Quebranto.

53 A Maldição de Cassandra.


Notas iniciais
Oii, gente! Mais um capítulo pra vocês! Muito obrigado aos leitores lindos que comentaram no último capítulo. Infelizmente não estou tendo tempo pra responder todos os reviews, mas quero deixar registrado que li e amei todos eles! Pra todos que me mandaram sugestões por MP, saibam que elas foram lidas, e muito bem recebidas. É uma honra pra mim que vocês se envolvam com a história. Sintam-se livres para sugerirem e comentarem sobre o que quiserem. Só me deixa a cada dia mais feliz. Boa leitura!

Nora.

As unhas de Topázio atingiram o meu rosto, e eu desequilibrei-me outra vez. Contudo, antes que ela pudesse recuperar o revólver caído, a atingi com um chute na panturrilha, que a trouxe ao mesmo nível que o meu. Ou seja, a sarjeta. Tensas, cansadas, feridas e completamente descontroladas, ambas sabíamos que só uma sairia daquela rua deserta. E teria de ser eu. Sem qualquer noção do estado em que as fibras e nervos do meu corpo estavam naquele instante, arrastei-me para perto dela. Topázio olhou-me com um brilho louco iluminando sua expressão. Ela era um mero animal, apenas matando para não ser morta. Seria eu algo mais? Muitos diriam que não. Victoria era a afetuosa, a que possuía compaixão. De certo modo, e apesar de todo o ódio que tingia minha visão de vermelho e roxo, senti-me compelida a identificar-me com Topázio. Eu não conhecia sua história, sua origem. Não sabia o que ela enfrentara antes do fim do mundo, nem quanto o vírus da gripe do urso havia afetado sua psique. Até que ponto ela era realmente culpada? Não era do meu feitio pensar sobre isso. E foi exatamente esta conclusão, que resolveu o dilema. Que Victoria se ocupasse disto depois. Minha função, era outra.
Prendendo as pernas de Topázio com minhas coxas, subi sobre ela e mantive seus braços imobilizados ao lado da cabeça. Ela cuspiu no meu rosto. Não me abalei. Ela tentou se debater mais de uma vez, mas estávamos num impasse. Eu não podia matâ-la e contê-la ao mesmo tempo. Ela não podia me fazer mal como desejava, mas também não podia fugir. Nos encaramos durante alguns segundos. O ar noturno estava pesado, carregado de tensão e morte. Tudo parecia o fechar de um ciclo, como se o inverno finalmente estivesse chegando. Para mim, aquilo tudo era mais uma anunciação do que viria depois. Infelizmente, eu não pude perceber isto a tempo.

– Nora, me deixe ir. É isso o que você deseja fazer. — alegou Topázio, seus olhos cintilando com o controle mental que ela supunha funcionar em mim. Apenas sorri.

– Não sou o Jonas. Nem a Thaís. Isso não vai funcionar comigo. Você já devia saber que cada um de nós é diferente, Topázio. Inumanos são estranhos. — papeei. Na verdade, eu só queria achar um jeito de esmagar o pescoço dela, e acabar com aquilo.

– Não somos, não. Os humanos é que estão deslocados, agora. São eles que não passam de comida. O mundo não tem mais lugar pra eles. As coisas mudaram, Nora... Teríamos sido grandes, lado a lado... Você escolheu proteger os mais fracos, e agora todo o avanço que faríamos foi perdido. Em breve, você vai perceber que não pode salvá-los. E quando começarem a morrer, vai lembrar de mim. — ela riu, o olhar vidrado.

– Talvez, eu admito. — concordei. Realmente, eu tivera o impulso de me unir a ela. — Talvez você esteja certa sobre isso. Também acho que a maioria das pessoas na boate é perda de tempo, é peso morto. Também acho que não vão durar até o próximo ano, e que eu teria me dado bem ao seu lado. — ela me olhou, presunçosa. — Mas você matou a Diana, e depois me acorrentou. — lembrei. Num movimento rápido, liberei seus braços e agarrei seu pescoço. Seria fácil, se ela não tivesse agarrado meus cabelos com suas mãos, e os puxado para trás.

Rolamos no chão, e ela acabou por cima. Enquanto eu ainda a enforcava, ela mantinha suas mãos agarradas em mim, bloqueando parte dos meus movimentos. Ela se contorceu sobre mim, e o peso do seu joelho dobrado sobre o meu peito, tirou-me o ar. Minhas mãos afrouxaram em seu pescoço, e ela levou a mão à sua cinta. De lá, voltou com um pequeno canivete, com o qual fez menção de empalar-me. Entretanto, quando Topázio estava pronta para agir, uma sombra projetou-se sobre mim. A silhueta de um homem. Minha adversária ergueu o olhar, e aquele pequeno momento de distração foi tudo o que eu precisei, para saber o que fazer. Reunindo as forças que ainda me restavam, dei impulso para frente como numa perigosa abdominal. Ela tombou para trás e caiu de braços abertos sobre o asfalto, surpreendida pela violência do golpe. Tirei o canivete de sua mão, e num gesto curto e simples, a esfaqueei. A expressão que sua face produziu, completamente pasma e chocada, foi semelhante à de Diana ante o ataque de Mozart. Sobre ela, eu afundei um pouco mais o canivete em seu estômago, e ela engasgou com a dor. Seu vestido branco, agora sujo da chuva e da lama, começou a tingir-se de rubro, com filetes de sangue quase coreografados, que deixavam seu corpo. Ainda pensei em retirar a lâmina e esfaqueá-la outras vezes, mas a sombra de um homem atrás de mim, interrompeu minha marcha homicida. Ao virar-me, deparei-me com Diogo. Imensa e ardente como a lava de um vulcão, Victoria emergiu, enviando-me para as profundezas de sua mente, meu lar...

Victoria.

Cai de joelhos sem qualquer controle. Minha primeira atitude sensata e racional, foi olhar Diogo nos olhos. Constatei que ele estava bem, e suspirei aliviada. Em seguida, um choque profundo atingiu-me, como se milhares de abelhas picassem minha pele de uma única vez. Consigo, Nora levara todo e qualquer vestígio de adrenalina que pudesse afastar de mim a dor escandalosa e lacerante dos ferimentos que Topázio lhe causara. Chorando como uma fracote, agarrei meu pulso direito, observando o dedo anelar, que jazia ainda num ângulo totalmente estranho e anormal. Diogo apressou-se em minha direção, e amparou-me, puxando meu corpo para junto do seu. Com os cabelos crescidos grudados na testa, ele parecia tão bonito quanto possível, naquela chuva torrencial e interminável. Em seus braços, virei-me na direção de Topázio. Ela estava de olhos fechados, o corpo inerte. Não estava respirando. Com certo pesar, percebi que ela terminara de modo banal, como qualquer outra criatura de Deus. Não era especial, nem na morte. Havia tido a chance de usar seu dom de modo a preservar a espécie humana, mas apenas escravizou aqueles que nela confiaram.

– Acabou. — resmunguei, e sabia que era verdade. Topázio nunca mais lideraria ninguém. Nunca mais seria uma falsa profeta.

– Sim. — Diogo concordou, a mão em minha cintura. — Vamos deixar ela aí. Depois que essa chuva dos infernos passar, voltamos pra buscar o corpo. — limpando o sangue do corte em minha bochecha, causado pelas unhas de Topázio, concordei silenciosa. Eu pude ver um pouco do meu próprio cabelo grudado ao chão. O pequeno tufo que a louca arrancara. Certa de que eu sentiria muito mais todas as minhas dores quando estivesse aquecida e limpa, puxei o braço de Diogo na direção da boate. Eu precisava de descanso.

Mas antes que eu me virasse totalmente, percebi algo até então ignorado. O som alto da chuva perturbava minha audição com sua sinfonia esquizofrênica. E ela, com cadência e entusiasmo, habilmente mascarara o som que vinha ao longe. O som da morte. O som, de dezenas de gemidos e soluços. O som dos andarilhos. Com um novo alarme a soar em meu peito, fui conduzida por Diogo. Nossos problemas não estavam nem perto de acabar.

Otávio.

Quando Cecília caiu na pista de dança, eu sabia que algo tinha dado muito errado. Amparando-a com meu corpo, a puxei para junto de uma das pilastras do local. Sentando-me com gentileza, a aconcheguei em meu colo, deitando-a sobre minhas pernas. Hugo fora buscar Ricardo para ajudá-la, enquanto Nanda e Gabriel comemoravam o reencontro. Tânia fora com Vilma para a cozinha em busca de utensílios que pudessem ajudar no curativo de Dino. Toda a confusão que dominava o local parecia estagnada, densa no ar como um atmosfera tóxica da qual não podíamos nos livrar. Dimitri arrastou os corpos de Alexandre, Marcílio e Thaís para a sala de serviço da boate, até então oculta por Topázio do restante de nós. Na empreitada, fora auxiliado por Manuela e Dante, ambos ainda pálidos e confusos com a ausência da lavagem cerebral de sua "sacerdotisa". Com Cecília em meu colo, finalmente pude notar o quanto ela era bela. Apesar dos olhos um tanto perturbadores, tinha uma pele linda. Pálida e cheia de hematomas, sim. Mas linda. Seus cabelos castanhos claros eram viçosos apesar de todos os motivos que teriam para serem feios. Ela era especial, e qualquer um poderia perceber isso. E tinha lábios lindos, decididos e espertos. Devia ser linda sorrindo...

– Obrigada. — ela sussurrou, sorrindo. Por um instante, temi que ela tivesse lido minha mente, e visto o elogio ali. — Sua energia é maravilhosa. — menos mal, mas ainda assim constrangedor. Minhas maçãs do rosto arderam na hora.

– Que bom, eu acho... — concordei, sorrindo. Cecília não estava olhando diretamente pra mim. Ao invés disso, ela encarava a luz que se desprendia em auréolas do teto, das lâmpadas fracas. As mangas dos lampiões espalhados ocasionalmente pelo local também chamavam sua atenção como a faísca atrai a mariposa. — Acostumando-se com a luz?

– Isso. — ela concordou, um sorriso fácil. — Mesmo cega, sinto sua intensidade. A luz é como uma presença, uma sombra que diminui todas as outras, na minha visão. — ela fitou as próprias mãos, que tremiam. — Às vezes eu sinto e vejo coisas que outras pessoas não conseguem. Mas isso tem um preço. — os tremores aumentaram. — Topázio me drogava com doses de heroína do estoque na sala de serviço. As drogas me deixavam em êxtase toda hora, e de alguma forma isso aumentou o alcance do meu escudo. Agora, sem as injeções, minha clarividência está pior. E meu escudo, mais fraco. — ela parecia assustada.

– Se isso significa o que estou imaginando, temos que agir. — ela apenas assentiu. Me levantei rapidamente, em estado de alerta. — O que fazemos?

– Meu escudo ainda protegerá a boate. Um pouco mais além, também. Mas não teremos a mesma segurança de antes. Apenas esta rua será segura, e não o quarteirão todo. Isso nos limita em suprimentos, e em recursos. — ela refletiu. — Carolina. Há algo de errado sobre ela.

– Onde ela está? Devo desculpas a ela. — manifestou-se Ana. — Nós duas, devemos. — ela incluiu Sabrina em seu gesto, que vinha logo atrás.

– Diogo a deixou na lanchonete aqui da rua. Vocês podem ir buscá-la. — aconselhei. Jonas, que estava parado no bar ao lado de Dimitri, moveu-se na direção das meninas. Era óbvio que ele as seguiria. Já Dimi, me olhava intensamente. Ele estava esperando instruções.

– Onde está a Vicky, Otto? — ele perguntou. — Se quiser, eu posso ir buscá-la, e...

– Estamos aqui! — a voz de Victoria chamou, fraca. Corri na sua direção, e ela me parecia mais acabada do que eu era capaz de recordar. A abracei com força, e ela correspondeu-me com enorme afeto. Até que gemeu de dor e nos separamos, rindo. — O que está havendo? Cecília está bem? Tem zumbis perto da boate!

– O escudo só tem o mesmo alcance, se a mantivermos drogada como a Topázio fazia. — contei. — Mas não faremos isso. — não era uma sugestão. Eu não deixaria que ninguém ferisse aquela garota de novo.

– Seria uma boa solução, por enquanto. — opôs-se Diogo, de cara feia. — Qual, é! Não vamos fazer. Mas não quer dizer que eu não possa achar prático.

– Você acha demais, querido. — alertou-o Victoria. Ela sorriu quando Ricardo se aproximou de nós. Ao mesmo tempo, Tânia e Vilma iam da cozinha para as escadas. Ninguém disfarçou o alívio e a alegria por vê-los, Diogo e Vicky, ilesos. Mas haviam coisas mais urgentes a tratar, naquele instante.

Enquanto Rico enfaixava a mão de Victoria (seus gritos foram tenebrosos, quando o dentista colocou os ossos dos dedos no lugar, com ajuda de Tânia), nós tratamos de fortificar a boate ao máximo. A horda que estava vindo poderia ser pequena, mas também poderia conter mais zumbis do que o escudo de Cecília seria capaz de bloquear. O cheiro dela não os confundiria caso eles nos avistassem. Com certeza estaríamos muito enrascados se não tratássemos de resolver aquela situação. Dimitri e Gabriel correram para o lado de fora. Era a função deles manter o ônibus de turismo preparado para uma fuga. O combustível dos outros veículos fora totalmente transferido para ele, meses antes. Sabíamos que aquele dia chegaria. Eu só não esperava que fosse de modo tão repentino. Não estávamos na boate nem há um ano, ainda. Naqueles dez meses, havíamos tido mais estabilidade que no Trocado. Eu realmente não estava pronto para desistir daquilo. Com toda a confusão inundando minha cabeça, apanhei meu pé de cabra, que eu deixara atrás do balcão do bar. Ao longe, o olhar de Cecília encontrou o meu. Eu sabia que ela não podia me ver, mas estava grato porque eu podia vê-la. Ela sorriu. Estaria sentindo meu olhar sobre ela? Eu só sabia que queria ver aquele sorriso muito mais vezes. Ela era um novo mistério pra mim, uma meta. Assim como a sobrevivência, só que um pouco mais agradável...

Ana.

Sabrina não falou enquanto íamos atrás de Carolina. Ainda assim, eu sabia que haviam muitas coisas não ditas entre nós. Momentos e erros, que aos poucos se erguiam como uma muralha de solidão e rancor. Não estávamos bem, não havíamos voltado. Toda a união que nos mantivera vivas, vinha apenas do ódio em comum por Topázio. Éramos apenas parceiras de grupo naquele momento. E ainda assim, em muito tempo eu não me sentira mais aliviada. Não me entendam mal. Eu realmente fora uma estúpida, envolvida por Topázio e toda a fascinação que ela jogara sobre mim. Ela era encantadora, no entanto, quando desejava. Apesar de todo o mal que ela fizera, eu havia visto um lado seu que nenhum dos outros havia conhecido. Ninguém sequer imaginara a sua história. Ninguém sabia tudo o que ela havia me contado. Ela também era uma sobrevivente, assim como Sabrina. Inclusive, era um tanto embaraçador perceber que eu tinha um péssimo dedo para relacionamentos. Ambas as mulheres com as quais eu havia me metido, eram problemáticas, e ex-vítimas de abuso sexual. Uma coincidência perturbadora, e nada agradável. Eu não era psicóloga, e com certeza, não era um exemplo de compaixão e tranquilidade. Carolina bem o sabia, a julgar pelo modo como eu a tratara após a suposta "morte" de Victoria. Tudo aquilo já fora a tanto tempo... Agora, eu estava muito mais distante de minha amiga, do que a própria Carol. E era tudo culpa minha.
Aproximando-nos da lanchonete abandonada, cujos recursos já havíamos esgotado há tempos, pude ver virando a esquina um ou dois zumbis. Na chuva forte que caía, seus corpos eram apenas borrões de um artista espectral, melancólico. Eles estavam curvados sobre um corpo maior, que gemia. Mozart. Sendo devorado. Ainda era menos do que ele merecia. Enquanto se alimentavam, os errantes sequer notaram nossa presença. Eram como sombras que carregavam uma única sentença. Fome. Como a própria Cassandra do mito grego, Diana previra a queda do céu muito antes, e ninguém a ouvira. Ao menos eu, a ignorara. Estava tão feliz, iludida na ideia de segurança e paz, que sequer pude achar esquisito que Topázio tivesse tantos poderes, para livrar-nos do mal. Até mesmo a Wicca se tornara minha própria filosofia, e eu ficara mais que contente em depositar naquela nova fé, todos os problemas do mundo real. Agora, eu estava desiludida. Não com a Deusa, não com Topázio. Mas comigo mesma. Eu ainda acreditava que tudo fazia parte de um plano maior. Céus, eu aprendera das piores formas que nenhum de nós está livre da mão do destino. Mas ainda assim, talvez eu pudesse ter feito mais, ter sido mais. Fui uma tola. E mesmo Otávio, meu melhor amigo, estava longe de mim. Eu teria tempo de resgatar tudo o que eu havia perdido, pelo meu próprio medo e desespero? Eu não sabia. Mas toda jornada, tinha de começar por um lugar. Por um passo. Que ajudar Carol e agradecê-la por ter salvo nossas vidas, fosse o primeiro.

– Nossa. — disse Sabrina, quando finalmente nos deparamos com Carolina. Ela estava deitada sobre um colchão simples e repleto de lençóis. Certamente que Fernanda havia arrumado o lugar de seus encontros secretos com Gabriel. O pensamento, me fez sentir saudades de nossa antiga amizade. Há quanto tempo eu não conversava com ela? — Coitada. Alexandre detonou o rosto dela.

– Ela continua linda. — afirmei, cheia de afeto. Carolina fazia parte da minha vida, e talvez seu último gesto houvesse empurrado para o limbo, todos os nossos desentendimentos. Eu também lhe dissera coisas terríveis. E agora, nada disso importava mais. — Vem, vamos levantá-la.

Juntas, eu e Sabrina apoiamos o peso de Carol, que já começava a recobrar a consciência àquela altura. Os hematomas em seu rosto estavam feios, mas o corte no olho direito era o pior ferimento. O que aquele monstro do Alexandre fizera? Quando finalmente descemos a pequena escada para o primeiro andar da lanchonete, encontramos um Jonas preocupado, que nos aguardava sentado à mesa. Ele levantou-se de um salto, e aproximou-se de Carol, tomando-a nos braços. Ela sorriu em sua direção, e ele virou-se na direção da boate com ela nos braços. Ao caminhar, ele vacilava um pouco devido ao ferimento precariamente enfaixado em sua perna. Eu e Sabrina nos entreolhamos, e seguimos atrás dele. Mais zumbis viravam a esquina, e não pareciam satisfeitos com o que restara de Mozart. Uma mulher com o rosto chupado e a garganta em frangalhos nos viu, e seus passos tomaram a nossa direção. Tensa, apressei meus passos ignorando a água gelada que começava a encharcar minha roupa. Entramos na boate, e meus jeans fizeram um barulho esquisito, por estarem molhados. Enquanto Tânia se aproximava de Carol para examiná-la por alto, notei os olhares de todos em nossa direção.

– Como estão as coisas lá fora? — indagou Victoria. A mirei e ela sorriu pra mim, de leve. Tudo estava perdoado entre nós.

– Péssimas. Acho melhor irmos pro ônibus. — sugeri.

Fernanda.

Quando ouvi as palavras de Ana, minha mão deslizou até a pequena protuberância que começava a se pronunciar em minha barriga. Nada aconteceria ao meu bebê. Eu o protegeria com minha própria vida, se preciso fosse. Antes que ela precisasse falar outra vez, fiz um gesto para Vilma, que se aproximou de mim. Dino ainda estava no andar de cima, mas não por muito tempo. Provavelmente tão preocupado quanto eu, Hugo subiu as escadas correndo, para buscá-lo. Pude perceber que aos poucos, a realidade começava a decair sobre todos nós. Havíamos vencido, sim. Mas a troco de quê? Não havia um território conquistado a reivindicar. Não havia mais um lar pelo qual havíamos lutado. Seria esse o nosso destino até o fim? Os humanos deveriam tornarem-se nômades novamente, para sobreviver? Eu não sabia se podia suportar tamanho fardo.

– Temos que pegar nossas coisas. — comentou Lavínia, os cabelos tingidos de vermelhos grudando no pescoço. Mais da metade de seus fios já haviam tornado-se castanhos outra vez. — Céus, não há tempo o bastante!

– Eu te ajudo. — ofereceu-se Manuela, num fio de voz. Eu nem me lembrava de que ela ainda estava viva. Tensa, ela se trancara em si mesma desde a morte de sua irmã gêmea. Aquele era um laço que eu jamais entenderia.

Mas eu vira o estado em que Vilma ficara quando seu irmão fora ferido. Eu sabia que o laço de irmãos era muito forte, no entanto. E que seu rompimento podia mudar as pessoas. Caminhei para perto de Ricardo, que estava limpando o olho de Carolina enquanto os outros corriam para pegar o necessário. Do lado de fora, já dava para ouvir os gemidos dos mortos, apesar da chuva. Horrorizada, olhei para a parte frontal da boate. Ainda não era possível vê-los, mas uma coisa era certa: e não saíssemos dali naquele instante, ficaríamos encurralados. Dimitri buzinou do lado de fora. Gabriel devia estar desesperado por notícias minhas. Sem pensar muito à respeito, corri na direção do lado de fora. Ouvi Diogo gritar o meu nome, mas eu sabia o que estava fazendo. Espiando através da vidraçaria quebrada, pude ver meu namorado olhando-me do ônibus. Com um gesto, pedi que ele permanecesse parado por lá mesmo. Mas o que eu não notei, é que ele não estava me chamando, estava me mandando voltar pra dentro. Quando uma mão firme agarrou um dos meus pés, cai de joelhos nos asfalto molhado. Gritei, e esperneei até que o zumbi me soltasse. Olhei melhor em sua direção, e reconheci a parte superior do corpo de Mozart, totalmente destruída. Com asco, olhei ao redor e como num passe de mágica, vários zumbis que estiveram cercando o ônibus, notaram minha presença. Supus que eles é quem haviam devorado aquele monstro. Contornando o ônibus com sua marcha lenta e voraz, eles me surpreenderam como um palhaço de caixa, daqueles saltam para fora quando seu recipiente é aberto.
Antes que o medo bloqueasse minhas reações, fui resgatada pelos meus amigos. Meu tornozelo ainda estava sujo de sangue onde Mozart me segurara, mas ele felizmente foi definitivamente morto, por um golpe de Otávio. Diogo atirou contra dois dos zumbis que vinham na nossa direção, e eles caíram mortos. Xingando, ele guardou a arma sem balas em sua calça, e puxou uma faca. Não muito longe, vinham Sabrina e Ana, também armadas. Eu não podia acreditar que eles estavam mesmo indo lá para fora. Meu primeiro instinto fora o de me abrigar na boate. Mas eu não era tão experiente quanto eles, então era compreensível que não tivesse as mesmas reações. Ainda assim, fiquei chocada com tanta coragem. Sentindo um aperto gentil em meu ombro, encontrei o rosto de Victoria, que sorria pra mim. Aceitei sua mão, e levantei-me com o peso extra na barriga começando a incomodar. Abracei minha amiga de leve, e ela passou o braço por cima de meu ombro, puxando-me de lado contra ela. Juntas, caminhamos no meu de uma espécie de cordão protetor, enquanto os outros evitavam que os mortos chegassem perto de nós. Ela chutou um zumbi mais ousado no estômago, e ele caiu de costas, esparramando o excesso de água no chão. Dimitri abriu as portas do ônibus, e com o apoio de Vicky, voltei à segurança.

–Você não vem? — perguntei, com medo de ficar sozinha.

– Ainda não, Nanda. Fique perto do Gabriel. — correndo de volta por onde havia vindo, Vicky deixou-me ali, molhada e nervosa. Senti a mão de Gabriel enrolando-se à minha, e deixei que ele me abraçasse por trás, a mão pousando sobre meu filho.

Diogo.

Eu estava puto da vida com a vadia da Fernanda. Garota idiota. Como ela vai pro lado de fora sabendo que os malditos estão vindo? Pelo menos, o plano já era mesmo tirar ela antes dos outros. E era sobre isso que eu estava falando com a Victoria, quando a babaca tomou a frente e quase se matou. De canto, notei que a maioria das pessoas já estava pronta pra ir embora. Todo mundo sabia que era pra salvar o básico. Comida e armas. O resto do que tínhamos conseguido ia ficar ali, naquela cova. Ia ficar pra trás, e teríamos que começar de novo. Eu já tinha previsto isso no momento em que o Hugo sugeriu que saíssemos do Trocados. Se lá estaríamos ilhados, ali naquela boate sem muros e sem qualquer proteção além de Cecília, éramos um banquete esperando pelo comilão. Otávio também viu o que Fernanda estava fazendo, e juntos começamos a lidar com aquelas criatura nojentas. De um jeito engraçado, eu não via nenhum deles como humanos. Pro meu bem, a maioria também já não parecia muito humana, considerando o estado em que estavam. Atirei, e senti o clique da arma em minhas mãos. Apertei o gatilho de novo, e nada. Péssima hora pra acabarem as balas.

– Filha da puta! — cuspi, e guardei a porcaria no cós da calça. Eu odiava usar facas, encostar naquelas coisas. Mas era o jeito.

Cuidando pra me manter afastado de Otávio e sua enorme barra de ferro (eu não tinha esquecido que idiota já tinha me acertado com ela), agarrei o primeiro zumbi e enfiei a lâmina de caça em seu olho. O lugar mais fácil e rápido de esfaquear. Ana e Sabrina (que eu achei que ia estar avariada), também estavam ali. Elas eram mais velozes que eu com facas na mão, eu precisava admitir. Já Otto, era um desajeitado. O coitado pelo menos tinha o fator força à seu favor. Ele nunca acertava um monstro só, por vez. Victoria passou correndo por mim e me detive pra olhá-la enquanto chutava um deles pra longe. Assim que garanti que ela estava bem, minha atenção voltou-se pra minha própria segurança. Mas aí já haviam dois deles sobre mim. Ana gritou pra Sabrina que me ajudasse, e eu segurei no pescoço de um velho zumbificado, que tentava me morder com os poucos dentes que ainda tinha.

– Miserável... — gemi, enquanto um pouco de saliva e sangue apodrecidos caíam sobre o meu peito. Medindo minha força com o peso morto dele, o mantive longe enquanto começava a erguer o outro braço. A faca atravessou a têmpora morta facilmente. O crânio já não estava lá essas coisas, porque também cedeu. Sabrina tirou o cadáver de cima de mim, no instante em que Victoria estava voltando do ônibus. Nos olhamos e eu assenti que ela seguisse em frente. Sem exclamações, sem choradeira. Ela apenas seguiu. Pelo visto, eu tinha ensinado bem.

Não pude me conter e acabe olhando em volta, na noite chuvosa. De longe, dava pra ver que a rua estava começando a lotar daquelas coisas. Talvez uma centena? Menos, bem menos. Mas ainda assim, era mais do que nós podíamos lidar. Para cada monstro que matávamos, mais dois apareciam. Meus braços estavam começando a protestar, e minha mão começava a afrouxar no cabo da faca. A cada vez que o cansaço me fazia tremer na base, eu lembrava da Victoria, da Fernanda. Das crianças. Era só o que me mantinha em pé naquela hora. E talvez fosse o suficiente. Escutei o grito de Lavínia, quando ela viu o que a esperava do lado de fora. De braços dados com Manuela, ela vinha correndo com o resto do grupo. Ricardo trazia Cecília no colo, e Hugo segurava o revólver de Thaís na mão. Ele não estava atirando para errar. Tânia segurava Dino nos braços, ele abraçado à ela como os filhotes à mãe-macaco. Vilma atirou sua faca na cabeça de um errante que chegou perto demais de Victoria, que liderava o caminho. Dante trazia malas de suprimentos em seus braços firmes, e percebi que pela primeira vez, eu estava me sentindo orgulhoso daquele grupo. Eles sabiam o que fazer. Estavam se superando a cada novo ataque. Melhorando e evoluindo, como todo o resto ao nosso redor. Carolina estava acordada, e andava sozinha ao lado do surfista, carregando uma mochila com um dos braços. Espalhados em todas as direções ao redor do ônibus, os zumbis começaram a convergir sobre o nosso grupo. Como uma única massa de podridão e morte.
Dimitri teve um timing bom. Ele os bloqueou, jogando o ônibus sobre as criaturas. O veículo deu um solavanco enquanto esmagava alguns corpos, e enquanto os andarilhos bloqueados o agrediam, furiosos. Com uma exclamação de alívio, todo mundo apressou os passos, se aproximando mais da salvação. Menos Manuela. Empurrando a mochila que ela levava contra Lavínia, ela separou-se do grupo, com olhar vago. Ficou olhando para os mortos, apesar de todo o choro e gritos da amiga. Ela decidira morrer. E por mim, bem que poderia. Não via em quê ela seria útil, mesmo. Mas Victoria pensava diferente, é claro. Mordi meu lábio inferior até sangrar quando vi minha namorada se separando dos outros, e voltando atrás. Pra minha surpresa, ela não estava sozinha. Carolina tinha distraído Jonas, e voltara também.

– PUTA MERDA! — gritei aos quatro cantos, antes de derrubar um garotinho zumbi com um chute no rosto. A julgar pelo modo imóvel que ele havia caído, eu quebrara seu pescoço com o golpe. Se colocar juízo na cabeça de Victoria fosse tão simples quanto puzar um gatilho, metade dos meus problemas estariam terminados.

Victoria.

Quando eu fiquei para trás, ninguém voltou por mim. Só Jonas. Eu queria fazer o mesmo por Manuela. Ela não merecia morrer por estar mentalmente perturbada. Eu já havia conseguido meu objetivo máximo. Todos conseguiriam escapar. Eu não deixaria um de nós para trás, não depois de tudo. Não podendo mudar aquilo. Desviei de um zumbi, evitando matá-los para chegar mais rapidamente à Manuela. Finalmente toquei seu braço, e ela fitou-me espantada. Não parecia saber o que se passava ao redor. Ouvi um arfar pulsando próximo a mim, e virei-me com a intenção de perfurar o intruso com minha própria faca. Por sorte, detive-me à tempo. Era Carolina. Totalmente diferente de todas as outras situações nas quais eu a encontrara, ali ela não tinha nenhuma vantagem a levar. Não tinha nada a ganhar, nem estava sendo egoísta. Diferente de quando eu havia caído na mansão da família de Ricardo, ali ela estava pondo a vida de outrem acima da sua. O que acontecera a ela, naqueles tempos em que eu fora mantida presa? Fosse o que fosse, eu estava curiosa sobre essa nova pessoa. Sorrindo pra ela, voltei-me para Manuela, com urgência.

– Venha conosco! Não podemos deixar você se matar assim! — gritei, com pressa de voltar logo ao ônibus. Eu era altruísta? Talvez um pouco. Mas não era maluca. Sabia que íamos morrer se não voltássemos logo.

– Por que você voltou? Me deixe morrer. Vou ver a Mirla de novo! A Deusa vai nos reunir. — rebateu-me Manuela, chorosa.

– Ai, caralho! Dá licença, Vicky. — Carolina empurrou-me, com um olho fechado e outro aberto. Seu rosto espancado era quase engraçado de se ver. — Você vai me agradecer depois, vadia. — e ela socou o rosto de Manuela. Com tanta força, que a garota caiu para trás, desorientada. — Agora levanta ela! Cê não é inumana, caramba?

E assim eu fiz. Com a ajuda de Nora levantei o peso de Manuela como se estivesse levando um saco de farinha de trigo nas mãos. Meus dedos fraturados protestaram, mas não de maneira insuportável. Carolina manteve-se ao meu lado, enquanto corríamos de volta. Todos já começavam a subir no ônibus. Menos Diogo, que ficara para trás com a arma de Hugo, atirando e gritando desaforos na minha direção. Eu sabia que ele estava furioso. Mas eu não estava arrependida. Deixei que Carolina subisse no ônibus à minha frente, e quase caí quando um dos zumbis agarrou o braço de Manuela, no meu colo. Mordendo a mão da garota, ele a fez gritar em seu torpor. Diogo o matou com um disparo, e eu consegui subir no veículo finalmente, seguida por ele. Se antes Manuela queria morrer, agora ela parecia pouco decidida. Gritava de dor, histérica. A ferida ocasionada pelo zumbi arrancara a maior parte de seu dedo mindinho, e um pedacinho da mão. Eu não sabia o que fazer. O sangue fluía abundantemente para todos os lados, me sujando enquanto eu tentava achar uma solução para o problema.

– Arranca o pedaço infectado! — gritou Ricardo. — Antes que espalhe!

Como demorei demais para reagir, Diogo me puxou para o lado. Sem hesitar, Tânia pegou a faca nas mãos dele, e decepou firmemente o dedo e uma parta da mão de Manuela. A ex-prostituta desmaiou de uma vez, tamanha a dor que a invadia. A enfermeira começou a aplicar-lhe um torniquete com mãos firmes, enquanto todos mantinham distância, temendo atrapalhar no processo. Olhando ao redor, reparei que a grande maioria estava ferida, de algum modo. Parecíamos o que realmente éramos, outra vez. Sobreviventes. Sujos, feridos e cansados. Exatamente do mesmo modo que havíamos chegado à Privilège. Havíamos perdido alguns amigos, e encontrado novos. Mas nenhuma mudança era maior que o sentido de comunidade que agora existia entre nós. O grupo, era tudo. Havíamos sido forçados a fazer coisas terríveis, pelo nosso grupo. Pela sobrevivência. E aquelas pessoas, naquele ônibus, estariam ligadas a mim para sempre.

– O que faremos agora? — Vilma sabiamente perguntou.

– Voltem na direção em que vieram. — anunciou Cecília. — A solução já foi mostrada a vocês, antes. Hugo a viu.

– Aquela pousada! — ele exclamou. — A que deixamos pra trás, lembram? O motivo de eu e o Ricardo termos brigado? Lá é seguro? — ele perguntou, virando-se para ela, como todos nós.

– Por enquanto, sim. — a voz de Cecília estava fraca, sonhadora. Ela devia estar cansada. Aqueles dons inumanos não eram uma bênção, definitivamente. Eu mesma já enfrentara o inferno com Nora. A pobrezinha devia sofrer muito mais. Notei que Otávio se sentara ao lado dela, e a estava abraçando. Meu coração se esquentou ao vê-lo finalmente superando Julia. Eu já previa o que sairia dali. E não precisava ser clarividente para tanto.

Dimitri manobrou o ônibus antes que a multidão de mortos o virasse, e dirigiu na direção da saída de Búzios. Estávamos voltando ao arredores da cidade, para o meio do caminho onde havíamos encontrado a pousada de Hugo. Mas eu tinha plena certeza de que não importava para onde fôssemos. Estávamos prontos para lidar com aquilo. E sem sombra de dúvidas, não cairíamos na farsa de falsos profetas, novamente.

Notas finais
Aêê, finalmente o fim da Topázio. Ou será que não? Vai saber, né? kkkkkkkk... É, gente, a boate caiu. ;-; O que acharam desse capítulo? Surpreendeu? Alguém arrisca palpitar o que vem por aí? Só faltam dois capítulos para o fim da temporada, gente! Apostem suas fichas. Kisses by DroppingPieces!