Quatervois

2 Capítulo I


Notas iniciais
Oi! Você continua por aqui, que maneiro. Valeu pelo apoio :3

A pior parte de ter estado em coma por tanto tempo é o medo. A ansiedade que vem logo depois do choque é puro medo. E eu poderia gastar o resto da tinta dessa caneta falando sobre esse sentimento, mas vou poupar você, caro leitor, desse sofrimento.

A enfermeira chegou dez minutos depois que eu acordei. Ela foi meu primeiro contato humano em três anos. Três anos inteiros.

Vinte e seis mil horas perdidas para que meu cérebro se recuperasse da cirurgia que salvou minha vida. E, cá entre nós, uma pessoa normal levaria o dobro desse tempo. Foram mais duas semanas para que eu finalmente recebesse alta, e usei esse tempo livre para treinar minha leitura.

Darei uma explicação rápida sobre a leitura de mentes, para que você se situe: perceber emoções é o mais fácil. As pessoas exalam sentimentos, e qualquer um pode captá-los. Eu consigo captar com ainda mais facilidade. Com um pouco mais de esforço, consigo também perceber as intenções de alguém. Ferir, abraçar, chorar, comer. Seus desejos mais superficiais. E tem a leitura de pensamentos, que é um pouco mais complexa. É, ao mesmo tempo, sentir os sentimentos e entender as sinapses do cérebro da pessoa. No começo é difícil, mas hoje em dia eu considero algo habitual e consigo fazer com absurda precisão.

Portanto, ao transcrever os pensamentos de alguém nesse diário, usarei de algum esforço para torná-los entendíveis. É mais simples de entender se eu disser que a enfermeira Jéssica pensava “eu estou com fome.” do que explicar que seu cérebro enviou um impulso para o estômago e o fez roncar, ao mesmo tempo que ela se sentiu aflita e sua intenção foi de ir até a cozinha e pegar algo para comer.

Ler mentes é mais complicado do que parece, eu admito. Mas além de sentimentos, intenções e pensamentos, tem algo ainda mais profundo: desejos. Captar desejos é algo tão difícil que uma pessoa normal leva anos para conseguir entender os próprios. Os alheios são ainda piores. Consegui captar um único desejo, uma vez, e foi o de Sarah. Falarei dela mais tarde.

Usei a estadia no hospital para treinar a captação de desejos, e não é hipérbole alguma admitir que não fiz progresso. Alice me visitou por duas vezes, no segundo dia e no penúltimo. Ela sabia da minha habilidade. No começo, eu não entendia o medo que ela sentia de mim. Mas naquela época, eu já entendia, e deixava ela ter seu espaço.

Embora ela fosse minha irmã, nunca tivemos muito contato desde que saí de casa.

Ela expressou preocupação na primeira vez que me viu no hospital, franziu o cenho e perguntou-se se as minhas habilidades continuavam existindo.

— Sim. — respondi, em voz alta. Ela meneou, e eu tentei pegar em sua mão. Tentar implica falha. — Como está a mãe?

— “O mesmo de sempre.” — esse pensamento ela gritou. Expressou com força, forçando-se a pensar naquilo. Ela não queria que eu lesse o que estava um pouco mais abaixo: “Ainda louca”. Alice nunca soube que por mais esforço que ela fizesse, seus pensamentos eram muito fáceis de ler. Mesmo se ela tentasse os esconder.

Alice foi uma das primeiras pessoas que li, e foi com os pensamentos dela que treinei durante toda a infância. Seu cérebro era tudo, menos um mistério para mim. E mesmo assim, eu não conseguia captar seu desejo.

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Ao receber a alta, a primeira coisa que fiz — já me arrependendo por não ter pensado nisso antes, foi me perguntar aonde eu moraria. O apartamento que eu dividia com Sarah provavelmente já estava vendido, e eu não voltaria a morar com a minha mãe nem que me pagassem por isso. Falando em dinheiro, eu não tinha nenhum.

As economias esparsas e adquiridas com suor durante quase vinte e oito anos de vida foram todas torradas com o hospital, e o único conhecimento que eu tinha para colocar no currículo era a experiência como gerente da lojinha de roupas do shopping. Sem um lugar para cair morto, cheguei a pensar em dormir na praça por um tempo, e não seria difícil perceber possíveis ameaças. Mas era inverno, e paranormais sentem frio como qualquer outro ser humano.

Então, me restava Tomás. Ele fora meu amigo mais íntimo por anos, mas não me visitou durante o coma (eu perguntei à enfermeira). Talvez ele não quisesse mais contato comigo. Talvez estivesse morto. Eu não fazia ideia, e essa incógnita serviu de combustível e comburente para que eu pegasse o ônibus e fosse até o endereço de sua casa. Claro, eu não fazia ideia se continuava o mesmo depois de três anos, mas tentar parecia promissor.

E foi quando eu pisei dentro do ônibus e levei a mão ao bolso, que me atingiu como um soco a vergonha. Eu não tinha dinheiro NENHUM, e o motorista já tinha fechado a porta dianteira e acelerado. Se eu pedisse para parar, seria visto como caroneiro, e eu não queria isso. Então, foi hora de colocar em prática um outro tipo de leitura que eu chamo de vazamento de informação.

Aproximei a boca do ouvido do motorista, e comecei: “Seu nome é Paulo Cézar Neto da Silva, você tem quarenta e três anos, é divorciado e gosta de ir no Skorpion Night Club.” Nessa hora, ele tremeu e quase furou um sinal vermelho. Ele parou, olhou no fundo dos meus olhos como se tentasse me reconhecer, sem sucesso. “Eu sei que você deixou o Roque trancado pra fora no dia que ele foi atropelado, e sei que você agredia sua ex-mulher. E eu posso continuar a listar cada erro da sua vida.”

Ele levou a mão à gravata, pra soltá-la um pouco, e afastou o corpo de mim. Nesse momento, eu já tinha conseguido o efeito, então voltei à postura normal. Empinei um pouco o nariz, talvez.

— Quem é você? — sua voz falhou ao perguntar. Ele arfava, e sua mão estava no pescoço. O ônibus continuava parado no sinal vermelho.

— Eu sou Satã. — respondi, antes de pular a catraca sem represália alguma do motorista. E os poucos passageiros temiam que fosse um assalto, então não disseram nada.

Notas finais
Ok, agora eu expliquei um pouco melhor os poderes do Escritor (o nome só vai ser revelado mais a frente). Temos a Percepção de Emoções, a Captação de Intenções, a Leitura de Pensamentos e o Vazamento de Informação. Acho que são conceitos legais, e trazem um pouco da leitura corporal implícita. Claro, elevada à um nível estratosférico, mas ainda assim. Obrigado por ler :D