Quebranto.
78 A Terceira Cor é o Verde.
Notas iniciais
Manuela.
Em alguma outra vida, em outra época, tenho certeza que já houvera beleza naquele lugar. Vidraçarias e porcelanas quebradas, talheres por toda a parte e mesas reviradas. Era nisso que se transformara um dos muitos restaurantes do Porto da Barra. Búzios inteira trazia um ar de melancolia e sofrimento, com a ação do tempo e das mudanças provocadas por todos os eventos trazidos à tona nos últimos anos. Era mais ou menos como eu me sentia, tendo passado pelos últimos momentos com a certeza de que havia sido mal interpretada e julgada por todos, principalmente por Carolina. E por falar nela, era o tipo de pessoa que me irritava profunda e verdadeiramente. Não pela franqueza excessiva e a boca mior que o mundo, mas pela necessidade quase patológica de fazer as pessoas ao redor sentirem-se pequenas e fúteis. Como ela. Bem, talvez fosse só meu rancor por ter sido descoberta, falando. Aliado à dor de cotovelo por perder Ricardo sem nunca tê-lo tido. Como a burra do ano, a garota mais otária do universo, sentei-me ao lado de Hugo, embaixo de uma das janelas que davam para uma rua à beira mar, totalmente infestada de zumbis. Eles estavam nos ignorando com a inatividade noturna, mas mesmo assim me dava pânico notar o quão suicidas eram aqueles mercenários. Não consegui entender como Sabrina podia ter se tornado aliada de um homem como Herbert, mas não pareceu em momento algum que ela o estivesse considerando no resultado final de seus planos. Sabíamos que Faye estava à caminho do porto, e mais uma vez Irma queria interceptá-la. As minhas razões para segui-los, no entanto, passavam bem longe da concordância. Eu só precisava proteger Hugo, compensá-lo de alguma forma pelo sofrimento que lhe causara. Mesmo que nem ele pudesse acreditar em mim. Ali ao seu lado, senti alívio por vê-lo dormindo. Era bem cruel que tivessem amarrado suas mãos nas costas, e obrigado o pobrezinho a dormir numa posição daquelas. A pancada que Herbert lhe dera devia ter feito metade do trabalho, e tive que me esforçar muito para lembrar que Tânia dissera não ser bom dormir depois de ser atingido naquela região do corpo. Mas o que eu podia fazer? Demonstrar cuidado e simpatia só me faria acabar amarrada ao lado dele. Virgem do céu, eu estava morrendo de medo daqueles caras...
– Eu só vou dizer uma vez, e será a última — anunciou Irma, sobressaltando-me. Então percebi que ela dirigia-se à Herbert, que não demonstrava o melhor dos humores diante de uma abordagem tão imponente. — A forma como você lidou com aquela gente na praia, foi inaceitável. Vocês os incitou, e pôs tudo a perder. Podíamos ter ido embora com as cientistas, mas por sua causa eles reagiram!
– Não esqueçam dos zumbis e caranguejos. Coisinhas nojentas... — zombou Valéria, cutucando Sabrina com o braço, que sorriu revirando os olhos. — Mas a Irma tá certa, esquentadinho. Ninguém aqui liga se o tal de William morreu. Lide com isso. Ou da próxima vez te juntamos à ele.
– Vocês acham que eu tenho medo de mulher? — Herbert estava rindo, e se parecia muito com o tipo de cliente sádico que eu atendia antes do apocalipse. — Eu quero ver você tentar, amorzinho. Vocês só servem pra mim enquanto não matarmos a piranha oriental. Depois, meto uma bala na cabeça de cada vadia nesse cômodo, sem pensar. É só alguém entrar no meu caminho.
– Digo o mesmo a você, imbecil. — Sabrina mostrou a pistola em sua cintura. — Traí meu antigo grupo e posso te trair também. Só me importo com uma pessoa no mundo, e enquanto ela estiver em risco, não tenho medo de sujar as mãos. Você sequestrou e amarrou um dos meus antigos amigos. Só nosso objetivo em comum me impede de te matar aqui e agora.
– Eu ia gostar de ver isso, Sá... — Valéria se aproximou e abraçou Sabrina pela cintura, debochando claramente do tal Herbert, cujo bigode era muito ridículo apesar de combinar perfeitamente com seu rosto latino e de pouca expressão. — Mas não vale à pena. É menos um par de braços pra atirar nos seus ex-aliados.
– Eu não tenho prazer algum em sentar aqui e planejar a morte deles, Valéria. Só estou fazendo o que é preciso. Se você pretende ser minha amiga, precisa entender isso. — Os cabelos loiros de Sabrina esvoaçaram quando ela se afastou de Herbert e veio na minha direção. — Esses dois não são estranhos, e muito menos animais pra mim. Se eu pudesse, os deixaria em paz. A única razão de levantar a mão contra eles, é porque estão entre mim e Ana. Entre mim e a chance de conseguir um lugar seguro pra nós duas.
– Não pedi pela sua amizade, Sabrina... — Valéria estava rindo. O modo como ela se movia e ronronava ao falar, me lembrou de Topázio. Prostituta infeliz e reptiliana. E eu era boa em reconhecê-las, sendo uma até recentemente. — Achei que você fosse mais criativa do que isso. Deixo seu amor pra essa Ana aí. Eu só quero me divertir — piscando, ela se afastou, indo para o canto cheio de escombros onde antes devia haver uma cozinha.
– Ok, chega dessas ameaças. Estamos juntos, e até que tudo termine, quero que convivamos em paz. Herbert, não tenho nada contra você. Mas precisamos pensar antes de agir. Só precisamos cumprir nossa missão, não nos tornarmos monstros. Lembre-se do que passamos em São Paulo. — Irma pareceu bem mais velha, então. Apesar do corpo magro e forte de uma militar, parecia meio encurvada, como se tivesse ombros pesados demais para serem erguidos.
– William estava vivo em São Paulo — sem pronunciar palavra, Herbert foi unir-se à Valéria, deixando-nos a sós.
Enquanto Irma desculpava-se com Sabrina pelo comportamento do colega, imaginei pelo quê aquela gente teria passado, para chegar a tal ponto. Mesmo alguém como Topázio tinha um passado, uma história. Como haviam chegado até a Fortaleza de que todos falavam, para começar? Devia ser um lugar realmente ótimo, para serem convencidos a matar alguém que nunca tinham visto, em troca de uma entrada garantida. Fiquei curiosa pelas origens daquela menina bronzeada, a Valéria. Tinha pele de surfista, assim como o Dante. Nem havia tido tempo de falar com ele, inclusive. Queria saber como se sentia sobre Hugo, e como tinha passado enquanto todos estavam separados. Percebi então, que talvez eu jamais soubesse as respostas para as minhas perguntas. Não existiam pessoas boas ou ruins, éramos todos vítimas das circunstâncias. E eu, bem, não havia como ter certeza se tinha muito mais tempo de vida. Mas pelo tempo que tivesse, pelo tempo que pudesse extrair daquele solo infértil, eu seria eu mesma e faria valer à pena. Aproximando-me de Hugo, não me incomodei ao abraçá-lo, fazendo com que deitasse a cabeça no meu ombro esquerdo. Fitando nossos captores por cima de sua cabeça, beijei seus cabelos. Ele abriu os olhos, e seu olhar tocou o meu. Para minha surpresa, não nos afastamos, e ele sorriu. Com o coração aquecido, e apertei um pouquinho mais e ele fechou os olhos novamente, por sua vez.
– Prometo que nada vai te acontecer. Eu estou aqui. Ok? — sussurrei, fazendo carinho nos cabelos loiros, tão lisos quanto os meus.
– Ok. — e eu soube que ele confiava em mim novamente.
Cecília.
O mundo podia ter acabado, mas ainda era tão lindo quanto eu me lembrava. E Otto também. Era como se eu o conhecesse de novo, quando o vi de verdade. Digo, não é como se em algum momento eu tivesse deixado de enxergar. Eu só não via o mundo com as mesmas cores e da mesma maneira que as pessoas normais. Via as auras dos seres, suas cores internas e os tons de suas emoções. Ainda assim, eu os via, e talvez de uma forma melhor do que eu jamais veria de novo. Confesso que senti pesar por pensar nisso. Eu perdera muitas coisas com a vacina supressora de Faye, mas tinha valido à pena. Salvei meus amigos. Salvei Otávio, e pude de alguma forma retribuir por todo o bem que ele me havia feito. Desde o nosso primeiro beijo. As correntes de Topázio ainda doíam em meus pulsos. Eu ainda sentia a ânsia e o desespero das drogas. Mas tudo parecia pequeno. Quase engraçado, quando eu podia ter o nascer do sol. Quando eu tinha todo aquele verde. Da grama, dos olhos de Otto. O verde da vida e de esperança. Como a aura dele. Verde, e nem por isso menos calorosa que o verão mais quente. Enquanto eu caminhava na beira da estrada onde havíamos encostado, surpreendi-me contemplando meus próprios cabelos. Castanhos. Tão claros que eram quase aloirados. Eu não lembrava disso. O sol me fazia querer chorar, ofuscando-me. Lembro muito bem que não fechei os olhos nem um milímetro sequer, apesar disso tudo. Era um milagre, o meu milagre pessoal. Inexplicável, e todo meu. Fiquei grata. Eu tinha sorte por ter dado tudo certo.
Faye estava enfaixando uma das coxas de Helena, usando uma maca improvisada construída por Arantes. Táticas de guerra e sobrevivência, ele dissera. Parecia promissor pra mim. Otávio não tirava sua mão da minha, e admito que me senti muito melhor por revisitar o mundo com ele ao meu lado. Também não posso esquecer de dizer que Ricardo e Dante pareciam mesmo inconsoláveis, cada um à sua maneira e com a mesma potência de aversão pelo outro. Lamentei também por Hugo e Manuela, e mesmo que Carolina estivesse determinada a vê-la como uma inimiga, eu sabia que não era. Havia proteção e culpa em sua aura, antes de nos separarmos. Não ódio ou desconfiança. Pensamos que fazer uma pausa em nossa viagem faria bem, e a noite passada tinha sido especialmente tranquila, apesar do som de tiros que ouvimos, vindo da mesma estrada onde estávamos, só que mais à frente. Carolina ficou animada com a possibilidade de serem os mercenários sendo mortos por alguma coisa, mas pensei que haveria muito mais tiros, se fossem eles. É claro que ninguém precisava de pragmatismo naquele momento, então calei.
– Sabe, estou realmente bem. Não precisa me checar de três em três minutos — pontuei, mirando Otávio através da brisa que sacudia meus cabelos.
– Você entendeu errado, linda — sorriu, acariciando uma das minhas bochechas. — Eu só não consigo entender como alguém pode ter olhos tão lindos. São tão azuis que parecem cristais. E acredite, não estou dizendo isso só pra te conquistar. Meu trabalho já foi feito. Considere um elogio totalmente isento.
– Nada é isento, vindo de você — cochichei, beliscando a barriga dele. — Sabe, eu costumava ser menos professoral e profética, antes de me tornar inumana. Será que tem espaço pra uma nova Cecília entre nós? Digo, eu já pressentia o futuro antes dos zumbis e essas coisas, e tenho certeza de que esse dom nunca vai me deixar, mas realmente fico aliviada por não ter mais todos os outros. Faz sentido?
– Claro. E te amo ainda mais por isso — enquanto falava ele puxou minhas mãos para as dele. Duas florestas de esmeralda me fitaram, e não pude evitar ao sorrir. — Esses monstros todos, a sujeira, o mau cheiro... — Tive que sorrir. Otto estava mesmo fedendo. E eu não me importava. — Tudo isso é só decoração temática quando estamos juntos. Desde que a nova Cecília não enjoe de mim, é claro que posso me apaixonar por ela também.
– Lindos demais. O sexo não é muito recomendável, apesar do melodrama. — Carolina sentou-se no chão, ao nosso lado. Parecia um pouco contrariada, e mais nebulosa do que o normal. — Sério, gente. Sexo ao ar livre só é legal quando as pessoas em volta não nos conhecem. Não estou com vontade de testemunhar as intimidades de vocês.
– Ninguém ia fazer sexo, Carol. — Otávio bufou. — O que você quer?
– Não ia ter sexo? Que chato — disse, piscando na minha direção e fazendo-me sorrir apesar de todo o absurdo. — Ah, eu só queria saber o que acham de irmos logo? Diogo está impaciente com os dois Romeus do Hugo. Acho que ele mata o Ricardo antes do pôr-do-sol, se ele continuar de cara feia e com um humor dos diabos. Faye quer dar mais tempo pra Helena descansar, mas eu digo o seguinte: Descansem quando morrer. Ou não, né. Vocês entenderam...
– Eu acho que devíamos esperar. Cecília está se acostumando com a visão outra vez. Não pode entrar em risco de cara. — Otto me olhou em busca de confirmação. Acho que meu rosto denunciou cedo demais o que estava pensando.
– Enxergar é como andar de bicicleta, amor. As cores ainda me deixam confusas, por estarem mais misturadas, mas isso não é motivo. Victoria está mais à frente. Não quer ver sua irmã logo? Tem os outros também. Aposto que o Dino quer encontrar a gêmea dele — num tom calmo e aveludado, demonstrei os motivos mais incontestáveis. Assim eu não precisaria dizer que queria ir em frente depressa, para descobrir quem havia morrido na noite passada.
– A moça sabe o que diz — resmungou Carol, levantando-se. — Vou comunicar à Miss Japão os votos de vocês, meninos. Acreditem ou não, até a Helena votou para irmos em frente. Vejo vocês na van.
Não é surpresa alguma que acabamos em movimento em menos de trinta minutos depois que a Carolina começou todo o rebuliço que tinha direito. Cada movimento na estrada era uma nova surpresa para mim. Tudo era caos e ruína, mas como a própria Carol, era belo. O que se escondia atrás do que parecia, era muito melhor e mais rico do que aquilo que todos podiam ver. Onde havia tragédia e luto, também haviam amores e relações de fidelidade reais, como o que unia nossa família, nosso grupo. Sem perceber, fiquei olhando para o rosto de Otto enquanto ele olhava para a estrada à frente. Ele me pegou desprevinida, e corou ao sentir-se observado. Desviei o olhar para não constrangê-lo, nem incentivá-lo a me beijar ou coisa parecida. Não queria esfregar minha felicidade nos rostos de Dante e Rico. Pelo contrário, os observei com um osrriso sincero, e os dois pareceram um pouco menos abatidos, quando finalmente estacinamos os dois veículos em caravana em frente ao ônibus de turismo que nossos amigos haviam levado. Todos notaram um corpo carbonizado e totalmente irreconhecível na beira da estrada, mas ninguém falou à respeito. Desligando o motor da van, Diogo desceu correndo e foi até o veículo maior. Todos o acompanhamos até o lado de fora, surpresos quando ele desceu com tiras de pano negras, nas mãos.
– São pedaços da jaqueta que a Victoria usa. — Seu rosto estava entre o choque e o medo. — Tem sangue nesses pedaços. Tem uma poça seca enorme lá dentro.
– Isso não quer dizer nada. Eles fugiram, é óbvio — Arantes caminhou ao redor do ônibus, enuanto externava suas opiniões. — Esse ônibus foi atacado. E pela quantidade de pessoas que o Ricardo alega que estavam aqui, deveria haver bem mais sangue do que há. Todas aa janelas foram quebradas. Tem vidro espalhado pela estrada inteira.
– Além disso tem o inumano morcego que encontramos — salientou Faye. — Ele claramente foi morto por humanos, ou inumanos. Não paramos pra que eu pudesse fazer um exame mais acentuado, mas os bebês seriam o tipo de presa ideal para uma espécie de híbrido como essa. Eles se movem e enxergam com bioecolocalização. O choro dos bebês que a amiga de vocês teve, pode tê-lo atraído. Isso fez com que o monstro marcasse o ônibus dos seus amigos como alvo.
– Faz sentido, doutora — concordou Helena, que apesar de caminhar com muita dificuldade, estava apoiada no ombro de Dante. — Mas se estamos certos, então podemos ter certeza de que temos algum ninho por perto. Eles vivem em colônias. Pode ser que enviem outros quando anoitecer, para checarem o que veio e não voltou.
– E também podemos considerar que nossos amigos perdidos desceram do ônibus e foram na direção do Porto. Tem sangue seco no asfalto, formando uma trilha até o fim da estrada que dá nos restaurantes. — Arantes apontou para o horizonte. Finalmente pudemos ver o mar e as dezenas de navios e iates atracados no local. E também o verdadeiro exército de zumbis nas ruas, que apesar de estarem em péssimos estados por causa da maresia, pareciam bem capazes de nos devorar.
– Vocês três são bons. Bem CSI... — elogiou Carol, sorrindo. Arantes piscou por um momento, antes de sorrir de volta para a garota. Senti boas vibrações ali. Um sargento seria um bom candidato para amansar o jeito durão daquela maluca. Se ele não conseguisse, então ninguém mais podia.
– CSI já acabou faz uns bons anos. Não sabia que gostava de coisas antigas — implicou Otávio. — Pensei que qualquer coisa feita antes de dois mil e dezessete fosse velharia — ele estava com o olhar provocador de quando queria colocar alguém numa saia justa.
– Alguns clássicos só ficam melhores, com o tempo. — Carol riu outra vez, descaradamente se insinuando para o sargento. Todo mundo ficou sem graça, mas ela agia com tanta classe ensaiada, que era como se nós é que fôssemos loucos, por considerar seu comportamento inconveniente.
– É claro que se eles foram para o porto, estão seguindo o plano da Victoria. Então temos que encontrá-los antes dos mercenários — sugeri, e os olhares voltaram-se para mim. — Aquele homem, o Herbert. Ele é violento o bastante para fazer mal aos bebês. E deseja reféns que obriguem Faye a se entregar. Talvez Hugo e Manuela não sejam o suficiente.
– Manuela está do lado deles. Ela é uma vira-casaca — resmungou Ricardo, enquanto Carolina parecia concordar, de cara feia.
– Não é, não — Dante interveio. — Ela não faria isso. Só está protegendo o Hugo, tenho certeza. O que temos mesmo que fazer, é arrumar um jeito de atrair esses zumbis para longe do porto. Pelo menos por algum tempo. Um grupo, por exemplo, pode ficar e explodir um dos veículos, até mesmo o ônibus. O fogo e o barulho vão atraí-los por umas boas horas.
– O resto vai até lá e tenta encontrar os outros, e se livrar dos mercenários — completou Diogo. — Parece bom pra mim.
– Então vamos fazer isso. Estou cansada de ser perseguida. Se querem me matar, então não tem problema se eu ajudar a tramar a morte deles, não é? — Faye estava sorrindo, mas percebi que ela estava com medo. Devia ser horrível saber que desejam sua morte. — Agora que sei qual das minhas amostras funcionou em Cecília, podemos descartar todas as outras. Foi um golpe de sorte maior do que poderíamos esperar. Posso usar os outros contêiners para criar uma bomba, e mandar esse ônibus pelos ares.
– Está decidido. Hoje mesmo, vamos colocar um fim nisso. Vamos ter o nosso pessoal de volta. — A voz de Diogo soou mais alta do que ele pretendia, mas não me incomodei, e aparentemente ele também não.
Enquanto Helena e Faye trabalhavam nas pequenas caixas amarelas de conservação criogênica, Arantes e Diogo acertavam os detalhes do grupo que se infiltraria entre os zumbis para chegar até Victoria e os outros. O fato de todos terem se escondido durante a noite, fazia toda a diferença. Durante o dia os zumbis eram bem mais ativos, e atentos. Além disso, se o ninho daquele monstro morcego estivesse por ali, teríamos companhias bem desagradáveis logo que escurecesse. Não podíamos correr esse risco. Ficou acertado que Dante, Rico, Otto, Diogo e o próprio Arantes iriam até a região portuária. Carolina ficou revoltada por ser deixada de novo, para trás. Mas a convenci a nos ajudar afirmando que ela era a mulher mais capaz dentre todas. Um pouco de bajulação nunca fez mal a ninguém, de todo modo. Eu, ela, Faye, Dino e Helena teríamos de detonar as bombas, e contornar a horda que viria até a estrada, carregando conosco os exemplares da vacina que eu havia injetado. Não era uma missão menos perigosa do que enfrentar mercenários doentes e bem melhor armados do que nós. Não faltaria perigo pra ninguém. O que mais me intrigava naquilo tudo, era que mesmo com todo o perigo iminente e a baixa expectativa de vida, ansiávamos por aquele momento. Queríamos nossos amigos de volta. Só que eu entendia bem demais aquele mundo para duvidar da tragédia e de sua capacidade de surgir sem ser convidada. E eu tinha medo. Não por mim, mas por saber como dois mais dois são quatro, e à despeito de toda minha esperança, que nem todos sairiam de Búzios.
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