Quase um poliamor

1 (...) E, todas as vezes, cedeu (...)


E não saberia dizer quando sua sina teve inicio, sua maldição. Estava preso no mesmo ciclo a milênios. Sua sede por paz sempre fora perturbada, os lábios se rachavam na secura da sua própria voz. A verdade era que sua voz fora esquecido em algum passado, quando as vozes começaram a lhe rodear a mente e o possuir, se ouvia tanto, não era necessário falar e então, sua paz fora abalada.

A primeira vez ocorreu a muito tempo e temido até mesmo por sua própria espécie, ela se aproximou e exalava medo mas lhe mostrou o que era o silêncio depois de longos anos de sofrimento e invasão, a sua paz fora retornada. Não conseguindo lê-la com um toque e nem a ouvindo como uma musica, a amou. A diferença de idade e a espécie a mataram, mas o atraso fora o ponto crucial, ele a matou. Uma abominação eterna para a raça humana, um sanguessuga.

Na primeira vez teve medo e se escondeu da melodiosa voz emanada dela — e não invadida por sua mente -. A ouvir comunicar-se sozinha, um idioma que nunca compreendeu e nunca se empenhou em aprender, mas as vozes eram ouvidas por sua audição e nunca por sua mente, calando também as dos outros. A amou, como a abominação que era, a amou. Com sua pele clara, diferente da dela que era um bocado mais escuro do que o pardo, temeu se aproximar até notar que ela não o enxergava, pois seu único defeito era a visão. Com a visão deformada, ela tinha o mundo aos seus pés e não conseguia ver nada, ele se aproximou. Por anos, a acompanhou em silêncio e nunca se deixou tocar por ela ou vice-versa, mantendo uma distância segura para ambos. E mesmo sabendo de seu defeito, a amou. E ficou horrorizado quando ela o notou e o tocou no rosto, pronunciando palavras amorosas, mas nunca compreendendo o que era dito. Era séries de palavras desconhecidas atras de muitas séries. Ela o tocava com louvor e ignorava os rosnados que o mesmo soltava, pois ao contrário dela, ele era quase que um animal. Quando os pequenos dígitos da mulher tocaram nas presas, ela cedeu e se afastou quando elas duplicaram seu tamanho e ele se atordoou. Ele sentiu medo que ela fosse embora e quis chorar baixinho, mas nunca soube fazer isso. E quando o susto passou e ela lhe segurou a grande mão, ele a amou muito mais. E se aprofundando nos olhos castanhos, ao qual não existia a pupila, e se deixou ceder. Quando baixou sua vista para onde ela segurava sua mão, notou o contraste de cores, a dela mais escura que a sua porém era muito atraente.

E ela continuou lhe fuzilando com palavras que nunca compreenderia, e ele manteve o silêncio. As palavras vinham e o acertavam em cheio, ele tinha a noção de que a conversa era sobre o dia e nunca sabendo o que responder, se mantinha calado. Quando ela se prostou nas pontas dos pequenos pés delicados e deixou que as suaves mãos circulassem sua garganta e o puxassem para baixo, ela sussurrou palavras gentis e bonitas contra sua audição, perdendo-se e cedendo para ela. As palavras o embalavam a proteger e a amar, rosnava para qualquer humano ou animal e se atracava com qualquer ser que ousava se aproximar dela, fosse um inseto ou não.

E o dia chegou, onde a perdeu para um penhasco mortal a ela, chegando tarde demais e se jogando na imensidão escura. Ele a encontrou, a vida não mais habitava aquele corpo e sua alma ficará perdida em um mundo onde ele não poderia ir e ouvir suas palavras melodiosas. Ele odiou a luz solar, aquela luz que o fazia ficar preso em cavernas e lugares demasiado escuro. Ele odiou sua natureza eterna e seus sentimentos, essas coisas que machucavam seu coração.

E vagar se tornou sua sina, a anterior a existência dela, se sentindo sucumbir a maldade em sua essência, a cada pensamento invasivo de outros seres vivo era uma facada ao seu bom senso. Sua alimentação era tão cruel quanto se permitia ser, para continuar vivendo era necessário tomar de veias de sua própria espécie, porém do sexo oposto. Odiava sua sede por sangue e odiava mais ainda querer habitar um mundo onde ela não estava, por isso tornava esse ato cruel. Depois de possuir a veia e o corpo feminino em um ato sexual, se irritava ao ponto de que outro ser fosse lembrar de sua crueldade e por isso, apagava aquelas memórias e deixava vagar de volta para os outros, com seu cheiro de solidão e dor impregnado naquele corpo usável para si. Porém, assassinava aquelas que o desejavam, querendo-o lhe tocar o corpo ao qual fora tocado por ela. Odiava e repudiava.

Seu vagar foi uma sina dolorosa, onde a encontrava em outro corpo e outros olhos, mas ela acabava por falecer sobre doenças, a idade ou era cruelmente assassinada. E seu maior impedimento sempre fora a luz, aquela claridade cruel que lhe queimava a pele sem alguma piedade. Não podendo sair de seus esconderijos durante o dia, seu coração se afundava em desespero de correr até ela e a obrigar a ficar ao seu lado, mas seu livre arbítrio sempre fora o que o mantinha atrás, nunca na frente. Ao contrário de sua atitude para com os outros, ele a reverenciava como faria com os deuses, ele a cuidava e a protegia como se fosse o mais puro diamante — e quem sabe, para ele, não era isto? — e se perdia por completo quando a mesma ia embora, falecendo por tantos motivos.

A vida de um ser vivo passou a ser a vida de outro e a morte. Uma decorrência cruel de um destino mais cruel, separados por anos de sobrevivência e a fragilidade de uma existência. E ele compreendia, no fundo de si mesmo e no decorrer dos anos, ele compreendia que jamais poderia salvá-la de sua tão frágil existência. Aprender a viver sem ela, a amar quando ela surgisse em outro corpo, e lamentar sua morte se tornou seu maior sofrimento. A vida daquela criatura isolada das outras, que ouvia os pensamentos e tinha visões sobre o futuro de todos os seres vivos ao mísero toque, era uma decorrência de amor e morte.

Mesmo quando ele corria para o lado oposto, seu pés o levavam para próximo a ela e sua mente se calava, mostrando-lhe o que era paz novamente e tudo o que conseguia fazer era olhar e se apaixonar, novamente. Pela décima quinta vez, pela vigésima vez... Pela trigésima até o ponto que as contas não mais importavam, apenas a amava e a perdia.

Sua sina era a solidão, o sofrimento quase eterno do luto.

Quando ele compreendeu o que era ser um macho vinculado, a perdeu pela segunda vez e na terceira e em todas as outras infinitas vezes. Um ciclo vicioso, uma dor maior do que a anterior e mesmo quando se achava estar livre de tal dor, ela era arrancada de seu lado de uma forma cruel e inconsequente. Seja quem o fizesse, não compreendia o tamanho sofrimento causado aquele ser.

E então viera a ultima vez, onde correu o mundo inteiro atrás de sua tão preciosa amada e quando, por fim, a encontrou... Ela estava tão bonita com os cabelos tingidos de um amarelo claro, com olhos verdes e um sorriso contagiante. Diferente da primeira vez, ela não o olhou e nem o tocou, ela apenas o ignorou e se deixou vagar pelas ruas lotada daquela cidade desconhecida, com um idioma grosso e pessoas altas. Ele odiava o cheiro daquele lugar, odiava o modo como ela sempre sorria as outras pessoas e curvava sua delicada cabeça como se fosse inferior a todos eles, quando ela era tão forte ao ponto de lhe calar as vozes na mente.

Odiava e repudiava.

Odiava se esconder na escuridão e velar pela segurança daquela que não mais o notava, que não mais o queria. Ele apenas queria se aproximar e deixar que seu olfato se afundasse no mar de perfume que ela sempre tivera, mas ela o repudiava. Por amar o sol mais do que tudo, ela repudiava tudo que era escuro e representava a noite e, quando ele lhe mostrou que não suportava a luz do dia, ela apenas torceu o nariz e deu-lhe as costas.

Em todas aquelas vidas passadas, gentileza sempre fora o ponto mais forte daquela fêmea, mas naquele momento era algo que parecia faltar, algo parecia tão errado e seu coração se partia a cada ato repulsivo.

Ela estava estava cruel e fria, como se toda aquela gentileza não mais existisse.

E quando ele compreendeu que a perdeu para um destino diferente do seu e quando ela não pôde — e nem quis — calar as vozes ao redor daquele ser diferente, ele se jogou ao sol e deixou que o ultimo amor dela o possuísse em cada ponto. Deixou que as queimaduras grave o machucassem e o libertassem de sua dor. Ele jurou não doer e jurou não se arrepender no último segundo e fora o que fizera, quando seu corpo não passava de cinzas e sua alma estava em algum lugar isolado, ele não lamentou. A amando em diferentes pontos de sua existência humanoide, não lamentou. Tendo o suficiente para poder se esconder em um lugar distante ao dela, encontrando uma paz que era apenas temporária ao lado dela, se perdeu no abismo eterno do seu ser e do seu amor.

Notas finais
Pode ser modificado em um futuro próximo, o final.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!