Quebranto.

76 A Primeira Cor é o Azul.


Notas iniciais
Mais um capítulo, gente! sse demorou um pouquinho mais, mas vale por dois! Foi bem intenso, e acho que vocês vão curtir! Boa leitura!

Diogo.

Eu sabia que aquilo iria deixar marca. Senti o corte em meu queixo abrir-se um pouco mais quando bati com ele contra uma das pequenas pedras ao redor da loja de artesanato onde eu quase me tornara cúmplice na morte de amigos. As folhas secas cobriram minhas mãos quando afundei na vergonha e no arrependimento. Merda, eu devia ter acreditado que eles seriam capazes de sobreviver. Devia ter acreditado nas meninas, também. Esperava que as três estivessem bem onde eu as deixara, mas temia encontrar apenas a morte quando enfim chegasse até elas. Sabrina não se arrependeria, e eu sabia disso. Aliar-me a ela fora um dos piores erros da minha vida, principalmente por ter me feito assumir uma das posturas menos dignas de um ser humano. A covardia. Tentando me levantar, senti como se o mundo estivesse ficando embaralhado nas bordas. Empreguei novo esforço para me erguer, quando um chute direcionado ao meu estômago fez com que eu rolasse para o outro lado, engasgando com o sangue e a saliva em minha boca.

– O que você fez com ela?! Repete! — Otávio estava muito alterado, mais do que eu me lembrava de tê-lo visto. Parecia até que o pintinho tinha virado galo.

– Otto, pare. Por favor. Você e Arantes vão matá-lo — a voz da chinesa pareceu um bote salva-vidas, no meio daquela confusão toda. — Eu disse que iríamos votar, e vamos votar. A decisão precisa ser de todos.

– Ótimo. — Arantes, o cara com pinta de militar que havia me descido o cacete, se empertigou todo e pareceu sorrir. Mas foi um gesto frio, de intimidação. Algo que eu já usara muito na polícia. — Voto por matar o desgraçado.

– Em minha defesa, só posso dizer que não disparei uma bala contra vocês. Não fui eu quem matou o tal garoto de quem estão falando. E também não sou amigo daquela gente. Como o Otávio disse, eu sou o namorado da melhor amiga dele. Estávamos juntos, quando fomos atacados por zumbis e tivemos que nos separar. Mas eu escapei com a Cecília, e outras meninas do nosso grupo, e embora tenha as deixado para trás, nunca quis o mal delas. Se todas estiverem onde as deixei, posso ajudar a encontrá-las. — Respirei fundo, tomando fôlego. Otávio estava vermelho, e sua mão parecia machucada nas juntas, ralada após ter sido usada para me espancar. Bem feito. Ele respirou fundo, e o ódio deixou seus olhos. Como eu sabia que aconteceria. Aquele era um garoto bom. — Juro que deixei suprimentos e uma arma com a Carolina, Otto. Ela deve estar cuidando da Cecília, da Manuela e...

– Irônico, não? Justamente a Carolina está tendo uma atitude desprendida. Eu esperaria encontrar ela aqui, não você. — ele esfregou os olhos, parecia estar lutando pra não chorar. — Victoria não merece sofrer por sua morte. Voto por não matarmos o Diogo. Mas não espere que eu te salve, se um dia precisar de mim.

– Não é um perdão, mas posso aceitar isso — conformei-me, maneando a cabeça enquanto fitava o chão, envergonhado demais para encará-lo. — Hugo, Dante?

– Estamos com o Otto — afirmou Hugo, Dante maneando a cabeça. — Não queremos você morto.

– Eu e Helena também não queremos seu sangue em nossas mãos. — A mulher, Faye, parecia bem mais nova do que sua voz. Tinha uma autoridade natural de quem estava acostumada a mandar. Pude reconhecer nela o toque petulante das pessoas no poder. A atitude de alguém que sabe que é importante, e não necessariamente utiliza o que tem. No tudo o mais, notei uma piedade e simpatia naturais em seu semblante. Algo de que gostei. Era alguém decente, talvez porque não tivesse vivido o bastante no mundo que conhecíamos a anos. — Arantes, não faça essa cara. Sabemos que a pessoa que matou Ruan, estava de frente para a casa. Esse rapaz não fez nada. Não merece morrer por algo que nem viu acontecer. Não te quero responsável pela morte de um inocente.

– Jurei ao Allan que te defenderia, Faye. Sei que estamos tentando realizar algo mais importante. No momento certo, vou vingar o meu filho. Confio em você. — Arantes não parecia especialmente satisfeito por me poupar, mas tinha cara de quem estava conformado. Bom pra mim.

– Diogo, onde você deixou a Cecília? — Otávio estava a centímetros do meu rosto, com uma das mãos agarrando minha jaqueta preta. Ele me puxou para cima, com uma força que me surpreendeu bastante. Sem jeito, limpei o rosto com o braço, sentindo o sangue espalhar na pele. Os outros se aproximaram, enquanto os olhos verdes de Otto tornavam sua expressão ainda mais desafiadora.

– Elas estão na praia onde acampamos, antes de irmos à Privilège. Irma, a líder do grupo que está caçando a Faye, matou a colônia de caranguejos que vivia lá. Estarão seguras quando chegarmos — conformei-me com a ideia de abandonar qualquer plano de origem egoísta, e compensar meu amigo pela minha falha. Por incrível que pareça. — Aí, cara. Juro a você que vou me redimir por ter deixado a garota sozinha.

– Espero que sim. Mais pro seu bem, do que pro meu... — Otávio virou-me as costas e aproximou-se de Helena, falando próximo ao seu ouvido. Ela assentiu e começou a andar de voltar para a loja de artesanato, com Faye e Dino ao seu lado.

Logo percebi que não estavam fazendo nada além de calmamente, organizarem os materiais e suprimentos necessários para deixarmos o local. É claro que o tal de Arantes estava enterrando o filho, também. Dante e Hugo o estavam ajudando. Contudo era possível notar, aos poucos, o lento e crescente movimento dos zumbis que começavam a se aproximar do local através da vegetação, cada vez mais próximos da origem dos tiros que os haviam atraído. Suspirando, senti o aperto forte de Arantes, que me guiava em direção a um dos carros. Ele tentou me amarrar, mas desistiu quando recebeu um olhar condenador dos demais. Sem querer parecer arrogante, em momento algum encarei-o, embora pudesse facilmente quebrar o imbecil. Mas o homem tinha perdido o filho. Dei um desconto, principalmente porque havia ajudado o grupo que acabara com a vida dele. Não demorou até que deixássemos a loja, usando o carro de Faye e nossa van para seguir em frente. Por sorte, Dante e Helena haviam conseguido trazer nosso veículo da estrada, assim que se instalaram com a cientista. Sacolejando como um fardo de legumes, suspirei olhando para fora, enquanto um ou outro zumbi tentava agarrar as laterais da lataria. Da última vez em que eu estivera ali, participara de uma perseguição envolvendo aves mutantes e Lívia, a criança simplesmente mais demoníaca que eu já havia conhecido. Fomos deixando o caminho sinuoso que levaria de volta à direção por onde havíamos vindo, voltando para o centro do olho do furacão. As ruas desertas e devastadas eram como uma piada de mal gosto que havia perdido a graça muito tempo atrás, embora ainda houvessem pessoas rindo. Eram como o entardecer amargo e de gosto ferruginoso que praticamente inundara o ar de melancolia, há quase dois anos atrás.
A minha primeira sensação, no momento em que chegamos à entrada da praia ladeada por vegetação xerófila e abarrotada de vida, foi de medo. Depois, senti raiva de mim mesmo. Era bem difícil pensar na cara que eu teria de suportar na frente de todos, enquanto ainda lembrassem disso. O importante, era que de fato eu saberia o que estava acontecendo, e a própria vida me levara àquilo. No fim, acreditei mesmo que em meu destino, jamais seria capaz de cometer erros, por ter acertado com bastante frenquência. E, entenda, como alguém que namora Victoria não tem sorte? O que me leva diretamente à pergunta: Como pude duvidar dela, e achar que aceitaria de bom grado que eu a enocntrasse às custas do sangue de nossos amigos? Era exatamente isto o que Sabrina não enxergava. Quanto mais ela corria em direção a Ana, agindo de maneira egoísta e cruel, mais longe dela ficava. Porque ela jamais seria aceita, como pensava. Nem tudo era compreensível, mesmo num planeta sem regras. Não podíamos fazer qualquer coisa, por qualquer motivo que fosse. Trair o grupo que te mantém vivo, é uma das infrações não ditas daquela jornada. Ou terminava com alguém solitário e rendido, ou morto. E eu sabia que não suportaria ficar sozinho. Não depois de ter chegado tão longe, ido tão adiante. Eu também não era o mesmo cara, capaz de matar com facilidade e fazer as escolhas mais brutais apenas pra continuar vivo. Eu aprendera que existem outras coisas, existem as relações que realmente valem à pena, entre as pessoas. E quase tinha esquecido disso, principalmente porque nunca tive amor quando criança, nem na adolescência. Passar toda a sua vida no automático, se torna uma máquina. Quando o mundo acabou, eu estava anestesiado. Victoria me trouxe de volta, e meus amigos também. Queria a confiança de todos de volta. Queria confiar em mim novamente. Por sorte, ainda havia tempo de voltar atrás, de aprender. Ainda que fosse uma jornada dolorosa, com certeza compensaria o esforço.

Hugo.

Ainda estava chocado por termos encontrado Diogo em circunstâncias tão controversas, quando chegamos à praia. Era muito estranho ter acabado de enterrar Ruan, com Arantes, sendo que havíamos nos falado à menos de uma hora atrás. Muito surreal, e desoriantador. Desconsolados, nenhum de nós tinha uma palavra que pudesse ser dita, para justificar a dor da perda de um rapaz tão talentoso, tão valioso. Alguém que certamente faria a diferença naquele mundo. Enquanto terminávamos de colocar o corpo envolto por um lençol na terra, ouvimos o farfalhar de zumbis ao redor, nas árvores. Aquilo tornara as despedidas muito breves, ainda que um pai nunca quisesse dizer adeus para um filho. Juntos, nos afastamos, e senti uma dorzinha aguda no peito, por causa da emoção. Dante estava calado e sério, supus que ele talvez estivesse preocupado com os monstros que se aproximavam. Na frente da loja, entramos na van com Dino e Diogo, e ele começou a dirigir, guiando o carro que levava Faye, Helena e Arantes.
O sol já começara a se por, quando pisamos na areia. De onde estávamos, era possível enxergar as dunas à frente, que revolviam-se com o vento, vagarosas e deliciosamente plenas. Prestativo, tentei ajudar Faye a descer do carro, e ela sorriu ao respirar o ar marinho. Se nossos planos funcionassem, teríamos muito dele em breve. Rapidamente, Otto armou-se com uma faca, enquanto Arantes o seguia de perto com sua enorme metralhadora. Aquilo fazia um barulho dos infernos, mas fora o suficiente para afugentar os inimigos antes. Que funcionasse de novo. Numa fila indiana, seguimos lentamente em direção à inclinação que eu conhecia muito bem. Fora ali onde eu havia sido assediado por Mozart, e beijara Otávio. Uma loucura, eu sei. Mas parecia coerente que fosse ali onde encontraríamos Cecília. Fazia sentido que aquele lugar, antes de incerteza e perigo, nos trouxesse algo totalmente diferente e desejado, agora. Os extremos a que a vida recorre para nos provar que nada é coincidência, são bem mais complexos do que imaginamos. Como no princípio da predestinação, de Calvino, acreditei que de fato algum tipo de força maior nos guiava para os lugares aos quais pertencíamos, embora não fosse adepto da política de que nosso fim estava determinado. Eram nossas escolhas que nos levavam adiante, para todo tipo de situação difícil, assombrosa, maravilhosa ou inesperada...

– Hugo? — O tom de voz dele foi como um sussurro, um sopro contra a minha pele, que viajou através do vento para tocá-la. Cheguei a pensar que não suportaria viver sem nunca mais ouvir meu nome sendo dito daquela maneira. Como eu era bobo... — Você está vivo?

– Acho que sim — sorri, virando-me para mirá-lo. Todos os outros se aproximaram, e pude senti-los às minhas costas. — É bom ver você! — corri para abraçá-lo, e senti seu aperto maior do que tudo o que já sentira antes. Mesmo assim não pude vivenciar aquele momento plenamente. Não com a mácula provocada por Dante. O odiei naquele momento, por ter me contado tudo o que vira.

– Otto? Dino! — Ricardo parecia abismado. — Diogo! — ele abraçou todos os nossos amigos, estendendo a mão para Dante, no entanto, de maneira bem menos cortês. — Oi.

– Olá, Rico — Dante o observou durante algum tempo. — Diogo não nos contou que você estava aqui.

– É porque ele não estava, surfista — rindo, Diogo pareceu bem mais jovem enquanto nos aproximávamos das escadas de madeira. — Estava com a Vicky, Rico?

– Sim. Estão todos bem, mais à frente. Pretendem chegar ao Porto da Barra e arranjar um meio de deixar a ilha, por causa dos bebês. Victoria espera que todos acabem indo pra lá, porque todos já haviam combinado esta possibilidade de fuga. Iríamos esperar por vocês lá mesmo — contou-nos, mas eu o conhecia bem demais. Estava nervoso.

– Elas estão lá em cima? — ouvi Otto perguntar, e Rico assentiu. O garoto saiu correndo para o segundo andar, em desespero.

– Estes são nossos amigos, Ricardo. Faye, Helena e Arantes — apontei, notando que eles pareciam um pouco desconfortáveis por interromperem nosso pequeno momento. Salvaram nossas vidas.

Antes que subíssemos as escadas por completo, ninguém menos que Cecília surgiu no topo, os cabelos castanhos caindo como um véu longo dos dois lados da face. Estava mirando o horizonte iluminado com seus olhos especiais. Faye suspirou e estancou por um momento, ao vê-la. Uma inumana cega, mas com uma presença bem mais poderosa do que qualquer outro. Sorrindo antes que pudesse perceber, me emocionei ao ver as lágrimas que banhavam a face da garota, e não tive dúvidas de que em sua mente, ela podia ver Otávio com clareza. Se não seu exterior, com certeza podia sentir a beleza interna do rapaz. Eles se abraçaram com uma paixão quase materializada. O ar pareceu abrandar ao redor de ambos, enquanto palavras eram esquecidas, insuficientes, ao fim da luta. Paralizado por algo bom e por uma breve onde de otimismo, torci para que um dia o mundo voltasse a ser o lugar simples de que me lembrava. Se não para mim, para todos os outros.

– Cecília, já te falei pra não sair assim do nada, e... — Carolina levou um baita susto quando viu a colega abraçada com Otávio. Levou as duas mãos à boca e no processo derrubou a pistola simples que trazia na mão. Correu e se juntou ao abraço do casal, com uma risadinha estridente. Passos surgiram do interior do quiosque, e logo Manuela juntou-se à amiga, curiosa. Subitamente, lembrei de tudo o que Dante me dissera, e mesmo sabendo do que sabia, não consegui sentir absolutamente nada contra aquela menina. Não mesmo. — Oh meu Deus! Dante, Hugo! Dino! Pessoa que nunca vi! Oi! — acenou, toda empolgada. — Diogo. Tudo bem? Espero que tenha sofrido bastante com aqueles loucos. Sabrina bateu as botas? Não estou vendo ela em lugar nenhum...

– Está viva. — Diogo limitou-se. — Além disso, sinto muito por ter ido embora. Mas trouxe o pessoal até aqui. Não mereço um desconto?

– Já ganhou vinte por cento do meu perdão — arqueou a sobrancelha. — É um começo.

Todos rimos depois de um tempo em absoluto silêncio. Era engraçado como as emoções iam de zero à mil por hora em menos de um minuto. Estávamos tão felizes por descobrir que absolutamente todos aqueles que haviam saído da pousada continuavam vivos, que não nos importamos com quem havia abandonado quem, nem com o futuro incerto à nossa frente, com aqueles malucos na cola da Faye. Juntos, nos aconchegamos no interior do quiosque, comendo algumas frutas que tínhamos tirado da loja de artesanato, e começamos a deixar que as coisas se acalmassem. Haviam muitas conversas paralelas, sorrisos e exclamações de surpresa enquanto todos se informavam sobre o que acontecera uns com os outros. Entre nossas maiores surpresas, estava o fato de que Nanda ainda vivia, e se tornara uma inumana. Algo incrível, ainda que fosse assustadora a forma como a visão de Cecília se cumprira. Todos lamentamos juntos as mortes de Jonas, Gabriel e Lavínia, e nesse momento pareceu que Dante não conseguia parar de me observar. Incomodado, o encarei de volta até perceber que era a Ricardo quem ele fitava. E, preso naquela situação constrangedora, fiz-me de morto durante bastante tempo, conversando animadamente com Otto e sorrindo ao lado de Cecília. Manuela parecia um tanto isolada à um canto, sem conversar com ninguém. Até que Helena se aproximou e as duas pareceram se entender rapidamente. Melhor. Arantes estava dormindo, ou fingindo dormir no seu canto, calado. Provavelmente lidando com o pior tipo de luto, pra um pai. Suspirando, abracei meus próprios joelhos à luz de uma lamparina à óleo, enquanto a noite seguia em frente. Calmo e tentando deixar meus conflitos internos de lado, quase agradeci por finalmente estar começando a descansar. Até que Carolina abriu a boca.

Otávio.

Ter Cecília ali, comigo, fez com que tudo fizesse sentido outra vez. O modo como ela sabia que eu estava chegando, antes de me ver, era inexplicavelmente apaixonante. Eu amava tudo o que havia nela, e não sabia nem mesmo quando aquilo começara. Ela era simplesmente cativante, e nos incapacitava com um único olhar, a todos nós. Eu entendia porquê ela era um escudo. Nada no mundo faria mal à algo tão bondoso, tão perfeito. Ela era a garota, a mulher, a pessoa mais em sintonia com o mundo de quem eu podia me lembrar. Só de imaginar algo tão puro nas mãos de alguém como Topázio, fez meu estômago embrulhar. Aquela mulher deveria ter morrido cem vezes, para pagar por todos os pecados que cometera. Era daquele tipo de pessoa que eu realmente tinha medo. Não dos zumbis, não dos monstros. Mas de pessoas inumanas não só na genética, mas mentalmente também. Eles eram os verdadeiros vilões do novo mundo. E eu queria muito ter certeza de que nenhum deles colocaria as mãos em Cecília, nunca. Infelizmente, não era eu quem podia prever o futuro. E mesmo ela, tinha acesso à flashs do que poderia ocorrer, de modo que tudo o que sabíamos era parcial, confuso e incolor. Eu também lamentava pela perda de Arantes, mas estava muito feliz por ter encontrado Diogo. Sem todo o nervosismo de momentos extremos, era fácil compreendê-lo. Aceitá-lo como era de verdade. No fim, acreditei no que Helena me dissera antes. Tudo termina como deve ser. Pensando nisso, olhei em sua direção. Distraída com Helena, ela fitou-me e sorriu, assentindo de maneira discreta. Meu sorriso alargou-se com aquela compreensão muda, o que me fez lembrar de Victoria. Queria muito poder encontrá-la em breve. Por hora, saber que estava viva me bastava. Tinha que bastar.

– Então, você acha que pode conseguir uma cura definitiva para essas mutações? Para esta doença que quase destruiu a humanidade? — a voz de Cecília era pacífica e como um lago tranquilo. Mas sua pergunta era assustadora para ouvidos pouco acostumados. Ninguém mencionara a ela os motivos de Faye. E ela não parecia precisar de tanto. — Sinto seu medo, sua mágoa por ter sido traída por um amigo, e acusada de crimes que não cometeu. Será que as pessoas que a expulsaram também sentirão? Será que pouparão nossas vidas nesta Fortaleza?

– É, ela é incrível — confirmei, quando Faye fitou-me, incrédula e de lábios escancarados. — Essas coisas simplesmente fluem através dela. Deixa a torrente cair.

– Eu me pergunto... O que acontecerá se eu fizer aquilo que você deseja que eu faça? Sua cura é experimental, e nenhum de nós pode saber a que destino tal substância me levará. Não me entenda mal. Eu não me opus ainda. Estou pensando. Tenho certa experiência com injeções, e ainda carrego algumas cicatrizes, que ninguém pode ver. Mas desejo ajudar... — pensativa, Cecília pareceu notar que sozinha, silenciara todas as outras conversas. — Desculpem-me. É muito difícil resistir à tentação de divagar, quando sua mente está cheia de tantas coisas ao mesmo tempo...

– É compreensível. Sinto exatamente a mesma coisa — rindo, Faye tomou uma das mãos de Cecília entre as suas. — Não sei o que pode acontecer, querida. Preciso ser sincera com você. Tudo o que temos é uma variante do próprio GM, adaptado e programado para se alimentar do GM ativo. Na melhor das hipóteses, ele pode reverter o seu quadro de te tornar humana de novo. Na pior, pode ser equivalente à um placebo, e uma vez que você já foi infectada, não ter efeito nenhum. Nosso maior problema, é que esta vacina não mata o GM em processo de incubação, e sim após ele já ter agido no organismo que hospeda. Ou seja, não previne a infecção, apenas eliminando-a das pessoas fortes o bastante para sobreviver a ela. Minha esperança é de que com o seu sangue, eu possa sintetizar o anticorpo que te permitiu se adaptar tão bem ao GM, entende?

– Sim, eu compreendo. A questão, doutora, é que minha adaptação ao GM não foi exatamente perfeita. Mesmo antes de me tornar inumana, eu já possuia lapsos de memória recente, e problemas com visões que eu acreditava serem sintomas de esquizofrenia. Mas não eram, eram mensagens. O futuro. Quando abri meus olhos à essa realidade, perdi a visão. Nunca havia sido cega, até que fui mordida. E eu não sou uma bióloga, ou coisa do tipo, mas usar uma cobaia defeituosa não trará resultados defeituosos? Ou até inúteis? — Cecília parecia empolgada, embora sua postura e expressão fossem simplesmente fantásticas. Eu estaria surtando com aquela conversa, em seu lugar. — Podemos falar sobre isso mais tarde, se quiser.

– Sim, ao menos você poderá pensar melhor — sugeriu Faye, gentilmente.

– Vou orar à Deusa, e ela me mostrará o que fazer. — Cecília encostou a cabeça no meu peito, deitando-se inclinada para mim enquanto que me mantinha sentado contra uma das paredes.

– Com sono, Hugo? — indagou Carolina, do nada. Todos olhamos na mesma direção que ela. Hugo abraçava seus joelhos, sentado perto de mim e encarando a lamparinha brilhante, obviamente tentando ignorar o mundo ao redor. Escrutinando ao redor, notei o incômodo de Dante ao vê-lo perto de Ricardo. Manuela também parecia nervosa do lugar onde se sentara, enquanto Carolina se levantava. — Eu imagino como todos vocês devem estar cansados, depois de um ataque e uma viagem conturbada. Principalmente você, Hugo, sabendo o que Ricardo fez e tendo de lidar com o fato de perdoá-lo ou não...

– Do que você está falando, Carolina? — me intrometi, já prevendo que ela causaria problemas. Impagável e totalmente filha da mãe. Essa era a definição perfeita para Carol.

– Pensei que Ricardo já tivesse falado com Hugo, enquanto eu estava ocupada ajudando a preparar a comida. Parece que não — ela não estava mais rindo. Parecia muito irritada. — Vou deixar que ele e Manuela expliquem tudo, na frente de todos. O que acham?

– Para com isso, Carol — Hugo avisou, fechando os olhos com força, e então se recompondo. — Eu sei de tudo. Ninguém precisa me falar nada. A verdade é que eu esperava que tudo fosse mentira, mas parece que não.

– VOCÊ! — Ricardo apontou para Dante. — Contou tudo a ele, não foi?

– Alguém tinha que ser honesto comigo. — Interferindo, Hugo se levantou, encarando Ricardo de cima. — Não se atreva a enfiar mais ninguém nas suas histórias. Não se atreva a gritar com Dante. E não fale comigo enquanto eu lembrar disso. Não quero ouvir a sua voz. E não quero olhar na cara de nenhum de vocês.

Foram necessários alguns segundos antes que percebêssemos que Hugo estava saindo do quiosque, correndo em direção à noite. Levantei-me de modo letárgico, totalmente absorto com aquela briga toda. Todos pareciam chocados, e enquanto Carolina fitava Manuela com antipatia, Dante correu atrás de Hugo, sendo seguido por Ricardo. Achando melhor garantir que ninguém se ferisse, uma vez que eu não sabia a abrangência do escudo de Cecília, bati no ombro de Diogo e me levantei. Ele xingou um palavrão e me seguiu, pedindo que os outros permanecessem onde estavam. Juntos descemos as escadas, sem podermos ouvir bem o que estava acontecendo. As luzes das duas únicas tochas acesas não iam muito além na areia, mas ouvimos grunhidos humanos e o som de uma briga bem próximos. Agradeci pelo luar límpido, que banhava de azul todo o mar. Chegamos perto de um monte de membros que se debatiam, e encontramos Ricardo e Dante praticamente se matando. Dante tinha sangue no lábio inferior, rasgado por um soco, enquanto Ricardo recebera um hematoma bem grande ao lado do olho esquero, que se tornava cada vez mais roxo. Loucura. Diogo acabou entrando no meio do conflito, apartando-os embora com extrema dificuldade. Tive de ajudá-lo no fim, puxando Dante pela cintura, tirando-o de cima de Rico. Nós dois caímos na areia, e juro que senti uns bons grãos entrando na minha calça. Esbaforidos, esperamos um pouco até que todos pudessem respirar.

– Cadê o Hugo? — engasgou Dante. — Esse imbecil veio pra cima de mim e nem pude alcançá-lo.

– Tudo estava bem até você decidir se intrometer! — cuspiu Rico, totalmente fora de si. — Miserável, eu vou te quebrar inteiro!

– Hey, brother, não sei pra você, mas pra mim quem trai é que fez merda. O cara está numa competição limpa. Você é que não conseguiu manter as calças fechadas e não teve ética quando catou a Manuela. — Diogo cuspiu, debochando enquanto segurava Rico, com uma perna sobre um de seus braços, e a outra em seu peito. — O errado aqui é você.

– Foda-se! — rebateu o dentista, e não pareceu nem um pouco com o cara que eu conhecia. Até mesmo Diogo se surpreendeu, rindo ainda mais.

– Agora não pareço mais um líder tão ruim, não é? — perguntou pra mim, humorado.

– Sempre votei em você — rebati. Ele assentiu. — Tem que dizer isso pra Victoria, quando a gente encontrar ela. — Dante pareceu se acalmar no meu aperto, então inspirei com força, e o soltei. — Eu vou atrás do Hugo, nas dunas. Fiquem aqui, pelo amor de Deus... Cristo!

Deixando-os ali, corri o mais forte que pude, acelerando os passos contra a resistência da areia fofa, que dificultava o meu trajeto. Eu não queria ficar gritando no meio do nada. Hugo não cavaria um buraco pra se esconder ou algo do tipo. O conhecia o suficiente para saber que estava apenas dando um tempo, respirando e chorando onde ninguém pudesse sentir pena, ou julgá-lo fraco. Ele era parecido comigo. Nenhum de nós dois era o mais forte, o mais inteligente, nem o mais bonito do grupo. Mas nos virávamos com o que tínhamos. E com isso, eu me identificava bastante. Principalmente quando via toda a força de vontade dele, e sua determinação em nunca desistir de preservar a humanidade dos outros. Mesmo às custas de sua própria. Totalmente nervoso por não conseguir encontrá-lo rapidamente como queria, comecei a me assustar. Maldição. Ele não tinha gritado. Não podia ter sido mordido, ou morto por um inumano. Cecília estava relativamente próxima. Não. Se havia alguma ameaça, então ela só podia ser...

– Oi, Otto. — Virei-me com um solavanco, assustado. Sabrina estava cobrindo a boca de Hugo, mantendo-o junto ao seu corpo, uma faca de caça encostada à sua garganta. — Por favor, não me faça matar um amigo.

– Sabrina, o que você está fazendo? Ficou mais doida do que já era? — chocado, esfreguei as mãos no rosto, como se pudesse estar sonhando. Logo com Hugo, o único que parecia realmente gostar dela? A distração me deixou cego, e quando recebi um chute por trás, dobrei os joelhos sem a menor resistência. Agarrando-me pelos cabelos, um homem com cara de mexicano rendeu-me, pousando uma calibre trinta e oito no meu peito.

– Isso, bonzinho. Agora levanta, vai. Temos uma consulta com a doutora. — rindo, ele me puxou na direção da luz do fogo, com Sabrina caminhando ao nosso lado. — Um pio, e te apago. Vocês aí, venham! — sussurrou, e da vegetação vieram duas mulheres que eu não conhecia. Uma, de aparência mais vivida e com cabelos grisalhos, rentes à cabeça. A outra, parecia-se com uma viajante árabe, em traços e tom de pele.

As duas estavam armadas, e não me pareciam fracas ou incapazes de violência. Caminhamos até o lugar onde eu deixara os rapazes, e quando nos viram, o primeiro impulso que tiveram foi o de arremeter contra os mercenários. Então nos viram reféns, e paralizaram onde estavam. Juntos, chegaram para trás, abrindo distância entre eles e nós. A mulher mais velha os observou por algum tempo, então caminhou lentamente em direção às tochas acesas, e fez sinal para que todos ficássemos quietos. Então ela pareceu ouvir por algum tempo, e destravou a arma em suas mãos.

– Faye Keiko! — gritou, com uma potência vocal que me sobressaltou. O burburinho anterior deu lugar ao completo silêncio, no local. — Viemos aqui pra buscar você, e a sua estagiária. Venham aqui embaixo as duas, ou então vamos matar os reféns! A escolha é toda de vocês. Não tornem isso mais sangrento do que já vai ser!

Faye parecia pronta para se entregar, quando começou a descer as escadas. Mas ela não estava vindo sozinha. Todo o grupo a seguia, sendo Helena aquela quem permanecia mais próxima, como um braço extra ao seu lado. Juntas, elas se apresentaram à mulher grisalha, afastando-se do resto de nós. Cecília estava abraçada com Carolina, que parecia totalmente hipnotizada por Sabrina, mirando-a com ódio. Manuela chorava, um pouco afastada dos outros. Ela parecia morrer de medo. Dino estava ao seu lado, entre ela e Carolina. Arantes parecia buscar veementemente o assassino de seu filho. Fitava cada um dos mercenários com interesse homicida. Ele não pararia até terminar o que jurara fazer, e tive plena certeza disso ao vê-lo fuzilar todos os meus captores com o olhar. Senti o cara que me prendia responder à postura de Arantes, retesando o corpo e apertando um pouco mais o meu pescoço. Na areia e na noite, um espetáculo trágico foi montado. Cruel, a vida parecia nos acenar com a felicidade, para finalmente dispensá-la com um gesto ínfimo de suas mãos poderosas. Pela primeira vez em muito tempo, contudo, não rezei para não ser morto. Rezei pra que os mercenários morressem. Todos eles. E se Sabrina estava junto, e os trouxera até aqui para perto de Cecília, merecia o mesmo destino.

– Venham até aqui, e ajoelhem — a mulher indicou a areia ao seu lado.

– Então vocês aceitam ratos com vocês? — Carolina indagou, indicando a mulher morena ao lado da mais velha. — Bom ver você, Valéria. Melhor ainda saber que ainda não te mataram por aí. Vou ter a honra. E você, hein Sabrina? Me sinto quase casta em sua presença, querida... — ela se calou quando Sabrina atirou para o alto, e apontou a arma em sua direção. Todos ficaram chocados.

– Cala a porra da boca, Carol. Já tô cansada das suas merdas. Se eu te ouvir de novo, faço um favor à Deus e te mando direto pro inferno! Quero ver quanto tempo o capeta te aguenta, é só testar minha paciência, vadia! — Ok. Carol tinha o dom de levar as pessoas à beira de um surto. O que ela podia fazer? Era como a parábola do escorpião e do sapo, ou algo do tipo. Fazia parte de sua natureza, ter uma boca maior que o mundo. Lembro de temer de verdade pela vida dela. Cecília pareceu sentir o mesmo, porque agarrou a sua mão.

– Eu me entrego a vocês, mas antes devolvam os dois! Prometo que vou embora, e vocês podem me matar mais à frente. Ninguém precisa morrer além de mim. Helena não tem nada a ver com isso! Ela não conhece todos os processos necessários para fabricar a vacina. Só eu preciso morrer! — implorou Faye, e aquilo me pareceu tão errado, que deu nojo. Como podiam aceitar matar uma mulher que nem conheciam, pra poderem viver atrás de muros altos e com pessoas tão sujas quanto eles? Se alguém me exigisse um assassinato como teste de fogo, receberia apenas minhas costas indo embora. Não dava pra entender a doida da Sabrina...

– Sinto muito dona, mas os Nove querem as duas mortas — rebateu a velha, como se estivesse se lamentando pelo mau tempo.

– Os Nove não estão por trás disso! — Helena gritou, irritada. — Vocês estão sendo enganados! Tínhamos quase a metado do Conselho apoiando a vacina, e outros tantos se mantendo neutros. Fomos vítimas de uma calúnia, engendrada pela mesma pessoa que mandou vocês atrás de nós, quando fugimos. Essa pessoa não vai aceitar vocês quando voltarem! Vai matar a todos, como queima de arquivo!

– NÃO! — o homem que me segurava acertou minha cabeça, me jogando pro lado e atirando com uma fúria e velocidade que quase me tiraram o ar. Afundei no solo fofo, e não vi para onde foi o seu disparo. Todos começaram a correr, e parecia que Arantes e Helena estavam caídos, com sangue pingando na areia em meio aos meus delírios esfumaçados.

– Herbert, pare! — exigiu a mulher abaixada ao lado de Sabrina, que mantinha Hugo consigo com mãos de ferro. A outra garota pareceu perdida, enquanto o homem continuava a atirar à esmo, totalmente fora de si. Quando pareceu que ele havia se esquecido de mim, pulei em sua direção e o derrubei no chão. Ouvi Sabrina gritar alguma coisa, mas eu estava concentrado na arma do tal Herbert. Dei socos em qualquer parte dele que pude alcançar, enquanto ele se debatia e tentava revidar, recuperando-se aos poucos da surpresa.

Rolamos pela areia, e finalmente apanhei o objeto. O que eu não esperava, é ser atingido por uma cabeçada potente do mercenário, que me jogou para trás. Contemplei as galáxias e estrelas, enquanto girava como louco sobre a areia, desorientado. Ele arrastou-se na direção da arma, e eu sabia que não poderia alcançá-la primeiro. Então, entendi as razões para não ter rezado por minha vida. Ela seria tirada naquele dia. Ao menos, eu faria o possível para que tudo ocorresse da melhor forma. Levaria o desgraçado comigo. Lutei para me arrastar também, cada vez mais próximo de Herbert. Então, um grito gutural preencheu a noite, e seus ecos foram juntar-se com as estrelas. Erguendo a cabeça do meu pequeno e titânico embate, encontrei Sabrina mantendo Hugo em seu aperto, a mulher velha completamente descabelada, com Faye nos braços, e Helena sendo rendida pela mulher morena. Os outros pareciam em pânico, com medo de que nos matassem. Com a exceção de Carolina, que estava sorrindo. Em suas mãos, uma seringa vazia, e Cecília totalmente fora de si. Minha mente demorou a compreender o que estava acontecendo, até que ouvi o primeiro farfalhar das folhas. O primeiro zumbi veio para a areia, o corpo coberto por pedaços de cactos através dos quais ele passara. Ao longe, na margem da praia, era possível ouvir o gemer e soluçar de outros tantos. Se fossem espertos, os mercenários perceberiam que o nosso escudo, caíra. E se isso fosse verdade, só podia significar uma coisa. Cecília abrira mão de seus poderes, tomando a vacina de Faye. E a substância funcionara, o que era mais espantoso ainda. Ela parecia desmaiada nos braços de minha amiga, mas ainda assim respirava. Eu e Herbert nos fitamos durante alguns momentos, e distraído, ele permitiu que eu pegasse a arma entre nós. Apontei contra o seu rosto.

– Irma, vá embora! — gritou Diogo. Então esse era o nome da velha. — Otávio vai matar o Herbert. Deixa a doutora, o nosso amigo, e dê meia volta!

– De jeito nenhum. Nós temos dois reféns, e vocês um. Não vão nos deter — ela parecia resoluta e totalmente no controle de si. — Vamos matar essa mulher, e qualquer um em nosso caminho, vai... Argh! — Irma gritou quando uma pequena criatura subiu da areia e agarrou sua perna, livrando-se dela com uma pancada brutal. O problema, é que ela precisou largar Faye, que atirou um punhado de areia em seus olhos, e correu para longe. — Maldita! Atirem nela, imbecis!

– Não dá, Irma! — gritou Valéria, amedrontada. — Tem muitos deles aqui!

E de fato, haviam. Zumbis de todas as idades, tamanhos e condições de podridão diferentes. Mortos das maneiras mais impensáveis, a julgar pelos seus ferimentos e lacerações. Vinham como sempre, uma massa disforme mas unida. Caminhavam cavalgando a morte, e extraíam força de sua própria lentidão. Eu mesmo não me mantive parado por muito tempo. Esqueci Herbert e atirei contra uma das criaturas. Não me importava que ele fugisse. Quem continuasse parado ali, iria morrer. Corri na direção dos outros, enquanto os mercenários corriam para fora da praia, levando Hugo consigo. Não havia nada que qualquer um de nós pudesse fazer, contudo. Um movimento em falso, e Hugo estaria morto. O que rapidamente reparei, também, foi que Manuela seguiu com eles logo após se desvencilhar de Dante, que pareceu ter dito algo a ela. A expressão no rosto dele era desgostosa ao observar a menina chorosa correr em direção à Sabrina, que a acolheu instantaneamente. Ela lançou um último olhar raivoso para Ricardo, antes de continuar correndo para longe. Aéreo, levei um susto com as pequenas crateras que começavam a se formar sob a areia. Caranguejos, outra vez. Não podíamos mais ficar ali.

– Carol! Temos que trazer a van e o carro pra cá! — berrei, chamando-a. Ela passou Cecília para os braços de Dante, que a pegou no colo com facilidade. Veio correndo em minha direção, com Ricardo e Diogo, que trazia consigo as chaves entregues por Faye, ocupada demais em socorrer uma baleada Helena, para se unir a nós. Rico, tente manter todos vivos com Arantes, até voltarmos. Por favor — ele maneou a cabeça e voltou para perto dos outros. — Diogo, você pega o carro! Eu e Carol vamos atrás da van! — Antes de concordar, ele já estava indo.

– Eu sabia que a Manuela não valia nada. Depois de termos salvo a pele dela, foi só ver uma horda pra sair correndo! Desgraçada! — praguejava Carol, esfaqueando zumbi após zumbis nos olhos.

– Você humilhou a garota na frente de todo mundo, maluca — rebati, derrubando dois dos monstros. — Ela foi com eles pra fugir de você, e da vergonha pelo que fez com Ricardo, também. Além do medo, não acho que tenha algo que realmente a una aos mercenários. Com certeza está arrependida.

– Ela vai ficar quando eu puser as mãos nela! — resmungou, quando chegamos à van. — Eu dirijo! Atira!

E foi o que eu fiz. Quando acabamos, haviam mais corpos e caranguejos do que areia, na nossa parte da praia. Estávamos exaustos, sim. Mas também à caminho do Porto. Ninguém ficara para trás. Quando estávamos saindo da praia, encontramos um monte de fumaça nublando o ar, vinda de bombas jogadas à esmo pela estrada. Não tinha como vermos os vestígios dos mercenários, nem a direção pela qual tinham seguido. Mas sabíamos que onde quer que Faye fosse, os mercenários também iriam. Atraindo-os para o nosso objetivo, transformaríamos aquilo num jogo de gato e rato. Salvaríamos Hugo, e em nossos termos. Eles não iam permitir que levássemos a cientista de volta à Fortaleza, e eles perdessem seus passes de entrada. Ainda estava decepcionado com algumas das pessoas que eu conhecera antes, mas concluí que de fato, talvez nenhum de nós fosse mais o mesmo, de todo modo. Para cada nova fase daquela vida insana, precisávamos contruir novos campos de nós mesmos, para explorar. E nem sempre isso dava certo, principalmente quando as emoções e inseguranças se tornavam maiores do que nossa essência.
O que eu ainda não contei, foi do quão surpreso fiquei ao me aproximar de Cecília. Na van, Dante a deitou em meu colo, com as pernas sobre o dele. Ela parecia dormir tranquilamente, realmente em paz. Sem nenhum tipo de tremor ou suor frio. Eu temia muito por ela, preocupado com o que teria acontecido em suas veias, em seus órgãos. Como aquilo podia ser possível? Preocupado, também pensei em Hugo na mão daquela gente, e em Helena com um tiro feio em uma das coxas. Queria notícias dela também, mas estava no outro carro, com Faye. E, enquanto seguíamos de volta para o centro de Búzios, quase nem notamos o retorno do sol. Uma manhã preguiçosa, mas suficiente para despertar a fada em meus braços. Ela esfregou os olhos, e então tocou minhas pernas, apertando-me de leve e sorrindo ao sentir o meu cheiro. Não percebi que também estava sorrindo até que Cecília abriu os olhos.
Eles eram azuis como o céu mais limpo, e a água mais cristalina. E com o coração pegando fogo, vi meu próprio reflexo refletido naqueles dois mares eternos. Tocando meu rosto com assombro idêntico ao meu, Cecília gritou e me abraçou de alegria. Mesmo naquele mar de lama, encontráramos uma pérola. Ela estava enxergando.

Notas finais
Faltam só quatro capítulos, galera! Reta final chegando! Deixem comentários, please! Obrigado leitores novos, Arthur Guimarães e Sheila Lima, que se juntaram à nossa legião de inumanos! Fiquem à vontade pra dizerem o que acharam, e pra sugerir qualquer coisa! Um beijo especial aos meus fantasminhas que estão aí lendo, e que ainda não conheci. Espero que estejam curtindo! Season finale chegandoooo! Nem acredito, ausauhs. Huhull! õ/ Vou poder tirar férias! XD Brincadeira. Vai ser só um pequeno descanso. I promisse. Kisses by DroppingPieces!