Notas iniciais
Olá, espero que gostem ^^ Fanfic sendo postada também no Spirit, Wattpad e Inkspired

Sábado, 12 de Outubro

7:54am


Quando o sol surgiu no horizonte, Astrid permanecia imóvel diante da janela de seu quarto, contemplando pela última vez a paisagem de Oslo.

Não era uma vista agradável. Seu olhar encontrava apenas outras janelas e prédios residenciais, tão pequenos e sem graça quanto aquele em que morava. Para ser sincera, nunca gostara daquela visão.

Ainda assim… Era a sua janela, o seu quarto, o seu lar. E logo não seria mais.

O som de batidas suaves na porta interrompeu seus pensamentos. Era a hora de partir. Olhou para o relógio na mesinha ao lado da cama e percebeu, surpresa, o tempo que havia passado ali, observando aquela paisagem que, até então, nunca lhe parecera digna de um segundo olhar.

Duas novas batidas – agora mais firmes – a fizeram se afastar do parapeito e abrir a porta.

— Já está pronta? — perguntou seu tio, Finn. — A Tempestade está na gaiola? As malas estão arrumadas?

— Sim, tudo pronto.

— Então só falta um banho para despertar.

"Como se eu tivesse conseguido dormir", pensou, mas não disse nada.

Nas últimas três semanas, discutira com o tio quase todos os dias. Brigar, protestar, expressar sua frustração… Nada disso adiantara antes, e certamente não ajudaria agora. Mas a insatisfação ainda transparecia em seu rosto.

— Certo. — limitou-se a responder, seguindo para o banheiro.

— Querida, ouça…

Ela não ouviu. Antes que Finn pudesse terminar o que queria dizer, fechou a porta — com mais força do que o necessário — abafando a voz dele.


8:55am


Ela estava sendo insuportável. E sabia disso.

Veja bem, não era como se Astrid quisesse agir assim. Simplesmente não conseguia evitar, entende? Tudo o que conhecia ficaria para trás, em Oslo. Todos os amigos (que não eram tantos, sejamos honestos), todos os lugares (que ela mal frequentava, para falar a verdade), a vista de sua janela (já mencionei o quanto ela detestava aquela vista?)...

Certo. Colocando assim, talvez não houvesse tantos motivos para agir desse jeito.

Então, se não eram os amigos, os lugares ou a janela, por que, afinal, Astrid estava tão irritada com a mudança? Simples: familiaridade. Ela conhecia Oslo. Conhecia os colegas de escola. Conhecia a paisagem. E agora estava indo para um lugar onde nada lhe era familiar.

Ela não estava assim porque morreria de saudades de Oslo. Estava assim porque morria de medo do desconhecido.

E, sejamos sinceros… Quem não teme o desconhecido?

A incerteza já a machucara tanto ultimamente... Só queria algo firme e seguro para se agarrar.

— Querida, você precisa entender que deixar Oslo não foi uma escolha fácil. — disse seu tio, arrancando-a de seu longo devaneio. — Mas foi necessário. O trabalho…

— Eu prefiro não ter essa conversa de novo, tio Finn.

— Astrid, o estudo da vida marinha lá é…

— Sim, sim. Tenho certeza de que ainda há muito a se aprender sobre cavalas, atuns ou seja lá o que se pesca naquele lugar!

E lá estava ela, sendo insuportável outra vez. Qual era o problema dela?! Ele não tinha culpa do que aconteceu. Bem, tomara a decisão de partir, mas não era culpado pelo motivo que os obrigara a ir. Essa culpa… essa culpa era de—

— Não entendo por que está tão irritada! — Depois de três semanas tentando ser paciente e compreensivo, Finn finalmente explodiu. — Não é como se você tivesse algum amigo para sentir saudades, não é mesmo?!

Aquelas palavras acertaram em cheio.

E doeram.

Porque eram verdade.

E Finn percebeu isso no instante em que viu a expressão dela mudar.

— Querida… Me desculpe, Astrid, eu não quis…

Pela segunda vez naquele dia, ela não o ouviu.

Colocou os fones de ouvido e afundou ainda mais no banco do passageiro.

Se dissesse algo, o machucaria mais do que ele já estava machucado. Se ouvisse algo, se machucaria mais do que já estava machucada. Então, o silêncio pareceu a melhor opção para ambos.

Não a opção certa. Apenas a que melhor os protegeria… um do outro.

Felizmente — se é que dava para chamar assim —, logo chegaram ao porto e embarcaram na balsa que os levaria ao novo destino.


1:53pm


Depois do que pareceu uma eternidade, eles finalmente chegaram ao destino: Berk.

Berk… Uma ilha no meio do nada, onde as pessoas viviam de pesca, ovelhas e iaques.

Ao desembarcar, Astrid nem se deu ao trabalho de analisar o lugar. Teria o resto da vida para isso, certo?

“Ok, dessa vez eu exagerei”, pensou, rindo de si mesma. Não passaria o resto da vida ali. Só os próximos dois anos. Ou talvez menos. Quem sabe o que o futuro lhe reservava?

Antes que se desse conta, o carro parou.

Tinham chegado à nova casa.

Ao sair e finalmente olhar ao redor, Astrid se surpreendeu. Nada ali lembrava o pequeno e apertado apartamento de Oslo. A casa era bonita — pelo menos por fora —, com um jardim espaçoso e árvores altas. Quando respirou fundo, sentiu a diferença no ar, muito mais puro do que na capital.

— Nada mal, hã? — perguntou seu tio, com um sorriso.

— Poderia ser pior. — respondeu, sem esconder que ainda não estava completamente convencida. Mas, dessa vez, retribuiu o sorriso.

Ela podia continuar sendo teimosa, se irritando por estar ali, remoendo a situação que os trouxera até aquele ponto ou as palavras do tio mais cedo. Ou podia, ao menos, tentar encontrar algo de bom naquele lugar.

Escolheu a segunda opção. Afinal, dois anos era tempo demais para ser infeliz.

O corretor de imóveis os aguardava à porta, com uma expressão tranquila.

— Olá, senhor Hofferson. — cumprimentou, assim que se aproximaram. — Esta deve ser sua filha.

Astrid e Finn se entreolharam, desconcertados. Ainda estavam se acostumando com aquela nova realidade.

— Olá, Sven. — respondeu Finn, tentando dissipar o constrangimento. — Bem, esta é minha sobrinha, Astrid. De quem falei ao telefone.

— Ah, sim. Como vai, senhorita?

— Bem. Onde fica o meu quarto?

— Astrid!

Sven riu, sem se incomodar.

— Direto ao ponto. Os jovens de hoje não têm paciência para conversa fiada. — brincou, entregando as chaves da casa para Finn. Depois, voltou-se para ela. — Segunda porta à direita. Espero que goste.

Assim que o tio abriu a porta, Astrid pegou a gaiola de Tempestade e subiu as escadas.

Ao entrar no quarto, foi pega de surpresa pelo tamanho. Era mais espaço do que jamais tivera em Oslo.

Mas a verdadeira surpresa veio quando se aproximou da janela.

A vista… Céus, como descrever aquela vista? Encantadora? Maravilhosa? Deslumbrante? Nenhuma dessas palavras parecia suficiente.

O azul infinito do oceano se estendia até onde seus olhos alcançavam.

— Talvez essa ilha não seja tão ruim, Tempestade. — murmurou, apoiando-se no parapeito.

Pelo menos, agora, ela tinha um bom motivo para olhar pela janela.

Notas finais
Espero que tenham gostado!!!