Quatro Mil Anos

1 Quatro mil anos


Quatro mil anos.

Por quatro mil anos ele tinha vivido, reencarnando através de inúmeras existências, nascendo e morrendo em mundos diferentes.

Lembrando-se de tudo e de todos.

Sabendo sempre quem era, e porque existia.

Uma das coisas que apreciava em sua situação era reencontrar amigos, reconhecê-los em outros corpos.

Mesmo que estes amigos de toda uma existência não se lembrassem dele.

O que não apreciava era morrer.

Afinal, podia contar nos dedos as mortes tranqüilas.

Deixar este mundo e o outro nunca fora uma tarefa fácil.

Mas sempre conservou uma certeza.

Shin Makoku era seu lar.

E Shinou seu mais querido amigo.

Até agora.

Quando reencarnou na Terra, na esperança de finalmente concluir sua missão, sabia que estaria próximo do Maou destinado a destruir Shoushu.

Ou ser destruído por ele, carregando o mundo em sua esteira.

O que não imaginava era o tipo de Maou que encontraria.

Conhecia Shibuya, sem dúvida. Pois não tinham sido colegas de classe?

Já não tinha encontrado-o em outras vidas?

Em todas elas, apenas uma amizade passageira, era o que responderia se perguntassem.

Nunca o brilho de um Maou tinha ficado tão oculto dele. Se fosse apontar um candidato a Maou, Shibuya seria o último da lista.

Isto se ele fosse considerado.

Quando a prova irrefutável esteve frente a seus olhos, aceitou sem pestanejar.

Afinal, uma das vantagens de se ter quatro mil anos de idade é que praticamente já se viu tudo o que a vida pode mostrar.

Mas mesmo assim, o receio de revelar-se foi mais forte.

Com o passar do tempo, o alegrou e enterneceu a naturalidade com que Shibuya aceitava as alegrias e tristezas de sua posição como Maou.

O que não esperava era a coragem e a firmeza de propósito para mudar o que ninguém sequer ousou mudar.

E o momento da revelação para Shibuya tornou-se o momento da revelação para ele próprio.

“É o mesmo Muraken de sempre.”

E a risada ao final de toda a conversa.

E o cargo de mais querido amigo deixou de pertencer somente a Shinou.

Depois disso, aparentemente traí-lo foi a pior coisa que teve que fazer para cumprir sua missão.

Morrer queimado ou apedrejado ou de fome em uma cela não foi páreo para o que sentiu naquela hora.

Como o sentimento de fundar Shin Makoku juntamente com Shinou não foi páreo para o alívio e a alegria de ver Shibuya triunfar.

Mas o Grande Sábio não fala dessas coisas.

Muito menos de verdades que após quatro mil anos de existência, foi alegremente forçado a aceitar.

Ser apenas Murata é muito divertido.

Ser um dos melhores amigos de Shibuya é um privilégio.

Shin Makoku e Shinou estão salvos.

Sua missão estava cumprida.

E ele podia, finalmente, descansar.

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