Quatro Palavras
1 O começo -ou o final?- de tudo
Notas iniciais
Penteava meus curtos cabelos negros enquanto Megan revirava seu armário a procura de algo para calçar. Como sempre, estávamos atrasadas. Meu coração palpitava forte, acelerado, fazendo-me suspirar pesado. Parei em frente ao espelho, analisando minha roupa. A blusa preta com uma frase em vermelho, aberta dos lados deixando a mostra meu sutiã de renda, também preto e um short jeans. Observei minha amiga, que parecia uma boneca, de saia curta, agora com um salto alto, decote farto, chamativa, nem parecia que iríamos para o mesmo lugar.
Encaramo-nos por alguns segundos, eu já sabia aquela seria a “hora certa” para ela vir me dar seus “conselhos de mãe”. Sentou-se ao meu lado, colocando uma de minhas mechas soltas atrás de minha orelha. Respirei fundo, baixando meus olhos, analisando suas unhas compridas e vermelhas, lixadas perfeitamente, mas sua mão levantou meu queixo, fazendo-me encarar seus grandes olhos azuis cintilantes:
– Jenny, por favor, ignore-o. Aproveite a noite, Brian vai estar lá, e prometa que não dirá nem “oi” ao John.
Mesmo já tendo ideia do que minha amiga diria, aquelas palavras arderam dentro de mim. Eu já não me encontrava ali, naquele corpo, muito menos naquele quarto. Viajei há exatamente 45 dias, saboreei cada sentimento, emoção, tanto as boas, quanto as ruins...
Os raios de sol escapavam pelas folhas da imensa árvore acima de nós. Encontrava-me sentada, observando-o andar para lá e para cá. Foram quinze dias em silêncio e agora estávamos em nosso canto novamente. Minhas mãos tremiam, teria chances de voltarmos a ser aquele casal? Eu o amava, cada centímetro, cada célula, e o queria, mais do que qualquer outra coisa. Finalmente, seus olhos encontraram os meus, ele sentou-se na minha frente. Fugi o olhar para sua tatuagem, tive vontade de tocá-la, mas me contive. Seus lábios apertaram-se antes de John dizer que já não era suportável sofrermos daquela maneira. Já éramos amigos há muitos anos e não deveríamos estragar a amizade por causa de “um erro bobo”. Assenti, fingindo concordar. Sorrimos um para o outro, nos abraçamos. Meus olhos encheram-se de lágrimas, mas não as deixei escapar. Inspirei seu perfume por uma ultima vez, me senti fraca por não poder segurá-lo aqui para sempre. Recebi um beijo na testa, seguido de um “você é muito importante pra mim”, nos olhamos por mais alguns segundos, até que todo o motivo de minha vida partiu.
– Somos amigos... Gostaria de cumprimenta-lo... – Percebi que estava prestes a chorar se continuasse nesse assunto, com certeza não aguentaria – Perderei a noite com Brian, então, fique sossegada, obrigada por se preocupar – Tentei dar um de meus melhores sorrisos.
– Tudo bem então – Megan continuou com a expressão dura – Mas espero que não tenha esquecido de todo o mal que ele te fez. Por favor, evite-o – Esse fora seu aviso final, logo mudou de assunto, dando dicas sobre seu amigo, fazendo-me rir e esquecer o problema, pelo menos por enquanto.
Como sempre, antes de irmos para a festa, que seria na maior balada da cidade, encontrávamos nossa turma na casa de Anne, para comermos e irmos todos juntos, evitar desencontros. Adam nos buscou, ele e minha amiga conversaram a viagem toda, já eu permaneci calada, não me sentia em condições de dizer nada. Mas por sorte, já estávamos em frente à casa. Ao abrir a porta, me deparei com Brian. Alto, olhos verdes que me encaravam, cabelos negros perfeitamente jogados para o lado. Apenas soltei um oi envergonhado, imediatamente obtendo resposta, um beijo no rosto quando sai do carro, seguido de “porque vocês duas sempre são as ultimas a chegar?”.
– Pelo simples fato de eu amar pizza fria – Megan surgiu do nada, abraçando-o em seguida. Eram melhores amigos, fora ela quem teve a brilhante ideia de nos fazer sair. Não posso reclamar, ele é divertido, engraçado, bonito... Mas não podia me enganar, não me encantava, não como... Enfim. Caminhamos juntos até a sala, onde havia mais quatro amigos, eles conversavam sobre a banda que tocaria para Madson. Oh sim, eu conhecia aquele grupo musical mais do que qualquer outra pessoa no mundo. Ao perceberem minha chegada, todos se silenciaram.
– Por favor, idiotas – gargalhei – eu não sou tão sensível a esse ponto, parece que não me conhecem, por favor.
Após ouvirem o relato, alguns assimilaram e riram comigo, então a conversa continuou numa boa.
– Que tal “The new Halloween”? – Pude ver seus olhos brihando, nós rimos e eu neguei com a cabeça – Poxa, Jen, melhor que Stolers...
– Vocês não tem imaginação, e nem baterista, pra quê um nome? – Disse, até que John me xingou de vagabunda sem coração e começou com cócegas, pois sabia que eu odiava. Começamos com troca de tapas, enquanto Jared parecia pensar em algo, até que nos chamou atenção:
– Ei casal, que tal “The Last Folder”? – Encarei o garoto, que me mantinha de ponta cabeça, pensativo, um, dois, três segundos até ele me virar, sorrir e perguntar o que eu achava. Fiz uma careta, então rimos – é, isso quer dizer um sim.
Após nos servirmos de pizza e comermos, Adam perguntou se já podíamos sair, pois a festa já havia começado. Megan deu uma reforçada em seu batom vermelho, Brian falava sobre qualquer coisa enquanto eu fingia prestar atenção, mas na realidade estava perdida em meus pensamentos. Então ele aproximou-se, sentando ao meu lado, fazendo uma pergunta qualquer. Enquanto conversávamos, minha amiga olhava, interessada, como disse, estava “torcendo pela gente”. Joguei meu olhar de reprovação, divertindo-me com sua expressão. Com intuito de causar polêmica, peguei Brian pela mão e o levei para frente da casa, onde sentamos na escadinha que dava ao portão. Ele me olhou, sem entender, então apenas sorri, pois, no fundo, nem eu mesma entendia. Senti uma leve aproximação, segurei minha respiração, eu realmente queria aquilo? Seu perfume chegou a minhas narinas com a resposta “oh sim, eu queria”. Sem cenas, levei minha mão até seu cabelo macio, sentindo seus dedos brincarem em minha nuca e logo seus lábios vieram de encontro aos meus.
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