Quatro Amigos
1 Primeira parte.
Notas iniciais
Essa história aconteceu em uma cidade do litoral de São Paulo, no ano de 2007.
Foi numa das últimas quinta-feira do mês de outubro, por volta das oito da noite, horário de verão. O céu já havia escurecido, as luzes nos postes iluminavam ruas de paralelepípedos e algumas pessoas que caminhavam nas calçadas perto dos quiosques. O ar era perfumado ao sabor da maresia; o quebrar das ondas tornara-se um ruído distante e a pouca brisa existente era um alívio aos passantes que apreciavam o cenário sem pressa, quase podemos imaginar que sem rumo também, só caminhando para passar o tempo, bater um bom papo com os amigos e, principalmente, porque não dava para ficar dentro de casa naquele calor infernal, com termômetros marcando mais de 33 graus Celsius. Os pernilongos do mesmo modo não facilitavam a vida para ninguém, e talvez as caminhadas fossem a maneira que os moradores encontraram para se distrair disso.
Vestidos de renda e saias estampadas coloriam as ruas; vez ou outra passava alguém de bicicleta, pedalando na ciclovia à sombra dos coqueiros. Ambulantes transitavam vendendo suas mercadorias, possivelmente a caminho de suas casas, depois de um longo dia de trabalho na praia. Um sorveteiro adotou um ponto estratégico na esquina perto de um pequeno parque infantil, claramente interessado nas famílias que escolheram a serenidade da noite para um passeio.
A maioria dos quiosques já havia encerrado o expediente, mas alguns permaneciam pernoitando abertos.
Aquela só não seria mais uma noite típica desta simplória cidade da baixada santista, porque toda a região estava passando por uma terrível seca e, por essa razão, a costumeira tranquilidade havia sido alterada, com os hospitais abarrotados de pacientes sofrendo de problemas respiratórios, que, somado ao nível de água nos reservatórios cada vez mais diminuto, estava tirando o sono dos cidadãos e transferindo um ar mórbido aos dias e noites daquela semana.
Porém, ignorando todos os problemas, ou da parte de alguns, devido exatamente por causa deles, quatro amigos decidiram se encontrar.
Não seria surpresa para ninguém que os conheciam vê-los juntos, pois os quatro viviam praticamente grudados fazia anos, isto é, sempre que a rotina permitia, e isso se tornara um problema por causa de todos os compromissos. Apesar de tudo, havia um forte laço de irmandade entre eles e sempre que podiam o grupo de reunia.
O encontro havia sido marcado pela manhã com mensagens de SMS, quase uma convocação, na realidade. Todavia, nenhuma explanação sobre a urgência daquela reunião havia sido dada, mas era evidente que algo sério estava acontecendo.
O último a chegar no local marcado foi Martin, que se aproximou da mesinha do quiosque onde os três garotos estavam conversando e sentou-se na cadeira vaga, jogando-se esparramado, como já tornara-se seu costume.
Martin vinha do curso e não poderia estar mais cansado. Ele estudava em uma das maiores cidades da região, Santos, e todos os dias pegava um ônibus que demorava quase uma hora, sem trânsito, para chegar à renomada instituição de ensino particular, onde recebia aulas preparatórias para os melhores vestibulares nacionais.
Mas acontece que se desse para escolher, ele jamais faria nada daquilo.
Seu grande sonho mesmo era começar a trabalhar e juntar dinheiro para um dia abrir uma loja, estudar administração e fazer contatos, mas, não, Martin não tinha escolha. Seus pais o queriam como um médico diplomado na melhor universidade do país, pagaram uma fortuna em seus estudos e não aceitariam menos que o melhor resultado.
O filho estava em dívida com seus pais e, honestamente, não poderia ter mais consciência deste fato.
Martin estava com vinte anos naquela época, sendo o mais velho dos quatro, e já era extremamente bonito, com sua pele negra, seu sorriso confiante e seus impressionantes 1,93 de altura. Um gigante de coração delicado, que adorava arrancar sorrisos das outras pessoas.
Os amigos se cumprimentaram, Martin, embora cansado, foi educado, sorriu e em menos de dois segundos já dizia algo que arrancava gargalhadas dos outros três, essa era sua marca característica, sempre foi.
A verdade mesmo era que tê-lo no grupo era uma benção para todos, porque o garoto tinha uma áurea leve que contagiava as pessoas instantaneamente e animava o ambiente. Além do mais, ele também era o melhor com as garotas e embora acabasse chamando atenção da maioria, seus amigos também eram beneficiados.
Normalmente era Martin quem chegava primeiro nas meninas. O garoto tinha uma personalidade magnética e muito carismática, sabia sempre o que dizer, entretanto, surpreendentemente também poderia ouvir alguém por longas horas e ainda parecer interessado, como se a simples troca de experiências numa conversa fosse suficiente para deixá-lo satisfeito.
Era fácil abrir-se com Martin, uma vez que, ao final ele te diria algo engraçado e você estaria rindo e já não lembraria-se mais do que antes te angustiava. Às vezes ele fazia parecer que a melhor solução era sorrir das dificuldades ou, parafraseando o sábio sambista, a solução era deixar a vida te levar.
E ele sabia bem disso na prática, visto que nem por causa de sua alma sossegada, Martin estava livre de ter problemas na vida.
Como todo mundo sabia, ele não se dava muito bem com seus pais, principalmente, com seu pai, um doutor cirurgião que se fez sozinho na vida, hoje era um homem financeiramente estável em sua profissão, mas que havia conseguido tudo o que tinha com muito esforço.
Ele costumava dizer que havia batalhado duro para abrir as portar para seu filho, e que o mínimo que esperava era que ele soubesse aproveitar isso.
Seu pai era um vencedor, assim como sua mãe, uma verdadeira guerreira, paulista, negra, de origem periférica, havia pago a faculdade trabalhando com faxinas, e ninguém duvidava que ela havia conquistado o sucesso, sendo atualmente uma das empresárias mais bem-sucedidas do país.
Você pode imaginar que a pressão sobre os ombros de Martin não era pequena, nunca foi.
Seus pais eram pessoas incríveis e influentes, mas nem por isso Martin conseguia acreditar na imagem que eles acabavam criando sobre sua capacidade de ser bem-realizado como um médico.
Ele não queria ser médico, nem saberia dizer quando essa opção começou a ser cogitada, porém, isso não importava, porque esse foi o destino que seus patriarcas decidiram para ele e não havia o que ser questionado.
Era difícil admitir, Martin provavelmente nunca disse isso em voz alta, mas ele só queria ter uma vida normal, lutar para ser financeiramente estável e independente, mas fazendo algo que ele realmente gostasse. Algo digno, que fosse bom para as pessoas e que o fizesse feliz de fato.
Um dia o perguntaram o que ele esperava do futuro, naquilo, ele se imaginou com uma lojinha de gibis, com máquinas de jogos e um toca-fitas antigo. Um lugar acolhedor, com uma decoração despojada, onde as pessoas iriam no tempo livre para ouvir músicas e criar amizades... Um lugar onde coisas boas pudessem acontecer e onde ninguém fosse julgado.
Só que, apesar de seu entusiasmo ao imaginar isso, a simples pronuncia destas palavras em voz alta tornaria esse sonho infantil e irreal demais, então, com medo que a realidade quebrasse sua melhor fantasia, Martin preferiu guardar isso só para si, enquanto estudava para o vestibular de medicina assim como os patriarcas decidiram.
Guardaria seus sonhos em seu coração porque não havia espaço em seu destino para eles.
— Qual o papo? — Martin indagou aos amigos, tinha reparado que havia um clima estranho no ar.
Retirou a mochila das costas e a jogou na mesa, não era confiável deixar suas coisas jogadas no chão, vivia esquecendo seus pertences por aí e estava cansado de comprar novas apostilas da escola. Não que dinheiro fosse um problema, já que recebia mesada e era mais que o suficiente, mas isso não era motivo para gastar com material de estudo logo agora faltando tão pouco para o vestibular.
Estamos em outubro e o mês está acabando, como foi que o tempo passou tão rápido? Ele tampouco sabia essa resposta.
Seu dia foi um porre, uma mistura de várias disciplinas intercalados com assuntos que ele não dava à mínima, então se adiantou em mudar seus pensamentos e focar a atenção nos doces jogados em cima da mesa. Pegou um pirulito de embalagem vermelha, abriu o plástico e enfiou o doce na boca, satisfeito com o prazer que o açúcar proporcionava ao seu paladar.
Foi Douglas que havia trazido aqueles doces, gastando todas as moedas que tinha no bolso, que não eram muitas, mas o dono da bomboniere que conhecia o garoto sua vida toda e antes foi amigo do seu pai, agiu com simpatia e ofereceu-lhe alguns pirulitos em troca daquelas moedas, mesmo que o valor não equivalesse à compra. O senhorzinho também pediu que Douglas voltasse no dia seguinte para ajudá-lo a desempacotar algumas caixas e espalhar os produtos nas prateleiras que já estavam ficando vazias, em troca de alguns reais.
Douglas tinha dezessete anos e era um bom trabalhador, fazia o serviço com zelo e era sempre muito detalhista, esforçado e honesto, além de vir com o benefício de ser um ajudante barato, ainda assim, ele sabia no fundo que o dono da bomboniere fazia aquilo mais para ajudá-lo do que por qualquer outra razão. O velho tinha uma penca de netos, jovens demais e cheios de energia que aceitariam auxiliá-lo na organização da loja por nada mais que alguns doces, e, no entanto, era Douglas que estaria ali, todas as semanas, trabalhando em pequenas funções em troca de alguns reais no final do dia.
Mas isso não era um problema, porque se tinha uma coisa que Douglas não se envergonhava era de um trabalho honesto.
Naquele ano ele estava cursando o último ano do ensino médio e logo prestaria o vestibular, assim como Martin, embora ao contrário do amigo, Douglas não fizesse nenhum cursinho particular para passar. Não, as preocupações de Douglas para seu futuro eram diferentes.
Durante toda a sua vida ninguém nunca esperou que ele tivesse o melhor desempenho em nada. Não era obrigatório para Douglas ser o melhor aluno na sala, se recebesse uma nota baixa ninguém ficaria desapontado. Bastava ele estar na média, bastava ele não se meter em encrenca, não andar com más companhias e seguir a lei. Seu futuro era simples, ele seria um trabalhador assalariado, o marido de uma boa mulher, um pai de família descente. Se conseguisse isso, estaria feito na vida.
Martin e Douglas fariam o mesmo vestibular naquele ano, mas ninguém esperava a mesma coisa para ambos.
Ninguém na família de Douglas havia conseguido um diploma superior, sequer uma bolsa de estudos. E quando questionado porquê, a resposta é que não havia motivo para tentar. A mãe e o pai de Douglas casaram cedo demais, mais jovens do que a idade que o filho tem hoje, que é 17. A mãe nunca terminou os estudos, o pai se envolveu com vícios, álcool e cigarros, e precisava de um salário confiável para manter-se. Vestibular era perca de tempo, eles dependiam do agora.
Para Martin o futuro é toda a sua vida, para Douglas o futuro é o próximo segundo.
Ele tinha conseguido trabalho para o dia seguinte e só por isso se permitia se reunir com os amigos.
Saber que não passaria a tarde inteira de baixo do sol escaldante procurando algum serviço ou bico, como fez hoje e em tantas outras vezes depois da escola, fez o humor de Douglas melhorar um pouco. Sua mãe e seu irmão precisavam de toda a ajuda que ele pudesse conseguir, em casa, os armários começavam a esvaziar-se e esse dinheiro do bico na bomboniere estaria garantindo a comida durante a semana. Era um alívio, temporário, mas ainda assim deixava seu peito um pouco mais leve.
— Carlos não quer dizer porque está de mau-humor — Douglas explicou para Martin, embora seu tom de voz revelasse que não dava muita importância àquilo, o que era um consenso, afinal:
— E alguma vez o Carlinhos esteve de bom-humor? — Martin revelou o pensamento dos outros dois, que riram, concordando.
Raul, o adolescente de origem asiática, deu de ombros e olhou para Carlos esperando uma reação ou, com muita sorte, até algum tipo de explicação.
Seria ingenuidade demais de sua parte esperar algo assim daquele garoto?
Entre todos os amigos, provavelmente Raul fosse o único que realmente quisesse saber o motivo do baixinho estar com aquela expressão de quem tomou remédio amargo e, constantemente, respondendo cada comentário com grosseria, digo, com mais grosseria que o seu normal, naquela noite.
Embora naquele tempo muitos pudessem afirmar o contrário, Carlos não era nenhum animal, tinha sem dúvidas a personalidade mais difícil dos quatro e, desde que se conheceram, pouco se abrira sobre sua vida pessoal, no entanto, em muitos momentos conseguia ser muito inteligente e prático, tendo uma incrível aptidão para resolver problemas e às vezes, até mesmo evitando-os de acontecerem. Ele era mesmo um pouco arrogante e complicado de ligar, mas nem por isso deixava de ser um pilar extremamente importante entre eles.
Carlos era o mais novo também, por vezes, os outros se perguntavam como poderiam darem-se tão bem com todos aqueles anos separando seus nascimentos. Ele tinha só quatorze anos e nem mesmo havia começado o ensino médio.
— Qual é, não vai dizer por que está com essa cara de bunda? — Raul insistiu depois de alguns segundos de silêncio e um olhar mortal de Carlos para os demais.
Raul não era muito de tentar pressionar ninguém, geralmente só dava de ombros e ficava quieto até a pessoa querer falar o que estava acontecendo, contudo, alguma coisa daquela vez estava diferente no amigo e Raul pressentiu que fosse algo sério, vendo-se obrigado a agir, uma vez que não dava para ignorar este tipo de intuição.
— Então, meu, não vai falar o que está acontecendo? É alguma coisa na sua casa? Com as suas irmãs? — continuou insistindo o oriental, com a voz calma.
— Diz aí, Carlinhos. — Martin, que estava sentado mais próximo do menor, tocou seu ombro.
Carlos bufou e se remexeu na cadeira, desconfortável.
— Sai pra lá, não vou dizer. Parem com isso — alertou e tentou parecer ameaçador, mas a voz precisava engrossar muito mais se quisesse parecer adulto.
Martin olhou ao redor, o quiosque ali do lado, do qual pertencia a mesa e as cadeiras que estavam usando, estava sem qualquer cliente, dentro dele, uma senhora de pele amendoada e cabelos grisalhos arrumava e limpava seu estabelecimento do jeito que dava. Era um quiosque de madeira, construído há muito anos, desgastado pela umidade e pela ferrugem, mas que olhando dali parecia quase insuportável de se habitar por causa do seu tamanho. Martin duvidava que coubesse mais de duas pessoas trabalhando lá dentro, apesar que, pensando melhor, lembrava-se de ter presenciado um número bem maior quando os turistas vinham para a cidade.
Após ter sua mão afastada do ombro do amigo com um gesto de irritamento, Martin continuou dizendo:
— Hey Carlinhos, somos amigos, qual é? Se eles estão dizendo que você está estranho, por que não se abre e diz o que está acontecendo? — Ele também não queria parecer intrometido, mas toda aquela falta de explicação parecia estar deixando Raul, o japonês, bastante incomodado, sua expressão era de quem realmente estava preocupado e isso acabou contagiando Martin.
Carlinhos fechou ainda mais a expressão e quando se remexeu novamente na cadeira de metal sentiu o recente hematoma nas costas latejar, engoliu em seco. Passou a mão nos cabelos loiros e virou o rosto.
— Me abrir? Vai sonhando, cuzão. Eu não tenho nada pra falar. — As costas latejaram novamente e ele afastou-as da cadeira, inclinando-se e cruzando os braços sobre a mesa, os lábios formando um bico. — Esquisitos ‘tão vocês, querendo fofocar da minha vida”
Ninguém reagiu àquilo, era normal de Carlos.
— Fofocar? — Martin ironizou com uma expressão de quem acha tudo aquilo muito ridículo, levantou-se. — Comprar um refri, algum pedido? — Foi logo mudando a atenção da conversa, pouco se importando. Tinha vinte anos, mas Carlinhos com apenas quatorze era um desafio para a paciência de qualquer um.
— Limão — Raul respondeu e como não houve protestos, Martin caminhou para comprar o refrigerante desse sabor.
O oriental do grupo, no entanto, não quis deixar o assusto anterior passar batido. Ele não conseguia parar de se preocupar, então continuou:
— Você faz parecer que só queremos saber para se dar bem em cima de você, garoto, mas até onde eu sei, nenhum jornal está pagando para saber sobre os teus problemas. Fala logo, a gente quer te ajudar — sua voz estava séria e ele olhava atentamente para o mais novo, sentado do lado oposto da mesa.
O olhar de Carlos estava perdido em algum espaço no chão.
Qualquer um percebia que o menino estava triste, era evidente pelos seus olhos sem vida e a fisionomia abatida, mas isso não era o suficiente para dar uma pista da razão.
— Deixa o cara, Raul, ele não quer falar — Douglas falou diplomático como sempre, em seguida Raul trocou um olhar com ele. Douglas ergueu os ombros e fez um gesto automático com a mão, que não queria dizer nada em especial. A ele não fazia sentido ficar dando murro em ponta de faca.
Martin chegou com o refrigerante e alguns copos.
— Na moral aí, agradece — Carlinhos disse no dialeto local, feliz com a bebida gelada para amenizar o calor.
Eles se serviram e Raul ficou apenas encarando o seu copo de plástico por alguns minutos, antes de tomar um gole do líquido gelado, borbulhante de gás.
Rapidamente os outros três começaram a conversar e agora quem parecia o chateado do grupo era Raul, porém não era de se estranhar, Raul era sempre o mais quieto mesmo. Normalmente prestava atenção no que os outros diziam e só falava algo quando achava muito necessário. Era o tipo de pessoa que se você não tivesse intimidade poderia nunca escutar a voz. Ele não era sociável como Douglas, nem popular como Martin e talvez, até mesmo Carlinhos com todo seu jeito desconfiado, conseguia ter mais facilidade em conversar do que ele.
Era o dom do japonês passar despercebido nos lugares, o que dava-lhe a incrível oportunidade de escutar e observar com atenção as outras pessoas.
Raul tomava muito cuidado com as palavras que dizia, sempre foi assim.
Ele tinha uma espécie de conceito moral de que as palavras são uma coisa muito séria, não devemos ficar gastando-as à toa, com banalidades, fofocas ou mentiras, principalmente conhecimento que é passado por nós para outros, que interfere na rotina deles e em sua forma de enxergar e se estabelecer no mundo. Tudo isso tem que ser pensado e repensado duas vezes antes de ser entregue ao universo, para não levar a um efeito borboleta negativo.
Pois, como bem sabia, palavras mudam vidas e têm um peso enorme no destino de cada um. É preciso ter consciência, quer dizer, se algo muito errado é dito e se cresce como bola de neve, então, provavelmente uma vida terá disso arruinada e o responsável será quem compartilhou aquela informação.
E não são somente com mentiras... Mas também coisas que dizemos sem ter certeza, às vezes opiniões que temos e jogamos para o mundo sem calcular as consequências, como se fosse algo que se desse errado podemos consertar facilmente, mas que jamais será tão fácil assim.
Não dá para voltar atrás de algo que foi dito, nem as palavras que você escreve e depois apaga somem completamente, a verdade é que elas continuam muito vivas dentro de você e, nisso, só precisa que uma única pessoa saiba delas para que tenham consequências.
Palavras são como portas, se você abre a errada pode não gostar do que vai encontrar te encarando de volta.
***
(Alguns anos depois)
— Caraca, eu estou tão feliz!
— É? Por que você está feliz?
— Eu não sei... haha Não tenho motivos para estar feliz e mesmo assim sinto-me a pessoa mais feliz e sortuda do mundo inteiro!
— Penso que essa é a mais autêntica forma de felicidade que existe. Ser agradecido só por estar vivo e poder vivenciar momentos simples... como esse, agora.
— Concordo em dobro! Mas, quer saber uma coisa óbvia?
— Claro que eu quero.
— Não consigo mais... Isso que estamos fazendo, eu quero viver isso completamente! Chega de mentiras... Nossos amigos precisam entender, eles vão entender. Eles nos amam, não é? Quem ama aceita, isso foi muito clichê? Mas você me entende, é disso que gosto na gente! Eu sei que é complicado para nós dois, cada um tem problemas na vida, como todo mundo, mas eu não consigo mais fugir. Não quero mais que você venha na minha casa ficar comigo e depois vá embora! Não essa noite, nem nunca mais. Vem fica comigo, amor. Vem morar comigo. Por favor! Não dá mais para viver sem me sentir... sem me sentir...
— Feliz?
— É, feliz. Você me entende.
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