Notas iniciais
Scorpio acordou, fez a higiene e foi para a cozinha. Pegou os mantimentos necessários para dois cafés da manha e então se lembrou que estava sozinho. A cozinha vazia estava arrumada, nada fora do lugar em que ele havia deixado antes. Ele colocou os mantimentos de volta em seus lugares e desistiu do café indo direto para o bar.
Transportou as caixas do estoque sem nenhuma voz lhe fazendo perguntas ou opinando sobre a melhor forma de fazer o seu serviço. No escritório fez pela quarta vez o balanço financeiro desde a noite anterior, quando ocorrera a terceira noite das mulheres no bar. A renda desta noite ainda superava a das outras noites da semana juntas.
Terminou antes do almoço e então passou a se perguntar oque fazer. O bar só abriria as quatro e Ana só chegava as três. Até lá ele ainda teria pelo menos cinco horas de solidão e tédio.
As palavras de Ana que ecoavam há duas semanas em sua mente se intensificaram:
“...apesar de toda sua pose você se subestima, e ainda resolveu colocar a Rose num pedestal ao qual ela nunca pediu ou sequer desejou...”
Ana estava certa e ele mais do que nunca concordou com as ofensas de Rose, ele era um idiota.
“...essa sua história de famílias que não se entendem é apenas uma desculpa para fugir do medo de ser rejeitado por ela”
Scorpio temia, temia profundamente que Rose não o amasse e mesmo assim fora nisso que ele acreditara durante todo o tempo que ela esteve lá, ele nunca pensou ser capaz de fazê-la sequer se apaixonar, imagine amar, mas elecom certeza era cego, afinal ela o amava e o confessara antes de partir, diferente dele.
“...enquanto você pensar e agir assim vocês realmente nunca darão certo.”
Scorpio olhou para o relógio. Dez e meia. Subiu apressado pra casa, pegou as chaves e saiu em disparada.
Rose estava no jardim de sua casa, sentada sobre uma manta xadrez velha e puída com um livro nas mãos. Um vento forte e quente passou jogando algumas mechas de seus cabelos – que ela agora normalmente usava soltos – em seu rosto. Enquanto ela as afastava dos olhos viu uma figura alta se aproximar.
– Fugindo do almoço de sua mãe? – perguntou o homem ruivo.
Rose sorriu. A exceção de Hugo todos concordavam que Hermione não era muito boa com a cozinha.
– Não. Resolvi ler um pouco e este é um bom lugar – respondeu ela parcialmente sincera já que não completara que também era ali que ela ia acalmar seu coração quando ele insistia em se focar em Scorpio.
– Um pouco isolado não acha – falou o pai olhando ao redor.
Rose olhou também. Estava a muitos metros da construção de porte médio feita para sua família.
– Gosto da sombra dessas árvores – ela argumentou sem se forçar muito em convencê-lo.
Ele a olhou terno por algum tempo antes de falar.
– Você voltou há duas semanas e eu não lhe pedi para me contar o que você andou fazendo porque estava muito feliz com a sua volta e porque sua mãe me pediu para lhe dar um tempo.
Rose começou a imaginar seu pai lhe pressionando para que ela dissesse onde estava e com quem.
– Nesses dias cheguei a conclusão de que preferia não saber – ele afirmou com convicção.
Rose o olhou confusa.
– Entendo sua vontade de sair e se virar por conta própria, oque deve ser meio difícil sendo filha minha e de sua mãe.
Ela ficava a cada segundo mais confusa pela forma madura e tranquila que o pai falava.
– Deve ter sido difícil, não é?
– Mais do que eu imaginava – agora ela estava sendo totalmente sincera.
– Mas você conseguiu. Sobreviveu, não é? – e nessa hora ele deu um meio sorriso.
– É – ela desejou dizer que vivia, mas que as vezes isso parecia não ser suficiente – Mas ainda não entendi onde você quer chegar.
– Vic falou comigo.
Rose arqueou uma sobrancelha.
– Sobre?
– Onde você esteve e com quem.
Rose sentiu suas bochechas corarem assim como as orelhas do pai.
– Então...
– É, eu sei... um Malfoy... – ele a olhou e ela percebeu que ele se segurava para permanecer tranquilo e não surtar devido ao que acabara de dizer.
Então ele continuou.
– Você cresceu minha filha, e por mais que me doa perceber, se tornou uma mulher – ela percebeu que ele ainda se segurava – Não posso mais dizer quem deve ou não ser seu ‘amigo’, preciso me acostumar a ver você fazer suas escolhas – ele deu uma pausa, respirou fundo e depois continuou com uma tranquilidade mais sincera – Mas fico feliz em dizer que você se tornou uma mulher não só inteligente como sábia, uma mulher de quem me orgulho e confio não importa oque tenha acontecido ou esteja acontecendo.
Rose estava atônita. Seu pai estava dizendo que acreditava nas suas escolhas mesmo que elas tivessem a levado até um Malfoy? Ela sentiu uma lágrima rolar pelo rosto. Alegria e tristeza unidas numa gota. Ela se levantou e o abraçou forte, ouviu um barulho conhecido que ignorou se concentrando apenas no quanto amava seu pai e sua família e sobre como sentira falta deles.
Ele se afastou o suficiente para olha-la.
– Mas isso não me impede de me preocupar, então tenha cuidado com o que decide fazer ou com... – ele respirou fundo – quem se encontrar.
– Não se preocupe papai, eu não o verei mais – ela disse sabendo que por parte de Scorpio e não dela.
O ruivo olhou sobre o ombro dela e disse:
– Não sei não – deu um beijo na testa dela– Te amo minha filha.
– Também te amo papai – ela respondeu.
Ele lançou outro olhar sobre seu ombro e se afastou em direção a casa. Rose se virou para voltar a manta e ao livro quando o viu. Um vulto parado a alguns metros, observando. Seu coração deu um salto de reconhecimento. Era Scorpio.
Ela fingiu não tê-lo visto, voltou a sentar e pôs o livro diante dos olhos concentrada na presença que se aproximava a passos largos. Uma sombra se fez sobre ela. Rose levantou o olhar e o observou apenas por alguns segundos.
– Será que dá pra dar licença? Você tá fazendo sombra e atrapalhando minha leitura – ela soltou rude.
– Não sabia que você gostava de ler livros de cabeça para baixo – ele falou observando o livro nas mãos dela e rindo.
– Eu leio da forma que eu quiser! – ele se ofendia internamente por não ter percebido o livro ao contrário.
– Claro. Você pode fazer oque quiser.
Rose ainda o olhava brava. Ele também parou de sorrir.
– Senti sua falta.
Ela sentira falta dele todos os dias e noites, mas não disse. Fechou o livro, se levantou e começou a recolher a manta.
– Vá embora. Não preciso de você me dizendo que eu entendi tudo errado e que não foi sua culpa se eu me magoei.
Ela começou a fazer o mesmo percurso que o pai fizera minutos antes.
– Foi minha culpa. É, eu sou idiota. E sim, eu também te amo – ele quase gritou o final para ser ouvido.
Rose se virou e o olhou sem acreditar no que havia ouvido. Ele desfez a distância entre eles.
– Eu te amo Rose Weasley – ele repetiu e a puxou para um longo beijo.
Depois de alguns minutos se separaram.
– Eu pensei que fosse o fim – disse ela.
– Não – disse ele – É apenas o começo.
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