Quebranto.
25 A verdade no espelho.
Notas iniciais
Boa leitura.
Victoria.
Eu não conseguia acreditar no que estava vendo. Diogo e Otávio estavam ali, na minha frente! Antes que eu pudesse refletir a respeito, estava sendo abraçada pelo meu melhor amigo, e contendo as lágrimas que me escapavam. Eu havia me separado de todos julgando que Diogo estivesse morto. Agora, o via ali bem pertinho. Algo dentro de mim pareceu se agitar. Oxalá eu soubesse bem o quê. Olhei por cima do ombro de Otávio, e ele estava sorrindo de leve, me olhando fixamente com sua expressão involuntariamente sexy e aborrecida. Notei que dois desconhecidos haviam vindo com meus amigos. Uma menina baixinha, que estava olhando fixamente para um canto, sem reparar muito em nós, e um homem mais alto, bem bonito. Diana me olhou, com seus cabelos grisalhos formando ondulações ao redor de seu rosto, e se aproximou de Jonas. Ele parecia radiante por termos descoberto outras pessoas. Eu também estava. Mas algo me dizia que não seria tão simples assim sairmos daquele lugar. Encerrei o abraço entre mim e Otto, me aproximando de Diogo em seguida. Ele me olhou intensamente, e foi como se o ar entre nós estalasse, de eletricidade. Antes que eu pudesse me dar conta, senti uma de suas mãos calejadas em meu rosto, tocando minha bochecha direita mais suavemente do que eu julgara que ele fosse capaz.
– Gostei dos olhos novos, loira. Eu sabia que você não era derrubada fácil. – falou Diogo, tentando parecer quase indiferente. É claro que eu sabia pelo seu olhar, que ele estava maravilhado por me ver viva. Eu nunca havia lhe dado muito crédito, mas algo mudara em mim desde o nosso beijo, e agora, eu podia sentir que havia mais do que luxúria e atração, no modo como ele me tocava. Aquilo me emocionou de muitas maneiras...
– Eu achei bem bizarro. – sorri. Notei que Saulo e Julia estavam me olhando com certa suspeita, e também a Jonas. – Não se preocupem. Nós dois não perdemos a sanidade. Estamos bem. Diana perdeu a filha depois que ela se tornou Inumana. Não teria confiado em nós se não tivéssemos provado que continuamos decentes.
– A menina morreu? – Diogo parecia devastado. Mas ao invés de exteriorizar seus sentimentos, ele assumiu uma expressão carrancuda. – Sinto muito.
– Tudo bem. Obrigada. – disse Diana, fracamente. Seus olhos percorriam todo o local, nervosamente. – Suponho que vamos sair daqui agora, não é? – era mesmo uma boa pergunta. Olhando ao redor, julguei que deveríamos agir rapidamente caso quiséssemos escapar naquele mesmo dia. Diogo ainda estava me olhando, e sem que eu percebesse, havia tocado no ferimento quase cicatrizado em meu braço. A mordida. Estava quase completamente curada, àquela altura. Jonas estava me olhando com uma expressão que eu ainda não conhecia. Ciúmes? Eu não saberia dizer. A verdade, é que eu teria muito com o que lidar quando encontrasse Luca novamente. Eu estava louca para revê-lo.
– Peguem suas coisas. Rápido. – recomendou Saulo, ainda amparando a garota morena. – Julia, minha irmã, pode ajudá-las.
– Seria muito gentil. – falou Diana. – Mas não precisa. Temos apenas uma mochila, e ela está sobre o balcão da recepção. Nossa comida acabou de manhã. Não há o que levarmos conosco. Podemos ir embora.
– Ótimo. Não quero passar mais um minuto nessa espelunca! E você, garoto: Fique longe de mim. – cuspiu Diogo, segurando Otávio pela camisa. Meu amigo sorriu amarelo, e me encarou com uma expressão culpada enquanto o grupo se afastava de nós. Fiz uma careta pedindo-lhe uma explicação, e ele chegou mais perto.
– Acertei a cabeça dele com uma barra de ferro. Acha que ele guardou rancor? – cochichou Otávio.
– Acho que não. – menti de olhos arregalados. – Muito fofo de sua parte vir junto com eles nos salvar. E ainda sem saber quem a gente era. Podíamos ser estranhos, e vocês se arriscaram por nós... – agradeci, comovida com a coragem daquelas pessoas, mas principalmente com o gesto de Otávio e Diogo.
– Um dos nossos morreu lá fora. – Otávio falou tristonho. – Ana e a namorada se separaram de nós. Tomara que estejam bem.
– Espera, a Ana veio junto? E que história é essa de namorada? Meu Deus! – espantei-me, sem conter uma risada divertida.
– É maninha, você sumiu por um bom tempo. Nossa querida Ana foi rápida. – concordou Otto, rindo. O amei ainda mais pela atmosfera de tranquilidade que ele me trazia, era lindo ver como eu podia me sentir em casa outra vez, perto dele. Principalmente considerando o tempo que havíamos estado separados, e o modo natural como ele havia me recebido.
Depois, Saulo foi rápido em explicar o seu plano. Ele parecia ser uma pessoa legal, e de sorriso fácil. Mesmo com os fatores totalmente contra nós. Tínhamos a nosso favor, segundo ele, a inteligência. Se ela havia salvado a humanidade uma vez, teria de fazer de novo. Segundo Saulo, apesar de sermos inumanos, os monstros ainda se sentiam atraídos pela minha carne e a de Jonas. Mesmo que não corrêssemos o risco de nos tornarmos zumbis, poderíamos ser mortos pelas criaturas. Ainda assim, eu estava disposta a assumir os riscos do estratagema entalhado por ele. Para dar alguma chance de fuga aos nossos amigos, eu e Jonas atrairíamos a atenção dos pombos que cercavam a SMOF, enquanto eles alcançavam a ambulância do grupo. Ajoelhados no meio do chão empoeirado, coberto de pedaços de papéis e móveis quebrados, víamos um desenho primitivo feito por ele, para demonstrar a localização dos nossos objetivos. Diogo fitava-me de maneira intensa, claramente desconfortável com a perspectiva de nos separarmos novamente. Eu evitei seus olhares, claramente tentando não incentivá-lo de maneira errônea. Otávio estava tranquilo, mas parecia considerar diversas linhas de raciocínio ao mesmo tempo. Não demorou muito para que cada um entendesse sua parte no plano, e todos nos preparamos para sair. Com um elástico que tirei de minha mochila, amarrei meus cabelos num rabo de cavalo mais ou menos confiável. Sorri ao ver os brinquedos que eu saqueara para Carlos, meu irmão, e fechei o zíper rapidamente, me concentrando.
Olhamos-nos em silêncio, e vi Saulo, Diogo e Diana destravarem ou recarregarem as poucas armas disponíveis. Diana segurava um revólver, enquanto Saulo tinha dois e Diogo, uma espingarda. A noite ia alta do lado de fora, e um vento excepcionalmente frio causava um desconforto impugnante à nossa falsa tranquilidade. Otto se aproximou da porta, e trocou um olhar com Jonas. Meu amigo inumano colocou de volta seus óculos escuros, e se preparou para sair, confirmando que Otávio podia liberar a passagem. E ele o fez. Imediatamente, começamos a correr pelo gramado agredido da SMOF, ganhando terreno sob a noite morta e estranhamente, rubra.
– Mas que diabo aconteceu aqui?! – grunhiu Diogo, estacando quando atravessamos o portão de ferro, alcançando a rua.
Onde quer que olhássemos haviam pombos e zumbis definitivamente mortos, espalhados pelo asfalto, formando um tapete pútrido e estarrecedor. Sangue banhava o local, e o cheiro ferruginoso era tão potente, que me dava ânsia de vômito. Caminhando entre os cadáveres, lutei para não pisar em nenhum. Julia e Diana estavam de braços dados, uma apoiando a outra entre o mar de seres em decomposição. Otávio tinha o nariz enrugado sobre o rosto, claramente repleto de repulsa pelo que estávamos vendo. Sem acreditar muito no que estavam vendo, Saulo e Diogo tomaram a dianteira do grupo, iluminando ao redor com a última lanterna, que havia sobrevivido aos túneis. O silêncio era devastador, até que o fraco feixe de luz iluminou algo além de quaisquer expectativas.
– Ora, nunca lhes ensinaram que essa luz pode atrair bichos? – uma voz fina e aveludada indagou, e então todos voltaram a atenção para sua origem.
A voz vinha de uma mulher, se é que ela poderia ser chamada desta forma. Evidentemente suja e ferida, ela usava as roupas descartáveis de alguma unidade de saúde, totalmente abertas nas costas. O pano verde era tão frívolo, que ameaçava esmaecer diante de nossos olhos. Seus cabelos negros estavam abarrotados de poeira, e totalmente desgrenhados. Tudo o que eu pude ver, contudo, foram as correntes em sua mão. Seu braço direito estava repleto delas, e na ponta, estavam os cativos menos esperados. Ana, uma menina loira, e um garoto gorducho, que pareciam lutar contra os grilhões que se apertavam em volta de seus pescoços. A incredulidade se aliou ao meu desespero, e então pude focalizar os olhos daquela mulher devastada. Um preto, um branco. Inumana. Contudo, não como eu ou Jonas. Seus olhos estavam cobertos por uma espécie de película, que fazia com que suas pupilas não pudessem ser vistas. Havia apenas o branco, e o preto. Algo realmente assustador. Ela também estava descalça, e caminhava vagarosamente na nossa direção. Que tipo de criatura era aquela?
– Vocês não deviam ficar tão expostos à noite. É a hora em que os monstros costumam sair... – falou a inumana, com um sorriso completamente inoportuno. – Eu não pude deixar de vir conferir a origem desse barulho todo... Vocês fizeram uma bagunça, sabe? Parece que esse lugar era um esconderijo, ou algo assim.
– Não tem nada lá dentro. Só sobrou morte, aqui! – se apressou em dizer Otávio, nervoso. Logo senti um apertão no braço, e encontrei Diana, me chamando.
– Os olhos dela estão iguais aos de Lívia, quando ela morreu. Não sobrou nada de bom nessa mulher, Vicky. – alertou-me, amedrontada. Diogo virou-se para ver o que eu estava fazendo, e fiz questão de alarmá-lo, com minha expressão.
Do outro lado da rua, pude ver a expressão de surpresa no rosto de Ana, ao ver-me viva. Ela se emocionou rapidamente, embora não pudesse falar por causa de uma mordaça em sua boca. Suas mãos estavam presas, ligadas a uma das correntes na mão daquela mulher horrorosa, mas ainda assim eu não conseguia entender como ela havia conseguido render minha amiga. Até que ouvi o primeiro rosnado. Das sombras, cerca de nove cachorros surgiram no meio da rua, tomando forma através da luz fraca que a lanterna na mão de Jonas jogava contra a silhueta da mulher. Todos eles estavam zumbificados, e rosnavam para nós com os caninos à mostra. Arrepiei-me inteira, e logo notei que estávamos lentamente, sendo cercados. Julia e Diana se aproximaram do grupo, ficando no meio de uma espécie de formação defensiva. O suor escorreu por uma das minhas têmporas, quando Saulo e Diogo se posicionaram ofensivamente, apontando as armas. Otto apertou sua barra de ferro firmemente contra o corpo, e eu cerrei os punhos, assim como Jonas. Diana ergueu sua arma, entregando-a para Julia por suas mãos tremerem muito.
– O que você faz com essas pessoas? – exigiu saber Diogo, cuspindo as palavras. – Você está com amigas nossas. As queremos de volta. Sabrina, Ana! Vai ficar tudo bem!
– Acho que nenhum de vocês está em posição de exigir muita coisa. – disse a mulher, calmamente. Ela não parecia estar zombando de nós, não parecia afetada. Estava como em um torpor, sem emoção alguma. – Essas pessoas são comida, é claro. Para mim, e meus cães.
– Como pode controlar eles? Eles deveriam comê-la, como a todos. – objetou Julia, assustada.
– Realmente. Acontece que de alguma forma, minha mutação foi além do esperado. Quando fui mordida por um cachorro zumbificado, no sanatório onde eu estava presa, por alguma razão não morri. Quando acordei, o mesmo cachorro estava lambendo minhas feridas, e então comecei a andar com ele, que me seguiu. Logo outros vieram, e se uniram à matilha. Hoje em dia não dá pra negar comida fresca, então aprendi com eles a me alimentar de carne humana. Não é muito diferente de boi, no fim das contas... – ela colocou um dedo na boca para arrancar uma cutícula, e pudemos ver as várias feridas em seus braços. Ela seguiu nosso olhar, e sorriu. – Ah, foram os pombos. Malditas aves... Elas simplesmente não se alteram com os meus feromônios, como os cães... Então meus filhos as comem, e eu as mato.
– Nojento. – gemeu Otto, parecendo verde.
– Sim, é mesmo. Mas de qualquer forma, vocês não vão ficar vivos o suficiente pra me verem em ação. – ela assobiou. – Bebês, matem... – ela disse isso com tanto tédio, e de modo tão enfadonho, que julguei que estivesse brincando. Isso até que os cães se lançaram contra nós.
Imediatamente, todos correram na direção oposta, e Julia deu um grito de doer os ouvidos. Alguns zumbis e aproximavam virando a esquina, ou saindo dos becos que haviam nas duas ruas próximas à Secretaria de Obras. Jonas agarrou meu braço e me puxou para trás. Eu corri, até que vi Otávio ser derrubado com uma mordida na perna, e o cão o arrastava para longe. Gritei, mas logo me acalmei ao perceber que ele estava usando uma caneleira de skatista, e havia conseguido acertar a cabeça de um dos bichos com a barra de ferro, sem que fosse mordido. Logo Diogo veio em auxílio, matando outro dos cães com um tiro certeiro. Eu me abaixei com Jonas, quando Saulo atirou por cima de nossas cabeças, na direção de um pastor-alemão que estava perto demais de mim. Julia também atirou, matando outro dos cães. Infelizmente, um dos animais havia se aproximado sem que ela percebesse, e a derrubou após pular em cima dela. O revólver que ela segurava acabou perdendo-se na rua, e Saulo alvejou o canino com ferocidade, para salvar a irmã. De longe, aquela mulher misteriosa fitava a cena com uma expressão neutra. Sob suas correntes, Ana, a loira chamada Sabrina e o menino gordinho continuavam se debatendo.
Ainda havia quatro animais cercando nosso grupo, e Diana parecia apavorada. Julia estava bem perto dela, e juntas elas estavam se aproximando cada vez mais da Secretaria de onde havíamos acabado de sair. Eu quis gritar que elas voltassem e tentassem chegar à ambulância, mas o medo me calou. Diogo, por outro lado, as xingou e correu na direção das duas, protegendo-as. Ele chutou a cabeça de um vira-lata, e Jonas trocou um olhar significativo comigo. Rapidamente, me aproximei de Otto, e o ajudei a ficar de pé. Apoiando o peso dele, comecei a correr de volta para nosso esconderijo anterior. Dois cães tentaram me seguir, mas Jonas agarrou um deles pelo pescoço quando o bicho pulou sobre nós, e o estrangulou. Saulo atingiu um dos olhos do outro com um tiro, matando-o velozmente. Restavam apenas dois dos caninos, e ambos atacavam Diogo. Ele tentou atirar em um deles, mas suas balas haviam acabado. Empurrando um labrador para longe ele rolou pelo chão e escapou de uma investida da criatura. Ela então se voltou contra as garotas. Antes que Saulo sequer pudesse atirar, Diana acertou o bicho com um pedaço de madeira, e ele rolou pelo chão com um gorgolejar doloroso. Ela continuou batendo repetidas vezes, enquanto Diogo finalmente conseguia recarregar sua arma e eliminar o último animal. Nervosa, senti meu coração disparar quando notei que havíamos conseguido. Do outro lado da rua, a mulher cheia de feridas nos olhava, perplexa. Pela primeira vez desde que a havia visto, notei emoção em seus olhos. Raiva.
– Minha matilha inteira... Como vocês se atreveram, seus malditos... — ela praticamente cochichou consigo mesma, mas pudemos ouvir. A garota que Diogo chamara de Sabrina soltou um som alto, como o de uma gargalhada, o que não lhe trouxe muita felicidade. A mulher puxou as correntes, derrubando seus três prisioneiros no chão. — Muito bem, parece que subestimei vocês. Afinal, vocês têm inumanos no grupo. É até legal conhecer gente como eu, mas o problema é que eu fiquei muito chateada por perder meus bebês. Eu até tinha considerado poupar um ou dois de vocês, mas agora todos vão morrer...
Ela começou a andar em nossa direção, e subitamente largou as correntes. Contudo, nenhum dos prisioneiros fez a menor menção de se mexer. Fiquei intrigada, até que vi algo capaz de gelar o meu sangue. Por trás dela, um vulto maior do que o de qualquer outro cão que eu conhecera se revelou. Mesmo antes do fim do mundo, eu nunca havia visto um animal tão imenso de tão perto. Eu não conhecia aquela raça de cachorro, mas ele tinha pernas compridas e um corpo forte, de puro músculo. Ao menos onde o pobrezinho não havia sido mordido, pelos zumbis. Agora, ele parecia um cão infernal, pronto para arrastar todos nós para o abismo do Hades. Com um puxão, a mulher arrancou as correntes de Ana, e a jogou perto dos outros, apenas amordaçada. Seu cão gigantesco se aproximou dos prisioneiros, revelando os dentes afiados pela mutação genética. Minha amiga estava chorando, e não conseguia se mover. De onde eu estava, podia vê-la tremendo, enquanto usava a liberdade em suas mãos para segurar as de Sabrina. O menino gordinho estava pálido como um cadáver, provavelmente pronto para desmaiar.
A inumana trazia sua corrente. Meio enferrujado, o objeto de ferro parecia ter saído de um dos meus piores pesadelos. Algo realmente indescritível era vê-lo se arrastando pelo asfalto repleto de sangue podre. Segurei o braço de Otto com mais força, e ele segurou minha mão, completamente gélida. Eu estava morta de medo daquela coisa. Quase soquei a cara de Diogo, quando vi que ele estava rindo. Saulo o fitava como se nosso amigo estivesse maluco. E a verdade, era que eu também me sentia um pouco assim, em relação à ele. Destravando a arma enquanto encarava a mulher horripilante, ele parecia antever uma batalha gloriosa. Um grande idiota. Quando ela girou a corrente acertando Saulo no pescoço e o derrubando num átimo de segundo, tive noção do quanto estávamos, sem quaisquer delongas, fodidos.
A inumana se arremessou contra o nosso grupo, e pude ouvir disparos sendo feitos ao meu redor. Lutando para tentar enxergar algo quando a lanterna na mão de Jonas foi derrubada, acabei me perdendo de Otto na escuridão. Senti o ar se deslocar ao pé do meu ouvido, e então percebi com pavor que se tratava da corrente de nossa inesperada inimiga reverberando em meus tímpanos, após quase ter me acertado. Na noite, não consegui distinguir muita coisa além dos olhos dela, que brilhavam como os de um gato. Os olhos de seu cão zumbificado também brilhavam, e tal visão era profana. Ouvi o som de vidro quebrando quando alguém foi arremessado em cima de um carro. Com as palmas das mãos suando de nervoso, me xinguei por não poder fazer nada naquele breu. Pela primeira vez desde que havia me tornado uma Inumana, estava sentindo-me inútil. Logo, um impacto lancinante no meu estômago tirou-me o fôlego, quando a corrente grossa que a mulher horrorosa usava atingiu meu abdômen. Caí de joelhos tentando recuperar o ar, que foi praticamente expulso dos meus pulmões. Lágrimas encheram os meus olhos com a pancada, e só pude sentir os grãos de areia e vidro contra o meu rosto, quando o bati contra o asfalto. As coisas ficaram turvas naquele momento. Ao fundo, ouvi o cão que guardava os aprisionados rosnar, e o portão da Secretaria sendo abertos às pressas. Mãos fortes me deram um solavanco, e a voz na escuridão denunciou-me a presença de Otto. Agarrei seu braço e me ergui ainda com a dor reverberando pelo resto dos meus ossos.
Otávio deu um grito de dor quando algo se chocou contra nós. O que mais me deixava apavorada, era não poder enxergar de onde vinham os ataques. Além disso, eu não conseguia explicar o medo paralisante daquela mulher. Eu nunca havia visto o verdadeiro mal, antes daquele dia. Não havia emoção em sua voz. Não havia calor em seus olhos. Não havia humanidade. Não restara nada. Secretamente, agradeci por ter escapado de um efeito tão cruel da mutação que salvara minha vida. A verdade era que eu preferiria morrer a me tornar algo como aquela estranha. Senti uma mão envolver meus cabelos violentamente, erguendo o meu corpo contra minha vontade. Não havia sinal de nenhum dos meus amigos, mas eu podia ouvi-los falando e correndo. Os portões da Secretaria de Obras se fecharam, e senti o gramado embaixo dos meus joelhos. Indignamente arrastada, fui levada pelo caminho que conduzia até a entrada do local. A porta foi aberta e eu caí novamente, como um saco de lixo. Pessoas se moviam e eu consegui ouvir alguém subindo as escadas de madeira polida do hall de entrada. A corrente infernal estava raspando no chão empoeirado, quando uma lanterna foi acesa. Logo depois, outra. E mais outra.
Mirei a origem de tanta luminosidade, e encontrei os olhos mortos daquela mulher. Num canto, seus três prisioneiros gemiam contra a parede de madeira. O enorme cão de raça zumbificado estava parado na porta, bloqueando a saída da SMOF. Jogando mais uma lanterna acesa no chão, a mulher espalhou luz pelo refúgio que salvara minha vida dias atrás. Agora, pude ver que eu não era sua única refém. Perto de mim, Otávio arfava tentando se recuperar provavelmente da pancada que deixara um cruel hematoma contra o lado direito de seu rosto, espalhando uma macha roxa que ia de sua têmpora até o pescoço. Do segundo andar, ouvi o som de armas sendo recarregadas. A mulher sorriu enquanto fitava as escadas que a levariam até meus amigos. Diogo surgiu, apontando com a espingarda. Ele tinha uma expressão feroz em seu rosto, pronto para matar assim que tivesse chance. A mulher abaixou-se ao meu lado, colocando uma das mãos em torno do meu pescoço. Tentei me debater, e ela afundou as unhas contra minha pele. Não acreditei que fossem tão afiadas, até que sentir o sangue umedecendo minha pele suada, e a comum ardência que um ferimento de tal natureza trazia. Lembro-me de ter realmente temido por minha vida, como no dia em que havia sido derrubada no jardim dos Shepard.
– Será que me matar vale a vida da sua amiga? – indagou a mulher, gorgolejando como um cão. – Pensei que a matilha de vocês fosse mais leal. Na verdade, eu contava com isso...
– Deixe-a em paz! – ouvi Diana gritar, do andar de cima.
– Ora, desça e fique aqui com ela, se deseja tanto... – ofereceu a inumana.
– Qual... Qual o seu nome? – cuspiu Otávio, deixando escapar um pouco de sangue de sua boca.
– Pensei que não fossem me perguntar. Quando eu era humana, me chamava Sandra. Agora, considerando minha mutação, sou Lupa. – declarou.
– A deusa loba. – disse Julia, em algum lugar acima de onde eu estava.
– Exato. Eu era professora, antes de ser considerada louca. A Filosofia sempre foi uma paixão, assim como os mitos e lendas... Agora, qual dos dois aqui embaixo eu mato primeiro? – eu não queria, mas gemi de dor quando ela apertou mais as unhas contra meu pescoço. Percebi por fim, que eu estava chorando, de medo.
– Diogo. Ela não vai desistir. Ela não se importa se for morta. Ela não tem motivo pra fazer nada. Ela é um animal, como os bichos que matamos todos os dias pra sobreviver. Atira nessa vadia. Ela vai matar a gente de qualquer jeito. – gritou Otávio, surpreendendo a todos. Até mesmo a inumana virou-se para ele, com uma sobrancelha erguida.
– Garoto esperto. – ela abriu um sorriso enorme, como uma autêntica predadora. – O que você vai fazer, jovem lobo? Você daria um ótimo alfa para minha matilha... Talvez eu o contamine quando seus amigos estiverem engasgando com as próprias entranhas... – Lupa indagou à Diogo. Com dificuldade, ergui a cabeça para vê-lo. Levei um susto quando percebi que ele estava chorando, olhando pra mim. Minhas lágrimas brotaram ainda mais fortes, quando me forcei a dizer “Por favor”, sem emitir som algum. Fechei os olhos e ergui a cabeça. Não seria degolada como uma ovelha levada ao abate. Morreria com orgulho, mesmo que não mudasse nada. Eu havia sido poupada uma vez, e recebido uma sobrevida, apenas para rever meu irmão postiço, Ana, e Diogo outra vez. E por isso, eu era grata.
– Desculpa, Vicky... – Diogo preparou-se para atirar.
– Agora sim! – vibrou Lupa, erguendo a mão que estava em meu pescoço para rasgar o rosto de Otávio. Abri os olhos quando o movimento dela me derrubou outra vez. Otto me fitou chorando, e fechou os olhos.
– Não. – ouvi minha própria voz dizer. A questão mais urgente naquela hora foi o fato de que não era eu quem estava falando. Inclusive, eu não me lembrava de ter levantado, nem segurado a mão de Lupa. Diogo impediu-se de disparar com a arma, e ela me olhou com um sorriso de surpresa. Eu estava me sentindo apavorada, como se visse meu corpo agindo sozinho num sonho, ou num pesadelo.
– Olha só quem resolveu ser corajosa. Para uma Inumana, achei que você chorava demais. – desafiou-me Lupa.
– Não se preocupe querida. Comigo, ninguém corre o risco de pensar assim. – respondi, ou pelo menos a pessoa que estivesse conduzindo meu corpo respondeu. – Agora, o que eu quero é saber se você, ainda sabe chorar. – com um movimento feroz, a outra em meu corpo girou o braço de Lupa enquanto girava também o próprio corpo, usando o peso. Um estalo quebrou o som das respirações de todos, e a inumana soltou um grito. De prazer.
A outra em meu corpo soltou Lupa e a empurrou pelos ombros contra o chão. A inumana bateu com o rosto contra a madeira, e soltou uma gargalhada fantasmagórica. Todos se espremeram contra o parapeito da escada no segundo andar, e estavam observando a cena com um olhar estático. O cão de Lupa começou a rosnar e deu um latido de revolta enquanto se lançava pela porta, contra mim, ou fosse lá quem estivesse no comando. Meu corpo soltou Lupa e alcançou uma das lanternas no chão, virando-se na direção do cão zumbificado no exato momento em que ele se preparava para morder. Estourando a lâmpada da lanterna contra a cabeça do animal, senti um pedaço de vidro cortar a mesma mão que eu havia ferido ao matar Lucíola. O cão ganiu quando se desequilibrou e caiu para um lado, derrubando Otávio na direção de Ana e os outros prisioneiros. O bicho começou a reerguer-se, quando um tiro de espingarda estourou metade de sua cabeça. Senti meu rosto se contrair num sorriso, quando me virei para Diogo. Apavorada, senti meus lábios se curvarem num beijo, que a outra em meu corpo mandou para ele com uma expressão exageradamente sensual. O quê, pelo inferno, ela estava fazendo?
Com um andar dolorido, mas determinado, aproximei-me de Lupa sem o menor controle sobre o quê estava acontecendo. Ela havia parado de rir, e estava começando a emitir sons de dor, ou de confusão. Meu cabelo se soltou quando sentei sobre os joelhos ao seu lado, e a puxei envolvendo seu pescoço com um dos meus braços. Ela arregalou os olhos quando meu aperto aumento, e quando ela tentou me arranhar, bati com sua cabeça contra o chão novamente. Às minhas costas, ouvi o som das correntes dos prisioneiros caindo, quando Otávio conseguiu soltá-los. Ao meu lado, o resto dos meus amigos começava a descer, aproximando-se de mim e Lupa. Ela me fitou com uma fúria muda, antes de sorrir no limiar da insanidade.
– Você é como eu... – ela disse. – Vai causar a morte de todos que você ama. – ela sorria como se um triunfo invisível a contemplasse.
– Não sou como você. – a outra em meu corpo respondeu. – Sou muito pior. – com um movimento violento, ela comprimiu meu braço contra o pescoço de Lupa, girando a cabeça dela com o outro. O estalo de seu pescoço quebrando fez-se ouvir e seu corpo desmontou contra o chão sujo. Fiquei chocada comigo mesma, até lembrar-me de onde havia aprendido como quebrar o pescoço de alguém. Eu havia visto Luca quebrando o pescoço de um zumbi, nos primeiros dias da infecção. Eu só não sabia que meu inconsciente havia guardado aquilo com tanta perfeição.
A outra em meu corpo fitou meus amigos com uma ferocidade absurda. Olhando-me com receio, vi Julia abraçada com seu irmão, Saulo. Diana estava com os olhos marejados enquanto me observava, apoiando Jonas que exibia um ferimento assustador. Diogo estava mais perto, mas tinha uma expressão confusa, enquanto parecia tentar ver algo diferente em minha aparência. Eu não saberia dizer o que ele estava pensando naquele momento. Até hoje, não tenho certeza. Senti uma mão em meu ombro, e a outra garota a segurou com força, assustando Otávio, que deu um passo para trás. Perto dele, Ana também me olhava, com um braço na cintura da garota loira que havia sido atingida no rosto por Lupa. O menino gordinho parecia ter tanto medo de mim quanto de sua antiga captora. A outra garota achava aquilo hilário.
– Victoria? Está tudo bem? – perguntou Otto, nervoso.
– Estou ótima. Mas não sou a Victoria. – rebateu a estranha em meu corpo. Pelo menos, ela havia sido honesta, pensei. Todos ficaram confusos, enquanto ela se levantava meio tonta. – Meu nome é Nora.
Ah, então esse era o nome dela...
Notas finais
*Algo muito ruim vai acontecer.
*Algo muuuuito ruim vai acontecer.
*Algo REALMENTE muito ruim vai acontecer.
*Abordará o grupo do acampamento.
Pensem nisso, galera! Até domingo tem mais! ;*
Kisses by DroppingPieces!
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