Que Seja Infinito Enquanto Dure
2 A Piada da Galinha
Notas iniciais
Sim, o azar me escolheu. Eu realmente não tinha a mínima sorte.
Eu estava voltando do trabalho às 23 horas. Eu deveria ter saído bem mais cedo, mas fiquei fazendo hora extra porque o meu orçamento não estava lá dos melhores e eu teria que fazer uma forcinha se não quisesse adquirir dívidas. Como o meu carro estava no conserto, tive que ir para casa a pé. Gotham City poderia até ser um lugar incrível, mas à noite parecia amedrontador. E o pior de tudo... Para chegar em casa eu tinha que... Passar num beco escuro! Ah não... Essa não...
Tudo bem, Alícia – pensei – Essa história de que há bandidos ou fantasmas em becos escuros é só um clichê. O caminho é curto. É só andar um pouco e pronto, eu estou livre do maldito beco escuro!
Mas... O clichê se aplicou à minha situação. Eu fui puxada com força por um homem. Contudo, não um homem qualquer. Quem mais poderia ser? Eu preciso mesmo fazer algum suspense? Sim, foi o Coringa.
Ele me agarrou e apontou uma faca para o meu rosto. O meu coração já quase saía pela boca àquele ponto. Eu não queria morrer, eu não queria morrer, eu não queria morrer!
_Então... – disse ele, com a sua voz medonha – Você quer saber como eu consegui essas cicatrizes?
Ele ainda por cima iria me contar a sua história antes de me matar... Como ele me dava nervoso! E o pior de tudo era aquela língua dele que ficava de fora enquanto ele falava, como um tique que ele tinha. Aquilo me deixava ainda mais amedrontada.
Ótimo, aqueles eram os meus últimos minutos de vida, portanto eu gostaria de vivê-los corajosamente. Eu não desviei o olhar daqueles olhos castanhos que me observavam como uma presa.
Eu seria corajosa.
_Tudo bem... Diga-me então como você conseguiu essas cicatrizes!
_Como assim? Você não está com medo?
_Não, nem um pouco – eu falei com a voz firme, no entanto eu sabia muito bem que estava mentindo – Conte-me, então, a sua história!
_Bom, eu tinha um pai... E ele bebia muito além da conta. Um dia ele chegou mais doido do que o normal. Ele, assim, perguntou-me porque eu estava tão sério e disse que botaria um sorriso na minha cara. Ele passou uma navalha na minha boca e fez isto aqui – disse ele, apontando para as suas cicatrizes – Eu odiava o meu pai!
_Eu não entendo – falei, com segurança – Eu ouvi dizer que a origem das suas cicatrizes era outra! Eu li num lugar que você tinha uma esposa e que ela se envolvia com agiotas. Os agiotas, então, desfiguraram o rosto dela. Ela vivia preocupada achando que você não a amaria mais por causa das cicatrizes no rosto dela. Daí você desfigurou o próprio rosto para mostrar a ela que você não ligava para as cicatrizes. E... Ela... Ela não aguentou mais te ver... Não foi isso? Por acaso você tem mais de uma versão para a história das suas cicatrizes? Você inventa porque não quer que saibam a história verdadeira ou porque você se confunde na sua loucura e não sabe como realmente conseguiu essas cicatrizes?
_Hum, eu não sei... – disse ele, parecendo mesmo estar confuso – Você entende as minhas histórias como você quiser, está bem? Agora, me diga, porque você está tão séria? Vamos botar um sorriso nessa sua cara!
_Eu não preciso que você me faça sorrir – disse, abrindo um enorme sorriso – Porque eu já estou sorrindo!
_Hum, você se julga muito esperta, correto? Todavia a sua brilhante esperteza não vai te livrar do que eu vou fazer com você!
_Então faça logo! O que você está esperando? – Eu nem acreditei que tinha dito isso. Eu estava mesmo enfrentando o psicopata mais temido da cidade! E o meu medo... Ele parecia estar diminuindo ao invés de aumentar!
_Você tem razão... – disse ele, encostando levemente a faca nos meus lábios – Mas... Algo me impede de fazer isso...
_Como assim algo te impede? – eu parecia estar com raiva por não ter sido esfaqueada – Faça logo! Você não é homem?
_Escuta aqui mocinha! – disse ele, encurralando-me na parede e apertando o meu pescoço – Baixe o tom comigo, eu não sou o seu cachorro!
_Hum... – disse sorrindo cinicamente – Tecnicamente você é sim! Você sabia que eu tenho um cão com o seu nome?
_Com o meu nome? – ele parecia realmente surpreso – Mas todo o mundo repudia o meu nome nessa droga de cidade! Como, então, você coloca o meu nome no seu cachorro? A não ser, é claro, que você odeie o seu cachorro!
_Não... – falei, ainda sem desviar o olhar – Eu amo o meu cachorro! E o seu nome até que é bem criativo! E mais... Eu não tenho medo de você, meu caro!
_O quê? Alguém que não tem medo de mim? Mas isso é mesmo uma novidade! Deixa de bancar a audaciosa... Todo o mundo tem medo de mim!
_Bom... Eu ouvi dizer que certo homem que se veste de morcego não tem medo de você!
_O Batsy? – disse ele, gargalhando freneticamente – Eu sou a maior pedra na bota dele! Eu sou capaz de confundir aquela mente pequena de morcego com apenas algumas palavras! Ele pode até não ter medo necessariamente de mim... No entanto ele tem muito medo da chance que eu tenho de torná-lo... Insano! Ele me teme, eu sei muito bem disso!
_E você é só um palhaço narcisista. Eu duvido que o tal do Batman tenha medo de você! – disse, dando uma risada baixa.
_O modo como você me enfrenta... Eu acho isso engraçado... Você é uma piada, garota!
_Uma piada boa ou ruim? – disse, com um sorriso malicioso.
_Eu sinceramente não sei. E olha que eu sou um especialista nisso! E falando em piadas... Você sabe por que a galinha entrou no beco escuro? – ele estava falando de mim – Para ser esfaqueada por mim!
Eu apenas fechei a cara e disse:
_Em primeiro lugar: Eu não sou uma galinha. Em segundo lugar: Se você julga que eu estou aqui apenas para ser esfaqueada por você, porque não faz isso de uma vez ao invés de ficar fazendo esses seus discursos estúpidos? Você está brincando comigo, é isso? Pois é, eu ouvi dizer uma vez que os psicopatas gostam de brincar com as suas vítimas. Então encurta um pouco essa brincadeira e me mata de uma vez!
_Ora essa! – disse ele, incrédulo – Eu te contei uma piada tão legal sobre uma galinha... Ao invés de ficar reclamando você deveria rir como uma boa menina! Mas tudo bem... Esquece isso! Talvez você esteja querendo saber a razão pela qual eu ainda não te matei... Hum... Eu posso explicar! Eu não disse agora a pouco que você era uma piada? Pois veja só! Eu jamais mataria uma piada! Isso seria como matar a diversão!
Matar a diversão... Essa foi boa... Ele realmente me surpreendia com aquele papo de doido... Quem era você, Coringa? Quem?
Fale com o autor