Quebranto.

43 Caranguejos são Cruéis.


Notas iniciais
É, eu sei que foi rápido entre um capítulo e outro, e que vocês estão surpresos por minha lerdeza ter tido uma queda significativa. Bem, a verdade é que estou sem internet, então estou com mais tempo livre para escrever, daí corro na lan house e posto rapidinho pra vocês. É, podem agradecer aos deuses. Meu azar, é a sorte de quem estava curioso pra ver o que ia acontecer. Devo dizer que ainda não tivemos o ponto de vista narrativo do personagem que venceu nosso último concurso. Mas ele será introduzido logo, e acho que vocês vão gostar. A votação foi encerrada, à propósito. Ah, esse capítulo está um pouco mais light, e menor. Agora, boa leitura, meus sobreviventes...

Victoria.

Nós chegamos na praia no exato momento em que o fogo começou a produzir uma coluna densa de fumaça. Enquanto a van estacionava, senti o desespero instaurar-se como uma presença física, quase enervante. Ricardo praticamente arremessou-se para fora, gritando por Hugo. Logo, todos havíamos saído aos tropeços, enquanto vasculhávamos o cenário de guerra que se revelava ao redor, em busca de uma explicação para toda aquela loucura. O que havia ocorrido naquele lugar?

– Acho que seus amigos vão achar minha oferta um pouco melhor, não é Vicky? — cochichou Dimitri, sendo esperto o bastante para ter um pouco de respeito.

– Quieto. — pedi, também aos sussurros. — Já vai ser difícil nossos grupos conviverem sem os seus comentários ácidos. Cada vez mais eu entendo porquê você era amigo de papai. São dois bocudos, que falam demais. — Dimi riu, mas manteve-se quieto, para o bem dele. Diogo não parecia estar gostando nada do fato de nos conhecermos.

Quando vi Otávio, confesso que todo o mundo ao redor desvaneceu. Meu irmão estava bem. Se eu não podia dizer o mesmo de Carlos, que eu não via há mais de um ano, ao menos tinha Otto para proteger e abraçar. Corri em sua direção sem pensar duas vezes, esmagando-o em meu abraço. Ainda assim, o alívio não foi pleno. Eu sabia que apenas os mais frágeis de nós haviam ficado para trás. Coisas terríveis poderiam ter acontecido. Acho que ver os gêmeos cobertos de sangue, mudou um pouco minha opinião. Notei que mesmo os amigos de Dimitri ficaram chocados com a aparência assassina de Dino e Vilma, principalmente considerando a quantidade de zumbis mortos por ali, e a aparência angelical dos gêmeos. É claro que Otávio e Hugo não pareciam muito melhores. Enquanto Rico beijava o loiro, sorri por vê-los reunidos, e bem de verdade outra vez. Mas eram as ausências que mais me incomodavam. Onde diabos estava Fernanda? Troquei um olhar assustado com Diogo, que imediatamente começou a se preparar. Seu rosto parecia uma máscara mortuária.

– Estão todos bem! — comemorou Hugo. — Fiquem calmos. Os outros estão arrumando o quiosque.

– Não precisam nem terminar. É óbvio que não dá pra vocês ficarem aqui. — intrometeu-se Thaís, a loiraça surfista.

– Desculpe, mas quem é você? — indagou Hugo, verbalizando o questionamento que eu mesma tive vontade de fazer, apesar de tecnicamente, já tê-la conhecido. — E onde estão Ana e Jonas? — ele olhou feio para Mozart, o que acendeu um pouco de interesse de minha parte.

– Os dois foram até a tal boate de que Jonas nos falou. — disse Diogo. — Esses quatro aí são membros do grupo de lá. Segundo disseram, o lugar é todo protegido e fortificado. Por algum motivo, nunca teve nenhum ataque. Eles aceitaram nos receber, se toparmos ir até lá e fazer parte do grupo.

– E o que decidimos? — perguntou Otávio, mirando Ricardo.

– Bem, como acredito que ainda sou o líder, acho que podemos votar. Principalmente depois do que houve. Eu detestaria saber que algo aconteceu a qualquer um de vocês. Vamos encarar os fatos: não podemos viver sempre na estrada. Não sem não nos tornarmos tão monstruosos quanto as criaturas de quem fugimos. — sorri para Rico, concordando plenamente. Era bom saber que nosso velho dentista sensato estava de volta. — Dino, pode chamar o restante do grupo lá no quiosque?

– Não será necessário, meu anjo. — Tânia vinha caminhando em nossa direção, com Nanda, Gabriel e Diana à tira-colo. Com uma súbita exclamação de alegria, corri na direção da ruiva, e a abracei apertado. Minha amiga riu, e me deu um beijo no rosto. Notei que ela estava de mãos dadas com Gabriel, e pisquei para ele. O garoto ficou vermelho até a raiz de seus cabelos negros, e me sorriu de volta. Apertei seu ombro, e então voltei-me na direção de Ricardo outra vez.

– Eu estou de acordo. Vamos unir os grupos. — junto comigo, Otto, Hugo, Rico e os gêmeos levantaram as mãos. Só os nossos votos já decidiriam tudo, mas mesmo assim esperei que a situação fosse explicada para os outros. Tânia concordou veementemente, assim como Nanda. Gabriel, Diogo e Diana pareceram desconfiados. Muito desconfiados. Mas por serem voto vencido, toparam partir conosco.

Sem muita conversa além de observações de alívio por vermos todos bem, passamos a arrumar as coisas para a partida. Tudo sendo embalado novamente (não que ainda tivéssemos muitas coisas), e preparado para deixarmos a praia. Ninguém parecia menos animado do que Mozart, que meramente fitava a areia fixamente, perdido em si mesmo. Por vezes eu ficava preocupada com sua quietude, achava que ele devia sentir muita falta de todos os amigos e parentes que perdera. Se eu fosse a única sobrevivente do meu grupo atual, acredito que talvez ficasse tão esquisita quanto ele. É algo complicado de lidar, mesmo quando um novo grupo de adota. Ele devia sofrer muito, pobrezinho. Notei que Otto não parecia compartilhar de minha simpatia pelo nosso colega, pois meu amigo o fitava quase como se fosse uma ameaça, um incomodo. E apesar de curiosa, preferi não interferir naquela situação. Haveria um momento melhor para aquilo. Naquela hora, eu precisava colocar uma caixa de sapatos, na traseira da ambulância. Era muito surpreendente, num sentido totalmente maravilhoso, que aqueles de nós que haviam ficado para trás houvessem lidado com a situação sem nenhuma morte. Mas infelizmente, eram só zumbis. Com certeza, a história teria sido diferente contra inumanos, ou animais. Eu nem podia pensar naquela hipótese. O melhor para todos seria a mudança. Eu reconhecera isso quando começamos a ficar ilhados no Trocado, sem ter de onde retirar suprimentos, e podia reconhecer isso agora. Nem preciso dizer que eu já esperava ser procurada por alguém, mas não totalmente surpreendida por um toque no ombro. Dimitri. De novo. Sorrindo, afastei-me um passo dele, e arrumei os cabelos ao lado do rosto.

– Melhor não sermos vistos conversando desse jeito, Dimi. Diogo pode não gostar. — eu disse, sorrindo.

– Eu é quem não tô gostando nada desse apelido. Só o seu pai me chamava assim, e era pra me irritar. Mas e você hein, dona Vicky? Anda preocupada, pensando que meu grupo não é digno da sua confiança? — indagou-me Dimitri, com um sorriso sacana.

– Acaba de marcar um ponto. Não gosto nada de ir pra um lugar que não conheço, mesmo sabendo que você é confiável. De todo modo, quando conheci os membros do meu grupo atual, eu não sabia nada sobre nenhum deles. Não vou julgar livro algum pela capa. Só não me chame de Vicky o tempo todo. Pros meus amigos, e principalmente pro Diogo, isso é bem íntimo. — repreendi, irritando-me com seu jeito palhação. Ele simplesmente não parecia ser o tipo de cara que via bem a seriedade das coisas.

– Deixa eu te mostrar uma coisa, Victoria. — ele mexeu nos próprios bolsos, aparentemente procurando por algo compacto, já que devia caber no meio das roupas. Por fim, passou para os bolsos do paletó azul claro que estava vestindo, e junto com um pequeno revólver, puxou uma carteira. Simples, de couro preto. Ele abriu o objeto, e lá dentro pude ver sua identidade, alguns cartões de crédito de dar inveja, e umas notas de cinquenta, vinte e cinco reais. Havia até duas de cem, verdinhas. Nada daquilo importava agora. Mas foi o papel lilás dobrado, que me chamou atenção. — Tudo isso, esses objetos, são recordações. Mas a melhor delas, está relacionada a você. — enquanto dizia isso, Dimitri desenrolou o papel. Eu não podia acreditar. Era o convite do meu aniversário de quinze anos! Fora a primeira vez em que eu alisara meus cachos, e uma foto enorme minha estampava o envelope, enquanto outras menores circundavam o papel. — Sua mãe me convidou. Na época eu devia ter uns dezenove anos, mas por amizade entre nossas famílias, dona Eliza havia me pedido pra ser o seu príncipe. Mas tendo te visto só de relance, sabia que era linda. E eu queria ir, mas não pude. Nunca me esqueci disso. E com o tempo, acabei deixando seu convite na minha carteira, como um amuleto da sorte, sabe? Eu não fazia ideia de que ainda fosse te encontrar um dia, mas a cada vez que olhava pra esse pedaço de papel, eu lembrava de tudo o que mais sentia falta, do antigo mundo. Nunca teria uma chance de dançar com você, antes. Agora, você está aqui na minha frente, mais crescida, com mais curvas e músculos, mas ainda é a Vicky. A Vicky de quem eu ouvia todo mundo falar. A menina linda dos cachos loiros com quem meu pai queria que eu casasse. Bem mais pela aliança econômica das famílias do que por eles, devo admitir. — acabei sorrindo, enquanto lágrimas ameaçavam brotar em meus olhos. Não só pelo que Dimitri dissera, o que já era muito para digerir, mas também por tudo que ele me fizera recordar. Era tão a cara da minha mãe convidar alguém para ser meu príncipe sem que eu soubesse. Assim, eu não ficaria decepcionada se o garoto dos meus sonhos na época, não pudesse aparecer. E como de fato ele não foi, acredito que mamãe havia sido mais uma vez, espetacular.

– Honestamente, Dimitri. Não sei o que dizer. — admiti, fitando-o com constrangimento e nervosismo mesclados, numa simbiose diáfana. — Foi tudo a tanto tempo. Sonhei com você desde que comecei a me interessar por garotos. Até que entrei no colegial e conheci meu antigo namorado, que agora já faleceu. Mas não posso assimilar todas essas coisas. É muito bonito que eu tenha significado para você, tanto quanto você significou pra mim, mesmo à distância. Mas eu estou com Diogo. Passamos pelo inferno juntos e se não fosse por ele, eu não estaria aqui. De todas as formas possíveis. Não podemos fazer nada a respeito do que se passou. Mas podemos ser amigos.

– Amigos? Acho que não. — com uma piscadela, Dimitri virou-me as costas, e saiu caminhando na direção de Nanda, que parecia precisar de ajuda urgente com uma caixa de roupas.

Um grito agudo cortou o ar. Como se não pudesse acreditar nos meus sentidos, ignorei o ocorrido por alguns instantes, certa de que aquilo simplesmente não podia estar acontecendo. Outro grito seguiu o primeiro, trazendo o som gotejante do sangue, na voz feminina e agoniada. Antes de ver, eu já sabia quem fora pego naquele turbilhão de dor. O som de objetos caindo e areia revolvendo abaixo das pisadas e chutes de todos na praia, invadiu a tarde, que já ameaçava virar noite. Um estampido alargou-se, e o grito tornou-se um choro contido, mas dilacerado. Cheguei a tempo de ver Thaís sendo erguida no colo por Diogo, que a levou para a camionete. Ela fora mordida no tornozelo, já que seus sapatos de salto não ofereciam qualquer proteção contra um errante que se escondera embaixo de um dos veículos. Dimitri puxou o corpo em putrefação de um senhor de idade, com uma espessa barba branca por fazer. O tiro certeiro de Paulino o atingira na testa. O homem mais velho parecia tenso enquanto fitava a cena. A areia se tornara vermelha onde o sangue de Thaís penetrara, abundantemente. Ouvi o som longínquo de Tânia pedindo para que alguém lhe desse um cinto ou pano, para estancar o sangramento. Ricardo a seguia de perto, ansioso. Mas tudo no que eu conseguia pensar, era no quanto as ondulações constantes na areia repleta de sangue, pareciam esquisitas. Do tamanho de bolas de futebol, revolviam-se em volta do sangue, como se o estivessem bebendo. Maldição. Eu não podia entender bem qual criatura era aquela, mas sabia que devíamos sair dali, logo.

– Ai, meu Deus! — Vilma estava pasma, apontando para um enorme buraco na areia, que fora aberto por um caranguejo, ou siri, totalmente desproporcional. A criatura pulou na direção de Paulino, agarrando-se ao seu rosto com uma espécie de ventosa que saía de onde deveria estar a sua boca. Eu não era bióloga, mas sabia que nenhum crustáceo no mundo deveria ter ventosas tão grandes. E muito menos, ventosas dentadas.

– Puta que pariu! — xingou Marcílio, o outro amigo de Dimitri. O cara havia resumido tudo. Que diabos eram aquelas coisas? Uma enorme poça d'água havia começado a formar-se onde antes havia estado o sangue de Thaís, e parecia haver uma espécie de colônia daqueles bichos vivendo ali, bem debaixo dos nossos pés, o tempo todo. A pequena poça revolvia-se, e quando Paulino fracassou em tirar o bicho de cima de si, outros começaram a pular sobre ele, derrubando-no no buraco instantâneo que se abrira, uma cratera no meio da areia. O homem gritava e engasgava com a água salgada, enquanto todos os armados atiravam contra os crustáceos. Levei um tempo até notar que já estava perto demais do foco de criaturas para ficar sem fazer nada, e ergui minha arma. Constatar que estava sem balas três disparos depois, era totalmente corta-clima. Diogo me puxou para longe da confusão, mas pude ver um esguicho vermelho surgir no meio da água salgada, onde antes Paulino ainda lutava pela vida. Turva, a água escondeu os bichos, mas ainda haviam alguns do lado de fora. Vi Dimitri pisando em um, esmagando-o. Quando a ameaça foi controlada, todos trocaram olhares silenciosos de terror. Como sobreviver num mundo daqueles?

– Sei que é horrível dizer isso, mas a carne do Paulino vai nos dar tempo de sair daqui antes que esses bichos voltem. Deus, nunca vi siris tão monstruosos! — exclamou Dimitri, tentando fazer graça apesar de estar totalmente assustado.

– Nem sei como não achamos essas coisas na beira da praia, quando colhemos mariscos e tatuís pra comer. — comentou Dino, desanimado. — Teriam acabado com a gente.

– Acho que esses animais não estavam aqui desde que chegamos. Mas acredito que eles sentiram nossa presença nesse lugar, e vieram até onde estávamos, por dentro do solo. Não que seja menos assustador, mas acho que eles estavam nos caçando, esperando a hora de se alimentar. — sugeriu Ricardo.

– Ou estavam esperando para comer a carniça que os zumbis deixassem. Vai ver sentiram a horda. — supôs Hugo, abraçando a si mesmo. — A verdade é que não importa. Temos que ir embora. Pra ontem.

E fomos. Não só por simples medo, mas porque sabíamos que Thaís teria agora, pouquíssimo tempo. Dimitri decidira que precisávamos levá-la até a tal Topázio, para que sua líder decidisse o que fazer com a garota. Concordamos, desde que, se ela morresse e voltasse como zumbi, qualquer um de nós tivesse autorização pra se livrar do bicho. Ele não se recusou. Apertados nos veículos que haviam restado, os outros deviam estar tendo bons momentos enquanto se conheciam. Já Diogo, parecia distante. Não trocara uma palavra comigo desde que havíamos retornado à praia, mesmo que tivesse me protegido tão ternamente durante o ataque. Seu olhar naquele momento, entretanto, parecia impassível, monótono. Ele meramente fitava o horizonte, dirigindo mecanicamente. Thaís estava deitada na parte de trás, cheia de caixas ao seu redor. Não havia nada além do ar denso, entre nós. Ele podia ter posto a mão sobre minha coxa, como sempre. Ou me beijado. Não havia feito nada. Preferindo não me incomodar com essas coisas, deixei para pensar depois. Cansada, acabei cochilando no caminho para a boate de Topázio. O pior, é que acordei em seguida como se o tempo não houvesse passado. E com os ecos da risada irritante de Nora em minha cabeça. Inacreditável. Ela havia escolhido uma péssima hora para retornar. Enquanto ficaríamos em convívio com um grupo estranho, teríamos de seguir as regras do lugar, e nos adaptarmos às instalações novas, eu ainda teria de lidar com minha dupla personalidade psicótica. Muito legal. Aquele era ou não um maldito mundo cruel?

Notas finais
É, siris são tensos no meu mundo. U.u Odeio crustáceos, e quis homenageá-los nesse capítulo. Alguma surpresa sobre a relação da Vicky com o Dimitri? Gostei de ver que alguns apressadinhos (é você mesma Mare), já estavam estranhando o motivo pra duas pessoas que sempre se viram de longe, se tratarem por apelidos carinhosos. Como o tio Dropping é malvado, já tinha pensado nisso e só quis deixar vocês curiosos. Agora, vou correndo escrever o próximo. Deixem suas opiniões, se puderem. Como vocês viram, sempre leio o que comentam