as palavras, sentindo uma espécie de comporta se abrindo. Ele me abraçou, com uma expressão alarmada.
— Hey! Que papo é esse? Nem pensar que você está querendo se machucar de novo, né? Vamos, Carol, eu nunca vou deixar você sozinha. – Luca respirou fundo, e seus olhos ficaram vermelhos. – Eu daria minha vida, se pudesse trazer a Victoria de volta. Se eu tivesse morrido no lugar dela, vocês duas estariam felizes. Eu nunca quis machucar nem uma, nem outra... – ele estava chorando. – Acho que falhei em proteger ambas.
Aquela confissão mudou tudo. De repente, eu sabia como ele se sentia, e tudo passou a ser mais do que sexo, e familiaridade. Coloquei os braços em volta de seu pescoço, e escondi meu rosto entre seu queixo e seu peito. Ficamos parados por algum tempo, absorvendo e cicatrizando as feridas e fraquezas um do outro. Apesar de Victoria estar morta, naquele momento ela parecia uma presença ao nosso redor, mais viva que nunca. Mesmo assim, eu acreditava que nada mais poderia mudar ou reverter o passo que eu e Luca havíamos dado. Naquele momento, um arco se rompia. A última barreira entre mim e ele, havia caído. Como num encontro vermelho, eu podia vislumbrar as cores de seu coração, embora ainda houvesse o nome de outra garota gravado nele.
— Temos que matar o Arlindo. – falei, como se aquela frase fosse uma oração. Resolver a tempestade em meu interior, havia dado forças para que eu lutasse por algo além de mim mesma.
— Tá certo. – concordou Luca. – Mas como?
— Temos que arrombar o Depósito e conseguir uma arma, ou faca. Ou esperamos ele dormir, em algum momento. – sugeri.
— Ele não vai dormir tão cedo. E ainda assim, pode se trancar na Enfermaria a hora que quiser. O terreiro de Jeanette não tem janelas. Não dá pra arrombar. – Luca se afastou um pouco, desta vez pensando de verdade. Ele olhou na direção de onde Ricardo estava preso, provavelmente desmaiado de cansaço e dor depois de ter recebido golpes na cabeça. Arlindo havia entrado na casa onde estavam Nanda, os gêmeos, Tânia e Madeline. Não havia sinal dele. – Acho que tenho um plano.
— E seria? — incentivei.
— Você corre, e tenta soltar a Eloá e o Hugo. Eu vou soltar o Ricardo. Depois, eu distraio o Arlindo com um escândalo, e vocês aproveitam pra tomar a arma dele e matá-lo. Depois disso, a gente improvisa. – propôs Luca.
— Que plano imbecil! – disparei, sentindo a antiga Carolina ressurgir. – Além disso, você tem noventa e nove por cento de chance de levar chumbo, caramba! Não vou aceitar isso.
— Alguma ideia melhor, dona? – é, eu não tinha. Emudeci. – Ótimo. Então estamos combinados.
Antes que eu pudesse dizer algo, Luca correu na direção de Ricardo, e só pude soltar um palavrão em protesto. Revoltada, com os riscos envolvidos, corri na direção do Depósito para soltar os outros. Nem consegui arrombar a porta. Quando enfiei uma faca de manteiga na fechadura, senti o aperto forte de Arlindo no meu cabelo e logo senti o primeiro soco no rosto. Fiquei tonta, mas logo Arlindo me soltou e bateu novamente. Com o mundo girando e totalmente fora de foco, percebi ao longe Luca e Ricardo caídos. Ricardo estava cheio de hematomas no rosto, enquanto Luca tinha uma mancha de sangue na altura do estômago. Um tiro? Não pude processar totalmente a questão, até que fui derrubada contra o chão sujo. Levei alguns chutes de Arlindo, antes que algo roubasse sua atenção. O som de um roncar forte, o tremor inconfundível de um motor, rompeu o amanhecer. Nunca antes eu havia me sentido tão feliz. O gosto de sangue na minha boca, de repente ficou quase apetitoso. Logo seria o sangue de Arlindo, se tivéssemos sorte.
Ele correu na direção do portão principal, e tirando forças de onde só Deus sabia me ergui e cambaleei pela rua, atrás dele. Segurei num poste para não cair, com a visão turva pelas pancadas recebidas. Tudo parecia desfocado, ou preto e branco nas bordas. Ri como uma drogada, de minha visão psicodélica. Arlindo se deteve próximo ao portão de madeira, e por um segundo, pensei que ele fosse abrir a passagem. Até que ele começou a atirar contra a ambulância de Saulo. Desesperada, me abaixei como uma bêbada, achando que de alguma forma os estampidos se dirigiam a mim. Fosse quem estivesse no volante, era corajoso. Pois apenas acelerou o veículo, arrebentando o portão com velocidade imensa, e obrigando Arlindo a se jogar no chão de lado, para não ser atingido pelo automóvel.
Com uma guinada forte, a ambulância parou a apenas poucos metros de mim. Com um baque alto, as portas traseiras foram abertas. Fechei os olhos sentindo o mundo girar dois segundos mais rápidos, e coloquei a mão na cabeça ferida. Alguém me ergueu pelos ombros, até que encontrei o olhar de Otávio, apreensivo. Ouvi a voz de Ana, que exclamava com horror, e a vi correndo na direção de Luca e Ricardo. Será que eles estavam bem? Não tinha certeza. Contudo, eu não poderia estar mais surpresa, ao ver quem havia retornado com nossos amigos. Um rapaz gorducho caminhava de braços dados com Julia, enquanto Saulo ajudava uma mulher a apoiar outro homem, ferido na perna. Logo vi Sabrina, que vinha mais distante do grupo. E então, notei Diogo. Ele parecia ter sido atingido de raspão por um dos disparos de Arlindo, e descia da ambulância com dificuldades. Apoiando-o pela cintura, estava a última pessoa que eu havia considerado. Porque Victoria estava viva.
Aquele seria um dia inesquecível...
Notas finais
Kisses by DroppingPieces.
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