Any descansava tranquilamente em sua rede, imersa no reino dos sonhos. Era um domingo, também conhecido como dia da preguiça, e como de costume, estava no sítio da família.

O sitio era um local tranquilo, os cachorros andavam pela propriedade, as vezes corriam atrás de algumas galinhas, as vezes fugiam de outras, os pássaros haviam feito uma residência fixa nas árvores. No horizonte era possível enxergar uma mata, uma bela paisagem do interior. A mata era tudo que restara da antiga floresta que existira antes de ser convertida em pastos, e mais tarde em cidade. Por ser tão velha, estava cheia de lendas. Os antigos costumavam dizer que criaturas sanguinárias habitavam as profundezas da mata, e durante um tempo, realmente, incontáveis pessoas desapareciam, animais apareciam mortos, todo sangue do corpo drenado. As autoridades locais atribuíram a culpa aos animais que ali habitavam, não era incomum relatos de onças e outras criaturas selvagens perambulando por aquelas bandas, por um tempo houve até uma infestação de morcegos. Atualmente quase não se escuta mais sobre esses casos, uma ou outra pessoa desaparecia por alguns meses e quando voltava, bradava histórias de monstros no coração da mata e de como se juntara a eles.

Ao cair da noite, Any despertou-se ao sentir uma queimação no pescoço. Ao tentar se levantar, perdeu o equilíbrio e, no reflexo, agarrou a rede em busca de apoio.

— Que foi? Cê tá bem? — pergunta a prima de Any estendendo a mão ao vê-la quase beijando o chão.

— Tô ótima — Any respondeu sarcasticamente enquanto era puxada pela prima. — Obrigada.

— Sua mãe mandou te chamar para comer.

— Valeu, já vou. Prima, dá uma olhada aqui, tem alguma marca? — perguntou apontando para o pescoço.

— Tem dois pontinhos, parece que alguma cobra de pegou.

— O que?!

— Brincadeira, deve ser picada de mosquito.

— Ah, menos pior... — sentindo uma estranha sensação de estar sendo observada, apressou-se para entrar na casa. — Vambora que to com fome.

Algum tempo depois, Any começou a evitar sair de casa durante o dia, sempre que saia no sol ficava com queimaduras horríveis. Seus amigos não estranharam muito sua mudança de hábito, ela sempre fora uma criatura noturna, o problema foi que ela também dormia menos e parecia mais pálida que o normal. Insistiam que ela deveria ver um médico, porém ela sempre contornava dizendo que estava bem e que era apenas falta de sol. Na realidade, Any não sentia-se bem em hospitais e não via necessidade de marcar uma consulta quando conseguia viver tranquilamente apesar de sua nova condição.

Logo, Any passou a evitar alho também, não conseguia nem tocar mais no tempero sem desencadear o que julgava ser uma reação alérgica. Não se importou, não fazia questão daquilo mesmo.

Porém não deixou de notar o quão diferente era seu caso, tentou pesquisar seus sintomas na internet mas tudo que conseguiu foi baboseiras sobre vampiros e alguns relatos atuais sobre transformações. As vítimas contavam uma história tão diferente do que se conhece sobre os vampiros que as pessoas acreditavam ser algum tipo de divulgação para algum filme, ou colocavam os relatos no mesmo saco que as aparições de ovinis.

Outro fato curioso foi um morcego que passou a segui-la. Ela lembrava-se dele sobrevoando o sítio, e nos relatos todos disseram ser acompanhados por um morcego até a transformação estar completa. Era tão estranho tê-lo ali, e por mais que tentasse afugenta-lo, o animal estava determinado a ficar sempre onde ela estava. Aos poucos ela se afeiçoou ao bichinho e passou a gostar de sua companhia, tinha notado que era um morcego frutífero quando este passou a atacar sua cozinha em busca de comida sempre que deixava a janela aberta.

Certo dia, ao visitar um amigo, Any achou que estava enlouquecendo, pois não conseguia entrar nos lugares sem ser convidada e seu reflexo já não aparecia completamente nos espelhos.

— Será que fiquei transparente e não sei? — ela perguntou meio brincando.

— Eu consigo te ver perfeitamente, vai ver os espelhos estão de greve contra você.

— Greve dos espelho, a tá.

— Ia ser louco — o amigo disse e ambos começaram a rir.

— Quanto ao campo de força que te impede de entrar nos lugares — ele começou a falar após se recompor. — Deve ser para te manter educada, né? Ou você acha que é certo sair entrando nos lugares por conta própria.

— Grosso, mas talvez você esteja certo.

— Se bem que... — o amigo fez uma longa pausa antes de continuar, analisando-a, e enfim falou em um tom sério — talvez, você seja... Uma vampira.

Ficaram em silêncio por alguns minutos, se encarando. Any até considerou suas palavras, realmente fazia sentido, seus sintomas comprovavam isso, mas, antes que pudesse pensar mais a fundo, seu raciocínio foi quebrado com os risos de seu amigo.

— A sua cara, você acreditou mesmo.

— Claro, faz sentido, agora só falta eu conseguir voar e me transformar em morcego — ela comentou e logo riu para mascarar sua suspeita.

— Opa, se você aprender a voar tem que me levar para um rolê.

— E chupar sangue.

— Tem uma fazenda com várias vacas prontinhas para serem drenadas.

— Que nojo!

Continuaram nessa conversa por um tempo, Any rapidamente se esqueceu da conversa sobre a transformação pois o assunto havia mudado várias vezes. Em dado momento, ela novamente sentiu estar sendo observada mas não prestou muita atenção. Seu foco era em conseguir respirar enquanto ria.

Talvez daqui umas décadas eu a chame, foi quase uma transformação completa, pensou o morcego suspirando e alçando voo voltando para o telhado da casa. Havia muito tempo em que os vampiros tinham se dividido em duas facções, os que chupavam sangue e a nova espécie que se contentava com frutas. Os chupadores de sangue sempre tiverem uma convivência ruim com o resto dos seres, por isso um embate foi travado entre as duas facções que acabou com a vitória dos frutíferos e um acordo de paz entre eles. Contudo, a população dos vampiros havia diminuído drasticamente e só havia um meio de recuperar, transformando os humanos. Com outro suspiro, dessa vez mais longo, o morcego se perguntou, não pela primeira vez, se realmente valia a pena todo esse esforço para restaurar a antiga raça dos imortais, os humanos hoje em dia eram céticos demais e davam muito trabalho para pouco retorno.

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