Quebrando Limites
3 Merecer
Quebrando Limites
Capítulo 2 — Merecer
Andreas não iria desistir tão fácil. Tinha ficado confuso e curioso com a novidade de Bill, tendo ele falado quase em enigmas na sala. Ele entendia o motivo, sim, só que o moreno exagerou um pouco com a sua esperteza. O sorriso deixara bem claro que haviam palavras por trás... e brincadeira não tinha sido uma boa escolha em hipótese nenhuma. Agora ele estava se sentindo como se fizesse parte dela também... coisa que sua intuição dizia que era verdade.
Tinha que falar com o garoto, mas ele lhe escapara do resto das aulas, falando que ia trabalhar mais hoje para pegar folga na segunda. Sendo assim sentiu-se livre para ir atrás da namorada assim que batesse o sinal do almoço... estava com mais vontade de pegá-la de novo do que imaginou que teria.
***
A um canal e alguns países de distância dali, Tom se remoía tentando encontrar muitas respostas para uma quantidade ainda maior de perguntas, todas sem qualquer pista da solução. Resolveu que era melhor perguntar para alguém, por mais que Ben tenha rido da cara dele e dito para ignorar isso e seguir a vida que não deveria ser nada. Ele não acreditava que não era nada. Estava tão incomodado com a palavrinha do email, com medo de que mais chegassem... e ao mesmo tempo criando expectativas.
Resolveu ir perguntar para uma garota que não via pessoalmente há anos, mas que tinha sido uma grande amiga no colégio, entre outras coisas. Se davam bem, e Tom gostava das coisas que ela falava. Era uma inteligência interessante, numa garota. O porquê nem mesmo ele sabia, já que garotas... era um assunto polêmico, por assim dizer.
Depois de toda a melação e costumeiras e incontroláveis investidas de Tom, uma preocupação quase verdadeira em saber se estava tudo bem, e como ia a vida, ele finalmente foi perguntar o que queria saber.
Jenny: por que o silêncio?
Tom: nossa, mas você adivinha as coisas
Jenny: nem falei de nada, só estranhei. você não é quieto
Tom: é que tá certa, eu to com um probleminha aqui
Parou um pouco e pensou se realmente poderia chamar aquilo de problema. Ele estava mais curioso do que qualquer outra coisa.
Jenny: problemas... com quem dessa vez?
Tom: não é sobre ninguém não
Jenny: oras. é o que então, se não são garotas?
Tom: com um email estranho que recebi
Jenny: hm...
só um email?
Tom: sim
Jenny: e o que um email pode ter de estranho?
Tom: só uma palavra
Jenny: tá zoando comigo
Tom: não! é coisa de louco, não diz de quem veio nem nada
só aparece a pergunta
Jenny: que pergunta? como assim?
Tom: vou mandar a imagem, espera
Alguns minutos depois, com Jenny tentando ajudá-lo com a situação, a coisa piora. Alguns instantes de silêncio com ela esperando, prestes a perguntar por ele... Tom estava indo tirar um print screen da tela com o email, quando vê que tem mais um novo na caixa de entrada.
O que você quer?
Dizia o recado, ao mesmo estilo do outro.
Tom: QUE DROGA, PORRA
Jenny: o que foi?
Tom: chegou outra, para variar.
Jenny: outra? agora?
Tom: sim
que merda, isso não é engraçado
Jenny: eu não to achando graça
Tom: não, desculpa
é para o merda que tá me mandando isso
sozinhos é que os emails não tão vindo
Jenny: pois é :/
Tom: o que você quer? é a pergunta
Jenny: que merda, quem tá querendo alguma coisa é... ele, sei lá.
Tom: tá querendo o quê? por quê? comigo? que merda
Jenny: pera garoto, deixa eu pensar aqui
A conversa foi longe. Tom quase se irritou com a nova mensagem, justo na hora que o assunto estava nas teclas. Parecia algo um tanto impossível. Improvável? Enquanto ele estava se debatendo, Jenny não conseguia pensar em nenhuma explicação plausível...
***
Voltando à ilha, Bill estava no trabalho, segurando firme os lábios fechados, porque estava rindo daquela conversa. Ele estava planejando o próximo passo quando viu que o... seu bichinho com minhocas na cabeça ficara online.
Estava causando mais do que esperava, em um garoto que parecia tão mais controlado. Era essa uma das partes que ele gostava da internet. Você descobre os lados que as pessoas nunca mostrariam de jeito nenhum, o que elas podem ser na verdade de seu íntimo... se orgulhava por ser capaz de ver isso, de enxergar o que poucos viam. Poucos talvez sequer imaginassem. Eram alguns segredos mórbidos, para total sinceridade.
Saiu na parte da conversa em que Tom recebia a outra mensagem... e uma janelinha subiu na sala de bate-papo, em que ele estava offline. Só podia ser uma pessoa. A única que o procuraria, pois é. Estava certo.
Bill: que foi andy?
Andy: sabia que você tava aí
Bill: voltei do almoço agora a pouco
já largou a namorada para poder falar comigo?
Bill não sabia não provocar. Era incapaz de resistir a qualquer que fosse o comentário que lhe viesse a mente, o que muitas vezes era visto como grosseria. Pouco estava se importando com o que quem ouvia estava pensando. Sabia pedir desculpas, de qualquer forma. E com Andreas, esse já estava mais do que acostumado. Também a não ter respostas boas – não sempre – para o amigo sacana.
Andy: já sim, eu me preocupo com você também, sabe
Bill: você é um fofo!
mas tá, diga
Andy: eu queria conversar contigo hoje para entender esse rolo que você tá fazendo
Bill: KKKKKKK, não tem rolo nenhum
Andy: então me explica
Bill: mas eu ainda to bem no começo...
Andy: vai. me. explicar. de qualquer jeito
Bill: KKKK tá certo, amanhã eu apareço na tua casa
hoje vou ficar trabalhando até tarde, senão nada de segunda de folga.
Andy: amanhã eu vou cobrar, senão eu vou atrás
Bill: não vou esquecer :3 não se preocupe
posso trabalhar? você sabe, senão não estudo
Andy: sim
tchau. olha bem o que você tá fazendo, hein
Bill: tchau... e obrigado, garoto
Sim, ele tinha o que agradecer. E tinha o que pensar também. Teria que explicar de uma maneira ou de outra, ou seja, de qualquer jeito, o que estava fazendo. Tinha que ser justo com Andreas, era obrigado a admitir isso. Podia saber tudo da vida dele apertando um único botão, mas isso não era recíproco. Só não era muito acostumado a falar da sua vida, porque na maior parte das vezes, ninguém se importava.
Mesmo que fizesse piadinhas do loiro, sobre qualquer coisa, era incrivelmente feliz com ele ao seu lado. E Andy sabia disso, por isso se metia sempre que tinha dúvidas, medo, ou pura vontade. Pelo outro lado, Bill gostava de reclamar de tudo, o que só o fazia perguntar mais quando este não queria falar. Todavia, o maior se sentia bem em ter alguém com quem compartilhar, possivelmente, tudo.
A tarde passou rápido, Bill se perdendo em algumas memórias que lhe eram muito relevantes, únicas como os acontecimentos que as geraram. O dia não fora tão cheio quanto esperava, e ficou mais feliz com isso, se deixando levar ainda mais pelos diálogos. Percebeu, com uma pequena gota de tristeza, que eram as únicas conversas que tivera nos últimos tempos sem envolver nenhum tipo de interesse. Só conversar, contar a vida para um amigo.
Bill fungou, segurando a emoção. Não era tanta assim, ele somente tinha sentimentos. E gostava de aproveitá-los quando eram bons.
– Eu não tenho pai. – respondeu, fitando o nada.
– Sério? – Andreas quis ter certeza.
– Com isso não dá para brincar, Andy. – Sim, isso ele sabia. Só não era algo assim tão comum, pois parecia ter algo forte, muito forte, por trás.
Pela expressão vazia de Bill, de quem estava revivendo cenas e relembrando memórias... as sobrancelhas franzidas, como uma dor latente sendo sentida de novo, mais forte e mais sutil do que antes...
– Me conte. – O loiro abriu o espaço que o outro estava querendo, mesmo sem ter consciência disso. Bill engoliu a saliva, ignorando a água que começava a se formar em seus olhos.
– Ele era minha ligação com o mundo. Eu não entendia direito e não me lembro de muitas coisas, mas sei que era. Algumas fotos mostram isso... não. Ele era bem mais. Ele era o meu mundo. Tudo dependia dele, tudo vinha dele. – Fitou os atentos olhos azuis, que lhe pediam para continuar. – Minha mãe existia, claro. Só que não me dava tanta atenção assim. Talvez porque a maior parte do sustento da casa viesse do salário dela. E como meu pai era caminhoneiro, e por minha causa resolveu ficar alguns anos sem trabalhar... – Deu um sorriso tímido. Essa parte era feliz. Feliz à sua maneira.
“Até que um dia, quando eu tinha cinco anos, ele me disse que tinha que viajar. Disse que ia voltar. Eu senti que era mentira. Senti, no momento em que ele cruzou a porta, que não iria mais voltar. Chorei aquele dia, e a mãe achou que fosse pela partida dele, me deu um abraço e passou o dia um tanto preocupada comigo... uma certa novidade.
“Alguns meses depois, passou a notícia de um acidente na televisão, enquanto eu brincava no tapete, com ela lendo um livro no sofá, por perto. Só lembro do sobrenome 'Kaulitz' sendo pronunciado, e do livro caindo das mãos dela, com as lágrimas começando a cair também.
“Sim. Meu pai tinha morrido mesmo. De verdade. Eu nunca mais ia ter a companhia que tanto amava ao meu lado.
Uma pausa.
– É uma dor difícil de descrever, dolorosa demais de sentir. Simone, minha mãe, se afastou de mim. Resolveu se mudar do nosso país, da Alemanha, para poder esquecer tudo de ruim que tinha acontecido ali. Acho que ela não contava em me ter como uma... memória viva, ou quase isso.
“Foi muito rápido, as decisões, a mudança, as diferenças. Então, eu estava na Inglaterra. Praticamente sozinho, porque mesmo que a mulher que eu chamo de mãe estivesse ali, na mesma casa, era uma presença ausente... Inglês, tive que aprender sozinho. O país mudou, e ela falava comigo – fala ainda, até hoje – em alemão. A escola para qual fui era boa, talvez como uma recompensa que ela achava que eu merecia. Era um pouco cara, e passamos algumas necessidades... enquanto esteve trabalhando. O aperto foi quando eu tinha quatorze, que ela saiu do emprego, não sei porquê. Fiquei dois anos sem estudar, até ter idade de procurar um trabalho para poder ajudar em casa, e enfim merecer ir para a escola. Nessa época que me voltei aos computadores...
Bill o olhou de novo, percebendo que muitas lágrimas se escaparam sem que notasse. Suspirou, sentindo-se incrivelmente mais leve, sem um grande peso no coração, sem algo que prendesse seu corpo e curvasse seus ombros. Faltava somente o final, o quase agora, e ergueu a mão, pedindo um pouco mais de silêncio para o loiro, que tinha os olhos azuis marejados também.
– E me descobri realmente bom com eles, e eletrônicos em geral. Isso só aumentou minha solidão, é verdade, mas me abriu muitas portas. Me afastou ainda mais de minha mãe. – Deu de ombros, sem mais se importar tanto assim com esse fato. – Informática se tornou uma paixão. Tanto que meu trabalho tem a ver com isso. E olha que eu vou muito mais longe do que deveria.
Sorriu, um tanto orgulhoso de si. Ele simplesmente sabia, sobre a certeza do assunto e sobre informática. Sua curiosidade o levara sem querer ao computador de outros, e isso se tornou um hobby. O melhor que ele poderia ter encontrado.
O outro passou a mão pelo rosto, entendendo a confiança que tinha recebido, e querendo saber muito mais, porque uma história assim não tem tão poucos detalhes quantos são revelados num primeiro relato. Queria entender, queria aprender... queria descobrir. Uma caixinha de mistérios, onde ele tinha somente aberto uma fresta.
Andreas estava fascinado com a história do simples garoto de uma pequena cidade alemã. As aparências não apenas enganam, como mostram um lado que não sabemos ao certo como expressar, pelo fato de que os outros não entendem da maneira que contamos. Num impulso, abraçou Bill. Este, desacostumado com o ato de carinho, ficou tímido ao abraçá-lo de volta, aumentando o aperto aos poucos.
Merecer sempre foi um verbo complicado na sua vida. E agora achava que não merecia a amizade que estava sendo prometida naquele abraço.
Depois, bem depois, descobriu que não só merecia, como também precisava daquela amizade. E que ela era uma das poucas e melhores coisas que lhe aconteceram na vida.
Notas finais
Bem... Capítulo dois aí. Espero que tenham gostado :B
Apesar do draminha, hihihi.
Obrigada por ler
Möps :3
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