Quatervois

6 Capítulo V


Notas iniciais
Olá, desculpa pelo atraso xD Esse capítulo tem gatilho de homofobia, então caso você tenha esse gatilho, pule a parte que começa no asterisco e termina em outro asterisco.

A festa de Tomás foi um marco na minha vida. Não por ser meu primeiro contato com bebida desde o coma. Não por ser a minha primeira festa em três anos, mas porque nessa festa eu confrontei minha própria mortalidade. Ler mentes não me torna invulnerável, mas eu parecia ignorar esse fato.

Começou pouco depois das 20h da noite, se bem me lembro. Eu fui com um terno vinho emprestado de Tomás, meio apertado na cintura, meio largo nos ombros. Me senti um E.T. no meio do caminho, por causa da dor de cabeça causada pela insônia, e por usar aquela roupa que não cabia direito.

A primeira coisa que percebi ao chegar na boate onde seria a festa, era que só haviam duas saídas. Naquela época, não era um hábito checar possíveis saídas, mas logo viria a ser. Mesmo não sendo um hábito, eu fazia as vezes. A primeira saída era a entrada, uma porta dupla com um segurança careca e narigudo. A segunda era a saída de emergência, no outro lado do salão. Talvez houvesse mais uma na cozinha.

Dancei um pouco, e tentei aproveitar a vida pós-coma. Dei algumas cantadas só por diversão, sabendo que ainda não tinha superado Sarah. Se eu bebi três copos de cerveja, foi muito. O teto era muito baixo, e as lâmpadas piscavam a cada segundo, e isso não foi bom para minha dor de cabeça. A música alta também não. Quando Tomás me disse que seria uma festa do trabalho, eu imaginei uma firma tipo "The Office" com pessoas de roupa social bebendo e rindo num karaokê, não isso. Quando questionei ele, depois da festa, ele me explicou que era uma festa de aniversário para o chefe dele, e por isso haviam muitas pessoas de fora da empresa. Empresa é uma forma de falar, obviamente, já que ele trabalhava na prefeitura.

Tomás ficou sentado na maior parte do tempo, calado. Eu convidei ele para dançar algumas vezes, sentei com ele por alguns minutos, e li em sua mente que ele queria conforto. Eu o abracei, e naquele momento eu percebi a dificuldade que era dar um abraço em alguém sentado. Exige uma flexibilidade, uma torção na coluna, e braços longos. Mas acho que consegui, já que li a intenção dele de sorrir.

E talvez eu tenha ficado tempo demais naquele abraço. Um homem passou e derrubou um copo de bebida em nós, e eu li sua intenção de… machucar? Foi tudo tão rápido. Fiquei de pé, zonzo e molhado, e pedi para que Tomás ficasse ali. O homem desaparecera entre o enxame de pessoas dançando, e a música alta dificultava minha leitura. Pensei em chamar o segurança, sim, mas não seria de garantia alguma. Ele estava cuidando da porta de entrada. Pensei em ir embora, mas a festa era de Tomás! Ele não iria comigo, e eu não o deixaria sozinho ali. Fui até a mesa para pegar um brigadeiro, e fiquei feliz ao perceber que eles tinham acabado. Afinal, eu tinha alguma habilidade na cozinha!

*

Por fim, vi o homem saindo pela porta de emergência, e fui atrás. Esse foi um grande erro, mas sem ele eu não teria aprendido o que aprendi. Se sorte existe, eu tive muita naquele momento, por aquele homem não estar armado.

Fui recebido com uma cotovelada na boca do estômago, antes mesmo que eu pudesse dizer algo. Metade do meu corpo ainda estava dentro da boate, mas assim que eu me curvei para levar as mãos à barriga, a porta se fechou. Estávamos do lado de fora, perto de um jardim, e ele se pôs entre mim e a porta.

A cabeça daquele homem rugia de ódio. Ele dizia coisas horríveis, ofensas homofóbicas, que não tenho coragem de transcrever. Meu cérebro apagou uma parte daquela noite, mas eu lembro muito bem de tudo que aconteceu antes que eu caísse no chão.

Tentei dar um soco no maxilar dele, mas eu não tinha memória muscular para dar um soco bem dado, de forma que meu punho passou a meio metro de seu rosto. Tentei me erguer, ficar de pé, e predizer como ele iria me atacar de novo, mas não tive sucesso. Tentar implica falha. Saber o que ele vai fazer é uma coisa, saber como me defender daquilo era completamente diferente. Se eu estivesse diante de ti, leitor, e anunciasse que te daria um tapa daqui dois segundos, como você evitaria isso?

Ele acertou pelo menos dois outros socos no meu rosto, e um tapa em minha orelha externa. Zuni, trôpego, e olhei com esperança para a porta cerrada. Tentei chamar pelo segurança, mas um último soco me derrubou antes que eu pudesse gritar.

*

Acordei no mesmo lugar, um tempo depois, mas não lembro de como toda a situação se desenrolou. Tomás me levou para casa, eu imagino, e aquele troglodita deve ter saído impune.

Não importava, agora. Ele me fizera confrontar minha própria mortalidade, e agora eu tinha meu propósito muito bem definido. Eu precisava saber me defender.

Notas finais
Amanhã (04/08/19) deve sair um interlúdio, se tudo correr bem. Obrigado por ler! Te vejo nos comentários?