Notas iniciais
Um capítulo meio grandinho, dependendo do ponto de vista, mas você vai gostar. Tenha uma boa leitura!

Ele dizia que me matar seria como matar a diversão. Como assim? Aquele homem era muito estranho...

_Você não tem lógica, cara!

_E você tem toda essa sua lógica estúpida e pensa que ela vai te recompensar! O que toda essa sua lógica tem te proporcionado? Uma vida normal? Que sem graça. Dinheiro? Talvez. Mas até uma aberração como eu sabe que o dinheiro não traz a felicidade. O dinheiro é o símbolo da ganância. As pessoas dizem que eu sou um grande idiota porque queimo dinheiro. Não. O verdadeiro idiota não é aquele que queima dinheiro. É aquele que depende do dinheiro para ser feliz!

Eu fiquei perplexa quando me dei conta de que ele estava certo! Eu não sabia que um homem tão esquisito podia ser tão inteligente e entender tanto a natureza humana e a sociedade em que vive. Ele era realmente muito mais complexo do que qualquer um poderia imaginar. Com certeza ele fazia muitos psiquiatras irem à loucura com os seus papos insanos, que, em alguns parâmetros, lascavam verdades incontestáveis.

Eu fiquei um tempo sem falar, pensando em como aquele cara era terrível e ao mesmo tempo... Incrível!

_No que você está pensando, gracinha? – disse ele, com um leve sorriso – Parece que há algo muito interessante sendo processado em sua mente... Deixe-me adivinhar... É em mim que você está pensando?

_Agora você também adivinha pensamentos, Mister Coringa?

_Mister Coringa? Hum, até que eu curti! – disse ele, pondo novamente a sua língua de fora. De repente, eu não sei por que motivo; comecei a achar aquele tique dele até sexy... (o que eu tenho na cabeça?).

_Sabe... Até que você não é tão horrível quanto dizem!

_As pessoas costumam criticar o que elas temem. Mas muitas vezes essas pessoas não conhecem realmente o que elas temem. Não existem as pessoas que temem a bruxaria sem nem mesmo saberem o real significado da bruxaria? Pois então... Eu sou como a bruxaria! Muitos me temem, contudo poucos me desbravam e me entendem!

Eu, então, por instinto, sem notar o que estava fazendo, toquei a sua cicatriz e disse baixinho:

_Eu... Eu acho que eu te entendo.

Ele fechou os olhos por dois breves segundos e deu um suspiro, como se estivesse... Em paz! Mas logo depois voltou a ser o cara malvado que era, pois segurou o meu braço com força, olhou nos meus olhos castanhos esverdeados e disse com segurança:

_Você acha mesmo que me entende? Você é o que por acaso? Mais uma psiquiatra certinha e equilibrada que pensa ser a dona da razão? Pois eu já estou cansada desse tipinho!

_Não! – falei novamente sem desviar o olhar – Eu não sou uma psiquiatra, psicóloga, psicoterapeuta ou qualquer outra coisa do gênero. Eu nunca fui. Eu acho que eu não tenho muita vocação pra entender gente problemática. Eu sou só uma publicitária. E quando eu digo que te entendo, não é porque quero bancar a psicóloga dona da razão. É porque eu te entendo mesmo.

_Então me diga, mocinha... O que você entende de mim?

_O suficiente. Eu percebo que você é um cara inteligente, você entende muita coisa do comportamento alheio, não é a toa que você é excelente em ser perturbador. Você é o melhor no que faz de pior: Criar o caos. Mas isso qualquer um é capaz de analisar. O que eu entendo que pouca gente entende é o fato de que por trás de toda essa inteligência e maldade, existe um cara chateado e cheio de cicatrizes tanto no rosto quanto na alma. Você só queria... Você só queria... Um segundo de paz!

_Talvez... – ele pela primeira vez desviou o olhar, ele não conseguiu me encarar – Talvez realmente essa busca incessante pelo sofrimento alheio seja apenas uma forma de me confortar, de fazer com que eu me sinta em paz... Ou não... Ah, bem, o que quer que seja, esquece! Mas vem cá... Você disse que não tinha vocação pra entender gente problemática... Hum... Talvez você tenha e não saiba!

_É... Quem sabe? – disse sorrindo – Ok, agora você me deixa ir embora? Eu tenho mais o que fazer!

_Não! – gritou ele.

_Ah é, por quê? Você ainda quer me matar?

Ele, então, deu um salto sobre mim, quase me jogando no chão:

_Eu não quero te matar! Você me completa! – disse ele lentamente ao pé do meu ouvido, fazendo-me liberar um pequeno suspiro.

_Ah é? E por que eu te completo? – falei, olhando bem no fundo dos seus olhos que já não me eram tão amedrontadores quanto antes.

_E eu vou saber? Pense o que você quiser! – ele realmente não era bom para expressar o que estava sentindo.

_Então... O que você gostaria que eu pensasse?

_Qualquer coisa. O que você pensa não me importa.

_Assim você me confunde!

_Pois é, eu gosto de deixar as pessoas confusas. E vai ser divertido te confundir. Eu só estou com medo de... De acabar confundindo a mim mesmo com essa história toda. Sabe, você é perigosa! Você é diferente... E eu acho que isso de certa forma me assusta!

_Bom... Você acha que eu seria capaz de te deixar ainda mais confuso? Ainda mais do que você já está? Improvável! Impossível!

_Que nada... – disse ele, maliciosamente, com a boca bem próxima da minha – A confusão e a loucura só tendem a aumentar quando se trata de alguém como eu. Sempre tem como ficar pior! E você sabe de outra coisa que só aumenta? Aquele treco estranho que chamam de amor!

Eu não sei por que, mas corei. Eu, então, falei algo:

_Eu suponho que você não saiba o que seja o amor, correto?

_Não me interessa saber – disse ele, com o olhar inexpressivo, dando de ombros – Eu acho que o amor foi só uma coisa boba que a humanidade inventou para atrasar a vida das pessoas. Essa foi mais uma invenção que não deu certo, eu creio.

_Se você está dizendo isso, eu penso que você provavelmente já teve alguma desilusão amorosa, certo?

_Por que tanto interesse na minha vida, hein? – disse ele, ríspido – Eu sou tão interessante assim, garota?

_Você é estranho, cara! – falei, sem medo – Às vezes você parece um cara legal e de repente você age com grosseria! Você é bipolar?

_Talvez sim, talvez não! Na minha vida não existem palavras como sim ou não! Eu estou sempre no talvez! Felizmente e infelizmente...

_Viver na incerteza o tempo todo deve ser perturbador – falei quase que instantaneamente.

_Sim, mas algumas pessoas dizem ter certeza de tudo e estão ainda mais perdidas do que eu!

Mais uma verdade incontestável. Como ele pode ser tão inteligente assim? Será que ele era algum tipo de gênio insano?

_Como você sabe de tanta coisa assim da natureza humana? – perguntei não sabendo por que temia tanto o que ele pudesse responder.

_Eu não sei de nada! Eu nem sei mesmo o que eu estou fazendo aqui, conversando com alguém que eu já deveria ter matado há muito tempo!

_Eu sinceramente também não sei! Provavelmente toda essa sua conversação é só um joguinho bobo de psicopata pra minha morte ser bem mais lenta e prazerosa para você, eu acertei?

_Eu sinto muito, minha senhorita sabe tudo, mas agora você está errada! Eu já desisti de te matar! É melhor eu fazer outra vítima, sabe? Você eu não quero matar. Você é diferente. O mundo precisa de gente como você! Você está na vanguarda, assim como eu!

_Hum... Na vanguarda? E o que uma pessoa, em sua concepção, precisa exatamente ter para estar na vanguarda?

_Inteligência emocional! – disse ele, com muita convicção – Veja só, você soube controlar as suas emoções mesmo estando à beira da morte! Você não chorou ou armou um escarcéu, gritando feito uma doida! O modo como você subjugava o seu medo... Aquilo foi impressionante! E quando você pôde me entender em determinados pontos sem nem mesmo ter um diploma em psicologia? Isso também é inteligência emocional! E eu também tenho muito disso. Eu sei controlar as minhas emoções como ninguém, sabe? Eu sou um especialista em escondê-las e fazê-las reaparecer quando isso me convém. E entender as emoções alheias? Eu sou um especialista nisso! Tanto que eu não só entendo as emoções das pessoas como também as manipulo com maestria! Afinal nós só manipulamos os sentimentos dos outros quando os conhecemos! Você não concorda comigo, minha cara garota que eu não sei o nome?

_Eu concordo sim. E o meu nome é Alícia.

_Alícia, hum, eu me lembro desse nome de algum lugar!

_Talvez esse tenha sido o nome da sua mãe, da sua irmã, de uma amiga, de uma garota que você detestava ou de uma que você... Amava...

_Amar? – disse ele, zombando do que eu havia acabado de dizer – Olhe bem para mim, Alícia! Você acha mesmo que alguém como eu é capaz de amar uma pessoa?

_PER-FEI-TA-MEN-TE! – falei bem séria – 100% das pessoas amam!

_Hum, eu acho que você está desconsiderando os psicopatas nessa sua estatística furada!

_Você não é um psicopata! – falei ainda mais séria – Veja só, você disse anteriormente que sabia controlar as suas emoções e que as escondia e as fazia reaparecer caso lhe conviesse. EMOÇÕES! Se você sabe controlar as suas emoções, eu suponho que você as tenha! E um psicopata, pelos meus parcos conhecimentos de psicologia, NÃO tem emoções! Eles são apenas movidos pela razão! E esse não é o seu caso!

_E se eu tiver dito aquilo só pra te confundir?

_E se a única pessoa que você estiver confundindo com toda essa história for você mesmo?

_Que droga! Você tem razão! – disse ele, batendo na sua testa – Quanto mais eu tento te confundir, mais você me confunde! Que tipo de poder sobrenatural você tem, afinal, garota?

_Nenhum – falei, dando uma risada – Você que é um tonto mesmo!

Ele, então, voou em cima de mim e me apontou a faca novamente:

_Eu posso mudar de ideia a respeito de te matar!

Eu, assim, joguei o jogo dele:

_Por que tão sério? Vamos botar um sorriso nessa cara!

Ele me largou e disse furioso:

_Mas que... – ele quase disse um palavrão – Você ainda me dribla com os meus próprios bordões! Que tipo de garota você é?

_Aquele tipo de garota que você deve temer! – falei, fazendo uma careta engraçada.

_E por que você acha que eu devo temê-la? – disse ele, aproximando-se vagarosamente do meu rosto até que eu pudesse sentir a respiração dele. Ele me trazia uma sensação estranha, mas boa.

_Porque eu soo como um desafio para você!

_Eu gosto de desafios, Alícia! – disse ele, maliciosamente, enquanto colocava a sua mão em torno da minha cintura.

_Então eu tenho a mais absoluta das certezas de que você vai gostar de mim! – falei com um sorriso tentador, quando de repente não resisti e fiz uma coisa muito doida: Eu o beijei! Ele correspondeu ao beijo, passando as suas mãos ásperas pelo meu rosto, pelo meu cabelo e pela minha nuca. Eu deslizava as minhas mãos pelas suas costas, apertando-o contra o meu corpo. O beijo foi profundo e instigante. Uma pura loucura que durou uns dois minutos. Os melhores dois minutos da minha vida.

Quando aquele momento estranhamente maravilhoso terminou, olhei nos olhos dele e pensei: eu beijei um assassino, eu beijei um assassino, eu beijei um assassino! O que foi que eu fiz?

_Você parece nervosa... – disse ele, olhando-me com aqueles profundos olhos maus – São as cicatrizes?

Eu sorri. Mas eu sorri de nervoso. Eu estava de mãos atadas. O que eu poderia dizer? Que... Que aquele beijo não havia significado nada? NÃO. Eu estaria mentindo... E mentindo muito feio!

_É... Desculpa; eu... – falei, com um nervosismo indisfarçável.

_Você não precisa pedir desculpas! – disse ele, incrédulo com a minha insegurança – Por acaso você está arrependida de ter beijado... Uma aberração como eu?

_Não... Mas eu... Mas eu...

_Eu pensei que você fosse mais segura de si! Pelo jeito eu estava errado, certo?

_Acontece que eu nunca... Eu nunca beijei um assassino!

_Tudo tem a sua primeira vez, você não acha? – disse ele, rindo – E eu acho que você gostou! Bom, eu não sei direito, afinal... A última vez que eu beijei alguém foi há um tempão... E eu nem me lembro disso mais... Mas vem cá... Eu devo ter uns dez anos há mais do que você. Você não acha que eu já estou velho demais pra você?

_Sabe... Eu sempre gostei de homens mais velhos! – falei, meio sem graça – Mas eu acho que nunca tive atração por criminosos!

_E eu nunca tive atração por moças desafiadoras como você!

_Tudo tem a sua primeira vez, certo? – disse, usando a mesma frase que ele tinha usado.

_Eu odeio quando você plagia as minhas frases! – disse ele, tentando parecer raivoso.

_E eu odiei quando você me encurralou nesse beco escuro, então nós estamos quites! – falei, sorrindo – Agora eu posso ir embora? Eu tenho que dar comida pro Coringa!

Ele pareceu não entender.

_O meu cachorro, seu tonto! – falei.

_Ah sim! Mas você promete que vai voltar amanhã à noite? – disse ele, segurando o meu braço com força – Você volta?

_Eu não sei... Eu tenho medo...

_Você vai ter que confiar em mim! – disse ele, com um olhar de predador. Ele me dava arrepios!

_Tudo bem – falei, sorrindo levemente – Eu confio em você.

Ele, então, finalmente soltou o meu braço.

_Ótimo, aqui está o meu cartão – disse ele, enquanto me entregava uma carta de baralho. A carta do Coringa – Boa sorte!

Eu, assim, saí do beco escuro, sã e salva e entrei na minha casa. O meu cachorro fez a maior festa pra mim, mas eu nem lhe dei atenção. Eu só conseguia pensar naquele criminoso que... Que me beijou!

Eu passei a minha mão pela carta que ele me deu enquanto eu me lembrava daquele momento caloroso. Aquela lembrança com certeza mexeu muito comigo. Eu pensei se realmente iria ao beco escuro novamente. Será que eu poderia mesmo confiar no Coringa?

Tanto faz. Eu dei a minha palavra. Eu teria que ir, senão a minha consciência jamais me deixaria em paz.

E o meu coração também não.

Jamais!

Notas finais
Aeeeeeeeeeeh, eles finalmente se beijaram XD. O que você está achando do casal? Opine por favor nos comentários! E se você estiver gostando, favorite a história também!