Quatro caras e Alex
7 Quatro caras, Alex, um bebê e a apresentação
Notas iniciais
Ela estava tão animada. Não ligava que não pregava os olhos há quase vinte e quatro horas, passando as últimas usando um uniforme minúsculo e levando baforadas de charuto em seu cabelo recém-lavado, e muito menos para seus calcanhares latejantes devido aos saltos altos. Não, nada daquilo importava — ela só queria chegar em casa e contar a todos que finalmente recebera sua chance, e, claro, logo em seguida obrigá-los a irem assisti-la mais tarde.
Enquanto girava a maçaneta da porta da frente, Alex batia os pés no tapete de boas vindas (que ela nunca entendera porque diabos era escrito em Espanhol), lembrando-se de como Carter ficava furioso quando via as marcas de solas de sapatos pelo piso claro da casa. Assim que abriu a porta, foi surpreendida por um Will que mais parecia estar fugindo da policia.
— Eu não entraria ai. — ele disse, apontando para o interior da casa enquanto praticamente empurrava Alex para o lado, liberando seu caminho.
— Bom dia para você também. — retrucou, sendo ignorada. Ela só percebeu algo desesperador quando Will rapidamente alcançou a garagem: ele estava com pressa para ir trabalhar. Meu Deus, algo estava muito errado. — Ei, por que eu não deveria entrar?
Sem resposta. Em poucos segundos, Will estava arrancando com seu carro estilo Walter White da garagem — espera, aquele era mesmo o carro dele? Algo estava bem errado. Cautelosamente, ela abriu a porta da frente, torcendo para não ser atingida por uma bala perdida ou nada do tipo.
— Espera, você não pode fazer isso! — implorava Rayan, correndo pela casa atrás de uma loira que, provavelmente, era com quem ele estava dormindo naquela semana.
Aquilo no colo dele era uma criança?! O que as suas almofadas coloridas estavam fazendo espalhadas pelo chão?! Por que parecia que o Apocalipse tinha começado pelo sobrado 401?!
— Será só durante o dia, bebê. Eu tenho um compromisso muito importante no trabalho. — ela respondia, com uma voz fina e manhosa, enquanto atropelava Alex para deixar a casa.
— E eu tenho um teste! — exclamou, mas já era tarde demais: a loira já estava bem longe dali. — Auprey!
Aceitando sua derrota, Rayan bufou e se jogou no sofá, recebendo um resmungo da criança, que deveria ter, no máximo, um ano de idade. Alex o encarou fixamente durante longos segundos, até que ele notasse sua presença e começasse a se explicar.
— Alex! — ele exclamou a assustando, assim que notou a sua presença. — Eu preciso da sua ajuda.
Ela sabia o que estava por vir. Começou a caminhar para trás, na defensiva.
— Não! Nem pense nisso. — dizia, enquanto Rayan caminhava na sua direção com aquela criança cheia de dedos. — Eu nem sei cuidar de crianças. Elas me assustam.
— Você teve várias mães, consegue fazer isso. — ele disse, lançando mão de um desesperado golpe baixo. — Eu acredito no seu potencial!
— Eu não! — de algum modo, sua bolsa havia ido parar no chão e suas mãos estavam perigosamente livres. — E a mãe da criança, onde fica nessa história?
— Cara, ela é incrível. — respondeu, com um sorriso safado. Recebeu, como resposta, um leve tapa de Alex no braço, que se esforçou para não acertar a criança. — Ah, sim. Ela é mãe solteira e não tem com quem deixar o Danny hoje, já que a babá dele ficou doente, caiu de uma escada ou eu sei lá.
Danny. Era um menino, então. Olhando melhor para seus cachinhos loiros e seus grandes olhos de oliva, ela podia até considerá-lo fofo.
— Alex, por favor, esse teste é muito importante para mim. É para um comercial, cara!
Ela encarou sua expressão de cachorro abandonado na rodovia, praguejando a si mesma por ser uma manteiga ambulante.
— Esta bem. — disse, dando-se por vencida. — Mas, se você me fizer passar por isso à toa eu não vir esses seus olhinhos puxados na televisão, Sr. Parker, nós teremos um problema.
— Obrigado, você é a melhor inquilina de todas! — a abraçou fortemente, quase esmagando a criança. — Agora relaxa, vai dar tudo certo. — ele afirmou, passando a criança para os braços de Alex, que a recebeu da forma mais desajeitada possível.
— Eu espero que sim. — disse, realmente desejando que aquilo fosse verdade.
***
Tudo estava dando errado. Enquanto tentava simultaneamente fazer com que Danny parasse de chorar, arrumar a casa e não queimar o leite da mamadeira de novo — e, por consequência, sua mão — ela amaldiçoava mentalmente Rayan por tê-la colocado naquele furada. Por Deus, teria que se apresentar em um palco dali há duas horas e estava parecendo uma versão dona de casa da noiva do Chuck. Sem mencionar, para que não se apavorasse ainda mais, que ainda não tinha ensaiado a música que cantaria — até porque ela nem havia escolhido a música.
— Calminha, pequeno Danny. — ela pediu à criança, enquanto apanhava do chão o brinquedo que ele acabava de lançar e por pouco não acertara a TV gigante de Will. Como uma criança poderia ser tão forte ou chorar durante tanto tempo? — Eu já vou trazer sua mamadeira.
Sentado no sofá, Danny pausou seu choro para encará-la. Respirando aliviada, ela sentiu que finalmente iria conseguir acalmá-lo. Foram os cinco segundos mais felizes de sua vida, até sentir o barulho do leite borbulhante vindo da cozinha.
— Droga! — exclamou, correndo em direção à cozinha.
Conseguira desligar o fogo antes que o leite transbordasse da panela (novamente). Enquanto colocava o objeto quente na pia, ouviu, em meio ao choro incessante de Danny, o toque nada discreto de seu celular. Durante alguns segundos, ela se sentiu entre a cruz e a espada, sem saber para qual lado correr. Decidiu, por fim, atender ao telefone, que magicamente havia ido parar na mão do poço sem fim de lágrimas sentado em seu sofá.
— Danny, dê isso aqui para a titia. — ela disse, tentando pegar o aparelho de sua mão, enquanto lia o nome de Billy no visor.
Depois de uma pequena guerra com a criança, ela conseguiu tomar de volta seu aparelho e atender a ligação, que estava quase caindo na caixa postal.
— Alô. — atendeu Alex, recuperando o fôlego.
— Alex, está tudo bem? Você demorou a atender. — perguntou Billy, do outro lado da linha.
—Sim, sim. Eu só tive um... pequeno contratempo. — ela respondeu olhando para Danny, que a encarava de volta com a cara amarrada.
— Que bom, fiquei preocupado. — ele realmente soava aliviado. — Alex, eu preciso de um enorme favor.
— Por favor, não me diga que você também tem um teste para um comercial de TV e precisa que eu cuide de uma criança.
— O que? Não. — perguntou, confuso. — Eu estou prestes a entrar para uma reunião importante aqui da firma, porém esqueci a pasta de documentos que vou apresentar em cima da minha cama e não tenho tempo suficiente para voltar e...
— Billy, objetividade. Nós já conversamos sobre isso.
— Desculpe. — pausou. — Você poderia trazer para mim?
Naquele momento, Alex se perguntou se, por acaso, não tinha colocado na internet um anúncio de "faço favores" e todos os rapazes o tivessem lido no mesmo dia. O que será que Carter e Will pediriam?
— Tudo bem. — concordou, dando-se por vencida novamente naquele dia.
— Ótimo! O táxi já deve estar chegando aí.
— Você já chamou o táxi? — ela estava perplexa como aquele seu suposto anúncio deveria estar bem explícito.
— Sim, para... Poupar-lhe o trabalho. — respondeu, atropelando as palavras. — Obrigado, Alex.
— Disponha.
Terminando a ligação, Alex voltou-se para Danny, levando as mãos à cintura. Ele a imitou, ainda com a expressão séria.
— Parece que nós vamos sair para um passeio, criança. — anunciou, sem esperar alguma resposta. — Espero que seja rápido, pelo menos.
Ela havia esperado demais, novamente. Depois de quase uma hora e meia — grande parte desse tempo presos num trânsito infernal — Alex e Danny estavam finalmente retornando para o sobrado, que ela sabia que iria parecer bem menor, uma vez que ela havia estado no monstro que Billy chamava de local de trabalho. Só a recepção, onde Alex havia deixado os documentos para serem entregues a ele, era maior do que a área térrea do seu humilde sobrado. Até Danny, o eterno chorão, havia se calado para apreciar o tamanho do lugar.
Dobrando a esquina de sua rua, Alex só conseguia pensar em como chegaria a tempo para sua apresentação e, o pior, como a faria decentemente, levando em conta que não havia ensaiado uma única música e também a criança em seu colo, que por um milagre dormia. A pessoa que olhasse de longe, realmente poderia achá-lo uma fofura — uma pena que ela não era essa pessoa.
— Dios mio. — disse o motorista do táxi, de procedência latina.
Alex, do banco de trás, ergueu a cabeça para ver o que estava acontecendo. Percebeu que não poderia ser bom quando quase foi cegada por luzes vermelhas e azuis.
— Moça, desça do carro. — falou o taxista, com seu sotaque marcado.
— Mas faltam apenas alguns metros. — retrucou Alex, tentando ignorar o fato de que havia duas viaturas da polícia paradas em frente a sua casa, a fim de não surtar de vez.
— Moça, é a polícia! — exclamou, freando. — Yo no puedo con la policia.
— Mas...
Ela não tinha argumentos. Dando-se por vencida (a propósito, estava começando a se sentir uma verdadeira perdedora), ela abraçou com força o pequeno Danny e desceu do carro. Meio segundo depois, ouviu o arrancar do táxi, que sumiu da rua rapidamente. Caminhando apressada e sentindo o peso de Danny em seus braços, Alex se aproximou da casa, apreensiva. Só agora estava começando a cair a ficha que algo poderia ter acontecido ali, ou pior, com um dos caras.
— Ali, lá está aquela ladra de crianças! — ela ouviu uma voz feminina gritar em meio às luzes coloridas. Em sua direção, feito um furacão, vinha a loira que encontrara mais cedo. Audrey? Auprey?
— O que diabos? — perguntou Alex, sem nem saber como terminar a frase.
— Dê-me o meu filho! — disse a mulher, arrancando Danny dos braços de Alex. Droga, era a mãe dele. — Meu bebê, você está bem?
— Alex! — exclamou Alex, surgindo de trás da mulher para alcançar a amiga. — Onde você estava? Eu te liguei umas dez mil vezes.
—Danny ficou mexendo no meu telefone e ele descarregou. Você pode me explicar o que diabos está acontecendo?
— Eu vim buscar o meu filho e ele tinha desaparecido, isso que está acontecendo! — gritou Auprey, imprimindo uma careta no rosto de Alex.
— Eu tentei impedi-lá de chamar a polícia, mas a mulher surtou. — sussurrou Rayan.
Ah, aquilo era o cumulo do seu dia! Bastava.
— Escuta aqui...
— Mamãe. — murmurou Danny, fazendo com que todos se calassem e olhassem espantados para ele. Com a cabeça ainda caída no ombro de Auprey, ele continuou. — Titia Alex é legal.
Alex, mais do que todos os presentes, se chocou. O menino, além de falar, gostava dela?
— Mas filho...
— Não briga. — disse o menino, voltando a dormir logo em seguida.
Espantada, a mulher ajeitou o filho no colo.
— Senhora. — chamou um policial, interrompendo o momento pasmo de todos. — A senhora vai querer prestar queixa?
Alex encarou a mulher, que a encarava de volta com um misto de raiva e agradecimento. Ela realmente tinha surtado, pensou.
— Não, policial, obrigada. — respondeu. — Mas está tudo acabado entre nós, Rayan.
E assim, deu as costas para todos, desaparecendo para sabia-se lá onde.
— Droga... — murmurou Rayan, recebendo um olhar fuzilador de Alex.
— Sério? — perguntou, indignada. — Você está triste por que a mulher que quase me fez ser presa e, provavelmente, me fez perder minha primeira apresentação no Clube 20, lhe deu um pé na bunda?
— Mas ela era realmente ótima. — tentou se defender, mas logo em seguida deu de ombros. — Espera, que apresentação?
— Minha chefe finalmente me deu uma chance... Mas, deixa pra lá. Eu só quero entrar, tomar um banho morno, colocar meu pijama de...
— Pelo amor, não mencione aquele seu pijama de panda. — ele disse, a interrompendo.
— O que há de errado com ele? — perguntou, ofendida.
— O que não há de errado com ele? — retrucou. — Mas, vamos deixar essa discussão para outra hora. O que você precisa agora é começar a aquecer sua voz e ir se arrumar.
— Para que? — perguntou. — Rayan, eu jamais chegaria a tempo.
— Não, não chegaria mesmo. — disse, sorrindo maliciosamente. — A não ser, claro, que você pudesse pegar uma carona em uma viatura.
Alex o encarou, sem conseguir decifrar se ele estava falando sério ou não.
— O que?
— Ei, oficial! — ele gritou, dando as costas para ela e indo em direção a viatura.
— Rayan! — exclamou Alex, tentando inutilmente para aquele armário japonês reforçado por músculos.
— Nós precisamos de uma carona. — ele disse, a ignorando e recebendo um olhar confuso do policial. — É uma emergência.
— Não, não é. — corrigiu Alex. — Rayan, não há nada nesse mundo que me faça pegar carona numa viatura policial.
***
Errada, novamente. Alex começou a repensar todas as decisões que havia tomado naquele dia, em particular, enquanto agradecia ao oficial pela carona. Agora, parada em frente ao Clube 20, ao lado de Rayan, ela torcia que sua chefe não tivesse a visto descendo de uma viatura.
— Anda, está quase na hora. — disse ele, levemente a empurrando.
— Você não vai entrar? — perguntou, quase igual a uma criança. Havia passado tempo demais com Danny.
— Sim, vou. — respondeu, rindo da cara que ela fazia. — Só preciso fazer uma ligação primeiro.
Dando de ombros, Alex respirou fundo e seguiu a passos firmes para o interior do estabelecimento. Depois de passar por uma chefe irritada e desculpar-se um milhão de vezes, ela correu por entre as mesas e subiu pelo palco — sim, havia atraído toda a atenção para si enquanto o fazia, mas era mais rápido do que dar a volta por trás. Às pressas, arrancou a roupa que vestia e a trocou pelo primeiro figurino que encontrara no camarim: um vestido branco que imitava o uniforme da marina. O que diabos aquilo tinha haver com a sua apresentação? Ela não sabia, porém, mesmo assim, ajeitou o quepe e seguiu em direção à mesa de som.
— Até que enfim! — disse Josh, que cuidava da mesa de som. Ela precisava apresentá-lo a Carter algum dia, lembrou-se. — Você demorou tanto que eu já escolhia a música.
— O que?!
— Anda, vá para o palco. — ele dizia, apressado. — Você vai me agradecer pela minha escolha.
Sem nenhum direito de resposta, Alex foi empurrada até o palco, sendo posicionada em frente a um microfone e seu suporte, que fora rapidamente ajustado de acordo com sua altura. De repente, se viu completamente ferrada. Depois de passar um dinheiro inteiro sem dormir, cuidando de uma criança com um jeito muito estranho de demonstrar afeto e, ainda por cima, quase ser presa, ela estava prestes a fazer uma importante apresentação sem nem ao mesmo saber o que ia apresentar. Se aquilo não era azar, ela realmente não gostaria de saber com o que o tal azar se parecia. Quando as cortinas se abriram, ela sentiu seu coração acelerar e a luz dos refletores invadirem seus olhos. Assim que finalmente conseguiu se acostumar com a mesma, deparou-se com uma platéia de borrões, rostos que ela não conhecia, que esperava silenciosamente por ela. Não, ela não conseguiria.
Ao dar um passo para trás, pronta para sair correndo, ela se deparou com quatro figuras familiares no fundo do estabelecimento, todas de pé. Espremendo os olhos, ela pode ver Carter, Billy, Rayan e — pasmem — Will, todos sorrindo para ela, uma forma de dizer, sem palavras, "nos desculpe pela falta de apoio". Rindo, sentindo-se segura.
Sim, ela conseguiria.
Olhou para o lado e, aproximando-se do microfone, deu um sinal positivo para que Josh iniciasse a música, qualquer que fosse. O rapaz suspirou, aliviado, enquanto dava play em Valerie. O sorriso no rosto de Alex aumentava à medida que a melodia avançava. Realmente, Josh havia acertado em cheio.
— Well, sometimes I go out by myself, and I look across the water... — começou a cantar seguramente, reparando no rosto surpreso dos homens ao fundo do bar. Eles sabiam que ela cantava, porém, não imaginavam que fosse tão boa.
É, com toda certeza ela estava conseguindo.
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