Quebrando O Gelo
3 Sombra
Notas iniciais
Sábado, 12 de outubro
1:30pm
Já fazia quase dois meses desde o início do ano letivo. Dois meses desde que Stoico perguntava, religiosamente, se ele finalmente conquistaria a posição de titular nos Dragões de Berk. E Soluço ainda não tinha uma resposta.
A verdade é que ele amava hóquei no gelo. Amava de verdade. Mas amor e talento não eram a mesma coisa, e, infelizmente, ele não era bom nisso.
Seu pai, por outro lado, fora o melhor capitão que os Dragões de Berk já tiveram. Forte, destemido e indomável. Um verdadeiro gigante sobre o gelo. E Soluço sabia que a única razão para estar no time era essa: ser filho de Stoico, O Imenso.
Não importava o quanto treinasse, quantas noites em claro passasse ensaiando jogadas, estudando o esporte ou se esforçando para melhorar: ele nunca seria tão forte quanto o pai. Nunca teria a presença dominante que ele tinha. Nunca teria a força física ou a agressividade necessárias para enfrentar aqueles brutamontes.
E o pior de tudo? Todo mundo sabia disso.
Ele duvidava que Alvin, o diretor da Berk Academy, ou Dagur, o técnico do time, tivessem sequer considerado seu talento antes de aceitá-lo. Provavelmente, só o deixaram entrar por causa da reputação do pai — e, talvez, porque Stoico tenha pedido, não apenas como amigo, mas como prefeito. E um pedido de Stoico Haddock não era algo que se pudesse recusar.
Mas isso não importava!
O ponto é que Soluço queria jogar, mais do que tudo no mundo. Queria provar a si mesmo que pertencia àquele time. Que poderia fazer jus ao sobrenome Haddock. Mas ele era simplesmente horrível.
Para jogar hóquei, era preciso força, coragem e, acima de tudo, ferocidade — três coisas que ele não possuía.
E Melequento Jorgenson fazia questão de lembrá-lo disso a cada oportunidade.
Ele sim era forte, corajoso e feroz – talvez até demais. Por isso era o melhor jogador do time, o capitão e o orgulho dos Dragões – o que fazia dele “o orgulho do orgulho”, para o desespero de Soluço, que era o alvo favorito dele.
Enfim, Melequento era tudo o que um jogador de hóquei deveria ser: grande, agressivo e implacável.
Graças a isso, Stoico também recebia sua parcela de humilhação diária, já que Gosmento Jorgenson, pai de Melequento, fazia questão de jogar na cara dele a superioridade do filho sobre o jovem Haddock.
Mas esse ano seria diferente!
Soluço passou todas as férias treinando com a ajuda de Bocão, que além de professor de Biologia e melhor amigo de seu pai, foi o terceiro melhor jogador da história do time – atrás apenas do próprio Stoico e, claro, do Gosmento.
Ele não deixaria a pressão de Melequento ou a sombra do próprio pai o impedirem. Esse ano, ele iria provar que merecia estar ali.
– Esse vai ser o meu ano, Banguela. – Disse, acariciando o gato preto que estava preguiçosamente deitado na cadeira de sua escrivaninha. – Eu tô sentindo!
Banguela apenas bocejou, como se não se importasse nem um pouco com as ambições do dono.
– Valeu pelo apoio moral, amigão… – Disse, pegando suas coisas e saindo pela porta.
Desta vez, ele seria titular. Nem que isso o matasse.
2:27pm
Soluço preferia morrer a fazer parte daquele time!
O treino sequer havia começado e o caos já tomava conta do ringue. Era um verdadeiro campo de batalha. Jogadores colidindo uns contra os outros com brutalidade, corpos se chocando contra as laterais de acrílico, gritos de guerra ecoando pelo ginásio.
E, no centro de tudo, estava Dagur, O Louco, berrando instruções enquanto ria como um maníaco.
Como ele poderia competir com aquilo?
O hóquei era um esporte violento. Exigia força, velocidade e resiliência — tudo o que ele não tinha.
Por um breve momento, ele considerou simplesmente ir embora. Simplesmente dar meia-volta, sair pela porta e voltar para casa. Mas então imaginou como o pai reagiria. O desapontamento nos olhos dele. O silêncio constrangedor no jantar…
Não. Ele prometera a si mesmo que se esforçaria. Que provaria ser digno do time.
Respirou fundo e entrou no ringue.
3:42pm
E se arrependeu instantaneamente.
Cada segundo daquele treino fora um massacre.
Os outros jogadores não apenas o derrubavam — eles o atacavam. Com força. Com propósito. Como se quisessem machucá-lo.
E talvez quisessem.
Ele tentava acompanhar o jogo, mas era impossível. Sempre que pegava o disco, alguém o derrubava. Sempre que tentava patinar, alguém o empurrava contra as laterais. E, sempre que tentava recuperar o equilíbrio, já havia outro vindo em sua direção, pronto para atropelá-lo.
Em algum momento, alguém acertou um tranco tão forte que ele foi ao chão, sem ar, incapaz de se mover. Se Dagur não tivesse interferido, afastando os jogadores como um treinador afasta cachorros brigando por um pedaço de carne, ele provavelmente teria saído de lá sem uma perna.
O que deixou tudo ainda pior foi o riso abafado do outro lado do ringue. Melequento, encostado no banco de reservas, assistia a tudo como se fosse um show particular.
Soluço saiu do gelo, sentindo o corpo inteiro latejar.
Talvez ele devesse engolir o orgulho e sair do time. Aceitar a verdade: ele não pertencia ali.
Ainda tentando recuperar o fôlego, ele se afastou dos outros jogadores, indo para o canto mais silencioso possível. Mas, é claro, Melequento apareceu logo atrás dele.
– E então? – Sua voz carregava um tom de provocação evidente. Com os braços cruzados e um sorriso de desdém, ele continuou: – Depois desse fiasco, você vai nos fazer o favor de desistir?
Soluço riu, apesar da dor.
— Desistir? — gargalhou, forçando-se a erguer a cabeça. — Até parece que você não me conhece, Melequento. Eu não desisto. Nunca.
A expressão do rival endureceu.
— Bem, é você quem sabe. — Melequento inclinou-se um pouco mais para perto, a voz baixa e ameaçadora. — Mas cuidado 'pra não voltar ‘pra casa dentro de uma caixa de palitos de fósforo depois do próximo treino.
Soluço estreitou os olhos.
— Você ‘tá me ameaçando, Melequento?
— Não, imagina — Ele sorriu com falsidade. — Só um aviso. De amigo pra amigo.
A palavra “amigo” soou como veneno.
Ela nunca poderia ser usada para descrevê-los. Nem em um milhão de anos.
Ele franziu a testa, tentando entender.
– Vem cá, o que foi que eu fiz 'pra você me odiar tanto? – perguntou, e a pergunta ia muito além do hóquei.
Melequento o encarou por um momento, e então suspirou, como se estivesse prestes a explicar algo óbvio.
– Entenda uma coisa, Soluço: os Dragões de Berk não são 'pra você. Aqui não é o seu lugar. Quanto antes você entender isso, melhor. Ninguém aqui vai deixar você manchar a reputação desse time só ‘pra satisfazer o seu ego. Ou o ego do seu pai.
Soluço sentiu o peso das palavras caírem sobre ele.
— Eu não sou o único que pensa assim — O Jorgenson continuou, olhando ao redor.
Soluço seguiu seu olhar e percebeu que os outros jogadores estavam observando. Todos.
Aquilo não foi um treino. Foi um aviso.
Eles realmente fizeram aquilo de propósito. Tentaram machucá-lo, humilhá-lo e expulsá-lo
E, agora, ele entendia por quê.
Eles achavam que ele só estava ali por causa do pai.
E o pior? Eles estavam certos.
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