Que Droga, Cas!
11 Morte
Notas iniciais
Dean fora arrancado de seu pesadelo por Castiel, que o sacudia levemente e chamava seu nome.
— Cas? — Dean ainda meio desnorteado, focaliza seu olhar nos dois pontos azuis a sua frente, que mesmo na penumbra que o quarto se encontrava, pareciam brilhar. Ao ver que tudo em volta estava normal, sentiu um alivio incomensurável e envolveu Castiel num abraço apertado. Até ouvir gemidos de desconforto vindo do anjo.
— O que aconteceu? Pesadelo? — Dean havia ensinado a Castiel que os humanos, às vezes, tinham sonhos horríveis onde seus maiores medos se encontravam e faziam uma boa noite de sono virar um inferno dentro de sua própria cabeça.
— Um dos piores que já tive... — Dean percebeu que sua camisa estava encharcada de suor gelado. Tateou a procura do interruptor do abajur e acendeu a luz. Sua camisa azul clara tinha dois tons de azul agora. O azul forte predominava. Tirou a camisa e a jogou no canto do quarto.
— Que medo tentou te assustar agora? — Dean relutou um pouco em contar o pesadelo ao anjo. Já fazia 3 anos que eles moravam juntos, mas, aquilo era algo mais pessoal. Não queria que Castiel soubesse que seu maior medo era perdê-lo novamente. Embora todos soubessem disso.
— Eu sonhei... Com você sendo amarrado por um anjo chamado Naomi, onde ela te trancou num quarto de motel barato e te torturava. Mas por sorte eu consegui chegar a tempo, o que não faz o menor sentido, pois o sonho inteiro eu estava vendo do alto, e eu me vi entrar pela porta e tudo mais... Enfim, depois que eu e ela discutimos, ela te apunhalou com a Faca dos Anjos e eu tive que ver você morrer nos meus braços... — Agora o sonho parecia menos real, pois ele estava deitado ao lado de Castiel. Em sua cama. Na sua casa. Muito longe de qualquer motel barato. Mas ainda sim o assustava lembrar-se dos olhos azuis perdendo o brilho.
— Isso não faz muito sentido. Não há nenhum anjo no Céu com esse nome.
— Você devia ser mais sensível sabia? Um ‘’vem cá, já passou. ’’ estaria ótimo!
— Posso tentar agora?
— Nah, o memento já passou. — Dean riu de forma engraçada, pois sua voz ainda tinha notas de sonolência. — Vamos voltar a dormir? Amanhã é um dia puxadão. — Dean virou para o lado e tentou adormecer de novo. Mesmo tendo um pouco de receio de aquele sonho voltar a perturba-lo.
— Caso você sonhe com aquilo de novo. — Castiel o envolveu com os braços e passou sua perna por cima da de Dean.
— Isso é ser sensível! — os dois riram e voltaram a dormir. Bem, Dean voltara a dormir. Castiel apenas ficava viajando em lembranças como fazia toda noite quando acompanhava Dean na cama. E muitas dessas lembranças eram sobre Dean.
Lembrava-se de um de seus superiores mandando-o ir até o inferno e resgatar a alma de um humano. Pois segundo eles, havia grandes planos para essa alma. Lembrava-se da primeira vez que tentara falar com Dean. Um erro bem dolorido aos ouvidos do loiro.
A primeira vez que conseguira falar com ele sem arrancar sangue de seus ouvidos.
Lembrou-se também da primeira vez que eles agiram como uma família. Dean não parava de repetir que ele, Sam e Castiel eram uma família. No começo Castiel não gostava tanto da ideia, mas ao passar do tempo viu que de fato eles eram uma nova família para ele. Uma família de verdade.
Não pôde se esquecer da vez em que trabalhara com Crowley. Dean havia se magoado tanto ao ver que ele estava mentindo. E nessa mesma vez, Castiel quase morrera ao tentar ser um novo Deus. E graças a ele, leviatãs saíram por ai, andando livremente. Embora Castiel se sentisse culpado por tudo isso, Dean sempre falava que não fora culpa dele. Que ele não fez de proposito. Que ele só estava querendo ajudar. E muitas vezes Castiel duvidava se ele merecia perdão por tudo aquilo.
Essas e outras lembranças que inundavam a cabeça do anjo. Que muitas vezes desejava poder apenas dormir como o humano ao seu lado. Embora soubesse que iria ser perturbado por essas lembranças do mesmo jeito.
Dean acordou e foi ao banheiro. Depois de resolver tudo o que tinha pra resolver lá dentro, vestiu-se com a roupa do trabalho e ajudou Castiel a vestir sua gravata. Há quase um ano no trabalho e ainda não sabia colocar a gravata sozinho.
— Pronto? — Disse Dean contemplando Cas com seu smoking preto, cabelo penteado para o lado e sapato lustrado. O restaurante onde trabalham haviam os ‘‘emprestado*’’ para um evento privado, para a festa de ‘’ Uma das Pessoas Mais Importantes de Fairfield’’. Grande merda, pensava Dean sobre tudo isso. Mas o dinheiro que ganhariam daria para pagar o conserto do Impala, que tinha seu estofamento corroído pelo tempo e ainda sobraria para ele comprar umas roupas novas para os dois. Eles estavam precisando!
— Creio que sim.
— Ainda sente falta do sobretudo?
— Claro. Dividimos muitas coisas juntos...
— Assim eu fico com ciúmes. Vem, vamos. Estamos em cima da hora.
Chegaram para o evento de imensa importância. Uma mega festa promovida pelo ex-prefeito de lá. Aparentemente o cara que deu um tapa na cidade e todo mundo o adorava por isso.
O lugar ocupava um quarteirão inteiro. Havia uma espécie de restaurante no lado esquerdo, que tinha capacidade para 600 mesas. Cada qual cabia até quatro pessoas. Do lado direito tinha uma espécie de quadra fechada onde haviam baladas, para o povo mais jovem. O resto do lugar era ocupado por um imenso jardim. E no meio dele estava uma piscina retangular, que Dean apostava que dava pra fazer uma competição olímpica ali. E envolta dessa piscina haviam bancos parecidos com os das praças publicas, porem brancos e sem pedaços faltando.
Seria um lugar ótimo para um final de semana, mas só de pensar que se você estiver na piscina e resolver pegar algo para comer, é provável que você morra de fome no meio do caminho. A menos que você possa ir até lá de carrinho de golfe.
Enquanto Dean passava pelos arredores do local, Castiel fazia o possível para servir os 1000 convidados da festa. Mas que prefeito popular é esse? Pensou Dean. Mas Castiel não estava sozinho nessa, junto com o pessoal do restaurante, foram contratados mais 300 garçons para servir toda essa gentarada medita a besta.
E não só bastava ter 1000 pessoas comemorando 15 que o prefeito saiu do cargo, como também era aniversario de casamento de sua filha. Tudo para infernizar a vida do pobre Winchester. Pessoas bêbadas, mulheres nervosas, caras metidos a brigões... Tudo isso era ele que devia impedir de arruinar a festa.
Castiel não se encontrava melhor. ‘’O frango está um pouquinho cru no meio’’, ‘’ o frango está muito passado’’, ‘’ eu não pedi frango’’... Se pelo menos ele pudesse estalar os dedos e calar a boca de todo mundo... Ou abrir seu par de asas e matar todo mundo de susto. Mas como ele aprendera de seu chefe no restaurante: O cliente sempre tem razão. Não importe o que seja, sorria e obedeça.
E nesses ‘’sorria e obedeça’’ ou ‘’ não me faça ter que expulsar o senhor’’ o dia se arrastou até dar cinco e meia e eles serem dispensados. Fim da festa? Não! Entrada do outro turno! E Dean ainda queria dobrar seu expediente...
— Finalmente em casa! — disse Castiel abrindo a porta — Acho que vou ter pesadelos com essa Sra. Furler.
— Pior que o meu pesadel... — Não chegou a terminar a frase. Pois sentada à sua mesa havia uma figura usando um terno preto e uma bengala encostada na cadeira ao lado. Estava se servindo de hambúrguer, fritas meio murchas e um copo de refri. Dean sabia quem era muito bem.
— Já não estava sem tempo. Estou aqui há quase uma hora. — disse Morte com seu sotaque um tanto peculiar. Com uma expressão de tédio, continuou. — Você deve estar se perguntando por que estou aqui correto? Então sentem-se que explicarei tudo.
Dean foi em direção à outra cadeira com Castiel em seu encalço. Sabia que se Morte estava na sua casa te esperando por quase uma hora, o assunto devia ser sério.
Mais sério que a ultima vez que ele o viu?
Na primeira, apenas tentou mata-lo e pegar seu anel para trancar seu irmão na jaula com lúcifer dentro dele. Na segunda foi para reverter à primeira. Morte salvaria a alma de Sam com a condição de Dean ser Ele por um dia inteiro. Tarefa que não conseguiu cumprir, mas Morte acabou concedendo o pedido mesmo assim, mas sem poupar o discurso sobre a Ordem Natural das Coisas. E trouxe de volta a alma toda ferrada de Sam da jaula e de brinde fez um muro. Para barrar as doces lembranças de Miguel e Lúcifer brincando de Cabo de Guerra com a sua alma.
Na terceira vez para tentar impedir Castiel de se tornar aquele protótipo de Deus, eles tentaram amarrar a Morte para convencerem-na de matar Castiel e poupar as pessoas de uma ira tremenda do novo Deus de sobretudo. Mas o lance do Castiel e tudo aquilo, pra Dean foi um golpe do estomago. Mesmo naquela época ele ainda ter suas duvidas sobre o que sentia em relação à Castiel, não queria matar a pessoa que te salvou do inferno e te ajudou a salvar o mundo do apocalipse. Mas era preciso. Castiel havia saído do controle e matava dezenas de pessoas por ai. Mas Morte advertiu que se tentassem prende-la de novo, morreriam antes mesmo de começarem. Dean quase deu um Graças a Deus por não terem tentado de novo.
— Então... — Dean pigarreou de nervosismo — o que tem de importante para nos contar?
— Pensei que ficariam mais animados em saber como o anjo saiu do Purgatório. — A tensão e nervosismo que havia ali se tornou algo menos medroso e mais curioso. Mas ainda com resquícios de medo.
— Você sabe quem me tirou de lá? — Castiel esboçou entusiasmo súbito.
— Não só sei quem, como o porquê também. — Castiel inconscientemente segurou na mão de Dean. Ele fazia isso toda vez que iam ver algum filme de terror no cinema.
Silencio absoluto. Que era quebrado apenas pelo barulho de sucção do canudo onde Morte bebia o resto de seu refrigerante.
— Vamos Dean, não é nossa primeira conversa. — Morte largou sua comida e voltou à atenção por completa nos dois. O que só fez Dean gelar mais ainda.
— Bem... Você disse que sabe quem tirou ele do Purgatório não foi? —Morte concordou com uma aceno — então quem foi?
— Vocês não fazem ideia não é mesmo? — os dois se entreolharam e balançaram a cabeça em negativa. — Deus, é claro.
— Deus? Deus, Deus? — agora era nítida a expressão de incredulidade nos rostos dos dois.
— Deus, sim.
— E você vem nos dizer isso só depois de quase quatro anos?
— Eu tenho mais o que fazer do que ficar mandando recadinho de um cara já ceifado.
— Deus... Está morto mesmo? — Castiel não parecia acreditar no que ouviu. A criatura que ‘cresceu’ ouvindo ser imortal e onipotente, havia sido ceifada como um humano qualquer? Seu Pai havia morrido? E Castiel não teve a chance de vê-lo nem uma vez sequer.
— Sinto muito Castiel, mas seu Pai está morto, de fato.
— E pra onde ele foi? Num Céu de Deuses? — esse era Dean.
— Já parou para pensar de onde veio Deus? E se de fato ele é o único de sua espécie? Há muitos mistérios além daqui, que faria qualquer humano enlouquecer.
Havia muitas duvidas a serem respondidas aos dois. Eles não iriam engolir essa historia sem fazer um bocado de perguntas.
— Mas se ele morreu, como pode ter me salvado?
— Considere isso como um desejo de testamento.
— Deus antes de morrer, queria que eu fosse salvo?
— Isso, e outras coisas. Mas sim Castiel, você está aqui graças a Ele.
Dean sentia sua cabeça rodar. Deus havia salvado Castiel como seu ultimo pedido de morte. Depois puf e lá se foi Deus. Mas, quem assumirá lá em cima? Não pode deixar tudo nas mãos de anjos. Vira uma verdadeira baderna celestial!
— Mas se Deus fora ceifado, quem assume o trono de luz ou sei lá onde Deus se sentava?
— Como eu disse, tem muitos mistérios que vocês não intendem. E entende-los cobrariam sua sanidade mental. Mas como estou gostando de nossa conversinha, posso dar umas pistas de como é o lado de lá. — ‘’Mau sinal. Mau sinal! Mau sinal!!!’’ Pensou Dean apertando a mão de Castiel.
Morte antes de continuar sua pequena fabula, acenou com a mão e o copo vazio de refri se foi levando junto às outras embalagens.
— Vocês pensam que Deus fora único desde os primórdios do tempo até aqui, correto? — Os dois acenaram ‘’sim’’.
— Pois ai que vocês se enganam. Houve dois outros Deuses no comando. O primeiro fora responsável pela criação da Terra, animais e o homens, e inclusive a você Castiel. Mas como já era velho, teve que... ‘’renunciar o cargo’’ e passou o poder adiante. Dúvidas antes que eu prossiga?
— Por que ele renunciaria o cargo de Deus? — Dean indagou.
— Pois ele já havia cumprido seu papel em outro lugar. Como disse a você no nosso primeiro encontro, esse planeta é jovem, num sistema solar jovem, numa galáxia que acabou de sair das fraudas. A Terra é considerada um bebê. — disse tudo isso sem alterar seu tom de voz. Que como de costume, era assustador. — Continuando. Antes de o primeiro sair do cargo, viu que o mundo cheirava a pecado. Então Ele pediu para que eu ceifasse o planeta inteiro, com aquele diluvio. Salvando apenas Noé e sua família. Desde ai, o segundo Deus entrou e fora o mesmo por milhares de anos. Até a alguns anos atrás. E agora um novo Deus assumirá o comando por sabe-se lá quanto tempo.
Agora a cabeça que girava era a de Castiel.
Então quer dizer que meu verdadeiro Pai já se fora muito temo antes?
— Mas se meu Pai fora ceifado muito tempo atrás, por que o novo Deus quis minha salvação? Não faz sentido.
— O seu futuro já estava escrito há muito tempo Castiel. Não só o seu, como o de Dean, Sam e dos muitos outros. Inclusive o apocalipse que vocês enfrentaram.
— Então Deus sabia do apocalipse e não fez nada? Nem uma ajudinha?
— Pense Dean, antes do primeiro ‘’renunciar o cargo’’, sua força não estava completa, o que fez o mundo se afundar em pecado. A fraqueza de Deus gera catástrofes. Antes do ultimo sair, Lúcifer tentou se libertar. Cada vez que um Deus se torna fraco, coisas horríveis têm de acontecer.
A cabeça do anjo continuava a rodar.
Essa pequena conversa com o Cavaleiro, fez que sua ideologia de uma vida inteira fosse por agua abaixo. Tudo que creu até ali, fora baseado em mentiras e omissões. Como poderia haver outros deuses? Ninguém nunca ouviu falar nem sequer na ideia?
Mesmo poucos anjos terem visto Deus pessoalmente, a ideia original era que havia apenas um por toda uma eternidade.
Repassando sua vida nos segundos que a conversa tinha se silenciado, lembrou-se de uma vez em que presenciou o ato da ‘criação’. Não junto de Deus, mas ainda sim vira um peixe sair da agua e caminhar terra adentro.
— Eu sei Castiel, é um chute no estomago. Agora imagina isso se tornar publico? Se todos os anjos souberem? O Céu entraria em colapso.
— Se o segredo é tão importante assim, por que está me contando então?
— Parte do acordo. Deus confiava muito em você Castiel. Ele achou que você seria digno de saber a verdade. — ‘’de qual Deus você está falando?’’ Pensou Castiel. — Se vocês olharem através do tempo, vocês irão ver que muitos ideais mudaram. Isso por que o Deus mudou. A ideia do diluvio? O primeiro. Mandar um salvador ao invés de matar todo mundo de novo? Segundo. Está tudo ai, basta você olhar.
Outro momento de silencio perturbador. O cérebro de Dean tentava a todo custo entender as palavras que foram captadas por seus ouvidos. Como assim Deus não era o único Deus? E quem assumira agora? E se esse novo Deus quisesse a cabeça de todo mundo numa bandeja?
— Antes de ir, tenho um ultimo recado de Deus para você Castiel. — Castiel acordou de seu transe e passou a prestar atenção nas palavras do Cavaleiro a sua frente. — Deus tem uma oferta para você. Como você sabe, você é um anjo. O que significa que você é imortal. Por isso, Deus vendo que você teria uma vida inteira ao lado de Dean, quis que eu te ceifasse. Bem, apenas a sua imortalidade. Caso contrário, você verá Dean envelhecer e morrer enquanto você permanecerá nessa casca para sempre. Você apenas perdera parte de sua graça, a parte da imortalidade e o que significa também que você perderá os poderes de cura. Você será apenas um humano normal ao lado dele. — a parte do cérebro de Castiel que ainda estava prestando atenção no mundo real, se foi por completo. Não estava mais escutando nada além da frase ‘’ Eu irei te ceifar... Você perdera parte de sua graça... ser um humano’’.
— Isso não é algum plano para mata-lo né?
— A vida de um anjo não me interessa em nada. Só estou aqui porque Deus me mandou. Um ultimo favor a ele. — Morte parecia muito bem com aquilo que estava acontecendo. Nada o fazia alterar sua voz ou comportamento. Ate parecia que aquele papo o entediava. — Bem, quando seu... Quando Castiel acordar de seu transe profundo, diga a ele que amanhã eu voltarei na mesma hora. E espero que ele tenha uma resposta. — Então o Cavaleiro se levantou e caminhou em direção da porta como se conhecesse a casa há anos. E Dean foi tentar tirar seu namorado de seus próprios devaneios.
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